David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

The goat of the mango tree

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It was as if she tried to throw her essence beyond a shaky and noisy abyss

It was as if she tried to throw her essence beyond a shaky and noisy abyss (Photo: Copy)

It was as if she tried to throw her essence beyond a shaky and noisy abyss (Photo: Copy)

I was eight years old. Henry and Rick came to call me on a Saturday to go to their house to play with a “different” animal. My mother allowed me to go, and we went down the street. Arriving there, I saw a goat, and she was so white and portentous that simply the fact that it exists seemed to be enough to convey the most enjoyable serenity.

She remained silent tied to a mango tree in the backyard, and since the first time I saw her, I noticed her melancholic tiny eyes. Some parts of her body had a lot of scars; the goat might have been hurt in escape attempts. While I was drawing my own conclusions, she got tired of standing and sat down on a portion of dried leaves, ignoring the rotting mangos messing up her fur.

Her head was moving slowly from side to side. At the same time, seven or eight people were shouting, laughing and talking. Dogs and cats were running around the yard. It was like a joke without time to finish. For fear of being scolded, I stayed in a corner watching the goat whom I called Angel – without telling anyone.

Henry’s father didn’t take his eyes off her. Between sips of beer, he approached the goat. And she remained indifferent to everything, didn’t react to subtle slaps she received, accompanied by a smile and a cliché phrase: “It’s toooodaay! Yeah!” I didn’t understand what he meant and I kept silent. When I coughed, Angel perceived I was sitting on the floor’s porch, resting my back.

In her eyes, there was an opacity that sometimes turned into a fortuitous shine. It was as if she tried to throw her essence beyond a shaky and noisy abyss. Fifteen minutes later, she closed her eyes, looked at the floor and stayed that way. I got up and walked up to her, then Henry’s father suddenly appeared and suggested that I should depart from the goat. “Go play over there, David! Don’t get near the goat!”

Sulky and startled, I went to my corner. Angel opened her eyes again. Even with dirty paws and its slightly turbid loin, in my ideas she was still the most unpolluted being in that place. I couldn’t associate Angel’s image to dirt. The countenance and everything emanating from her reinforced my opinion.

After a few minutes, a sudden breeze rustled the leaves of the mango tree. Angel rose, lifted her head skyward and felt the whiff of nature stroking her long thin beard. I had the impression of seeing her smiling while her fur swelled in their contemplative simplicity.

Once the zephyr left, the light gradually extinguished. The sun no longer shone on our heads. It was an early afternoon which seemed like an early evening. Worried, I ran to the house to help my mother to take clothes off the clothesline, believing that the rain would come soon, falling and dragging everything with rascality.

Back at Henry’s house, my legs trembled when I looked toward the mango tree. Angel had her throat cut and below it there were two buckets of blood splashing on the ground, painted red the leaves and mangos on the ground. I tried to touch her head with my hand, or at least the threads of her beard, but I was small and only could pet her legs.

I felt chills and cried when I saw her mellifluous rectangular eyes still damp. I knew she had been crying because her beard dripped transparency on my forehead. Angry, I walked to a men’s circle and asked why they killed the goat. “To eat! What a silly question!”, they responded as a chorus, making fun of my exasperation.

At night, before sleep, I knelt beside the bed, I prayed and asked God to put Angel in a good place, and do not let her wander aimlessly, because she died tragically and prematurely. In the morning, some people came to our house to offer goat’s meat, but my mom declined politely. Although angry, I didn’t say anything. Then, I was told that everyone who ate Angel’s flesh became ill.

Furthermore, four men who participated in the goat slaughter died in an accident in the same week, carrying cattle from one state to the other. Superstitious, Henry’s father never killed another animal. And I, over a month, continued with the same prayer: “God, put the friends of Henry’s father in a good place. But give priority to Angel because she died first.”

Henrique Moura e o mundo caótico de Predo Bandeira

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Artista de Paranavaí se dedica a produzir clipes e vídeos independentes de animação 2D

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Moura: “Estou aqui falando contigo e o Predo também está aqui. Ele está em tudo que faço” (Fotos: David Arioch)

Aos 11 anos, Henrique Moura, idealizador da Oficina Raspa Língua, que trabalha com cinema independente de animação 2D, criou um personagem para entreter seus irmãos enquanto seus pais trabalhavam. A partir de micagens transformadas em encenações, nasceu Predo Bandeira, que virou personagem principal de uma história em quadrinhos e depois protagonizou muitos quadros, animações e clipes musicais. “Meus irmãos curtiam muito. Davam muitas risadas. Minha família sempre me incentivou a desenhar. Meu pai me deu muita cartolina, lápis de cor, essas paradas. Gostava de desenhar personagens de Dragon Ball, e o Predo acabava ficando mais oculto. Mas ele já era meu personagem, então eu seguia rabiscando”, conta.

Alter ego de Henrique Moura, Predo é definido pelo artista como a sua própria fuga. Porém, como na adolescência ele não tinha condições de lucrar com o personagem, começou a trabalhar com pintura em tela, criando paisagens, flores, casarios e “coisas depressivas”. “Eu odiava isso. Sempre odiei, mas era o que vendia. Como eu já participava de salões de arte contemporânea, eu fazia o Predo. Sempre gostei do anti-herói, o Predo é o anti-herói, um cara bem feio, peludão”, diz.

A ideia do nome é uma referência à palavra pedra, que tem relação com o fato do personagem ser um sujeito “casca dura”. E ele tem muita história. Morando no lixão, em um lugar chamado Casa do Caralho, Predo vive com um bode chamado Bregnight, um animal bem feio e “acabado” que fuma o tempo todo. “O Predo tem um filho, o Bandeirinha, que ele ama muito, assim como ama o seu bode. No mundo de Predo, não existe Diabo, Deus e Jesus, pelo menos não na concepção religiosa. O inferno é um bairro e o céu também. Eles vivem na Cidade de Saramago.

Enquanto observo um quadro grande em que Predo aparece sentado em uma poltrona, noto que sobre sua cabeça há quadros de Henry Ford e Frederick Taylor. Moura me explica que não é porque Predo vive afastado da cidade que ele é contra o capitalismo. “Ele achou esses quadros no chão. O Predo é um gorila domesticado, um proletário que ao mesmo tempo é proprietário, já que o lixão onde ele vive foi herdado de seus pais”, enfatiza.

Por fora, a casa de Predo se assemelha a um barraco, porém, do lado de dentro é tudo diferente. Ele tem uma área subterrânea onde se situa o seu paraíso, com direito à sala de ferramentas. “Tem um fuscão todo equipado com armas, amortecedores, tudo de melhor para suas aventuras. Também tem um puta computador. Ele é ‘ferrado’ de roupas, mas investe em outras coisas. O Predo é tanto herói quanto vilão. Pra você ter uma ideia, ele sofre de rinite e, quando acorda ‘atacado’, é capaz de matar alguém com uma bazucada. E rinite é uma coisa que eu tenho, então transferi isso para o Predo”, justifica.

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“Só sigo devagar com a série porque atualmente a minha principal fonte de renda é a criação de clipes em animação para bandas e DJs” (Fotos: David Arioch)

Predo é divorciado de Padra desde que Henrique Moura tinha 12 anos. O artista argumenta que o personagem nunca quis viver com uma mulher, precisar de uma companheira ao seu lado. “A não ser para ter o filho. Ele tem amigos e tudo o mais, mas é um cara que vive no mundo dele. Ele gosta de cachaça e adora cigarro. Acabei criando ele como fumante porque não posso fumar, ‘pipoca’ toda a minha garganta. Pelo menos isso é bom pra minha saúde”, avalia rindo e balançando os braços.

A turma de Predo Bandeira inclui também o confuso Jesus, o contrabandista de armas Osama e Imétrio, um personagem que herdou o inferno do avô e fundou as Indústrias Fogo no Kiba, responsável por comercializar mármores no inferno. Por causa disso, Moura define ironicamente o sistema econômico do seu universo fictício e caótico como capetalismo. “Estou aqui falando contigo e o Predo também está aqui. Ele está em tudo que faço”, garante.

A história de Predo Bandeira e seus amigos compõe a série de animação “O Dia a Dia Pedreira de Predo Bandeira”, que já tem seis episódios prontos, com duração de dois a três minutos. “Predo é o livro da minha vida. Estou sempre escrevendo o roteiro dos episódios em um caderno. Só sigo devagar com a série porque atualmente a minha principal fonte de renda é a criação de clipes em animação para bandas e DJs. Mesmo assim, nunca deixo de incluir ele em todos os meus vídeos”, informa.

O primeiro clipe produzido por Henrique Moura foi “Plantando Ganja”, da banda de reggae Cidade Verde Sounds, de São Paulo. O vídeo tem mais de meio milhão de visualizações no YouTube. “Isso chamou a atenção para o meu trabalho, porque a partir daí surgiram novos convites. Hoje, atendemos clientes de todas as regiões do Brasil. Estou feliz porque era isso que eu queria, ser visto também fora de Paranavaí [no Noroeste do Paraná]. Cheguei num patamar em que posso trabalhar tatuado, cabeludo e barbudo. O que importa é o seu trabalho, isso fala por você. Isso é massa!”, comenta sorrindo.

Henrique comemora o fato de que seus clientes ficam felizes em divulgar o nome da Oficina Raspa Língua. Em 2015, outro motivo de celebração foi a produção do clipe “No Mato”, criado para a banda de samba-rock paraibana Seu Pereira e Coletivo 401. No mesmo ano, o vídeo se classificou na categoria “De Olho Neles”, no Anima Mundi, no Rio de Janeiro, um dos maiores eventos de animação do mundo. “Cara, é um festival tão importante que de lá sai até indicação para o Oscar. Fiquei quatro anos tentando ser selecionado. Foi surreal ver o Predo aparecendo assim pra gente do mundo todo. Foram exibidos 1,6 mil filmes de 45 países. Dentre os 373 escolhidos, fui um dos 102 brasileiros selecionados, uma conquista gigante pro Raspa Língua e até pra Paranavaí”, declara.

Predo Bandeira, alter ego do artista Henrique Moura (Foto: David Arioch)

Predo Bandeira, alter ego do artista Henrique Moura (Foto: David Arioch)

Enquanto conversamos, Moura me mostra alguns de seus clipes. Seus vídeos são recheados de informações e referências àqueles que o inspiraram como artista e empreendedor. Quem assiste cada vídeo só uma vez, acaba por não entender muito bem o objetivo do artista. É preciso estar atento aos detalhes. “Tem gente que acha que meus vídeos são feitos sob o efeito de algum tipo de droga. O Raspa Língua é a maior prova de que não é preciso nenhum alucinógeno para fazer um trabalho intenso e bem viajado”, pontua.

Nos últimos três anos, desde que a oficina se tornou uma empresa, o artista não para de trabalhar, nem nos finais de semana e feriados. Com uma rotina atribulada, Henrique produz pelo menos um clipe por mês. “Além disso, fiz games em parceria com um grande amigo de São Paulo, o Erick Yamato. Criamos o ‘Predonauta’ que está disponível na appstore da Apple. Eu assino a arte e a direção, e ele a codificação. No futuro, vamos lançar também games para Android. Por enquanto, nosso foco são animações 2D, clipes, ilustrações, games e vestuários. Temos uma grife com estampas exclusivas, além de canecas, adesivos. Mas vem muito mais novidades por aí”, promete.

E assim surgiu o Raspa Língua…

Na adolescência, Henrique Moura ficou extasiado quando viu o clipe “Clint Eastwood”, da banda virtual de trip-rock Gorillaz, lançado em 2001. “Gritei que queria fazer aquilo. Como em Paranavaí não havia cursos da área, anos depois decidi fazer cursos com profissionais de fora. Eu não precisava aprender a desenhar, mas sim a usar as ferramentas. Então descobri que alguns softwares fariam toda a diferença. Desde o início, minha intenção era jogar a minha pintura. Cara, pinto desde os sete anos, pintei a vida toda. Meu sonho era ver meu trabalho se transformando em animação”, confidencia.

A sua primeira escola, segundo ele, onde teve a oportunidade de começar a colocar seus projetos autorais em prática, tanto com desenho e pintura quanto com animação, foi o Centro de Atendimento Especial à Criança e ao Adolescente (Cecap), onde Henrique coordenava uma oficina de arte. “A diretora Líria Balestieri foi um anjo na minha vida, uma pessoa incrível a quem devo muito. Daquela oficina saiu o Gabriel Araújo que foi meu ajudante”, relata.

A ideia do nome Raspa Língua surgiu em Santa Catarina, quando Moura estava viajando com dois amigos. “A gente estava numa serra e ele falou pra eu tomar cuidado com o raspa-língua, uma planta que gruda na pele e esfola. Pedi pra ele me mostrar que planta era aquela. Aí pensei: ‘Que nome interessante! Pode ser algo que tira a sujeira de um lugar para colocar em outro. É isso que costuma acontecer com a sujeira, ela acaba indo pra outro lugar, não desaparece.’ Associei isso com a ideia do meu personagem Predo Bandeira, alguém que raspa a língua de tanto falar, alguém que solta sujeira quando fala, mas uma sujeira limpa”, revela.

Com o Raspa Língua e seus personagens peculiares, Henrique Moura busca enaltecer a diversidade humana e ao mesmo tempo a sinceridade de Predo em um mundo cada vez mais despersonalizado. “Hoje em dia, as pessoas se apagam muito por causa dos outros. Isso é triste. Já passei por isso e posso dizer que consegui redescobrir minha identidade com o Raspa Língua”, assegura o artista que também conta com a parceria de Luciana Moraes e da contabilista Andrea Marques.

Frases de Henrique Moura

“Predo é um cara sem papas na língua, contra o politicamente correto. É um cara que não suporta a hipocrisia. Tem dia que acordo e penso: ‘Hoje tô meio Predo.’ Creio que muita gente se identifica com isso.”

“As pessoas não sabem do Predo hoje, mas elas vão saber. Pode ser que isso aconteça quando eu estiver com 40 anos, mas ela farão uma ligação se eu continuar nesse ritmo intenso de trabalho. Elas vão viajar pra longe e lá vai ter alguma coisa que as faça lembrar de Predo Bandeira.”

“É legal ir num lugar, tirar foto com um cara que atrai mais clientes, o cara com sua camiseta, com boné do Raspa Língua. Que legal, tá em movimento o bagulho!”

“Lembro quando minhas charges do Predo saíam em uma coluna no Jornal do Bairro. Hoje, ele é meu carro-chefe, está nas camisetas do Raspa Língua, em tudo.”

Saiba Mais

Para assistir aos vídeos da Oficina Raspa Língua, acesse: http://raspalingua.com

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Written by David Arioch

dezembro 6, 2016 at 6:14 pm

Palestra sobre o papel do negro no cinema

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Fui convidado pelo Sesc para dar uma palestra para professores hoje à tarde no Seminário Multidisciplinar – Diversidade Étnico Racial, Indígena e Cigana no Núcleo Regional de Educação de Paranavaí. Fazia mais de dois anos que eu não dava uma palestra sobre cinema, e hoje fui até lá para falar sobre o papel do negro no cinema brasileiro ao longo da história. Foi uma experiência muito rica e interessante. Me trouxe muitas lembranças dos cinco anos em que ajudei a coordenar o Projeto Mais Cinema. Uma vez por semana, após a exibição dos filmes, eu fazia uma análise e discutia a obra com o público.

Written by David Arioch

dezembro 6, 2016 at 12:53 am

The call of the animals

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Within seconds, it turned into a euphoric little pig that grunted and turned around its tail

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It was a landrace pig that ran through my face with his tongue (Art: Cari Humphry)

The memory still fresh of the last time I ate meat. My friends offered me a hamburger, something I spent even months without eating, and I accepted. After all, it was a friday night. “All right, just today”, I thought. I bit slowly, and without the pleasure I once had. The food that was brought had a variety of meats – chicken fillet, red meat and bacon slices. It was huge and barely fit in my hands, even though they are not small.

After eating, I looked the white paper surrounding the burger. I crumpled it up and threw it in the trash can. A long time ago, I got used to not overeating, because I see no sense in going beyond my needs. While sitting there, I lost interest in continuing to read a book that hitherto pervaded my thoughts and ramblings. I felt myself bloated, not by the amount of ingested food, but for some motivation that I believe is biologically inexplicable. Suddenly, my mouth went sour as if I had received a dose of gall. I went to my bedroom, looked in the mirror and I did not recognize myself. My eyes were translucent and in it I saw something suddenly moving, as if motivated by overblown discomfort.

I took my hands to my abdomen and I realized that my stomach had become unrecognizable, misshapen and soft. Involuntarily, it was distended in a careful concealment. It was incomprehensible because I had not eaten much. When I turned my attention to my face in the mirror, there were some risks in my carmine sclerotic. I closed my eyes for a moment, and when I opened them had vanished. The same happened with the marks that appeared on my stomach, remembering paw touches. “What a strange thing! What’s happening to me? “, I questioned scared.

I turned off the computer, turned off the light and lay in bed. I was tired, but sleep overcame my desire to stay awake. I looked at the ceiling and I noticed that it was moving slowly. I could not be dizzy because my space notion persisted accurately. Beside me, I could see everything with precise clarity. As soon as the ceiling opened, as if it were moved from place without causing any kind of noise, clutter or dirt, the fresh rain threw diligent over me. I moved on the bed with the swiftness of those who were suffering from hypnic jerk. Standing and mesmerized by the moonlit sky that was lighting up my room with an azure light, I continued in silence, inert.

The beauty of autumnal morning offering a variegated aroma of leaves and flowers was overshadowed by miasma, brought by a flying little cow with a pig snout and crow’s feet. After all, it was a beautiful animal in its disharmonious uniqueness. I remembered the paintings of Corine Perier and Chris Buzelli. The difference was that they did not smell of death. When the little cow landed beside me, the pestilence intensified. “I didn’t drink! How bizarre is that? Am I freaking out?”, I thought. She watched me soundlessly. Her eyes grew and decreased. It looked like a heart beating. And the stench only increasing. Suddenly she gave a mooing, mixed with a cackle and groan. Then she leaned over to massage her head.

One of them jumped on my pillow and began to chirp as if he wanted something (Art: Dan Kosmayer)

One of them jumped on my pillow and began to chirp as if he wanted something (Art: Dan Kosmayer)

Before I touched her, the little cow left the same way she arrived – flying and throwing from her breasts, some gushes of thick milk mixed with blood. A portion impacted on my head. I passed my hand and I perceived my greasy hair, with stench of curd and rust. I breathed deeply with closed eyes, trying to restore my calm. When I opened my eyes, everything was gone except the smell of death which was in fact emanated from my body, not from her.

I went back to bed suffering from a stomachache – gave me the impression that the hamburger was turning my stomach. I slept less than an hour because I heard an unusual noise which was repeated every five or ten seconds. Troubled, I bowed my head under the bed and I felt a damp warm thing caressing my complexion. It was a landrace pig that ran through my face with his tongue. In the dark, his eyes glistened as if they had their own light. He smiled and that was intriguing.

Paying much attention to me, the pig stepped back quietly, as if he was sorry. He tripped over his own feet and cried. His tears streamed down his muzzle. Cornered in a nook beside the door, his fear highlighted even more than his rosaceous skin. I was confused and startled when the pig asked me a question with a faltering voice: “Why did you eat my mother?”

The question was not repeated and I thought I was delirious. I did not answer. I preserved the silence until the sudden arrival of retching. Pale, I saw my hands turned diaphanous. Something rose in me while my body was warming and cooling. When I opened my mouth, the bacon bits were released as one-piece to the floor. They joined as if they were magnetized.

Within seconds, it turned into a euphoric little pig that grunted and turned around its tail. As he entered, the pig jumped on her and, eagerly, licked her. The two were there together, so close that I had the impression that they shared the same breath. When I looked away quickly, they disappeared. I lay in bed again. I slept for two or three hours until I saw an animal playing on my back. He was light and smelled like corn grits and soybean meal. There were three chicks walking over me.

One of them jumped on my pillow and began to chirp as if he wanted something. The animal started to scratch on me, trying to convey a message. I stood and watched him climb up my arm like a bridge. Over my shoulder, he chirped softly, communicating with the other two who repeated the path. In a burst, the retching came with everything. From my mouth, came out a few small pieces of chicken fillet. Before falling to the ground, won the shape of a chicken that flew short flapping her wings and making a scrannel shambles.

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Only an ox who introduced himself as Pastiche spoke to me (Art: OuShiMei)

The chicks jumped on him and the four ran out the door in the silent darkness of the morning. I didn’t follow them. With my arms flat on the bed, I watched everything with battered and half-closed eyes. Exhausted, I fell into bed and fell asleep. In deep sleep, I saw myself eating the hamburger from last night. With every bite, I felt the pain of finitude, the uninterrupted scent of death. All the sadness of the passing was absorbed by my body, making me experience occasional chills.

There was fear, anxiety, stress, helplessness and agony. The dead animals concentrated all in their flesh wich fillled my lunch, vibrating inside me the agglutination of unintentional and solemn negative energy emanated by the certainty of decline. The pain ran through my essence and made me watch the final moments of cattle, pigs, goats and poultry. Many were weeping before the execution because they recognized that their vitalities were will be inhibited early.

Death created a tortuous path that subsisted in me. “See my pain, feel my pain. A world with so many animals and less lives. One day men will suffer like us. The meat shall remain, but there will be nobody to feed. So, the world will rot, surrendered to the unrestrained excesses of production”, echoed in my mind a voice that although well articulated simulated a syncretism of animal sounds of various species.

“I was born in these days. Just look at my size, I grew up. And tomorrow, I will have to die because that’s what my creator wanted”, said a resigned chicken in a plastic cage, before having his feet chopped off by a machete. The more gullible, who did not know their fate, fluttered in vain. They were badly wounded, but they were fighting for freedom with innocence and awkwardness, since unaware of another reality other than confinement.

In a large farm out of sight, the pigs commented that there was a great slaughter the next day. One of them managed to escape and reveal the plot to other animals imprisoned 50 and up to 100 meters away. “We were created to die! To die! Only that! Nothing more!”, shouted a young clumsy pig. During the night, the animals got together and dug a ditch mammoth. In sequence, they jumped on the hole and asked dozens of horses from the stud farm to cover them with soil.

“At least we’ll die with dignity”, argued one of the highest rated pigs of the property. They chose to kill themselves because they believed that they would lose their souls. when they were served as food to men. The next day, everyone was dead – the little ones, young adults and older animals, embraced regardless of species. In front of the huge makeshift tomb there was a scratched sentence on the earth – “The speciesism is like a snorting candle in the rain.”

I woke up again when I heard a scream. I found myself behind bars being transported on a truck. I searched my hands and I could not find them. I looked down and realized I was no longer a human being, except for my own conscience, psychological and emotional condition. Physically I was a sturdy black ox flanked by oxen. Most remained silent. Only an ox who introduced himself as Pastiche spoke to me.

The time is coming, my friend. Our journey came to an end. Pasture, feedlot and slaughter. It is our fate”, he lamented, articulating a mournful and prolonged bellowing. Suddenly, everyone was silent, with their bulky heads in their own paws. I heard a strange and unison sound. It was like a ritual I did not understand because I was not a real ox.

I recognized the weight of death when the truck driver lost control and fell from a cliff. Down there, where the grass penetrated my nostrils and reluctantly invaded my mouth, I saw the broken and open body  of the truck. Around me, my traveling companions were killed, including Pastiche that brought an expression of satisfaction in the midst of misery. There was a smell of narcotic blood, manure and feed based on corn.

With few injuries and abrasions, I got up and ran across the green meadow. My ears recognized the lofty oxytone sound of a flock of swallows. I kept running without stopping, for an infinite land where man could never reach me. Awakened again from a dream, I was startled, with my heart pounding, feeling in my lips a taste that seemed to be of my own flesh. Ensnared, I saw that there was still at my side the hamburger’s white paper, an unforgettable memory of an avalanche.

O que me basta

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Não escrevo sobre veganismo e vegetarianismo para me convencer de que fiz uma escolha justa ao me tornar vegano (Arte: Reprodução)

Não escrevo sobre veganismo e vegetarianismo para me convencer de que fiz uma escolha justa ao me tornar vegano. Faço isso para mostrar aos outros a importância dessa escolha.

No meu caso, ser vegano tem uma justificativa bem simples: não tenho o direito de tirar a vida de nenhum animal, assim como não possuo o direito de tomar parte em seu sofrimento e morte. Não existe justiça e igualdade quando me alimento de um ser que já respirou, teve vida.

Não sou tão importante para que ele morra para saciar minha fome, que pode ser sanada sem dor e morte. Não preciso de pesquisas, provas científicas. É o que me basta.

 

Written by David Arioch

dezembro 5, 2016 at 11:55 pm

Ser tímido

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Kafka, por exemplo, era tímido, e sua força literária tinha relação com a sua timidez (Foto: Reprodução)

Não vejo como ser tímido pode ser tão ruim. Muito do que faço na minha vida tem justamente a timidez como motriz. As pessoas subestimam a timidez quando a relacionam apenas aos aspectos negativos da vida em sociedade. Pessoas tímidas naturalmente ouvem mais e observam mais. Também refletem muito.

Kafka, por exemplo, era tímido, e sua força literária tinha relação com a sua timidez. Hermann Hesse, William Faulkner, Edgar Allan Poe, Marcel Proust, Emily Dickinson, Emily Brontë, George Bernard Shaw, Hunter Thompson e Nathaniel Hawthorne também eram tímidos. São nomes que hoje ocupam posição de destaque na literatura mundial. Logo ser tímido não é uma forma de fracasso.

Um olhar sensível sobre o homem negro

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“Alma no Olho” é esteticamente silencioso porque o barulho é despertado na mente do espectador (Foto: Reprodução)

Em 1973, o ator e cineasta Zózimo Bulbul lançou o filme experimental de curta-metragem “Alma no Olho”, de 11 minutos. Na obra intimista, um olhar sensível sobre a escravidão, vemos um homem negro. Somos levados a conhecê-lo fisicamente. A câmera parte do todo para acompanhar os detalhes do seu corpo. Seu semblante, seu sorriso, o seu suor e a sua dor são tão reais e intensos quanto de qualquer outro ser humano.

No filme, uma metáfora da vida, o personagem é privado da liberdade. A alegria de viver, celebrada com música e dança, é substituída por grilhões que o impedem de existir. Sua reação é de estranheza e desespero. A princípio, a resignação o vence, mas ele desperta e resiste.

Quando ganha a liberdade, comemora, sem se dar conta de que continua preso aos grilhões da escravidão. A vida segue, e ele aceita tudo passivamente, até se dar conta de que a sua liberdade depende em primeiro lugar da sua conscientização e da sua verdadeira resistência. Então ele se liberta das correntes e segue seu caminho.

“Alma no Olho”, metáfora da escravidão e da liberdade do homem negro, é um filme que tem apenas um personagem em um mesmo cenário, que pode ser qualquer lugar, já que a escravidão e o preconceito não têm local específico para acontecer. Ademais, é esteticamente silencioso porque o barulho é despertado na mente do espectador, testemunha das ações e das emoções que guiam e dominam o protagonista.

Written by David Arioch

dezembro 5, 2016 at 11:48 pm