David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Uma curiosidade sobre Eva Todor

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Fotos: Arquivo Familiar

Na primeira metade da década 1940, o então presidente Getúlio Vargas ficou encantado com a performance da pequena húngara Eva Todor no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi até o camarim e perguntou se ela gostaria de ser brasileira. Eva disse que sim. Então ela foi naturalizada. Interessante. Sem dúvida, foi uma grande atriz.

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December 10th, 2017 at 9:07 pm

Breve reflexão sobre pessoas que debocham do veganismo

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O sofrimento animal como tema de uma discussão é algo que demanda respeito em qualquer circunstância (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Tenho dificuldade em entender por que pessoas com pouca ou grande visibilidade se expõem tanto para falar sobre veganismo de forma pejorativa, debochada e desrespeitosa. É até difícil enumerar o tanto de pessoas, inclusive com prestígio em suas áreas, que agem dessa forma, sem medo de revelar arrogância ou presunção. O veganismo está vinculado aos direitos animais, e, para além de fatores óbvios, como o sofrimento animal, tem toda uma literatura de longa data que o fundamenta.

Há uma infinidade de obras que servem de referência sobre o assunto, e que começaram a ser publicadas ostensivamente a partir do século 19. Então sempre fico surpreso quando as críticas ou comentários mais inestéticos sobre o assunto normalmente não trazem nenhuma sólida referência ou argumento, mas somente um discurso fragilizado que encontra plateia entre aqueles que também não sabem de fato o que é a defesa dos direitos animais, o veganismo, e o que representam.

Eu jamais seria capaz de me expor para desmerecer algo sobre o qual tenho irrisório ou nenhum conhecimento. Quero dizer, qual é o sentido de falar mal de algo sem ter base para argumentar com a devida coerência? Como posso confrontar qualquer ideia com a qual não concordo se não dediquei tempo estudando sobre o assunto? O desrespeito subsiste exatamente nisso, na negação do conhecimento que podemos adquirir para fortalecer nossas contrariedades ou reavaliá-las.





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December 10th, 2017 at 8:59 pm

A realidade de um animal tirado de seu habitat para ser explorado comercialmente

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Nenhum animal sente prazer em ser explorado pela humanidade. Pense nisso (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Foto do projeto We Animals, da fotógrafa e ativista canadense Jo-Anne McArthur mostra claramente a a realidade de um animal tirado de seu habitat, assim como muitos outros, para ser explorado comercialmente, o que significa que o seu destino já foi traçado. Ou seja, objetificação seguida de morte. Nenhum animal sente prazer em ser explorado pela humanidade. Pense nisso.

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December 10th, 2017 at 12:13 pm

Segundo Will Potter, ativistas ambientais e dos direitos animais são vistos como ameaça terrorista pelo FBI

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Potter: “Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais” (Fotos: Shutterstock/Peta)

De acordo com o jornalista Will Potter, autor do livro “Green is the New Red”, ativistas ambientais e dos direitos animais são considerados pelo FBI a pior ameaça terrorista. “Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais”, explica.

 





O que separa muitas pessoas do veganismo é a falta de boa vontade

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Se vivesse hoje, ele seria considerado vegano, porque realmente não comia nem usava nada de origem animal (Arte: Acervo da Arab Humanists/Foto: HSUS)

Al Ma’arri foi um poeta sírio e cego que viveu no século XI. Se vivesse hoje, ele seria considerado vegano, porque realmente não comia nem usava nada de origem animal. Sua alimentação era bem simples, e sua principal fonte de proteína eram os feijões. Não, ele não tinha grana, mas viveu como quis e fazendo o que gostava até os seus últimos dias. Sendo assim, vamos refletir sobre o caso de Al Ma’arri antes de dizer que veganismo é impraticável no final de 2017. A verdade é que o que separa muitas pessoas do veganismo é a falta de boa vontade em contribuir com seres não humanos. Ou seja, muita gente prefere colaborar com um sistema que explora e mata bilhões de animais por ano.

 





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December 10th, 2017 at 12:04 pm

Ronnie Lee conta a história da A.L.F, o mais famoso grupo de ação direta em defesa dos animais

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“Já éramos vegetarianos ou veganos e estávamos envolvidos em várias organizações de proteção animal”

Após o ataque, Lee declarou que o objetivo era impedir a “tortura e o assassinato de nossos irmãos e irmãs animais” (Foto: Animal Liberation Front)

Em 1973, Ronnie Lee e mais cinco vegetarianos e veganos fundaram a Band of Mercy em Londres, na Inglaterra. Em reação aos abusos praticados contra os animais, o grupo surgiu com a proposta de realizar ações diretas. A escolha do nome é uma referência a um grupo juvenil homônimo da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), fundada em Strand, Londres, em 1824. No século 19, esses jovens destruíam armas que pertenciam a caçadores.

“Todos nós já éramos vegetarianos ou veganos e estávamos envolvidos em várias organizações de proteção animal. Compartilhávamos o sentimento comum de que essas organizações não conseguiriam fazer a diferença porque suas táticas não eram rígidas o suficiente”, relatou Ronnie Lee no artigo “The Formation of the Band of Mercy and A.L.F”, publicado na editoria “Direct Action History Lessons”, da revista “No Compromise”, número 28.

Lee relatou que sentiu que era vital embarcar em uma campanha de ação direta para tentar mudar alguma coisa, mesmo sem a certeza de que daria certo ou não. “Sentimos que não havia outra escolha e precisávamos tentar. Decidimos que nossa campanha deveria ser contra a propriedade e que nenhuma violência deveria ser usada contra pessoas, exceto em legítima defesa. Para alguns de nós, nossas ações tinham razões morais, e para outros era algo puramente tático. Eu, pessoalmente, me arrependo disso agora, porque sinto que poderíamos ter feito um uso limitado de violência contra os abusadores de animais”, declarou.

Os primeiros alvos da Band of Mercy foram os canis que davam suporte à caça às raposas, onde eles causaram danos aos veículos usados para transportar cães de caça. Mas foi em 1973 que o grupo chamou bastante atenção na Inglaterra, quando realizaram dois atentados com bomba em um laboratório de vivissecção que estava sendo construído. A ação foi seguida pela destruição de um barco usado no abate de focas bebês e por uma onda de ataques contra veículos usados no transporte de animais para laboratórios.

No verão de 1974, Ronnie Lee e Cliff Goodman, da Band of Mercy, foram identificados e presos por um atentado a um centro de pesquisa de vivissecção. Após o ataque, Lee declarou que o objetivo era impedir a “tortura e o assassinato de nossos irmãos e irmãs animais”. A justificativa não sensibilizou a opinião pública, a imprensa nem a justiça, e os dois foram sentenciados a três anos de prisão. Também passaram a ser vistos como “ecoterroristas”.

““Embora o número de ações tenha diminuído, sinto que a A.L.F se tornou mais eficaz do que nunca” (Foto: Animal Liberation Front)

À época, Lee achou que aquele poderia ser o fim do seu trabalho como ativista em defesa dos direitos animais. Imaginou que a repercussão da sua prisão marcaria o fim da Band of Mercy. Um ano depois, quando saiu da prisão, se surpreendeu ao encontrar muitos ativistas da proteção animal querendo se juntar ao grupo. Em 1976, a Band of Mercy passou a se chamar oficialmente Animal Liberation Front (A.L.F), nome que reflete com mais clareza o ideal do grupo.

Como a A.L.F contava com muito mais ativistas do que nos tempos da Band of Mercy, o trabalho de resgate de animais em laboratórios de vivissecção se tornou mais bem-sucedido. “O número de ações aumentou rapidamente, e grupos da A.L.F se estabeleceram em todo o país e no exterior”, declarou Ronnie Lee no artigo “The Formation of the Band of Mercy and A.L.F”.

E claro, com o tempo, mais ativistas foram presos; na realidade, chegando a centenas de prisões, segundo o fundador da Animal Liberation Front. O período em que a A.L.F realizou mais ações diretas foi na metade dos anos 1980. Os ataques do grupo atingiram diretamente o comércio de peles no Reino Unido. Sua fama e suas ações garantiram que as lojas de departamentos da Inglaterra se recusassem a estocar casacos de pele.

“Embora o número de ações tenha diminuído, sinto que a A.L.F se tornou mais eficaz do que nunca. Com apenas algumas notáveis exceções. Os ataques da A.L.F no passado eram de natureza bastante difusa, com pouca concentração em qualquer alvo específico. Isso significava que os estabelecimentos que lucravam com o abuso de animais podiam se recuperar e continuar os seus negócios com bastante facilidade”, confidenciou.

Ronnie Lee explicou que com o tempo a A.L.F começou a escolher melhor seus alvos, atacando principalmente empresas que já estavam sob pressão de outras campanhas e ações. Como resultado, os índices de ações bem-sucedidas cresceram substancialmente.

Saiba Mais

A Animal Liberation Front já atuou em mais de 40 países.

“No Compromise” é uma revista sobre direitos animais fundada em San Francisco, na Califórnia, em 1989, que chegou ao fim em 2005. O periódico sempre visou cobrir os aspectos globais dos direitos animais e a promoção do veganismo como estilo de vida.

Referência

Lee, Ronnie. The Formation of the Band of Mercy and A.L.F. Direct Action History Lessons. No Compromise. Número 28 (2005).





“Boi que não quer ser tocado vai de caminhonete”

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Encontrei uma foto (ao lado) com a seguinte legenda: “Boi que não quer ser tocado vai de caminhonete.” Além de explorar o animal, ainda debocha dele e o expõe. Sério mesmo que há quem acredite que animais criados para consumo são vistos para além de produtos?

Written by David Arioch

December 8th, 2017 at 10:22 pm

Voltando para casa…

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Pintura: Jo Frederiks

Voltando para casa, encontrei uma caminhonete adaptada para o transporte de gado. Estava vazia, a sujeira grossa escorria e o mau cheiro persistia. O motorista acenou para um homem na rua e disse: “Acabei de entregar uns lá na baixada.” Fiquei imaginando como ele conseguiu colocar “uns” dentro de um espaço tão reduzido. Talvez o odor e a imundície no chão expliquem a degradação da situação. O que será que aquele espaço representa para um boi?





Written by David Arioch

December 8th, 2017 at 10:20 pm

Tom Regan: “Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado”

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“Embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas acreditam”

“Acredito que ambas as ideias [de Peter Singer] não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais” (Acervo: The Animals Voice)

Embora o filósofo australiano Peter Singer tenha feito uma grande diferença no movimento moderno em defesa dos direitos animais, em parte, pela publicação do livro “Animal Liberation” em 1975, que se tornou um clássico para o movimento dos direitos animais, com o tempo o seu discurso passou a ser criticado por outros importantes nomes da luta pelos direitos animais. Antes de falecer em 17 de fevereiro de 2017, o filósofo estadunidense Tom Regan, um dos teóricos mais proeminentes na defesa pelo abolicionismo animal, e que fazia oposição ao utilitarismo de Singer, concedeu uma entrevista a Claudette Vaughan, do Vegan Voice, explicando quais os seus principais pontos de discordância em relação à filosofia de Peter Singer.

Tom Regan, autor do clássico “Empty Cages”, de 2004, relatou que com o tempo Peter Singer passou a defender unicamente duas ideias principais: “[De acordo com Singer], Primeiro, devemos considerar os interesses de todos e ter igual igualdade de interesses. Segundo, depois de ter feito isso, devemos fazer o que traz o melhor equilíbrio geral dos interesses dos afetados. A primeira ideia diz respeito ao procedimento: o que temos que fazer antes de decidir o que é o certo a se fazer?  A segunda ideia diz respeito ao julgamento moral: o que é o certo a se fazer? Acredito que ambas as ideias não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais.”

Regan discordava de Singer quanto ao procedimento de consideração de interesses porque, de acordo com ele, isso significa colocar em uma balança, e em nível de igualdade, não apenas os interesses dos explorados, mas também dos exploradores em continuar fazendo o que fazem. Para Regan, a perspectiva ética de Singer em relação ao procedimento, ou seja, o que temos de fazer antes de decidir o que é certo, é perigosa, porque, com base nisso, alguém pode dizer também que é importante considerar os interesses de estupradores, proprietários de escravizados e pedófilos antes de julgar que o que eles fizeram e fazem é absolutamente reprovável e inaceitável.

“Similarmente, acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado. Minha posição não poderia ser mais oposta a essa ideia. Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado, isto porque estão violando os direitos de alguém”, justificou Tom Regan a Claudette Vaughan.

Tom Regan afirmou em entrevista ao Vegan Voice que muitas pessoas acreditam que o seu trabalho e o de Singer são muito similares. “‘Singer não diz o mesmo?’, ‘Singer não acredita nos direitos animais?’ Para essas perguntas, a resposta honesta é: ‘Não, ele não diz a mesma coisa. Não, ele não acredita nos direitos animais.’ E se alguém pergunta: ‘No que ele acredita então?’ A resposta é: ‘Ele acredita nas duas ideias que descrevi.’”

“Acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado” (Foto: American Anti-Vivisection Society)

Regan citou que Peter Singer não acredita que a vivissecção seja sempre errada, apontando que o filósofo australiano crê que há situações em que a vivissecção é justificável. “Se os resultados estão em melhor equilíbrio do que se fossem obtidos de outra maneira, então sua visão é a de que não há nada de errado em usar animais em pesquisa. Este é um motivo pelo qual penso que as ideias de Singer são prejudiciais aos animais. Minha posição não poderia ser mais oposta à sua”, explicou o filósofo a Claudette Vaughan.

Tom Regan enfatizou que as pessoas não deveriam ficar chocadas ao saberem disso, levando em conta que Peter Singer diz que não é moralmente errado ter relações sexuais com animais. “Desde que o sexo ocorra em local privado, e assumindo que os participantes estão gostando, ele não vê nada de errado nisso. Isso é perfeitamente condizente com as duas principais ideias de Singer. Na verdade, isso é exigido pelas suas duas principais ideias. Novamente, a minha posição não poderia ser mais oposta a dele. Na minha visão, bestialidade é sempre moralmente errada pelas mesmas razões que sexo com crianças é moralmente errado: os direitos daqueles que não podem dar o consentimento são violados”, criticou.

O filósofo estadunidense argumentou que a última coisa que os animais precisam é que os exploradores de animais insinuem que os ativistas da militância pelos direitos animais estão reivindicando direitos para que possamos ter sexo mutuamente satisfatório com seres não humanos: “Quero dizer, meu Deus! Se isso acontecesse, os ativistas seriam vistos como desonestos, na melhor das hipóteses, e depravados, na pior das hipóteses. Em ambos os casos, o que os ativistas dizem em nome dos animais seria totalmente desconsiderado. Seria muito difícil calcular o dano maciço que seria causado aos animais. Então, embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, além de eu gostar muito dele como pessoa, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas da militância pelos direitos animais acreditam. Espero que isso se torne mais claro à medida que avançamos. E precisa ser assim.”

Saiba Mais

Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, Tom Regan conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil. Outras de suas obras de referência são “All That Dwell Therein: Essays on Animal Rights and Environmental Ethics”, de 1982; e “The Case for Animal Rights”, de 1983.

Referência

Vaughan, Claudette. An American Philosopher: The Tom Regan Interview. Vegan Voice. Republicado pela Animal Liberation Front (ALF).





Jo-Anne McArthur: “Um dia depois que me tornei vegana, me senti como se tivesse me livrado de um peso”

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“Meu objetivo sempre foi educar as pessoas sobre como tratar os animais. Tornar as indústrias que exploram animais visíveis e responsáveis”

Jo-Anne McArthur: “Posso olhar para um animal nos olhos e reconhecer que não estou o estou explorando de nenhuma forma” (Foto: We Animals)

Talvez você já tenha visto uma ou várias imagens registradas pela fotógrafa e ativista canadense Jo-Anne McArthur, idealizadora do projeto We Animals. Muitas das fotos de maior repercussão internacional sobre a realidade dos animais explorados para consumo e usadas por grupos e organizações em defesa dos animais foram tiradas por ela. O seu trabalho à frente do We Animals se pauta em mostrar a privação e o sofrimento dos animais a partir de uma perspectiva sensível e íntima, que busca despertar a identificação do espectador e levá-lo a refletir sobre o papel do ser humano como responsável e cúmplice da crueldade contra seres não humanos.

As imagens de Jo-Anne, que é natural de Ottawa, em Ontário, já foram publicadas na National Geographic, Elle, Canadian Geographic, Days Japan, Helsingin Sanomat, Photolife, The Huffington Post e em muitos outros veículos. Atualmente o seu trabalho registrando a exploração de animais em todo o mundo tem colaborado com mais de cem organizações em defesa dos animais. Um dos diferenciais da canadense está no fato de que ela não apenas registra a violência contra seres vulneráveis, mas traz em suas imagens as histórias de seus personagens não humanos.

Jo-Anne se empenha em captar o estado e o sentimento de cada animal objetificado em situações de privação e degradação. Ela não quer que sejam apenas imagens explícitas e chocantes, mas também ternas, assim lançando luz sobre o invisível, mas renitente vácuo que, por uma questão de distanciamento e hábito, faz com que as pessoas encarem os animais não humanos como objetos ou meios para um fim. Em entrevista publicada pelo Happy Cow em 22 de janeiro de 2014, ela contou como se tornou vegana.

Surgiu uma oportunidade de estágio no Farm Sanctuary, em Nova York, onde Jo-Anne poderia aprender mais sobre os animais e seus direitos. Porém, uma das exigências era de que os estagiários deveriam ser veganos. “Eu pensei: ‘Hum…bem, isso é um pouco extremo, mas farei isso e voltarei a ser vegetariana depois do estágio.’ Para a minha surpresa, um dia depois que me tornei vegana, me senti como se tivesse me livrado de um peso. Me senti eufórica por não prejudicar ninguém, e senti que era o certo a se fazer. Isso foi em 1º de abril de 2003, e não, não voltei a ser vegetariana. O que aprendi com o tempo é que uma dieta à base de plantas não é extrema. Extrema é a morte desnecessária de bilhões de animais por ano, para não mencionar a violação do planeta nesse processo. Estou tão feliz por ser vegana.”

A Gary Smith, do The Thinking Vegan, Jo-Anne McArthur disse em entrevista publicada em 19 de setembro de 2013 que o veganismo permitiu que ela olhasse um animal nos olhos sem sentir-se culpada: “Posso olhar para um animal nos olhos e reconhecer que não estou explorando ele de nenhuma forma, que não sou mais responsável pelo sofrimento de tantos seres sencientes. Veganismo é uma das maneiras mais gentis de navegar neste mundo.”

“Quando as pessoas adotam o veganismo, elas estão boicotando um sistema que precisa acabar” (Foto: We Animals)

Jo-Anne McArthur encara como um privilégio conscientizar as pessoas unindo as suas duas maiores paixões – a fotografia e a preocupação com os animais. Ela defende que é muito importante que as pessoas compartilhem histórias sobre o abuso de animais, para que possamos retirar o véu que vela todas as atrocidades vividas por animais reduzidos a alimentos, produtos e vítimas em experiências laboratoriais.

“Mostrar uma fazenda com cinco mil perus em um galpão é importante, mas é igualmente importante chegar perto e documentar os indivíduos que compõem os cinco mil”, declarou Jo-Anne ao Happy Cow, acrescentando que ao registrar individualmente os animais explorados, isso permite evidenciá-los como indivíduos, sujeitos de uma vida, além de destacar com singularidade o sofrimento e o quão é aberrante tal injustiça. A fotógrafa acredita que só podemos mudar a realidade dos animais se nos importarmos o suficiente em saber o que acontece realmente com eles. “Expor a verdade é a única esperança para os animais. Os animais são como nós – sensíveis, capazes de sentir alegria, medo, curiosidade e todas aquelas coisas ótimas. Então se pudermos mostrar que os animais sofrem como nós, a verdade da crueldade contra animais se tornará cada vez mais urgente. É realmente uma emergência todo esse sofrimento desnecessário. Espero que mais e mais de nós possamos ver isso como realmente é”, ponderou.

Para Jo-Anne McArthur a forma mais vilmente naturalizada e de maior representatividade no que diz respeito à crueldade contra animais neste planeta é a criação industrial de animais para consumo. “Quando as pessoas adotam o veganismo, elas estão boicotando um sistema que precisa acabar, enviando uma forte mensagem aos outros e ajudando a parar essa crueldade contra os animais”, disse em entrevista à T.O.F.U. Magazine em março de 2016.

O principal objetivo de Jo-Anne quando fundou o We Animals era reunir imagens e informações para a publicação de livros sobre a injusta realidade dos animais. Porém, ela percebeu que o seu trabalho ficaria muito limitado se simplesmente cumprisse esse objetivo. “Vejo que uma maneira melhor de compartilhar o meu trabalho e ajudar os animais é colaborando com grupos que precisam de mim e de boa fotografia. […] Sou fotógrafa de profissão e parte de mim quer se concentrar no desenvolvimento desse caminho por meio de métodos convencionais de construção de carreira, mas eu me tornei em primeiro lugar uma ativista, o que significa colocar os animais e os objetivos do WA em primeiro lugar”, revelou à T.O.F.U. Magazine.

A ativista e fotógrafa canadense tem como inspiração a artista plástica vegana Sue Coe, que segundo ela é um exemplo de dedicação. “Seu comportamento também me inspira. Quando passo algum tempo com ela, percebo que é tão espirituosa e não posso deixar de me perguntar como ela consegue ser assim, considerando o trabalho que realiza o dia todo. Me inspira a ser do mesmo jeito”, enfatizou.

“É o meu ‘chamado’ expor por meio de fotos esses problemas e a nossa relação com os animais. Então sigo adiante” (Foto: We Animals)

Jo-Anne McArthur relatou à T.O.F.U Magazine que não é fácil testemunhar tantos animais em situação de miséria, explorados para benefício humano. A pior parte do seu trabalho é deixar os animais para trás. Ou seja, documentar as fazendas industriais, zoológicos, laboratórios, lugares que usam animais como entretenimento e não poder resolver a situação deles:

“Isso significa entrar em uma instalação com até 25 mil animais. Tiro suas fotos com a esperança de que o meu trabalho possa influenciar as pessoas, assim reduzindo futuramente o número de animais nesses lugares infernais. Mas tiro as fotos e depois os deixo para trás. Me sinto como se estivesse usando eles, é horrível. Havia um cachorro sendo vendido como comida em um mercado no Vietnã. Ele era adulto e o levavam em uma vara, pendurado de cabeça para baixo, com suas pernas amarradas. Tirei sua foto enquanto ele deitava no chão choramingando. Às vezes, posso ajudá-los, outras vezes não é possível. Como resultado, as feridas são profundas. Quando estou muito mal por causa das coisas que vejo, lembro-me daqueles que não pude ajudar e isso me motiva a continuar.”

Livros como “The Lifelong Activist”, de Hillary Rettig, tem contribuído para que Jo-Anne entenda qual é o melhor caminho para ser uma ativista sem perder o equilíbrio, ou seja, não esmorecer diante de tanta violência desnecessária contra seres não humanos: “Esse ritmo de vida, e a miséria que estou documentando realmente acaba atingindo a minha saúde. Felizmente, tenho uma maravilhosa comunidade de ativistas, amigos e familiares. Quanto a fotografar a miséria, é o que precisa ser feito. É o meu ‘chamado’ expor por meio de fotos esses problemas e a nossa relação com os animais. Então sigo adiante.”

Jo-Anne também disse à T.O.F.U Magazine que uma de suas grandes alegrias é receber cartas e e-mails de grupos e pessoas do mundo todo pedindo autorização para usar suas fotos em trabalhos de conscientização sobre a exploração animal. Em 2013, ela publicou o livro “We Animals” e este ano o livro “Captive”.

We Animals, que é resultado de fotografias registradas ao longo de 15 anos, critica do ponto de vista ético o uso de animais com fins de alimentação, moda, entretenimento e pesquisa, além de mostrar a auspiciosa realidade de animais resgatados e levados para viver em santuários. O objetivo do livro é levar o leitor a entender que todos os seres sencientes devem compor o nosso círculo moral e compassivo.

Já “Captive”, apresenta a realidade de animais confinados e discute o papel dos zoológicos, aquários, centros de conservação, educação e entretenimento. O livro também é baseado em fotografias registradas por mais de dez anos, e propõe uma contundente reflexão sobre a realidade da existência ou inexistência do bem-estar animal em locais que muitas pessoas consideram ideais para criaturas não humanas.

“Meu objetivo sempre foi educar as pessoas sobre como tratar os animais. Para reduzir o seu sofrimento. Para ampliar nosso círculo de compaixão e incluir animais não humanos. Para tornar as indústrias que exploram animais visíveis e responsáveis”, registrou Jo-Anne McArthur em “We Animals”.

Saiba Mais

We Animals

Os livros “We Animals” e “Captive” estão à venda no site do projeto de Jo-Anne McArthur.

Referências

https://www.happycow.net/blog/interview-jo-ann-mcarthur-photographer-activist-ghosts-in-our-machine/

http://www.ilovetofu.ca/2016/03/31/tbt-an-interview-with-jo-anne-mcarthur/

http://thethinkingvegan.com/interviews/photographing-the-ghosts-interview-with-jo-anne-mcarthur/