David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Onde estão os artistas da navalha?

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Barbeiros resistem, alentados por quem encara o ato de se barbear como um ritual

Barbeiro cochila em meio a um universo que evoca outros tempos

Barbeiro cochila em meio a um universo que evoca outros tempos

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o auge das barbearias foi entre os anos de 1969 e 1975, quando era quase impossível atender a demanda. Já nos últimos vinte anos, a modernidade tirou do barbeiro a importância junto à população. Mas há quem resista, estimulado por clientes que veem no ato doméstico de “fazer a barba” um fragmento de solidão.

Para as gerações mais jovens, o ato de se barbear geralmente é assimilado a imagem de alguém sozinho, em frente ao espelho, segurando um barbeador descartável. “Acho que fazer a barba é bem chato, mas necessário. A pele parece mais clara, limpa e jovial. Ainda bem que não preciso de mais do que cinco minutos pra fazer isso”, diz o estudante Gabriel Maia, 21.

O universitário, que nunca se barbeou com uma navalha, mantém dentro de uma gaveta no centro do quarto, uma pequena coleção de barbeadores de design arrojado, multicoloridos e cada um com três lâminas. Maia é um retrato da juventude que visa praticidade.

No início da década de 1980, antes do nascimento de Gabriel, mais da metade das barbearias de Paranavaí já tinham desaparecido, o que justifica o fato do estudante resumir a função do barbeiro a de personagem de uma cultura obsoleta. “Quando passo em frente a uma barbearia, me surpreendo porque logo penso que é uma coisa de um tempo muito antigo”, comenta o universitário.

Maia teve a oportunidade de ver uma barbearia, onde um senhor ainda mantém a mesma fachada e decoração de quarenta anos atrás, o que o surpreendeu. “Achei que isso não existisse mais”, comenta. Já o comerciante Luiz Chemin, adepto de barbearias desde a adolescência, diz ser irrelevante a praticidade trazida com a modernidade. Chemin é de uma geração que prefere o calor humano irradiado pelas barbearias em vez do solitário banheiro de casa. Além disso, não troca a tradicional navalha por lâminas descartáveis.

O comerciante considera o barbeiro um artista da navalha. “O trabalho dele não é apenas deslizar uma lâmina. Ele está sempre atento aos detalhes, as falhas que cada um tem no rosto ou na barba. Leva em conta até mesmo o clima e o tipo de pele da pessoa. É um profissional que merece ser mais valorizado”, afirma.

Chemin utiliza os serviços do barbeiro Irineu Pantarotto pelo menos uma vez por semana, às vezes duas. O contato é tão frequente que surgiu um vínculo quase familiar. “Quando não apareço aqui na barbearia é porque viajei. Logo que retorno, ele diz que estava preocupado, pensando que aconteceu alguma coisa comigo”, confidencia o comerciante sorrindo.

Irineu Pantarotto, que se tornou barbeiro há 45 anos, é tomado por um sentimento de nostalgia ao se recordar da Paranavaí de 1969, ano em que não era difícil encontrar um barbeiro em cada esquina. “O fluxo de pessoas era tão grande que mesmo com tantas barbearias havia filas de espera. Tínhamos de pedir ao freguês pra voltar no dia seguinte. Foi assim até 1975”, frisa, referindo-se a um tempo em que o barbeiro também desempenhava papel de confidente e conselheiro.

Divulgação era feita boca a boca

A formação de barbeiro, Irineu Pantarotto adquiriu praticando em um sítio nas imediações de Santa Cruz do Monte Castelo, no Noroeste do Paraná. “A gente vivia lá e comecei a cortar cabelo e fazer a barba do meu irmão, primos, tios e avô”, narra. Pouco tempo depois, se mudou para Paranavaí, onde abriu o primeiro salão. À época, não tinha dinheiro para fazer qualquer tipo de publicidade, então saiu pelas ruas avisando todos os conhecidos. “Quem aparecia uma vez sempre voltava e também trazia amigos. Conquistei clientes aos poucos, mas logo aprendi a trabalhar bem”, salienta.

De acordo com Pantarotto, houve uma época em que receio do vírus da AIDS contribuiu para reduzir o número de fregueses. “É tolice pensar que aqui se contrai alguma doença. O procedimento é o mesmo em uma clínica; esterilizo tudo”, assegura. Mesmo não sendo procurado por tantos clientes quanto nas décadas anteriores, o barbeiro destaca que vale a pena manter a barbearia aberta. “Tive muitos amigos que desistiram, só que eu prefiro continuar. Fiz inúmeras amizades valiosas”, reitera.

O trabalho de Pantarotto também é reconhecido pelos cabeleireiros locais, que em alguns casos recomendam o barbeiro para os clientes. “Tenho amigos do ramo que não fazem barba, então mandam o camarada pra cá”, justifica.

Written by David Arioch

March 21st, 2009 at 12:38 am

3 Responses to 'Onde estão os artistas da navalha?'

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  1. Grande David: Daqui de Curitiba, onde me encontro asilado (sou de Santa Isabel do Ivaí, com muito orgulho), um arrebenta-ossos pela iniciativa de registrar a história do nosso Noroestão, mostrando pessoas sem se importar com suas posses, posições, o escambau. E sobre a abordagem dos nossos simpáticos e mexeriqueiros mestres da Hëringer (a navalha de dez entre dez barbeiros), queria notícias do Adalberto, um cearense que antes de aterrissar em Paranavai, fez um pit-stop em Sanza. Toca muito bem um violão, mas se inventa cantar, tiau e bença…Parreiras Rodrigues, do gab. do dep. Luiz Accorsi.

    Parreiras Rodrigues

    10 Jun 09 at 6:23 pm

  2. Qual a localidade dessa barbearia Arioch ?

    Gustavo Poldo

    24 Dec 15 at 11:10 am

  3. Gustavo, ficava na Marechal Cândido Rondon, mas mudou de lugar. Hoje funciona no Jardim Ouro Branco.

    David Arioch

    24 Dec 15 at 12:49 pm

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