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Décadas de voçorocas

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As primeiras voçorocas surgiram em Paranavaí há mais de 40 anos

Algumas voçorocas surgiram na década de 1960

Algumas voçorocas surgiram na década de 1960 (Foto: Embrapa)

Nos anos 1980, Paranavaí, no Noroeste do Paraná, atraía muitos turistas interessados em ver de perto as voçorocas que surgiram nas décadas anteriores. Desde então, a cidade enfrentou muitas adversidades para conter as profundas erosões hídricas.

“Na década de 1980, a situação era alarmante, falavam que a região Noroeste desapareceria. A gente via que o problema era muito grande, inclusive muitas pessoas vinham de outras cidades e estados para fotografar as voçorocas”, conta o gerente da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Paranavaí, Valter Martins Pessoa.

De acordo com o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Jonez Fidalski, o maior agravante foi o desmatamento generalizado que se estendeu até a década de 1990. “Houve perdas de solo superior a 30 toneladas por hectare ao ano. Era uma quantia realmente alta”, frisa.

As voçorocas surgiram muito antes, nas décadas de 1960 e 1970, quando houve um processo de intensificação agrícola que resultou no aumento de erosões profundas. À época, a região ficou conhecida pelas voçorocas com mais de 50 metros de profundidade, consequência das práticas inadequadas de cultivo do solo aliadas aos grandes índices pluviométricos. “Por desinformação, era comum o produtor rural remover toda a vegetação da propriedade, logo a perda de solo era sempre acentuada”, explica Fidalski. Em 1980, o contraponto foi o aumento das áreas de pastagens, o que contribuiu para evitar situação ainda pior.

De acordo com o engenheiro civil da Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Suderhsa) de Paranavaí, Alcione Pacheco, o que determina se o processo erosivo será acelerado ou não é a quantidade de chuvas. “Com o impacto das grandes precipitações é impossível escoar toda a água. A primeira consequência é a formação de pequenos buracos que deixam o solo mais frágil e suscetível a perda de material orgânico”, argumenta Pacheco.

Erosões hídricas no perímetro urbano de Paranavaí (Crédito: Diário do Noroeste)

Erosões hídricas no perímetro urbano de Paranavaí (Foto: Diário do Noroeste)

Jonez Fidalski lembra que há quatro anos Paranavaí recebeu uma chuva de 130 milímetros ao longo de uma hora. “Em casos assim, sempre surgem erosões. O prejuízo é enorme”, afirma o pesquisador, acrescentando que na área rural o único meio de minimizar o problema é seguir técnicas para manter o solo com boa vegetação.

Para o engenheiro florestal João Arthur de Paula Machado, as voçorocas sempre exigem conscientização, pois quando a situação fica grave o ônus recai sobre o poder público municipal. “Há produtores que ainda precisam conhecer a importância do terraceamento e da mata ciliar”, destaca Machado que, somado a outros engenheiros, agrônomos e pesquisadores, afirma que todo cuidado é pouco quando o assunto são as voçorocas. Recentemente as secretarias municipais de Desenvolvimento Urbano e de Infraestrutura fizeram um levantamento e concluíram que Paranavaí precisa de R$ 168 milhões para resolver o problema das erosões.

Terraceamento evita erosões

Como forma de evitar erosões, a técnica mais recomendada aos agricultores é o terraceamento. Desenvolvida ao longo de curvas de nível, a prática é muito usada no sistema de plantio direto. Mesmo assim, até ser implantada na região do arenito Caiuá houve resistência por parte dos produtores rurais.

Os agricultores não gostaram da ideia pelo fato de demandar muita mão-de-obra e pouca mecanização. “O produtor preferia máquinas pesadas para fazer o terraço tipo murundus. Ele vislumbrava que seria o suficiente para segurar a água das precipitações, um ledo engano”, relembra o pesquisador do Iapar, Jonez Fidalski.

Aqueles que resistiram por muito tempo ao terraceamento alegavam também que a técnica impediria o bom desenvolvimento do trabalho na propriedade. “Diziam ser impossível transitar com as máquinas. Apesar das queixas, com o tempo os produtores decidiram adotar o terraceamento”, afirma Fidalski. Os agricultores perceberam que nas áreas de drenagem, onde escorre a água, surgem formações de canais que contribuem para a formação de voçorocas.

Além disso, fazer o terraceamento apenas uma vez, ou de acordo com a possibilidade, não é uma opção. “Em áreas onde só há pastagens, o terraço pode ser colocado em prática a cada três anos. Onde se faz a rotação de culturas, recomendamos que seja feito anualmente. É importante manter o  terraceamento com capacidade para suportar as chuvas”, explica o gerente da Emater, Valter Martins Pessoa.

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  1. A erosão teve origem no processo de colonização da região do Arenito Caiuá, embora ela tenha também atingido o basalto, tal sua fúria. Após o ciclo das serrarias, adveio a cafeicultura. Mas os nossos agricultores, desavisados, plantavam café a partir da espinha do terreno, descendo para o baixio, favorecendo o escoamento das águas pluviais e consequentemente a erosão laminar e dependendo da intensidade das chuvas, como disse Alcione Pacheco, o surgimento dos sulcos, as chamadas voçorocas. Fantasmagóricas como a onde está o estádio Natal Francisco onde a Sucepar-Suceam-Suderhsa transformou o limão em limonada. O programa Pro-Noroeste – de erradicação da erosão, enterrou milhões, bilhões de dinheiros nas obras de contenção. Existia paralelamente a indústria da erosão. Mas esse assunto é parecido com o caso dos sangue-suga, dos dólares em cueca, do castelo do Edmar, coisas assim. Como noroestino apaixonada pela região, desenvolvi, embora leigo, o projeto ‘Bebedouro’ que consiste no cercamento dos rios para favorecer a restauração da vegetação ciliar e a construção de bebedouros nas pastagens para evitar o pisoteio do gado rumando para o rio para beber água. Escrevi no Diário e na revista Noroeste, o artigo ‘O boi também provoca erosão’. Desenvolvi também a observação do plantio do bambu como importante elemento para conter o avanço da voçoroca. Simples: Basta plantar carreiras transversais de bambu no leito do buracão. Com a descida dos sólidos carreados pelas chuvas, eles vão se sedimentando no enrizamento do bambú que não se enterra. Ao final de algum tempo, o dono do terreno, além de erradicar a voçoroca, ainda ganha uma plantação de bambu, cujas reais aptidões para a indústria, para o artesanato, enfim, para o uso homem é conhecido há milênios, mas que pouca gente lhe dá a merecida importância. Eu, por exemplo, de há muito visto meias de fibra de bambú. Boa tarde!

    Parreiras Rodrigues

    15 Jul 09 at 9:40 pm

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