David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for September, 2009

Pequena, mas próspera

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A tranquilidade e as belezas naturais de Jardim Olinda chamam a atenção do Noroeste do Paraná

Rio Paranapanema é o maior atrativo de Jardim Olinda (Foto: Prefeitura de Jardim Olinda)

Onde o Rio Pirapó namora o Rio Paranapanema (Foto: Divulgação)

Apesar de ter uma população de apenas 1,4 mil habitantes, Jardim Olinda tem se destacado no Noroeste do Paraná. O pequeno município conta com um bom número de empreendimentos, justificados pelo privilégio de ser uma cidade tranquila situada às margens de dois dos rios mais importantes do Paraná.

Jardim Olinda ganhou vida sob a poesia da natureza, onde o Rio Pirapó namora o Rio Paranapanema. Juntos, formam um grandioso véu de água doce que parece proteger os cardumes que sob os auspícios do Sol cintilam como ouro. Não é à toa que os poucos pescadores da cidade afirmam que os dois rios e o que sai deles são as grandes riquezas de Jardim Olinda.

O patrimônio natural justifica porque mais de 370 lotes situados próximo ao Rio Paranapanema foram comprados por turistas, inclusive estão ocupados por casas de veraneio. O desenvolvimento é atribuído a centenas de pessoas, principalmente de Maringá que representa 60% do turismo local.

As belezas do Rio Paranapanema e a calmaria de uma cidade com índice praticamente nulo de violência e criminalidade são mais do que convidativos. Reflexo disso são alguns turistas que foram para Jardim Olinda passar o final de semana e decidiram fixar residência.

Turismo é impulsionado por beleza natural aliada a tranquilidade (Foto: David Arioch)

Turismo é impulsionado por beleza natural aliada à tranquilidade (Foto: Divulgação)

Quem não conhece a cidade se surpreende com alguns hábitos dos moradores, como deixar a porta do carro destrancada e dormir com a porta da casa aberta. “Aqui é assim mesmo, todo mundo se respeita”, assegura o pedreiro Elinês Ferreira de Oliveira, um dos beneficiados com a geração de trabalho na área da construção civil.

Oliveira já trabalhou em muitas obras de investidores de Maringá, Colorado e Astorga, e se orgulha de há muito tempo ter se livrado do desemprego. “O turismo é muito bom pra gente. Não sei o que é ficar sem serviço”, destaca Elinês Ferreira com expressão de cansaço, mas satisfeito por ter condições de sustentar a família. Questionado sobre a possibilidade de mais cedo ou mais tarde as construções pararem, o pedreiro é enfático. “Aqui sempre tem trabalho, a gente não para.”

A geração de empregos na construção civil também agrada quem atuava no campo. “Trabalhei dez anos em uma fazenda, sai de lá e vim direto pra cá. Até hoje não fiquei nem um mês parado”, conta o pedreiro Dirceu Cosmo da Silva enquanto enxuga o suor que escorre pela testa.

Em Jardim Olinda, algumas obras geram emprego para até 40 trabalhadores. O progresso também chegou ao setor comercial. Há alguns anos, os moradores tinham de se contentar com pequenos armazéns ou então fazer compras em outras cidades. Porém, hoje em dia contam com um atrativo supermercado que comercializa até materiais de construção.

O impasse das residências clandestinas

No início da década de 1980, alguns turistas, mesmo sem título de propriedade, construíram ilegalmente casas de veraneio próximas às margens do Rio Paranapanema, em uma área que pertence a Jardim Olinda. Alguns anos depois, as residências tiveram de ser derrubadas por determinação judicial.

O argumento foi que os proprietários não respeitaram a área de segurança para se evitar enchentes e também de preservação ambiental permanente, que estabelece o limite mínimo de distância da margem do rio entre 200 a 400 metros.

Já na década de 1990, Jardim Olinda perdeu mil hectares em função de uma rigorosa fiscalização do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) que fez valer a lei que determina a obrigatoriedade da área de segurança. Contudo, todos os proprietários foram indenizados após desocuparem as áreas, inclusive os ribeirinhos que sobreviviam do cultivo de arroz irrigado.

Written by David Arioch

September 25th, 2009 at 12:51 am

Dona Maria e o carrinho branco

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Dona Maria criou nove filhos com a renda de um carrinho de doces

Dona Maria em frente ao companheiro de longa data (Foto: David Arioch)

Abandonada pelo marido na juventude, a vendedora ambulante Maria Vieira dos Santos, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, conseguiu se reerguer e sozinha criou nove filhos com a renda de um carrinho branco de doces.

No início da década de 1970, Dona Maria, como é mais conhecida, trabalhou como diarista e lavadeira. À época, era mal remunerada. Recebia o equivalente a R$ 2,50 para lavar dois sacos grandes de roupa que pesavam cerca de 20 kg. Para a mulher que falava das dificuldades do passado com um sorriso tímido, era inevitável mostrar os calos remanescentes, lembranças de uma fase de agruras.

Quando atuava como diarista era muito comum Dona Maria iniciar a jornada de trabalho às 6h e retornar para casa somente à noite, carregando no bolso um punhado de notas que garantia a subsistência da família. Na moeda de hoje, não passaria de R$ 5. Quando não ofereciam alimentação no serviço, Maria ficava sem comer.

Além do trabalho pesado e dos nove filhos pequenos para criar, ela teve de lidar com a indiferença do marido, alguém que passava o dia em casa, desinteressado em procurar emprego. Um dia, sem avisar, o homem foi embora para o Mato Grosso. A situação ficou tão difícil que teve dúvidas sobre o que fazer da vida, então surgiu uma oportunidade. “Minha irmã que vivia em São Paulo adoeceu. Pediu que eu fosse até lá visitá-la. Quando cheguei, vi um negócio compridinho de diversas cores. O marido de minha irmã falou que chamava ‘gelinho’, então decidi trazer a Paranavaí”, relembrou.

O cunhado de Dona Maria comprou 10 mil saquinhos para geladinho e 10 litros de liga para o preparo. “Quando cheguei aqui, percebi que ninguém nunca tinha visto geladinho. O problema era que eu não tinha um freezer para conservá-los”, reiterou. Solidários com a situação, alguns amigos compraram o refrigerador. “Me deram o freezer e falaram que eu iria pagar com as vendas. Foi o que aconteceu, paguei cada centavo”, destacou orgulhosa. A princípio, se limitou a comercializar geladinhos, até que encontrou um amigo disposto a trocar um carrinho de doces por uma bicicleta.

Já com o novo veículo, Dona Maria comercializou uma grande gama de produtos ao preço de dez a cinquenta centavos. Chips, geladinho, goma de mascar, cocada, doce de abóbora, mariola, maria-mole, bala, pirulito e muitos outros que sempre estiveram alinhados cuidadosamente por trás da vidraça do velho companheiro. “Graças a esse carrinho, consegui comprar uma casa e criar meus nove filhos. São seis mulheres e três homens”, enfatizou.

Madalena dá continuidade ao legado da mãe (Foto: David Arioch)

Madalena dá continuidade ao legado da mãe (Foto: David Arioch)

Desde 1974, a vendedora estacionava o velho carrinho branco em frente ao Colégio Estadual Sílvio Vidal. “Vi muitas crianças se formarem nesse colégio, inclusive os meus filhos. Os pais daqueles que hoje estudam aqui também compravam doces comigo”, revelou. Infelizmente, após mais de 30 anos dedicados a mesma atividade, em dezembro de 2008, Maria Vieira dos Santos foi vítima de um ataque cardíaco, mal que a separou do carrinho branco, da família, amigos e estudantes do Sílvio Vidal. Hoje, Madalena Vieira dos Santos, uma das filhas de Dona Maria, é quem com a parceria do velho carrinho branco dá continuidade ao legado da mãe.

Saiba mais

A reportagem acima homenageia a bem-humorada mineira Maria Vieira dos Santos, a quem tive o prazer de entrevistar em 2006/2007. É uma personalidade que faz parte da história de milhares de pessoas, principalmente na infância, que estudaram no Colégio Estadual Sílvio Vidal.

No dia da entrevista, Dona Maria disse uma frase inesquecível e que fez jus à sua personalidade aguerrida e perseverante. “Sinto uma paz de espírito muito grande quando estou trabalhando. Me falaram que eu já devia ter parado, mas eu digo que enquanto estiver mexendo as pernas vou continuar.”

A vendedora Maria Vieira dos Santos começou a trabalhar no campo com oito anos de idade. Atuou nas lavouras de mamona, algodão, arroz e feijão.

Atendia em média 80 crianças e adolescentes todos os dias e foi pioneira na comercialização de geladinhos em Paranavaí. Segundo ela, na década de 1970 os sabores que mais atraíam as crianças eram menta, uva, groselha e abacaxi.

Eronildo e o cachimbo da nostalgia

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Eronildo

Fumo de corda faz parte da tradição familiar de “Seu Eronildo” (Foto: David Arioch)

O aposentado Eronildo dos Santos vive no Paraná há mais de 40 anos, mas resguarda no coração as lembranças de quando vivia em um humilde sítio no interior do Sergipe.

A nostalgia sempre surge após o almoço, quando “Seu Eronildo”, que mora em São João do Caiuá, no Noroeste do Paraná, senta sobre um banco de madeira envelhecida e, com os dedos calejados pelas décadas de trabalho na lavoura, acende o rústico e artesanal cachimbo de barro que ele mesmo criou.

Entre uma baforada e outra, a fumaça transporta o velho sergipano para a época em que a mãe e a avó o ensinaram a preparar fumo de corda para o cachimbo; uma liturgia com duração de 25 minutos.

Eronildo detesta cigarro, mas acha besteira dizer que fumo de corda faz mal. “Minha mãe morreu com 99 anos e minha avó com 110”, enfatiza o aposentado enquanto sorri e aponta para a fumaça que desvanece aos poucos.

O dom de talhar a madeira

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Olegário aperfeiçoou as habilidades como carpinteiro e se tornou um mestre em talhar madeira

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)

Há 28 anos, Olegário José dos Santos, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, aproveitou as habilidades como carpinteiro para reproduzir uma obra de arte. O resultado foi tão positivo que desde então se dedica a criar placas, quadros e esculturas, peças que já foram comercializadas em muitos estados do Brasil e em outros países.

Tudo começou em 1981, quando “Seu Olegário” trabalhava como mestre de obras e marceneiro. À época, a habilidade em talhar madeira despertou no artista o desejo de fazer algo mais do que criar apenas produtos funcionais. “Vi um trabalho e decidi produzir também. Comecei a fazer esculturas e não parei mais. Tem peças minhas nos Estados Unidos, Japão, França, Espanha, Argentina, Costa Rica e Portugal”, diz o artesão em tom de orgulho.

Houve um período em que Santos participava de feiras agropecuárias com o intuito de divulgar e também comercializar as peças que produzia. “Em exposições no Paraná e São Paulo, eu vendia pelo menos 10 placas para fazenda e ainda levava trabalho pra casa. A procura era grande”, explica o artista plástico que já participou de exposições agropecuárias em Paranavaí, Maringá, Umuarama, Londrina, Foz do Iguaçu, Santo Antônio da Platina, Wenceslau Braz, Maringá, Ourinhos, Votuporanga, Presidente Prudente e Assis. Santos também vendeu muitas peças no litoral de Santa Catarina, principalmente pequenos artigos.

Independente do tamanho da obra, seja um chaveirinho feito na hora e vendido por R$ 4 ou um altar de R$ 7 mil que levou 90 dias para ser produzido, a verdade é que depois do trabalho concluído sempre surge o momento de fruição. “Sinto prazer em criar qualquer coisa”, enfatiza Seu Olegário que preza pela riqueza de detalhes. O perfeccionismo está embutido em cada uma de suas esculturas; nas formas e nas curvas que tiram do anonimato pedaços de cedro e cerejeira que provavelmente seriam transformados em produtos em série, como móveis.

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)

“São ótimas madeiras para o trabalho que desenvolvo. Só uso outros tipos para fazer placas de fazenda”, informa e acrescenta que a cerejeira é trazida de Rondônia. Uma das especialidades de Seu Olegário é a criação de esculturas de imagens de santos, talento que combina com o sobrenome do artista. “Tenho algumas obras disponíveis para venda. São réplicas de São Expedito, São José, São Paulo e Nossa Senhora Aparecida”, destaca o escultor que está sempre aberto a encomendas e comercializa esculturas pelos mais diversos preços. Quem quiser conhecer de perto o trabalho do artista, pode vistar o seu atelier na Avenida Heitor Alencar Furtado, em frente ao trevo de acesso à Vila Operária.

Saiba mais

Cada escultura leva em média 30 dias para ficar pronta e um quadro é concluído em quatro dias.

O artista plástico Olegário José dos Santos também pode ser encontrado na Rua Augusto Fabretti, 877 –  Jardim Alvorada do Sul, Paranavaí. Ou pelo telefone: (44) 3423-4633