David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

A trajetória de um homem do campo

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José Freitas fala sobre a experiência de fazer parte da primeira geração de boias-frias

Freitas: "Boia-fria até hoje é um sujeito sem patrão" (Foto: Daniella Rosário)

Freitas: “Boia-fria até hoje é um sujeito sem patrão” (Foto: Daniella Rosário)

O aposentado José Alexandre Freitas, 72, morador do Jardim Morumbi, em Paranavaí, é da primeira geração de boias-frias do Noroeste do Paraná. Hoje em dia não trabalha mais, mas carrega marcas que nem o tempo é capaz de apagar, como as mãos calejadas, de pele grossa, e o rosto enegrecido e manchado pela frequente exposição ao sol.

Da época em que atuava como trabalhador volante, Freitas herdou também um chapéu de palha que ele ajeita cuidadosamente várias vezes, mesmo sabendo que a entrevista não é para a TV. O aposentado é amistoso e sorridente, porém quando se recorda dos problemas de quando trabalhava no campo, o sorriso se mistura a um olhar mortiço, uma consequência natural que evidencia a relação de amor e ódio do boia-fria com o campo.

Na entrevista abaixo, compilada em tópicos, José Alexandre Freitas, o colono que virou boia-fria, sintetiza opiniões e experiências ao falar sobre colonato, êxodo rural, trabalho infantil, aposentadoria, mecanização e outros assuntos.

O pequeno produtor rural

Nas décadas de 1960, 1970, quem tinha um sítio teve que vender pra fazendeiro. O pequeno produtor não tinha chance nenhuma de disputar o mercado. Acontecia muitas injustiças que eu mesmo vi de perto. Isso melhorou só depois por causa das cooperativas.

O colono

“A colheita era unida, bonita de ver e de lembrar” (Foto: Reprodução)

Quando comecei a trabalhar de colono, tudo isso aqui era café. A gente recebia mesada do patrão. A colheita era unida, bonita de ver e de lembrar. Depois acabou e tive que virar boia-fria. Em 1964, 1965 e 1966, a gente recebia uma diária mixuruca, não chegava a ganhar nem um salário por mês. A coisa foi mudando na década de 1980.

O fim do colonato

Os colonos desapareceram. Vim em 1982 pra cidade porque os patrões não queriam mais ninguém na roça. Eu fui um dos últimos colonos a vir pra cá. Vim meio que obrigado, não queria muito, ainda gostava da roça. Cheguei nessa mesma rua [Avenida Domingos Sanches], onde a gente tá conversando agora. Hoje, penso diferente, se fosse pra eu trabalhar de novo na roça preferia morar aqui e ir de ônibus do que morar na fazenda.

Êxodo rural

Naquele tempo, a jornada era de 12 horas, então trabalhar na roça era terrível. Quem tinha a chance de vir pra cidade não pensava duas vezes. Imagine, você começar a trabalhar às 6h da manhã e parar só às 6h da tarde. Hoje em dia é diferente, ninguém trabalha na roça mais do que oito horas. Era cruel, o pessoal sofria muito.

A vida de boia-fria

A verdade é que boia-fria até hoje é um sujeito sem patrão. O mais próximo que ele tem de um chefe é o gato. No meu tempo, ninguém podia adoecer. Se ficasse um mês parado, passava fome. Lembro que a gente recebia 40, 50 centavos por pé de café, mas quando o patrão queria que o sujeito fosse embora por vontade própria, ele pagava 20 centavos. Mas nem todos eram assim. Tive patrão bom também que quando o boia-fria não conseguia ganhar o suficiente, ele pagava mais pela diária.

Naquele tempo, a jornada de trabalho durava 12 horas (Foto: Reprodução)

Gato X fiscal

O gato e o fiscal agem da mesma maneira. Eles pegam uma área de empreita, contratam os trabalhadores e pagam um pouco menos do que o oferecido pelo dono da propriedade pra ter lucro. O ganho por dia equivale a duas diárias de um boia-fria. Trabalhei como fiscal e gato por alguns anos. Às vezes, tinha que dividir a turma. Era impossível dar conta de 100 peões ao mesmo tempo.

Trabalho infantil

Até a década de 1990, tinha muitas crianças trabalhando nas roças da região, já hoje é difícil de encontrar. Acho errado o menor não poder trabalhar, porque antigamente, quando a criança começava cedo na lida, ela aprendia a respeitar mais os pais e também a vida. Hoje, qualquer adolescente diz que não vai trabalhar porque está protegido pela lei, inclusive tem quem use isso pra desafiar a família. Na minha época, um rapaz de 18 anos já era independente, tinha a
própria vida.

Segurança x ajuda

Acidente de trabalho acontecia, mas ninguém era responsável. Hoje também não mudou muita coisa. A verdade é que sem registro não existe segurança. No tempo em que mais trabalhei, década de 1950, 1960 e 1970, quem mais sofria acidente era a criança. Caía e machucava o pé, quebrava braço, então quem tinha que se virar era a família. Quando alguém se feria, a gente se reunia e ajudava. Comprava comida, fazia vaquinha pra arrecadar dinheiro. O ruim é que empregado que se machucava no serviço era mandado embora.

Relação com os colegas de trabalho

Quando trabalhei como gato, nunca fui maldoso com ninguém, eu respeitava todos os boias-frias, até porque fui um deles, né? Tinha paciência, falava com educação. Por isso que os patrões gostavam de mim. Eu odiava estupidez.

Chuva na roça

Essa era a pior parte. Não tinha esse negócio de que porque está chovendo não ia trabalhar. A gente ganhava por dia, então não tinha como ficar em casa esperando a chuva passar.

Sindicato dos trabalhadores

Naquele tempo, o sindicato não era vigorado como hoje. Agora o trabalhador rural tem garantias e direitos. O sindicato garante salário-desemprego, 13º salário e ainda ajuda a receber os atrasados. Fazem um trabalho muito bom.

Entretenimento

A gente ocupava o tempo livre jogando futebol, até o patrão jogava, e de centroavante. Era o nosso grande lazer, além de outro que eu não posso falar (risos).

Aposentadoria

Trabalhei a vida toda na roça e nunca tive direito a nada. A única sorte que tive foi me aposentar com 60 anos. Hoje, pra se aposentar com essa idade, é muito difícil. Quase nenhum patrão quer ajudar o empregado que trabalhou na roça. Até dá pra entender, ninguém quer ser responsável se der alguma coisa errada. Conheço muita gente que trabalhou no campo e tenta se aposentar, mas não consegue. Na minha família tem gente nessa situação.

Experiência no corte de cana-de-açúcar

Há 21 anos, tive uma experiência no corte de cana, mas não consegui cortar 70 metros. Fui três dias, fizeram a minha ficha, mas daí não foi aprovada porque não cortei 70 metros. Disseram que não podiam me dar nenhuma garantia.

Mecanização

Sobre as máquinas, acho que a dificuldade maior é que ninguém sabe o que o governo vai fazer com esse povo todo. O serviço braçal ainda vai acabar, disso eu tenho certeza porque já conheci máquina que substitui o homem até em terreno irregular. Lá no interior de São Paulo mesmo, boia-fria é conhecido como cata-bituca, porque pra ele só ficam os restos deixados pela máquina.

O futuro dos boias-frias

A única saída ainda é a reforma agrária. O governo deve desapropriar e comprar essas fazendas onde ninguém planta nada e cortar em lotes. Se fizer direito, vai dar certo. Sei disso porque tenho um genro que mora numa fazenda no interior de São Paulo e lá ele conseguiu oito alqueires e hoje vive de forma mais digna.

7 Responses

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  1. David, suas matérias são sempre emocionantes, sobretudo pra um blogleitor como eu, canceriano, apaixonado pela história de nosso povo do arenito, o passado, meu e dos outros. Parabéns!

    Tocaram-me muito as palavras profundas e sinceras do sêo Alexandre Freitas, um ex colono, ex bóia fria e ex “gato”, a quem infelizmente não conheço ainda. abs

    josé roberto balestra

    December 18, 2009 at 6:44 pm

  2. David,

    que 2010 lhe traga muitas inspirações pra garimpar outros tantos diamantes da nossa história paranavaiense e de seus personagens, sempre ricos d’encantos.

    FELIZ ANO NOVO!

    abs

    josé roberto balestra

    December 31, 2009 at 12:12 pm

  3. O outro lazer da peõzada que o senhor José Alexandre preferiu calar, era festar na zona. Tinha a de Paranavai, a de Loanda que conheci muito bem. Mas, há que se reverenciar a figura do `bóia-fria`, vivida pelo Alexandre. Reverenciar como personagem de imensa importância na tarefa da colonização da nossa região. Antes desse apelido, ele era chamado de `peão`. Solteiros, a maioria, moravam debaixo de lonas de encerado ou de ranchos feitos de troncos de coqueiros e cobertos ou com palhas ou com lascas de peroba.de encerado e dormiam sobre tarimbas, varas espichadas sobre forquilhas e forradas com colchões recheados de palha de milho. `Queimavam lata`, isto é faziam a sua própria comida: um caldeirão pendurado sobre um braseiro – dentro, arroz, lascas de jabá. O `ordenado`ficava quase todo na mão do `gato` que descontava a gilete, o sabão, a pinga, o fumo, a lata de querosene prá encher o lampeão. Tudo `superfaturado`. O `gato` era sempre um camarada mais ativo que recebia do fazendeiro que morava nas capitais, uma importância para a empreitada, derrubada de mato, por exemplo. Depois, tinha a figura do meeiro, ou porcenteiro, que prá formar o café, quatro anos, custeava tudo, comprando fiado no comércio prá pagar com as safras do feijão, do milho, do algodão, da mamona. Isso era tudo dele. Em Paranavai, tinha a Sanbra (com ene mesmo – Sociedade Algodoeira Noroeste do Brasil), a Anderson Clayton, que compravam tudo. A colheita de café era conforme o contrato, muitas vezes feito verbalmente. E era cumprido à risca. Muitos meeiros compravam as suas primeiras chácaras – um, dois, até cinco alqueires, dependendo do sucesso da safra. Mas continuavam agregados às fazendas. As colonias eram tamanhas que cada uma tinha até o seu time de futebol. Mas ai começou acontecer coisas no campo como o confisco cambial: de cada três sacas de café, uma era do Governo; pro financiamento, 20 por cento era obrigado a ser gasto com químicos – agrotóxicos. Daí pintou o nematóide e o governo pagava pela erradicação. O golpe fatal veio com a geada de 75. Sitiantes, chacareiros foram dormir mais ou menos ricos naquele dia de julho e acordaram mais ou menos na miséria. Dai, o advento da pecuária e com ela o êxodo rural e o esvaziamento das nossas cidades. O nosso Noroeste -macrorregião de Paranavai, Umuarama, Maringá e Campo Mourão, abrigava metade da população do Paraná. No censo de 80 caiu para 30 por cento. Exemplo: Maria Helena ali perto de Umuarama tinha 40 mil almas. Veio prá oito. Foi daí em diante que o `peão` virou `bóia-fria`, como relata Alexandre, esse filho do Brasil!

    Parreiras Rodrigues

    January 12, 2010 at 12:25 am

  4. […] A trajetória de um homem do campo – Leia […]

    Dos blogs . . . |

    February 2, 2010 at 12:44 pm

  5. O Sr José Alexandre, se não estou enganado trabalhou comigo em muitas colheitas de café no guairaça..Deixo a ele o meu abraço e minha gratidão pelo desempenho como trabalhador Rural.

    Reginaldo Araujo

    February 2, 2010 at 7:05 pm

  6. Como pode observar, a partir do texto do Parreiras Rodrigues, temos pessoas que tem muito a dizer sobre a história de Paranavaí. Seria importante ouvir essas pessoas num espaço como o seu. Sugiro uma matéria sobre as famílias japonesas de Paranavaí, as quais se instalaram inicialmente na região denominada Alta Paulista (outras a chamam de Água Genina, Água Nova ou Curva da Areia). Shintani, Tanoe, Sunahara, Ohe, sao algumas dessas familias que se instalaram naquela regiao, que é caminho para o distrito de Cristo Rei.

    ze telles

    February 13, 2010 at 9:47 am

  7. David, sua reportagem me foi muito útil. Agradeço a Deus todos os dias, por existir gente como você. Estou desenvolvendo uma monografia de Mestrado, com o tema central “o homem rural(do campo), e seu artigo veio muito em conta. Parabéns! continue ajudando acadêmicos como eu e outros desse nosso Brasil tão diversificado, principalmente em relação ao trabalhador rural. Abraços, Conceição

    Conceicao Marcellino

    February 19, 2010 at 6:11 pm


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