David Arioch – Jornalismo Cultural

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Quando a população ignorou o futuro governador

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O dia em que Bento Munhoz da Rocha Neto falou sozinho no centro de Paranavaí

Discurso em prol da pecuária despertou a antipatia da população (Foto: Toshikazu Takahashi)

Discurso em prol da pecuária despertou a antipatia da população (Foto: Toshikazu Takahashi)

Em 1950, durante a campanha para governador do Paraná, Bento Munhoz da Rocha Neto fez uma visita a Paranavaí, no Noroeste do Paraná, onde criticou a cafeicultura e falou sobre as possibilidades de prosperidade da pecuária extensiva na região do arenito Caiuá. Antes de terminar o discurso, a população foi embora e o deixou falando sozinho.

Bento Munhoz da Rocha Neto deu início ao discurso afirmando que a cafeicultura, implantada desde a época da Vila Montoya, pela Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco), “deu o que tinha que dar” e que era mais do que hora do café ser substituído pelo gado. Usou como justificativa não apenas o rendimento que o gado poderia proporcionar, mas também a fragilidade do solo arenoso.

Segundo o então futuro governador, a lavoura aliada as chuvas castigaram demais as terras do Noroeste Paranaense. Hoje, avaliando o discurso de Rocha Neto e o comparando a realidade atual, pioneiros afirmam que Bento Munhoz veio a Paranavaí para ludibriar os mais humildes e abrir espaço para os latifundiários. “Como que uma pessoa que tinha uma rocinha e tirava dela apenas o sustento pra sobreviver ia ter condição de criar boi?”, questiona o pioneiro João Mariano.

Por isso, no dia da visita, em discurso no centro da cidade, ninguém gostou das palavras de Rocha Neto. Depois de tanto elogiar a pecuária e criticar a cafeicultura, toda a população, já irritada pelo desdém do futuro governador a uma cultura que existia em Paranavaí há mais 20 anos, o deixou falando sozinho, com exceção de um engraxate que só continuou ali na esperança de amealhar algumas moedas.

Rocha Neto chegou a Paranavaí sem ter a mínima noção da importância da cafeicultura para a população (Foto: Reprodução)

De qualquer modo, Bento Munhoz da Rocha Neto parecia prever o futuro. Ainda assim, ninguém esperava que as pequenas propriedades rurais de Paranavaí seriam substituídas pelos latifúndios. A previsão se concretizou, tanto que a partir de 1962, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pecuária ampliou as desigualdades sociais que eram bem menores na época da Fazenda Brasileira e Colônia Paranavaí. Naquele tempo, a administração pública limitava a distribuição de terras para tentar conter a formação de latifúndios e a política de base coronelista.

“Quando a Brasileira estava sendo colonizada de novo, na década de 1940, o Francisco de Almeida Faria, tio do Ulisses Faria Bandeira [ex-prefeito de Paranavaí], era o responsável por colonizar o povoado. Uma vez, ele chamou todo mundo lá na inspetoria e disse: ‘essa terra é só pra brasileiro nato, e para os pobres, os humildes’”, lembrou o pioneiro paulista João da Silva Franco em entrevista à Prefeitura de Paranavaí e registra no livro “História de Paranavaí”, de Paulo Marcelo Soares da Silva. Anos depois, ninguém mais defendeu o ideal dos colonizadores.

Com a implantação da pecuária em Paranavaí houve um esvaziamento populacional sem precedentes. Milhares de colonos foram expulsos do campo. Sem ofertas de trabalho na área urbana, não tiveram alternativas, foram obrigados a ir embora. Para se ter uma ideia do impacto da pecuária, até 1960 havia mais de 300 mil trabalhadores rurais vivendo na região de Paranavaí e 20 anos depois o total caiu para pouco mais de 70 mil, segundo informações do IBGE.

Saiba Mais

Mesmo sem contar com grande apoio da população de Paranavaí, Bento Munhoz da Rocha Neto foi eleito governador. Assumiu o Governo do Paraná de 1951 a 1955.

Curiosidade

O nome oficial do Colégio Unidade Polo é Colégio Estadual Professor Bento Munhoz da Rocha Neto em homenagem ao ex-governador.

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2 Responses to 'Quando a população ignorou o futuro governador'

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  1. A macrorregião do Noroeste, na década de 50, abrigava 51 % de toda a população do Paraná. Hoje, o IBGE assinala que esse número foi reduzido para 8 %. Findo o ciclo da tora – Santa Isabel do Ivai chegou a ter 16 serrarias, iniciou-se o ciclo do café que atraiu gentes de todo o canto do Brasil e até da Europa, do Japão. Em Paranavai, a Sanbra – Sociedade Algodoeira Nordeste do Brasil e a Anderson Clayton não tinham mãos para receber toda a produção para beneficiamento. Nas ruas de café, as safras de feijão, milho, algodão, mamona se sucediam. O solo foi se erodindo, apareceu a broca, o Banco do Brasil (Nestor Jost) exigia 20 por cento do papagaio para a compra de químicos (ele era acionista da Pfizer, da Bayer), depois começou a erradicação e aconteceu o golpe de misericórdia desferido na cafeicultura, a geada negra de 17 de julho de 1975. Dai, prá se ter uma idéia do que resultou o êxodo, Maria Helena ali perto de Umuarama, tinha 40 mil habitantes, hoje tem menos que oito. Onde estão todos esses nossos conterrâneos? Arioch, aqui nas vilas e periferias curitibanas, em Tamadaiorque, Sào José dos Pinhais, Pinhais, Fazenda Rio Grande, Araucária, mas as redondezas de Londrina, Maringá etéque, etéque. (Sniff… sniff…)

    Parreiras Rodrigues

    28 Aug 10 at 10:48 pm

  2. A riqueza que o noroeste tinha, era o que a natureza nos oferecia. Acabou a floresta e a riqueza do solo, veio a miséria. O homem não foi capaz de preservar, apenas usufruiu.

    Abdallah

    7 Jul 15 at 2:29 pm

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