David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

A Boate da Cigana

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Boate era a grande diversão dos homens de Paranavaí nos anos 1950

Capitão Telmo era frequentador assíduo da Boate da Cigana (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Capitão Telmo era frequentador assíduo da Boate da Cigana (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Na década de 1950, sem dúvida, o ambiente mais frequentado pelos homens de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, era a Boate da Cigana, uma casa situada na então Zona do Baixo Meretrício.

Ninguém sabe ao certo o ano em que foi fundada a Boate da Cigana, situada algumas quadras abaixo do antigo Aeroporto Edu Chaves, atual Colégio Estadual de Paranavaí (CEP). Mas estima-se que surgiu antes de 1955 e logo se tornou o principal ponto de entretenimento do público masculino adulto. A boate, que tinha como principal via de acesso a avenida que recebeu o nome de Heitor Alencar Furtado, foi fundada por uma gaúcha conhecida apenas como “Cigana”.

Segundo pioneiros, era uma loira de beleza estonteante que antes de vir a Paranavaí vivia em Paranaguá, na Região Metropolitana de Curitiba. A Cigana também chamava atenção pelo carisma e cordialidade com que tratava os frequentadores da casa. “A boate atraía não apenas homens de Paranavaí, mas de toda a região, e funcionava tanto de dia quanto de noite”, relatou o pioneiro cearense João Mariano, acrescentando que naquele tempo o local era a maior fonte de entretenimento dos homens.

Para os clientes da casa, a gaúcha disponibilizava mais de vinte moças. Eram todas muito bonitas. Apesar do serviço oferecido não ser bem visto por uma camada da sociedade, é importante lembrar que a Cigana não permitia atitudes desrespeitosas, nem confusões no interior da boate. “A casa era frequentada até por gente importante, autoridades influentes de Curitiba e de outros estados que visitavam Paranavaí”, confidenciou Mariano, mas se recusando a citar nomes.

O movimento na Boate da Cigana sempre aumentava nos finais de semana, quando os peões que atuavam na derrubada da mata e criação de estradas retornavam a Paranavaí. “Muitos se empolgavam tanto que deixavam todo o salário na casa”, comentou o pioneiro, referindo-se a algo que era muito comum nos anos 1950, quando os mais humildes se contentavam com o prazer efêmero proporcionado pelo álcool e pelas damas da noite.

O que chama muita atenção até hoje quando o assunto é a Boate da Cigana é o fato do espaço ter sido frequentado por pessoas de todas as classes sociais, desde os mais abastados até os mais desfavorecidos. Todos se tratavam muito bem, como se as diferenças sociais não existissem.

Dentre as figuras de maior destaque da história de Paranavaí, e que se tornou um assíduo frequentador da Boate da Cigana, está o Capitão Telmo Ribeiro. Quando chegava à boate, normalmente à noite, o capitão sempre dizia: “Quem tá dentro não sai, quem tá fora não entra.” E ninguém ousava contrariá-lo. A casa imediatamente era fechada e só abriam as portas quando ao amanhecer o galo cantava.

Pela manhã, Telmo Ribeiro pagava as despesas de todos os clientes. Também era conhecido por presentear as damas da noite. Segundo pioneiros, a boate nunca teve um cliente como o capitão que gostava de passar muitas horas conversando e bebendo em companhia da cigana gaúcha.

Curiosidade

A Boate da Cigana era tão famosa que havia um ponto de charrete em frente ao local.

2 Responses to 'A Boate da Cigana'

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  1. As zonas tinham um quê de romantismo. Comecei pela de Loanda, meio escondido por causa dos meus quinze anos. Em Santa Izabel do Ivai, carolas e políticos impediram a instalação de casas de tolerância, esse o nome. Mas eles próprios, os endinheirados, frequentavam as de Paranavai, Terezona, Saula, Chocolate e as de Londrina, da Diana. O povão então, trabalhadores solteiros da cerâmica, da serraria, saqueiros dos armazéns de cerealistas, do armazem da RFFSA, partia para os puteiros de Loanda, à esquerda no sentido Sta Izabel-Loanda. O pessoal fazia lotação nos jipes de praça, aqueles wyllis overland quatro portas. Chamei esse tempo, no meu livro 2 de Julho, de evasão de divisas. Um dos motivos que levaram Loanda a ultrapassar a minha cidade em desenvolvimento. A zona de Loanda tinha casas para todos os bolsos. Nas do começo, o preço mais caro descendo até o chamado “mijeiro”, casas sem luz, sem água, as mulheres lavavam as periquitas em bacias, o chamado tchaco, tchaco. A gonorréia, o chato, eram as doenças mais comuns, mas nada que a penicilina, a terramicina e uma latinha de baygon não resolvesse. Tinha cancro e sífilis, as mais perversas. Muitos homens de bem, de posses, desiludidos com os casamentos com moças de família, “montavam” uma segunda casa para agasalhar a amante, casos que inspiraram “Vou tirar você desse lugar”. Existiam ainda os coronéis, que gastavam bastante e chegavam a pagar o suficiente para que a mulher não se virasse. Aí, entrava a figura do gigolô, o que desfrutava do amor subsidiado pelo lóque.
    Se bebia cuba libre ( coca com rum), hi-fi ( crush com vodka), chuvisco ( cachaça com sodinha ) e uísque.
    Acontecia de alguma mulher engravidar. A gente levava presentes e eu mesmo sou padrinho duma meia dúzia de verdadeiros filhos da puta. Em Loanda, existem alguns comerciantes que iniciaram suas bem sucedidas carreiras, mascateando na zona. As farmácias faturavam bem, alguns salões de beleza tinham datas e horários especiais para atendimento das meninas e o transporte zona-cidade-zona era feito por charretes, os chamados balaios de puta. Quantas saudades…

    Parreiras Rodrigues

    29 Nov 10 at 11:40 pm

  2. Mas, David, luzes apagadas, bêbados encostados pelas paredes, corpos se entrelaçando sobre lençois fedendo suores, perfumes baratos e esperma, cumpre mostrar também o lado estúpido da zona. As donas de casa eram como os chamados “gatos” das empreitadas que exploravam desgraçadamente os peões. Elas, as proprietárias, cobravam pensão ( quarto e comida, de péssima qualidade ) das meninas e comissão das trepadas. Sempre elas estavam devendo para as patroas. E não vamos nos enganar que elas partiam para a putaria pelo simples prazer de sentir prazer que aliás, era o que menos sentiam, mais fingiam. Se eu voltasse ao tempo, teria escrito um tratado sobre a vida de dezenas de putas. A maioria, a grande maioria, analfabeta, violentada pelo pai, pelo irmão, pelo namorado ou abandonada pelo marido. Muitas, eram incentivadas pelas mães, pois assim se livravam da dura vida na roça. Mas era como trocar o mato pela capoeira.
    Uma vida desgraçada, era o que era aquilo.
    Além de ser vítima da exploração da cafetina, da dona da casa, submetia-se aos afanos do gigolô, sustentando-o na vagabundagem ou então tinha que viver os caprichos do coronel.
    Doentes, mal-alimentadas, com expectativa de vida bem abaixo da média, quando não, assassinada numa disputa de rivais ciumentos.
    Solidariedade era coisa rara entre elas, pois a luta pela sobrevivência era ferrenha. Uma competitividade semelhante a que vivemos hoje: Meu vizinho comprou um Focus, tenho que comprar um Fusion…
    A disputa entre elas era pelo macho, pelo macho que pagava.
    A disputa pelo gigolô era para mostrar orgulho: Perder pressa jabiraca dai vou ganhar de quem?
    Eram exploradas também pela polícia que lhes infundia medo. Eram religiosas. Em todos os quartos, retratos de São Jorge assistindo tudo e nas mesinhas, velas acesas…

    Parreiras Rodrigues

    1 Dec 10 at 5:10 pm

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