David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for December, 2010

“O pessoal dizia é meu e era mesmo”

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Pioneiros falam sobre a grilagem de terras nos anos 1940 e 1950

Tirapeli: “Naquele tempo, levava de um a dois anos para cortarem o terreno” (Acervo: Fundação Cultural)

Em 1946, o mineiro Enéias Tirapeli passou por uma situação vivida por muitos outros pioneiros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, entre as décadas de 1940 e 1950: teve as terras griladas durante uma viagem de visita aos familiares.

Tirapeli contou que quando chegou a Paranavaí a colônia era administrada pelo marceneiro curitibano Hugo Doubek, também responsável por emitir documentações de imóveis que asseguravam o direito de posse. “Naquele tempo, quando um lote não custava nada, levava de um a dois anos para cortarem o terreno”, garantiu o pioneiro mineiro.

Certa vez, Tirapeli viajou até São Paulo para visitar a sogra e quando retornou a Paranavaí tinham grilado seus oito imóveis. “Perdi até as mandiocas que tinha plantado. O pessoal dizia é meu e era mesmo. Ninguém contrariava. Já tinha polícia aqui, mas não adiantava porque o costume era o sujeito construir em cima e se declarar dono”, afirmou o mineiro.

De acordo com a pioneira paulista Isabel Andreo Machado, era muito comum nas décadas de 1940 e 1950, as pessoas assumirem propriedades de terras sem terem qualquer documentação. “Havia muita briga e morte. Eu cheguei a ver o assassinato do sogro do Mauro Valério em frente à Caixa Econômica Federal por causa disso”, revelou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

Conforme palavras do pioneiro cearense João Mariano, o período mais intenso de crimes motivados pela posse de terras perdurou por mais de dez anos, de 1945 até 1956. “A partir de 1957 que a coisa começou a melhorar porque já havia uma boa força policial na cidade. Antes disso, Paranavaí era uma terra onde cada um fazia o que bem entendia. Quando o crime era causado por gente graúda a polícia não ousava interferir”, enfatizou Mariano que viu muita gente conhecida morrer em conflitos com grileiros por não querer abrir mão de um terreno.

João Mariano: “Algumas riquezas nasceram do sangue derramado na época da colonização” (Acervo: Fundação Cultural)

O cearense ainda declarou que em Paranavaí há pessoas que fizeram fortuna sobre a infelicidade alheia. “Algumas riquezas nasceram do sangue derramado na época da colonização. Mas cada um tem a sua consciência e sabe o que fez para chegar onde chegou. É uma justiça que não cabe aos homens colocar em prática”, comentou, acrescentando que alguns grileiros tinham amizade até mesmo com governadores e outras autoridades.

João Mariano frisou que sobreviveu ao período da grilagem de terras porque nunca se envolveu em conflitos de posses. “A vida vale mais que um pedaço de chão, ainda mais quando você tem uma família pra sustentar”, salientou. Em 1950, querer fazer justiça com as próprias mãos, bancar o corajoso e enfrentar tudo de “peito aberto” era quase um chamado para a morte. “Muitos grileiros nem sujavam as mãos, andavam rodeados de capangas que faziam o serviço por eles. Alguns a gente nunca soube quem eram. Os jagunços de quem se ouve falar eram como os laranjas do tráfico de drogas, ou seja, mesmo que morressem, isso não mudaria a realidade porque pois tinha gente grande por trás” disse Mariano.

O cearense lembrou um episódio chocante vivido por uma família que morava na zona rural de Paranavaí em setembro de 1953. Para evitar problemas, preferiu não citar nomes. “Eram meus vizinhos, sete pessoas, dois adultos e cinco crianças que trabalhavam como colonos numa roça perto de Alto Paraná. O homem tinha conseguido juntar um dinheirinho ao longo de anos pra comprar uma chácara perto da cidade”, relatou. Uma semana depois da negociação, a família foi surpreendida por três capangas que tentaram expulsá-los de suas terras.

Como a visita inesperada aconteceu à tarde e havia vizinhos observando, inclusive o pioneiro João Mariano, os homens foram embora e retornaram de madrugada. Invadiram o casebre e assassinaram a tiros toda a família, deixando rastros de sangue pela casa. “Não pouparam nem as crianças que tinham entre cinco e doze anos. Me falaram que uma delas estava segurando uma bonequinha de espiga de milho toda ensanguentada. Teve gente que entrou lá pra ver, mas eu não tive coragem. A polícia só apareceu no local dois dias depois do crime”, reclamou João Mariano, confidenciando que jamais esqueceu o “cheiro” de tantas mortes.

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“Meu objetivo era fazer com que as famílias se fixassem aqui”

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Otávio Marques de Siqueira veio a Paranavaí por recomendação do major Fernando Flores

Antigo Hospital do Estado foi fundado por Siqueira (Foto: Reprodução)

O médico gaúcho Otávio Marques de Siqueira, responsável pela construção do Hospital Professor João Cândido Ferreira, onde é hoje a Praça da Xícara, se mudou para Paranavaí em 1949, a pedido do major Fernando Flores. Além de se responsabilizar pela saúde da população, Siqueira foi incumbido de convencer os migrantes a fixarem residência em Paranavaí e não em Alto Paraná.

Otávio Marques de Siqueira veio a Paranavaí pela primeira vez no tempo da Fazenda Brasileira, em 1941, após participar da inauguração da primeira balsa do Porto São José, um recurso que intensificaria as relações entre Paraná e Mato Grosso. Em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás, Siqueira relatou que naquele ano quando chegou à Brasileira se deparou com um imenso vazio. “Não havia nada por aqui, só quiçaça e capoeira”, afirmou o pioneiro gaúcho que chegou ao povoado por meio da única estrada que existia à época, reaberta pelo Capitão Telmo Ribeiro em 1939.

Siqueira conheceu em Londrina o diretor da 4ª Inspetoria de Terras do Estado, Francisco de Almeida Faria, que lhe mostrou um mapa retangular de Paranavaí. “Ele olhou com o jeitão dele e falou: ‘Isto está muito monótono’, então traçou duas diagonais no mapa e saiu duas avenidas, uma era a Paraná”, enfatizou o médico que teve os primeiros contatos com o cotidiano da colônia em 1945, mas se mudou para Paranavaí em 1949, a convite do major Fernando Flores que em Londrina lhe falou sobre a necessidade de se construir um hospital em Paranavaí.

“Antes de vir pra cá, eu exercia o cargo de diretor da Santa Casa de Londrina”, destacou Siqueira que coordenou a construção do extinto Hospital Professor João Cândido Ferreira, o Hospital do Estado, em área onde está atualmente a Praça Dr. Sinval Reis, conhecida como Praça da Xícara. Após a inauguração, o pioneiro assumiu o cargo de diretor do hospital. “O Dr. Siqueira era um médico muito bom”, comentou o pioneiro gaúcho Severino Colombelli, acrescentando que Otávio Marques salvou muitas vidas.

Siqueira não veio a Paranavaí apenas para atuar como médico. “Meu objetivo era fazer com que as famílias se fixassem aqui e não em Alto Paraná”, revelou. Pioneiros lembram que esse tipo de missão era muito comum, pois todos aqueles que vinham ao povoado para assumir alguma liderança também tinham o papel de atrair novos moradores. A publicidade mais apregoada em Paranavaí era a de que cada propriedade valeria até cem vezes mais no futuro. Porém, muitos diziam que isso não passava de utopia.

A colônia era um local tranquilo em 1949, quando os principais pontos comerciais pertenciam a Carlos Faber, Severino Colombelli, Luiz Ambrósio e José Francisco, irmão de Natal Francisco, segundo o médico que nunca se esqueceu da vez em que pioneiros pegaram uma jaguatirica nas imediações do antigo Cine Ouro Branco.

Em 1950, o desenvolvimento local chamou a atenção do governador Moisés Lupion que enviou a Paranavaí um funcionário encarregado de vender imóveis. “Deu liberdade para que ele fizesse o que bem entendesse, desde que atraísse pessoas com muito dinheiro”, pontuou Siqueira. Logo surgiu uma onda de assassinatos motivados pela posse de terras. De acordo com o médico, as propriedades eram tomadas na marra. “Eu não me preocupei, nem me meti nisso”, declarou.

Saiba Mais

Otávio Marques de Siqueira nasceu em 18 de julho de 1914 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Os pianos de cauda da Vila Montoya

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Como os instrumentos chegaram a Paranavaí numa época em que não existia estrada?

Pianos Steinway foram trazidos a Paranavaí pela Braviaco (Foto: Reprodução)

Um dos fatos mais curiosos sobre a colonização de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, é que na década de 1920, antes do surgimento da Vila Montoya, o povoado contava com diversos pianos de cauda dispersos por residências próximas da Fazenda Experimental do Estado. Como isso era possível se cada um dos instrumentos tinha de 250 a 300 quilos e à época não havia nenhuma estrada que permitia o ingresso de grandes veículos na colônia?

Dos anos 1930 a 1945, vários pioneiros que chegaram a Paranavaí, então Fazenda Brasileira, se depararam com mais de 40 casas de madeira de louro-pardo, uma matéria-prima nobre. As residências, algumas tinham características da arquitetura francesa, passavam despercebidas pelos mais desatentos, pois a mata primitiva já tomava conta da vegetação cortada, além dos antigos cafezais que ao longe se ofuscavam diante do profundo abandono. “Nas casas ocupadas pela diretoria da Brasileira, encontrei diversos pianos de cauda em 1941”, afirmou o pioneiro gaúcho Otávio Marques de Siqueira em entrevista à Prefeitura de Paranavaí há algumas décadas, acrescentando que a maior parte estava em boas condições de uso.

De acordo com o pioneiro pernambucano Frutuoso Joaquim de Salles, que se mudou para a Vila Montoya em 1929, quando chegou ao povoado os instrumentos já estavam instalados nas residências da diretoria da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco), responsável pela administração local. Na atualidade, cada um daqueles pianos de cauda importados custaria pelo menos R$ 40 mil, possivelmente mais valiosos que as casas que abrigavam os colonizadores. “O mais estranho é que ainda não tinha estrada até aqui. Os caminhões que vinham pra cá naquele tempo paravam a quilômetros de distância da colônia porque havia uma mata primitiva muito densa”, relata o pioneiro cearense João Mariano.

Salles também deixou claro em vida que só pouco tempo depois de formada Vila Montoya é que surgiu a primeira estrada. A futura Paranavaí era um povoado recôndito na selva, quase alheio à civilização. A única explicação palpável sobre a chegada dos pianos é que a diretoria da Braviaco incumbiu dezenas de empregados a percorrerem quilômetros a pé, em meio mata virgem, para transportarem cada instrumento que pesava mais de 200 quilos.

Há pioneiros que afirmam que alguns do pianos podem ter chegado ao povoado muito antes do que se imagina, na década de 1910, quando a Companhia Brasileira de Viação e Comércio começou a desbravar o Noroeste do Paraná, dando a Paranavaí e região o nome de Pirapó. Segundo Frutuoso Joaquim, os instrumentos musicais eram a única diversão de muitas famílias em 1929.

A maior parte dos instrumentos ficava perto da sede da Vila Montoya (Foto: Reprodução)

Enquanto os encarregados comandavam o trabalho de centenas de migrantes, quase todos analfabetos, trazidos ao Distrito de Montoya para plantar e colher café no seio da mata primitiva noroestina, as mulheres dos funcionários da Braviaco passavam a maior parte do tempo dentro de casa cuidando dos filhos, dos afazeres domésticos ou tocando excertos de canções de compositores alemães como Johannes Brahms, Richard Wagner e outros expoentes do romantismo clássico em sofisticados pianos Steinway.  Vez ou outra, quando alguns peões retornavam da mata, ouviam ao longe vozes femininas cantarolando. Achavam bonito, mesmo que a completa ignorância os impedisse de decifrar o código musical. Tempos depois, a partir de registros pessoais, descobriu-se que eram trechos de óperas dos compositores italianos Giuseppe Verdi e Arturo Toscanini.

É possível crer que dois “mundos” se chocavam na Vila Montoya: a cultura intelectual – ostensiva e abstrata da burguesia, sob a imponente figura da Braviaco, e a cultura inculta – ingênua, frágil e estritamente rural do pobre migrante afiançado ao colonato. Desde o começo, Paranavaí já representava muitas realidades, mas o que mais chama atenção é que antigamente existia uma harmonia surreal nisso tudo.

Os pianos de cauda de Montoya foram abandonados em 1930, quando o Governo Vargas revogou a concessão da Companhia Brasileira de Viação e Comércio. Os funcionários da Braviaco e seus familiares partiram, deixando para trás todos os instrumentos musicais. Os pianos resistiram ao tempo, sobreviveram, mas desapareceram quando a colônia se transformou em Paranavaí. “Ninguém sabe ao certo o que houve depois com os instrumentos”, comenta João Mariano em tom de dúvida e mistério.

Curiosidade

Os pianos Steinway, criados por Heinrich Steinweg, surgiram em 1853 nos Estados Unidos, mas também foram fabricados na Alemanha a partir de 1880.

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Pioneiro forneceu eletricidade a Paranavaí

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Thomaz Estrada iluminou as ruas da colônia e forneceu energia elétrica para muitos profissionais

Thomaz Estrada abriu o primeiro posto de combustível da cidade (Foto: Reprodução)

Nos anos 1940, o imigrante espanhol Thomaz Estrada forneceu energia elétrica para a população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. À época, as ruas da cidade foram iluminadas graças ao gerador do pioneiro.

No tempo em que Paranavaí ainda não contava com o fornecimento de energia elétrica, o espanhol Thomaz Estrada decidiu intervir. O pioneiro tinha um posto de combustível entre a Rua Getúlio Vargas e a Avenida Paraná, sentido ao antigo Terminal Rodoviário. Lá, Estrada mantinha um gerador de energia que poderia ter se limitado a abastecer o empreendimento. Mas o espanhol foi além, estendeu ao máximo a área de fornecimento, beneficiando muitos profissionais que dependiam de energia elétrica para trabalhar.

Em parceria com outros moradores, Estrada também criou alguns esquemas para a iluminação de ruas e avenidas. “O motor ficava dentro do posto e iluminava até o Banco Noroeste”, lembrou o espanhol em entrevista à Prefeitura de Paranavaí há algumas décadas. Para os pioneiros, Estrada fez muito mais que uma benfeitoria, dissipou a escuridão que impedia a colônia de existir no fim do dia. “Com o brilho daquela luz, Paranavaí ganhou nova dimensão, coisa que não se traduz, alegria arredia que destoa coração”, poetizou o pioneiro cearense João Mariano.

O abastecimento de energia deu novo sentido à vida em comunidade. Os moradores se beneficiavam da iluminação noturna realizando atividades que até então dependiam da luz solar. “As crianças aproveitavam a claridade pra brincar um pouco mais na rua”, relatou Mariano. Para o pioneiro mineiro José Alves de Oliveira, conhecido como Zé do Bar, a iniciativa do espanhol, que vivia numa residência ao lado de onde é hoje o Cartório Tomazoni, fez a diferença na colônia.

“Era tudo sertão e havia bicho pra todo lado”

O pioneiro Thomaz Estrada, que nasceu em 2 de julho de 1901, na Espanha, chegou à Fazenda Velha Brasileira, atual Paranavaí, em 1942, por sugestão de Francisco de Almeida Faria, inspetor de terras que conheceu em Londrina. “Me mudei pra cá em 1943. Aqui era tudo sertão e havia bicho pra todo lado. Veados andavam pelas ruas”, ressaltou Estrada.

Paranavaí quando construíram os primeiros postes para condução de energia elétrica (Foto: Reprodução)

O pioneiro admitiu que a fama da Fazenda Velha não era das melhores. “Um dia, ali em frente de onde eu morava, mataram dois”, confidenciou. A única estrada que existia naquele tempo era a que ligava a colônia ao Porto São José, o mesmo picadão para onde o capitão Telmo Ribeiro partia em direção ao Mato Grosso em busca de peões. “O Capitão Telmo tinha uma invernada onde é hoje o Jardim São Jorge”, disse o espanhol. De acordo com Estrada, no início, havia muita gente que não “prestava”. “Tinha muitos enguiços, mas decidi ficar. Coloquei um armazém pra sustentar a família”, pontuou e acrescentou que comprou uma fazenda na Brasileira e a vendeu em seguida.

O documento era a foice e o machado

Segundo o pioneiro espanhol Thomaz Estrada, o documento no período da Fazenda Velha Brasileira era a foice e o machado, ferramentas emblemáticas da colônia entre as décadas de 1930 e 1950. A verdade é que representavam mais do que instrumentos, um paradoxo semeado sob metáforas de luta, força, perseverança, injustiça, fragilidade humana e todas as agruras da colonização.

A Família Estrada viu exemplos disso tudo em Paranavaí. Enquanto o desenvolvimento trouxe mais qualidade de vida, em contrapartida, se intensificou a animosidade, até mesmo por banalidades. “Um dia na nossa loja, o Zé Capataz e o Zé Tabuinha começaram a beber. Eles puseram a faca e o revólver em cima da balança. Pedi pelo amor de Deus para que não brigassem. Daí pegaram eles e levaram pra fora. Outra vez foi o Joaquim das Éguas que tirou os briguentos daqui”, enfatizou Ana Maria Estrada.

Por muitas vezes, a pioneira passou medo no tempo da colonização. Quando o marido viajava, Ana Maria e o filho tinham de atender todos os fregueses. À época, muitas vacas dormiam em frente à casa comercial dos Estrada. “Também tinha muito mato em volta. Só foi mudando depois de 1950″, garantiu a pioneira.

Comerciante se livrou da morte em São Paulo

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Severino Colombelli foi um dos primeiros comerciantes de Paranavaí

Prédio comercial dos Colombelli nos anos 1940 (Foto: Reprodução)

Na década de 1940, o pioneiro e comerciante Severino Colombelli costumava viajar até São Paulo para buscar produtos que comercializava em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Certa vez, se livrou da morte ao perder o voo de retorno.

Para o gaúcho Severino Colombelli viajar fazia parte da profissão de comerciante numa época em que as mercadorias não eram entregues nas lojas. Por isso, era costume deixar a sua companheira, Inez Colombelli, cuidando da casa comercial em Paranavaí durante as frequentes viagens a São Paulo.

Em entrevista à Prefeitura de Paranavaí há algumas décadas, Inez relatou que Colombelli embarcava no antigo Aeroporto Edu Chaves, localizado onde é hoje o Colégio Estadual de Paranavaí (CEP). “Como o Severino viajava muito, eu ficava sozinha com o nosso filho, mas na loja sempre havia algum funcionário pra me ajudar”, afirmou Inez Colombelli, acrescentando que quando conheceu o gaúcho, ele já buscava produtos em São Paulo.

Mesmo acostumada com as viagens de Severino, Inez não conseguia evitar a preocupação e apreensão. Nunca se esqueceu da vez em que o marido demorou nas compras e quando chegou ao aeroporto era tarde demais. “Não deu tempo de embarcar e soubemos que o avião que ele perdeu caiu e morreu quase todo mundo. Só uma criança sobreviveu”, revelou a comerciante.

A Família Colombelli se mudou para Paranavaí em 1946, mas antes Severino veio sozinho conhecer a região. Deixou São Sebastião do Caí, na região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e chegou aqui no dia 11 de junho. “A cidade já estava toda traçada. Tinha a casa de comércio do Faber, Otacílio Egger, Pupulin, Marsal, Tirapeli, Thomaz Estrada e Vicente Pernambuco”, relatou o gaúcho, acrescentando que a área comercial se limitava à Rua Getúlio Vargas, em frente ao atual Hotel Elite.

Pioneiro embarcou para São Paulo no antigo aeroporto (Foto: Reprodução)

A ideia de fixar residência em Paranavaí surgiu por acaso, pois Colombelli tinha intenção de se mudar para o interior de São Paulo, onde lhe diziam que havia boas terras para a criação de gado. Entretanto, durante uma viagem de trem, o comerciante conheceu um homem que lhe falou que não havia terra melhor para a pecuária que a de Paranavaí.

A primeira impressão que o gaúcho teve da colônia foi muito ruim, se sentiu como se estivesse no cenário de um filme de faroeste. “Vim para montar comércio e encontrei tudo parado. Tinha umas sete casinhas cobertas com telhas e o resto era tudo rancho, cerca de 500. Logo depois fiz amizades com Thomaz Estrada, Dr. José Francisco, Doca, Renan e Celeste”, contou. Entre os pioneiros que já viviam há um bom tempo na colônia, embora distantes do perímetro urbano, estavam João de Moraes, Jota, Biomiro, Família Palmiano e Pereira Diniz, Zé Pretinho, Emílio Dias e Henrique Palma.

Casa comercial ficava aberta até a noite

Houve um período tão crítico para o comércio local no final dos anos 1940 que Severino Colombelli pensou em ir embora. “Todos que vão para o sertão tem vontade de vencer na vida. No fim, eu quis voltar, mas ninguém queria comprar o que eu tinha”, admitiu o pioneiro. Já na década de 1950, o progresso de Paranavaí foi retomado. De acordo com Inez, a casa comercial dos Colombelli chegou a ter 11 funcionários.

“Vendíamos muito e a maioria dos fregueses trabalhavam na derrubada de mata. Me recordo do baiano, um freguês muito bom. Ele fazia uma lista de pedido, pagava e não pechinchava”, exemplificou. O fluxo de clientes era tão grande que a loja não tinha hora para fechar. Às vezes, o atendimento passava das 20h porque alguns fregueses faziam compras logo após a procissão.

Não eram raros os dias em que os Colombelli tinham de abrir a loja de madrugada para vender cobertores, pregos e outros produtos úteis àqueles que iam para a mata. “O pioneiro Garbin Neves aparecia aqui de madrugada atrás de cobertor. Muita gente vinha fazer compras à noite. Paranavaí foi muito boa pra nós”, ressaltou Inez Colombelli.

Sem velar a nostalgia, a comerciante se emocionou em lembrar o período em que não era preciso se preocupar com segurança. “O alfaiate Gentini ia fazer refeição na casa do Herculano e deixava toda a alfaiataria aberta. Ninguém se preocupava em fechar as casas porque todo mundo era de confiança”, salientou. A violência começou a ganhar mais destaque entre os anos de 1950 e 1953, quando houve muitos conflitos que terminaram em assassinatos. “Uma vez no Hotel Real mataram três de uma vez”, enfatizou Severino Colombelli.

Saiba Mais

Conforme palavras do pioneiro Severino Colombelli, as autoridades em Paranavaí eram o Sargento Marcelino, o administrador Hugo Doubek e o Capitão Telmo Ribeiro.

Curiosidade

Severino Colombelli nasceu em 4 de setembro de 1915 em São Sebastião do Caí, Região Metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

O sonho de Carlos Faber

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Fundador da Casa Faber acreditou no progresso de Paranavaí

Faber chegou a Paranavaí em 1944 (Foto: Reprodução)

Em 1944, o pioneiro catarinense Carlos Faber, de origem alemã, cruzou a mata primitiva do Noroeste Paranaense para abrir uma das primeiras casas de comércio de Paranavaí. Embora viveu aqui inúmeras dificuldades, o fundador da Casa Faber resistiu a tudo por acreditar em um sonho, o progresso da cidade.

Apostar na evolução de um povoado que se resumia a algumas casinhas e ranchos nos anos 1940 não era tarefa para qualquer um. No entanto, o catarinense Carlos Faber, à época com 54 anos, vislumbrou o desenvolvimento de Paranavaí. Antes de falecer, em 30 de junho de 1993, aos 103 anos, Faber ainda encheu os pulmões de ar e disse: “Paranavaí é uma cidade muito boa e bonita. Tenho certeza que vai crescer mais ainda.” Para entender o amor do catarinense por Paranavaí é preciso conhecer a história do pioneiro.

Carlos Faber nasceu em Tubarão, interior de Santa Catarina, em 30 de maio de 1890. Na juventude, empreendeu muitas viagens pelo sertão catarinense e interior do Rio Grande do Sul. Perdeu as contas de quantas vezes cruzou mares a bordo de uma canoa, obstinado em conhecer as novas cidades que se formavam. O pioneiro se mudou para o Norte do Paraná ainda jovem e fixou residência na Gleba Roland, hoje Rolândia, no Norte Central Paranaense. Lá, abriu uma casa de comércio que ele mesmo abastecia. Saía à noite ou de madrugada a pé para buscar mercadorias em Londrina. Voltando para casa, atravessava a mata carregando mais de 40 quilos de produtos nas costas.

Aos 54 anos, em 1944, Carlos Faber ainda ostentava o mesmo espírito de aventureiro da mocidade. Foi colocado à prova em Londrina quando conheceu o jovem agrimensor Ulisses Faria Bandeira que lhe falou sobre a Fazenda Brasileira, atual Paranavaí. “Resolvi me aventurar pelo mato cortado por umas picadinhas”, comentou em entrevista ao jornalista Saul Bogoni décadas atrás.

A viagem à Brasileira durou cinco dias, parte do trajeto foi percorrido a pé e o restante a bordo de uma velha jardineira da Viação Garcia que trazia mais duas pessoas. O ônibus fazia o trajeto uma vez por semana. “Em Maringá, dormi num rancho de palmito. Lembro que perto tinha duas casas velhas. Maringá era praticamente isso”, frisou o catarinense.

A surpresa veio depois com os estreitos picadões quase engolidos pela mata virgem. O motorista da jardineira tinha de desviar da vegetação que insistia em cobrir a estrada, fora os galhos que quase atravessavam as janelas do ônibus. “Lembro que a picadinha era tão fechada que para todos os lados se via onça, veado, cateto e passarinhos de todas as espécies”, afirmou Faber que em Paranavaí se deparou com um universo de mato bruto, antigos cafezais e ranchos velhos. Um era de propriedade do pioneiro Sebastião Freitas.

Casa de Secos e Molhados que o comerciante abriu em 1944 (Foto: Reprodução)

Dias depois, o comerciante voltou para Rolândia e relatou a mulher, Hulda Faber, tudo que viu. “Ela concordou em experimentar o lugar, então viemos de mudança e deixamos os filhos lá”, revelou. A viagem, dessa vez de caminhão, durou dois dias e meio, pois o solo arenoso fazia o veículo atolar com facilidade, obrigando o catarinense a ajudar o motorista a empurrá-lo.

Em Paranavaí, o casal foi muito bem recebido pelo administrador da colônia, Hugo Doubek. “Quando cheguei percebi que não tinha lei, e só duas famílias de colonos viviam aqui, os outros moravam nas redondezas”, salientou o pioneiro que em 18 de junho de 1944 abriu uma casa de comércio.

A amizade com o Capitão Telmo Ribeiro

A Casa Catarinense, que mais tarde recebeu o nome de Casa Faber, se situava onde é hoje o Banco do Brasil. Era um comércio de Secos e Molhados, onde Carlos Faber comercializava tecidos, cereais, ferragens e muitos outros produtos. “Meus primeiros clientes foram Heitor Barreiro, Telmo Ribeiro e Vendolino Schueroff. Depois, vendi bastante pro pessoal do Governo do Estado que abria os picadões”, disse o homem que chegou à colônia com um capital de 300 mil réis.

Logo a Casa Faber se tornou referência comercial na Colônia Paranavaí. Pioneiros se recordam que toda a população do Distrito de Graciosa se deslocava até o comércio do catarinense para comprar tecidos. “Antes eu saía pouco da loja porque de 1944 a 1946 houve muitos tiroteios que acabaram em mortes”, disse Faber que em 1949 pensou em deixar Paranavaí quando soube do progresso de Maringá e Londrina.

Casa Catarinense (depois Casa Faber), onde é hoje o Banco do Brasil (Foto: Reprodução)

De acordo com o pioneiro, o comércio estava falido, pois a população local parou de crescer. Além disso, os ônibus chegavam a Paranavaí no máximo três vezes por mês. “Isso aconteceu porque a estrada era muito ruim”, assinalou. Para piorar, naquele tempo a maleita foi a doença que mais atingiu a comunidade. Como não havia farmácia, os moradores buscavam remédios no escritório do administrador da colônia, Hugo Doubek.

Apesar do período de descrença, Carlos Faber resistiu às dificuldades motivado por um sonho. Acreditou no progresso local enquanto muitos, já desiludidos, partiram de Paranavaí. “Outros comerciantes também acreditaram, como João Machado, José de Oliveira, João de Barros e Severino Colombelli. Tudo isso quando as ruas eram abertas a mão, no machado”, ressaltou.

O pioneiro catarinense era amigo de um dos homens mais controversos da história local, o Capitão Telmo Ribeiro. Carlos Faber o considerava um bom homem, com o qual sempre podia contar. “Costumava me oferecer ajuda, mas nunca precisei”, justificou. Aos domingos, o comerciante e o filho Henrique iam até a residência de Telmo Ribeiro, onde passavam a tarde toda conversando. “Ele também aparecia em minha casa para tomar chimarrão”, complementou.

Saiba Mais

Em 1995, o vereador Nivaldo Mazzin criou o Projeto de Lei 59 que deu a uma via de Paranavaí o nome de Carlos Faber em homenagem ao pioneiro. Vale lembrar também que o catarinense recebeu o título de Cidadão Honorário de Paranavaí.

Carlos e Hulda Faber tiveram nove filhos: Henrique, Érico, Carlos Frederico, Frida, Guerta, Adélia, Erna, Hilda e Marta.

Curiosidade

Carlos Faber construiu a primeira casa de alvenaria de Paranavaí, em frente à Praça Dr. Sinval Reis, conhecida como Praça da Xícara.

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O pioneirismo de um curitibano

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Aldo Silva viabilizou a construção do Cemitério Municipal de Paranavaí

Aldo Silva (o segundo da esquerda para a direita) se mudou para Paranavaí em 1948 (Acervo: Casa da Cultura)

O advogado Aldo Silva que chegou a Paranavaí nos anos 1940, além de atuar na promotoria pública, se elegeu vereador por quatro mandatos consecutivos. Como presidente da Câmara Municipal foi o responsável pela viabilização da construção do Cemitério Municipal.

O curitibano Aldo Silva se mudou para Paranavaí em 20 de maio de 1948. Com 34 anos, terminava o mandato como deputado estadual. “Quando cheguei à colônia havia cerca de 300 moradores. Me hospedei na pensão de Artur de Melo, perto da hospedaria do “Seu Rodrigo” [Rodrigo Ayres de Oliveira]. Passei uma noite horrível porque estava muito frio e o vento entrava pelas frestas na parede de pau-a-pique”, relatou Silva.

Em Paranavaí, Silva logo conheceu diversos personagens que fazem parte do pioneirismo local, como Rodrigo Ayres de Oliveira, Família Palmiano, Zé Peão, José Cândido de Freitas, Manoel Paulino e Ulisses Faria Bandeira. “Este último veio pra cá ainda muito menino”, comentou o advogado que foi transferido a Paranavaí para exercer a função de promotor de justiça, cargo que lhe rendeu boa popularidade, além de estar sempre em contato com a política local.

Não são poucos os que apontam Aldo Silva como uma das pessoas mais influentes da história de Paranavaí. Ainda assim, o advogado jamais se considerou pioneiro. “Não fui um dos desbravadores, mas sim um dos primeiros que vieram para cá quando aqui passou realmente a existir como Paranavaí. Foi um tempo de afluxo muito grande de gente”, destacou, acrescentando que pessoas de vários países e de todos os estados do Brasil fixavam residência na colônia.

Em 1952, Aldo Silva foi eleito vereador e no ano seguinte assumiu como presidente da Câmara Municipal. No dia 16 de novembro de 1953, assinou um decreto que viabilizou a construção do Cemitério Municipal. O bom trabalho desempenhado pelo advogado lhe rendeu a reeleição. Em 1956, o candidato do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) se elegeu com 727 votos. E não parou por aí. Aldo Silva garantiu uma vaga na Câmara de Vereadores até 1968. Foram 16 anos dedicados à política municipal.

As curiosidades do passado

Entre os fatos mais curiosos lembrados pelo pioneiro Aldo Silva está um que envolve o primeiro prédio da administração pública. “O local onde funciona hoje a Prefeitura de Paranavaí já era usado com essa finalidade naquela época, a diferença é que era maior e abrigava todos os serviços públicos, inclusive estaduais”, frisou Aldo Silva, acrescentando que antes o espaço servia como hospedaria.

O vereador conheceu o primeiro advogado de Paranavaí, Dalio Zippin Grinspun, de origem polonesa, que anos depois se mudou para Curitiba. “Era um sujeito que dormia de dia e de noite, em pé, sentado, até conversando com a gente”, disse. Outra personalidade da história local com quem o vereador teve bastante contato foi Oscarlino Carvalho Duarte, apontado como o pioneiro que desbravou a região de Santa Isabel do Ivaí. “Ele foi o primeiro a ter geladeira, fogão, automóvel de luxo e também a construir um sobrado em Paranavaí”, revelou o advogado que em suas viagens pelo Noroeste do Paraná se deparou com fatos inimagináveis.

Nas imediações do Rio Paranapanema, Aldo Silva teve a oportunidade de conhecer o “Ranchão de Zinco”, um local que nos anos 1940 e 1950 ficou conhecido como “cemitério de veículos”. “Lá, havia muitos caminhões e automóveis deteriorados que foram abandonados. Os que vieram pra cá no início, sempre passavam pelo Paranapanema”, justificou. Segundo pioneiros, era comum os migrantes abandonarem veículos nas estradas e jamais retornarem para buscar, então surgiu a iniciativa de remanejá-los para uma área que depois recebeu o nome de “Ranchão de Zinco”. No local, o que surpreendia é que havia automóveis e jipes com a lataria em ótimo estado de conservação.

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O curitibano Aldo Silva nasceu em 1914 e faleceu no dia 7 de junho de 1977 em Paranavaí.

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O agrimensor que se elegeu prefeito

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Ulisses Faria Bandeira venceu a eleição municipal de 1956

Bandeira se mudou para Paranavaí em 1944 (Foto: Reprodução)

O agrimensor Ulisses Faria Bandeira conheceu Paranavaí, no Noroeste do Paraná, em 1939, mas fixou residência alguns anos depois. Foi o primeiro morador a se casar na colônia. Em 1956, se elegeu prefeito e viveu em Paranavaí até os últimos dias de vida.

Ulisses Faria, que nasceu em São Mateus do Sul, no Sudeste Paranaense, se mudou para Londrina aos 17 anos, em 1938, após aceitar um convite do tio Francisco de Almeida Faria para trabalhar na 4ª Inspetoria de Terras do Estado do Paraná.

Bandeira se dedicou muito ao trabalho e logo se tornou o braço direito de Francisco de Almeida, diretor da inspetoria. O ofício, Ulisses aprendeu rápido, e em 1939 foi um dos ilustres convidados a participar da viagem de inauguração da linha Londrina-Fazenda Brasileira, da Viação Garcia.

Em 1942, aos 21 anos, Bandeira retornou à Brasileira, encarregado de demarcar algumas vias. Ao final do trabalho, o agrimensor voltou para Londrina. A oportunidade para fixar residência na futura Paranavaí surgiu em 1944, quando Ulisses Faria assumiu o cargo de diretor da Inspetoria de Terras do Estado, escritório regional de Paranavaí.

Bandeira definitivamente adotou a Brasileira como lar, tanto que em 11 de maio de 1949 se casou com uma moradora local, Balbina Guilherme de Aguiar. Foi o primeiro casamento de Paranavaí. “Naquele tempo, uma das maiores colônias que havia na Brasileira era a Colônia Nº 2, onde é hoje o Jardim Ouro Branco”, relatou Ulisses Faria ao jornalista Saul Bogoni há algumas décadas.

Ex-prefeito era jogador do Atlético Clube Paranavaí (ACP) (Foto: Reprodução)

Quando questionado sobre os primeiros pioneiros de Paranavaí, o agrimensor sempre citava a Família Fabrício, José Firmino, Frutuoso Joaquim de Salles, João Clariano e Telmo Ribeiro. “Todos esses eram da época da [Companhia Brasileira de Viação e Comércio] Braviaco”, garantiu o pioneiro.

O prestígio do inspetor de terras junto à população era tão grande que Bandeira foi estimulado a disputar as eleições municipais de 18 de novembro de 1956, concorrendo ao cargo de prefeito. Obteve 4071 votos contra 4029 de Herculano Rubim Toledo. “Foi uma campanha pesada e acirrada”, admitiu.

O agrimensor foi o segundo prefeito de Paranavaí, sucedendo o médico José Vaz de Carvalho. Naquele ano, assumiram como vereadores Aldo Silva, Francisco Rodrigues Ruiz, Gustavo Marques de Oliveira, José Vaz de Carvalho, José de Souza Leite, José Vendolino Schueroff, Minoru Imoto, Nelson Busato dos Santos, Osvaldo Madalozzo e Vivaldo Oliveira. Aldo, Gustavo, José de Souza e Vivaldo já ocupavam cargo na Câmara Municipal, pois foram eleitos em 1952.

Ulisses Faria Bandeira conquistou muita popularidade pelo hábito de interagir com os moradores, principalmente nos finais de semana quando participava de partidas de futebol no antigo Estádio Natal Francisco, localizado onde é hoje a Praça dos Pioneiros. “Joguei de ponta-direita no Atlético Clube Paranavaí (ACP). Eu não era um bom jogador, apenas razoável”, revelou Bandeira que viveu em Paranavaí até os últimos dias de vida.

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Ulisses Faria Bandeira nasceu em 24 de março de 1921.

Demarcação da Brasileira foi feita a pé

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Primeiras vias de Paranavaí foram demarcadas em 1942

Aos poucos, a colônia ganhou contornos de cidade (Acervo: Fundação Cultural)

Quem vê hoje as ruas, avenidas e estradas de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, nem imagina que toda a área foi demarcada a pé, sem auxílio de qualquer meio de transporte. Tudo começou no início dos anos 1940, quando a colônia ainda era conhecida como Fazenda Brasileira.

Em 1942, Ulisses Faria Bandeira, funcionário da Inspetoria de Terras do Governo do Paraná, dirigida por Francisco de Almeida Faria, foi transferido de Londrina à Fazenda Brasileira para demarcar a primeira via da colônia, a Avenida Paraná. O trabalho de Bandeira teve relação direta com a chegada de migrantes.

Aparentemente, a demarcação simbolizava o interesse do Governo do Paraná em investir no desenvolvimento do povoado, o que atrairia a atenção dos migrantes que por aqui passavam. A estratégia deu certo e em setembro de 1943 muitas pessoas chegaram ao povoado.

Naquele tempo, atrair quem buscava melhores condições de vida era uma tarefa complicada, pois o acesso a Paranavaí era tão precário que nenhum caminhoneiro de Londrina [cidade por onde passavam os muitos migrantes que vieram para cá] aceitava realizar um frete até a Brasileira por menos de 1,5 mil cruzeiros, preço muito elevado se comparado a outros destinos.

Ainda assim, muitos insistiam na viagem, pagavam o que fosse para chegar ao povoado do qual se ouvia falar muito bem em Londrina. Mas como a propaganda sempre supera a realidade, a verdade é que a Brasileira era bem desorganizada, se resumia a um amontoado de pessoas de diferentes etnias dispersas por todos os lados. “Quando cheguei aqui só a Gleba 1-A tinha sido demarcada, um trabalho do engenheiro Alberto Gineste”, lembrou o pioneiro Ulisses Faria Bandeira.

Hugo Doubek: “Toda a demarcação foi feita sem condução” (Acervo: Fundação Cultural)

Em 1942, já não havia mais casas disponíveis. As que restaram da época do Distrito de Montoya [nome de Paranavaí até 1930] foram desmanchadas e realocadas em outras áreas. Por muitas vezes, os colonos pensaram em ir para o mato derrubar árvores para aproveitar a madeira. Porém, ninguém na colônia tinha equipamento e veículo necessário para o serviço. “A madeira ainda era trazida de Marialva [no Norte Central Paranaense], então sugeri a construção de uma serraria”, relatou Bandeira.

“Só achei os primeiros colonos a vinte quilômetros”

Aos poucos, a Fazenda Brasileira ganhou contornos de cidade, graças ao empenho do inspetor Ulisses Faria e do administrador da colônia, Hugo Doubek, que fizeram o trabalho de demarcação territorial a pé, tendo como referência a localização de todos os moradores do povoado. “Recebi a ordem para achar toda aquela gente, obedecendo certa metragem que margeava córregos e rios. Foi tudo feito sem condução, e só achei os primeiros colonos a vinte quilômetros da Inspetoria de Terras”, destacou Doubek.

Em 1944, a Gleba 1-A, ocupada principalmente por paulistas, mineiros, cearenses e pernambucanos, já somava 30 quilômetros de estrada que a ligavam a Paranavaí. Em uma antiga entrevista ao jornalista Saul Bogoni, Bandeira revelou que havia inúmeras colônias em Paranavaí porque muitos pioneiros chegaram antes de 1940, o que foi percebido somente durante o trabalho de campo.

A Gleba 2 foi a única área da Brasileira não demarcada por Doubek e Bandeira. Quem se encarregou do trabalho em janeiro de 1944 foram os engenheiros Artur Oliva e Lota Chimoca que percorreram área superior a 15 mil alqueires, onde ainda havia muita vegetação primitiva. “A Gleba 2 tinha como ponto de partida a estrada que vai para o Porto São José”, salientou Ulisses Faria que naquele ano tomou a iniciativa de investir no abastecimento de água. Bandeira conseguiu uma bomba com motor a gás para fazer a captação. A ideia beneficiou mais de cem famílias.

Curiosidade

Um registro de propriedade da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco) prova que Paranavaí já era habitada em 1910, à época a região era chamada de “Pirapó”.

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Charretes se destacavam na década de 1950

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Meio de transporte era muito usado pela população de Paranavaí

Charretes circulavam principalmente pelas regiões do Ponto Azul e Zona do Baixo Meretrício (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Nos anos 1950, o meio de transporte mais usado pela população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, era a charrete. O serviço que tinha um custo baixo ficava disponível o dia todo em três pontos da cidade. Pioneiro lembra que os charreteiros tomavam conta de todas as ruas numa época em que os automóveis eram acessíveis a poucos.

As charretes surgiram em Paranavaí na década de 1940, mas se popularizaram em 1950, quando houve um bom crescimento populacional registrado a partir de 1948. Com o aumento do número de moradores, surgiu a necessidade de um serviço de meio de transporte que facilitasse a vida em comunidade. “Foi aí que alguns migrantes tiveram a ideia de trabalhar como charreteiros. Quase ninguém tinha carro, e como tudo ainda era longe, já que nem todo mundo tinha condições de morar na região central, o jeito era pagar pelo serviço de charrete”, relatou o pioneiro cearense João Mariano, acrescentando que o preço de uma “corrida” era acessível.

Por volta de 1955, havia em Paranavaí mais de 80 charreteiros que se dividiam em três localidades: Ponto Azul, Avenida Paraná e Zona do Baixo Meretrício, quase em frente à Boate da Cigana [onde se situam os prédios Catuay e Guarapari]. Muitos dos pioneiros que atuavam no ramo eram ex-peões que trabalharam na abertura de estradas e derrubada de mata.

Aqueles que não deram certo como comerciantes e produtores rurais também usavam cavalos e bois para outra finalidade. “O serviço de peão era pesado e sofrido, então acontecia do sujeito guardar um dinheirinho, comprar um cavalinho, uma carroça velha, mandar reformar e transformar em charrete”, explicou Mariano. Outros compravam madeiras, procuravam materiais que podiam ser aproveitados e a construíam por conta própria.

Os charreteiros eram contratados principalmente para levar passageiros ao Ponto Azul e ao Aeroporto Edu Chaves [atual Colégio Estadual de Paranavaí (CEP)], além de transportar pessoas até a Zona do Baixo Meretrício. “Uma charrete chegava a fazer até dezenas de viagens num dia. Tinha época que tinha muito serviço, mas de vez em quando diminuía um pouco por causa de alguma crise agrícola”, relatou o pioneiro, acrescentando que o modelo da carroça variava conforme a situação financeira do carroceiro.

Enquanto algumas ofereciam o mínimo de conforto, como um assento estofado, muitas eram mais simples, com bancos de madeira. “Numa corrida curta quase ninguém se importava com isso, mas se o trajeto fosse um pouco mais longo ficava desconfortável. Tinha peão que chegava a descer da carroça com o corpo duro”, brincou João Mariano que nunca se esqueceu das muitas oportunidades em que viu as ruas da cidade tomadas por dezenas de charretes.

Segundo o pioneiro, estranho era o som de um motor em meio a tantos animais trotando, galopando e relinchando. “Quando fazia muito calor, e no fim da tarde os charreteiros voltavam pro ponto, às vezes traziam um vento que levantava a poeira das ruas de chão batido. O céu avermelhava enquanto o solo arenoso as donas de casa castigava, sujando toda a roupa do varal, mas fazer o que se era mais um dia de trabalho normal?”, poetizou João Mariano.