David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for November, 2012

O inigualável Farinelli

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Filme de Corbiau conta a história do maior cantor castrato de todos os tempos

Farinelli

Farinelli é interpretado pelo italiano Stefano Dionisi (Foto: Reprodução)

Farinelli, Il Castrato, do cineasta belga Gérard Corbiau, é um filme de 1994 sobre a trajetória do cantor castrato italiano Carlo Broschi, mais conhecido como Farinelli, que na fase adulta conquistou uma tessitura de voz inigualável, jamais alcançada por outro cantor de ópera. Especula-se que Farinelli cantava até 250 notas mantendo o mesmo fôlego.

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Especula-se que o italiano cantava até 250 notas mantendo o mesmo fôlego (Foto: Reprodução)

A obra de Corbiau evita clichês, não trata apenas da glória, fama e riqueza gerada por um dom genial. Vai muito além, transferindo o espectador para um universo barroco de sofrimento, desprezo e expiação. Farinelli (Stefano Dionisi) poderia ser comparado a um semideus pela voz angelical de soprano. Ainda assim, era tão humano quanto qualquer um, com falhas e fraquezas. É justamente aí que subsiste todo o preciosismo da obra do cineasta belga que não se limita apenas a relatar a história de Farinelli, mas também cria inúmeras controvérsias sobre o passado pouco conhecido do cantor.

Carlo Broschi, assim como milhares de garotos europeus pobres, foi castrado na infância para então receber educação musical de qualidade; uma realidade bárbara e incentivada pela Igreja Católica no período barroco. A instituição religiosa era quem mais absorvia os cantores castrati em seus coros, pois precisava de vozes agudas e não permitia o ingresso de mulheres.

O filme mostra também como Farinelli, embora plebeu, foi revolucionário, fazendo a nobreza inclinar-se diante de si; um fato mais tarde contraposto a outro – o desprezo aos cantores castrati que ao perderem força junto à arte europeia passaram a ser vistos como “meio homens” na ótica social da época. No mais, Farinelli é uma metáfora do trinômio céu, limbo e inferno que tem ao fundo temas musicais inesquecíveis de Porpora, Pergolesi, Hasse e o emblemático Händel.

O santo egoísmo

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Viridiana e a personificação da crítica de Buñuel ao catolicismo

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Dom Jaime tenta ter uma relação incestuosa com a sobrinha noviça (Foto: Reprodução)

Lançado em 1961, Viridiana, do cineasta espanhol Luis Buñuel, é um filme de crítica social e religiosa que revela o egoísmo de uma noviça que, na esperança de alcançar a redenção, oferece abrigo e fartura a um grupo de mendigos.

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Cena dos mendigos em paródia de “A Última Ceia” (Foto: Reprodução)

A personagem Viridiana (Silvia Pinal) que empresta nome ao filme é a personificação da crítica de Buñuel ao catolicismo. Na obra, Dom Jaime (Fernando Rey) tenta ter uma relação incestuosa com a sobrinha noviça. Em uma noite, ciente de que a moça não o aceitaria, pede ajuda a empregada Ramona (Margarita Lozano) para colocar sonífero na bebida da sobrinha. Consumado o plano, Dom Jaime pensa em estuprá-la, mas desiste da ideia.

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No filme, os andarilhos não se reconhecem como semelhantes (Foto: Reprodução)

No dia seguinte, diz para Viridiana que ela não pode voltar ao convento porque ele tirou-lhe a virgindade. Por meio da perversão, a cena evoca uma crítica sagaz ao comportamento da burguesia espanhola. Perturbada, a noviça decide partir, então Dom Jaime conta a verdade. Ainda assim, a moça se recusa a continuar na residência. Retorna somente quando está prestes a deixar a cidade e recebe a notícia de que o tio cometeu suicídio por enforcamento.

Em ato de expiação, Viridiana se muda para a mansão, onde busca a redenção oferecendo abrigo e fartura a um grupo de mendigos. Luis Buñuel mostra uma contraditória faceta do catolicismo ao apresentar a conduta de Viridiana como uma falsa abnegação. Certo dia, quando a moça sai e deixa a propriedade sob os cuidados dos andarilhos, eles invadem a casa principal e preparam um banquete. A memorável cena dos mendigos em torno da mesa é uma corrosiva paródia da pintura “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci.

O clímax da violência estética do clássico de Buñuel surge no momento em que um mendigo tenta estuprar Viridiana. Impossibilitado de ajudá-la, o primo Jorge (Francisco Rabal) evita o pior oferecendo dinheiro a outro andarilho. Este mata o companheiro, e assim o cineasta corrobora a ideia de que abaixo da linha de pobreza a força do capitalismo também se sobrepõe de forma virulenta ao humanismo e à religiosidade.

Na história, os andarilhos, entregues a uma condição de vida primitiva, são incapazes de agregar valor a qualquer coisa imaterial; não se reconhecem como semelhantes e vivem em um universo onde a hierarquia pode ser interpretada como a de uma cadeia predatória.

A essência pacifista de Tanović

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Terra de Ninguém mostra como a guerra é vazia em sentido

Filme gira em torno de um episódio da Guerra da Bósnia (Foto: Reprodução)

Ničija Zemlja, que no Brasil ganhou o nome de Terra de Ninguém, é um filme de 2001, do cineasta bósnio Danis Tanović. A obra que gira em torno de um episódio da Guerra da Bósnia foge do romantismo hollywoodiano e retrata com realismo o despropósito de um conflito sem heróis.

Tanović denuncia o desserviço dos meios de comunicação de massa (Foto: Reprodução)

A história se desenvolve a partir de dois inimigos naturais; o sérvio Nino (Rene Bitorajac) e o bósnio Ciki (Branko Djuric) que se perdem de seus agrupamentos e vão parar na “terra de ninguém” – uma área que não pertence a nenhuma das nações envolvidas na guerra e pode receber tanto uma investida militar dos sérvios quanto dos bósnios. O que torna a situação mais delicada é a presença do bósnio Cera (Filip Sovagovic) que depois de ferido foi colocado sobre uma mina por soldados sérvios.

O bósnio Ciki e o sérvio Nino, inimigos naturais (Foto: Reprodução)

Como o artefato é de fabricação estadunidense, há uma alusão à falta de empenho dos EUA pelo armistício, mesmo tendo o privilégio de ser a nação com maior apelo junto à Organização das Nações Unidas (ONU), além de símbolo da expansão ocidental. Enquanto a carnificina prossegue na “terra de ninguém”, Nino e Ciki firmam um pacto de mutualidade, iniciado com a tentativa de desativar a mina sobre a qual Cera repousa. O absurdo da situação cria uma atmosfera cômica; os protagonistas trocam favores e ao mesmo tempo tentam encontrar meios de se eliminarem.

Entre as cenas de destaque de Terra de Ninguém está uma em que o representante da ONU se empenha para negociar algumas medidas com o alto escalão, na esperança de tirar os dois soldados da zona de perigo. O pedido é negado. Tanović também denuncia o desserviço dos meios de comunicação de massa ao explorar o telejornalismo de mercado. No filme, uma repórter que sonha em ser famosa tenta gerar animosidade entre Nino e Ciki enquanto o idealista da ONU faz o possível para ajudá-los, mesmo sem o consentimento dos superiores. Em suma, Ničija Zemlja é um filme de caráter pacifista que explora o paradoxo da violência e mostra como a guerra é vazia em sentido.

A simplicidade como motivação existencial

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A Cor do Paraíso inspira emoção sem decair para o melodrama

Mesmo cego, Mohammad contempla as belezas do mundo (Foto: Reprodução)

Em 1999, o cineasta iraniano Majid Majidi lançou o filme Rang-e Khodã que chegou ao Brasil com o título A Cor do Paraíso. A obra, que inspira emoção sem decair para o melodrama, conta a história de um garoto cego que encontra nas pequenas coisas do cotidiano uma razão para viver.

Filme é protagonizado por Mohsen Ramezani (Foto: Reprodução)

Mohammad (Mohsen Ramezani) contempla as belezas do mundo e se sensibiliza com aquilo que passa despercebido pela maioria. Um exemplo é a sua reação diante da queda de um passarinho. O cineasta Majid Majidi explora o belo por meio de uma esplêndida fotografia. Em muitos momentos a câmera simboliza os sentidos e a idealização existencial de Mohammad. E mais, vai além da beleza física do cenário natural ao amplificar os sons da natureza e transportar o espectador para uma afiguração particular de paraíso.

No mesmo contexto está Hashem (Hossein Mahjoub), um pai tornado infeliz e melancólico que desde a morte da mulher encara o ato de cuidar do filho como uma penitência. A figura paterna, presa a um universo lúgubre e estático – o que é muito bem representado nas tomadas com a câmera parada, é fria e individualista; uma crua metáfora da hipocrisia em uma sociedade arbitrária. Exemplo é a decisão do personagem em se casar com uma jovem mulher e entregar o filho a um carpinteiro cego de quem o garoto deve tornar-se ajudante. Mohammad e o pai vivem realidades distintas que aos poucos se afunilam, tornando-se ainda mais conflitantes.

A princípio, Hashem se limita a assistir a alegria do filho em admirar a natureza. Mais tarde, a satisfação de Mohammad em contemplar o que não vê faz o pai sentir-se perturbado. Na história, uma das cenas mais tocantes, embora com certo caráter teológico, surge quando em um monólogo o pai questiona porque merecera um filho cego. Mais tarde, Mohammad se pergunta por qual razão fora castigado pela cegueira. As duas questões existenciais revelam certa sintonia quando pai e filho estão distantes.

O trauma espanhol

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Soldados de Salamina explora o obscurantismo da Guerra Civil Espanhola

Lola busca informações sobre o paradeiro do poeta Rafael Sánchez Mazas (Foto: Reprodução)

 O filme Soldados de Salamina, idealizado pelo cineasta espanhol David Trueba e lançado em 2003, explora o obscurantismo da Guerra Civil Espanhola partindo da suposta execução do escritor e falangista Rafael Sánchez Mazas.

A protagonista da obra é a escritora em crise Lola Cercas (Ariadna Gil) que decide se aprofundar em uma pesquisa in loco sobre a Guerra Civil Espanhola. O ponto de partida é a ordem de execução do poeta Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange Espanhola, grupo paramilitar que se aliou ao ditador Francisco Franco em 1936. Decidida a descobrir como Mazas sobreviveu, Lola viaja em busca de personagens que participaram do evento.

Cena antológica do soldado dançando com um rifle ao som de Suspiros de España (Foto: Reprodução)

Enquanto Lola é uma personagem alheia a própria história, inclusive se entrega a pesquisa como razão existencial, o seu estado de vulnerabilidade é uma simbologia da Espanha da época; confusa e controversa, principalmente com relação aos elementos históricos da Guerra Civil Espanhola ocultados por conveniência política. No decorrer do filme, Lola constrói uma outra identidade de si mesma conforme encontra novas informações sobre o episódio da execução de Rafael Sánchez.

O cineasta David Trueba deixa evidente na trama a importância da memória histórica para a preservação da identidade de um país, tanto que a personagem principal só consegue reconstituir importantes fatos da Guerra Civil Espanhola a partir da oralidade, pois não havia muitas provas materiais do que aconteceu com Mazas. O filme oferece poucas respostas, mas faz muitas perguntas e termina de uma maneira que impele o espectador a refletir sobre o assunto enquanto a folclórica canção “Suspiros de España”, de Antonio Álvarez Alonso, ainda ecoa.

Sobre a estética cinematográfica, os destaques são a quebra de linearidade, estruturada a partir de flashbacks, e a fotografia sobre a qual incide pouca luminosidade dando a ideia do quão a Guerra Civil Espanhola é um trauma histórico obscuro; um acontecimento com riqueza de detalhes desconhecidos pela população.

A vida de Sabina Spielrein

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Jornada da Alma narra a história da russa que se apaixonou por Carl Jung

Filme mostra Sabina como influência para Jung e Freud (Foto: Reprodução)

Prendimi l’anima,  lançado no Brasil como Jornada da Alma, é um filme de 2002, do cineasta italiano Roberto Faenza. Baseada na psicanálise, a obra conta a história de Sabina Spielrein, paciente com quem Carl Jung, o fundador da psicologia analítica, teve um relacionamento.

Em Jornada da Alma, Sabina Spielrein (Emilia Fox) é uma jovem russa entregue pelos pais a um hospital psiquiátrico em Zurique, na Suíça, onde a terapia de choque até então era o único método de tratamento. Nesse contexto, Sabina conhece o médico Carl Jung (Iain Glen) que inspirado nas ideias revolucionárias de Freud coloca em prática o método da livre associação. A técnica consiste no paciente falar tudo que pensa enquanto o psiquiatra avalia anseios, receios, traumas e lembranças.

Russa revolucionou a educação infantil (Foto: Reprodução)

As primeiras experiências com Sabina são bem sucedidas. Mas o método que gera complacência e certa intimidade entre médico e paciente vai além do esperado. A jovem russa se apaixona por Carl Jung que propõe torná-la amiga de sua mulher. Crente de que tal pedido anularia sua existência, Sabina volta para a Rússia após se formar em medicina e se especializar em psicanálise. Fica claro no filme o peculiar caráter de revisão histórica ao destacar Sabina Spielrein como influência para Jung e Freud. E mais, mostra como a russa revolucionou a educação infantil ao fazer uso da psicanálise para potencializar qualidades individuais.

Uma das cenas mais impactantes do filme é o momento em que Sabina tenta suicídio após Jung se afastar temporariamente do hospital. A personagem deixa um testamento pedindo aos médicos que cremem seu corpo, mas conservem a cabeça para que Jung possa dissecá-la. Surpreso, o psiquiatra se entrega a Sabina sob o signo de uma metáfora; doa a ela um seixo que segundo ele representa a sua alma.

A beleza invisível aos olhos

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David Lynch mostra que um corpo deformado não anula as qualidades de um homem

Apesar da condição física, John Merrick é inteligente, sensível e gentil (Foto: Reprodução)

O Homem Elefante, do cineasta estadunidense David Lynch, é um filme de 1980 sobre a história de John Merrick (John Hurt), um jovem inglês com 90% do corpo deformado que mesmo vivendo sob a condição de aberração preserva grandes qualidades. Merrick vive sob a tutela do senhor Bytes (Freddie Jones) que explora a degradação física do personagem em um show de horrores. Constantemente violentado pelo tutor, só começa a reconhecer a própria existência como ser humano quando conhece o médico Frederick Treves (Anthony Hopkins). Sensibilizado com a situação, Treves consegue tirar Merrick do circo.

A degradação física de John representa muito mais do que o seu definhamento existencial. É um espelho da própria sociedade; como se cada pessoa que se assustasse com a feiura do rapaz confrontasse a si mesmo, seus defeitos e preconceitos. O cineasta David Lynch desmitifica também a ideia de que apenas pessoas de classes baixas se interessam pelo grotesco, o que é provado se compararmos duas cenas. Em uma, John Merrick é atração para um grupo de bêbados. Já em outra, é o novo entretenimento da aristocracia.

David Lynch mostra que a decadência humana independe de classe (Foto: Reprodução)

Os burgueses camuflam a curiosidade pelo mórbido agindo como se tivessem real interesse pela saúde do rapaz. Dessa maneira, independente de classe social, todos compõem o espectro da decadência humana. No início do filme, é possível crer que o cineasta apresenta uma história maniqueísta, com pessoas boas e más. Porém, aos poucos tal ideia desvanece e Lynch mostra que no fundo todos são seres humanos, guiados por interesses, seguros e inseguros, e conscientes e inconscientes de suas intenções. O momento em que o médico questiona a própria conduta, comparando-se ao cruel senhor Bytes, é um exemplo de como a culpa surge a partir de critérios subjetivos.

Se nas primeiras cenas é perceptível a influência do cinema expressionista alemão, principalmente nos momentos em que há distorções envolvendo cenários e personagens, em uma tentativa de ressaltar o caótico e aberrante, tudo parece mudar quando o cineasta David Lynch propõe uma viagem pelo interior de John Merrick. Gradativamente o espectador sente empatia pelo horripilante protagonista. Merrick é dotado de uma beleza interior que se contrapõe à aparência: é inteligente, sensível e gentil.

Fragilidade e romantismo na Europa Oriental

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Transylvania apresenta o belo retrato de uma Romênia multicultural e dispersa no tempo

Filme transmite o conceito multicultural e harmonioso do povo da Transilvânia (Foto: Reprodução)

Transylvania, do cineasta franco-argelino Tony Gatlif, é uma viagem pelo multiculturalismo da Transilvânia, na Romênia, onde os povos parecem segregados da Europa moderna. A obra de 2006 conta a história de Zingarina (Asia Argento), uma jovem italiana que vive na França e decide viajar para Ardeal, acompanhada da amiga Marie (Amira Casar) e da guia romena Luminitsa (Alexandra Baujard). Zingarina procura o músico romeno Milan Agustin (Marco Castoldi) que a engravidou antes de ser deportado da França.

Asia Argento interpreta a apaixonada italiana Zingarina (Foto: Reprodução)

A personagem principal personifica a fragilidade humana perante as incertezas da vida. Exemplo é a cena em que é rejeitada por Agustin. E mais, Zingarina é o belo retrato de uma Europa ainda romântica e perdida no tempo, onde milhares de pessoas distantes da tecnologia se comprazem com a singela troca de calor humano num cenário de muita música e dança folclórica romena. A ótima cena em que Zingarina e as duas companheiras chegam a uma taberna mal iluminada, onde dezenas de pessoas vibram ao som cadenciado de violino, viola, baixo e cimbalom, ilustra isso.

Na taberna, onde os diálogos têm caráter de entrevista, o cineasta transmite o conceito multicultural e harmonioso do povo da Transilvânia. Em um mesmo local estão romenos, székelys, alemães, sérvios, eslovacos e romas. Até mesmo Zingarina é contagiada pelo nomadismo romeno. Quando decide acompanhar o picareta nômade Tchangalo (Birol Ünel), ela adota roupas de cigana.

Em algumas cenas, quando a música cede espaço ao silêncio, as tomadas são lentas. O que predomina é um vazio, tanto espacial quanto existencial. São momentos em que Gatlif explora o paradoxo da vida. A música então representa o movimento, o progresso e a evolução. Em contraponto, o silêncio simboliza dúvida, reflexão e resignação.

O incompreendido e seminal Truffaut

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Les quatre cents coups, uma autobiografia à François

Antoine Doinel, uma criança que se refugia em livros (Foto: Reprodução)

Les quatre cents coups, que no Brasil ganhou o título de Os Incompreendidos, é um filme de 1959, do surpreendente François Truffaut. Ícone da Nouvelle Vague, a obra mostra os conflitos vivenciados por uma criança dividida entre uma existência pueril, alimentada por sonhos, e uma contumaz e gélida realidade doméstica.

A obra de François Truffaut, subjetivamente autobiográfica, mostra as belezas e as dificuldades que volatilizam o universo de um garoto em constante conflito familiar. O protagonista, Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud, é uma criança que se refugia em livros para se sentir mais humana e mais viva, como se fizesse parte da casta dos literatos que tanto admira, entre eles o prolífico realista Honoré de Balzac.

Filme se tornou ícone da Nouvelle Vague (Foto: Reprodução)

Na história, o cineasta apresenta uma figura paterna impotente, fragilizada e subserviente. Em suma, às raias da insignificância. Já a materna, é alheia ao contexto familiar, rendida à superficialidade, egoísmo, egocentrismo e individualismo. No filme, François Truffaut rompe o paradigma de um mundo em que os pais vivem em função dos filhos, o que acidentalmente justifica o título brasileiro.

Para saturar a inexistência de qualquer distinção entre crianças e adultos, Truffaut mostra pais e professores conversando com seus filhos e alunos de forma igualitária, como se não houvesse distinção de faixa etária –  o que também remete ao clássico Zéro de conduite (Zero de Conduta), de Jean Vigo, assim como a cena antológica dos estudantes correndo pelas ruas de Paris. A natureza bucólica e espontânea das crianças ganha espaço apenas nos momentos em que estão sozinhas, oclusas em um universo de complacência e liberdade.

Les quatre cents coups é um grande marco do cinema francês e dignifica de modo seminal a estética cinematográfica de Truffaut, autor que jamais precisou apelar para o sentimentalismo ou recursos sofisticados para encantar os espectadores.

O lobo-guará e o Rio Paraná

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Rio Paraná, nascido pelo desejo do lobo-guará (Foto: Reprodução)

Um dia, o lobo-guará estava andando tranquilamente enquanto o sol brilhava sobre ele. “Eu gostaria de uma nuvem”, disse o lobo. E uma nuvem se formou sobre sua cabeça, fazendo um pouco de sombra. Ainda insatisfeito, o guará suplicou por mais nuvens, até que o céu começou a ficar tempestuoso. O calor continuou e o animal sugeriu: “Que tal um pouco de chuva?”

Logo as nuvens começaram a banhá-lo com a chuva. O lobo pediu mais e a chuva se tornou torrencial. “Eu gostaria de um córrego para colocar minhas patas”, comentou. Assim um riacho surgiu ao lado e o guará entrou para se refrescar. Cobrou mais profundidade e o riacho se transformou em um enorme rio que arrastou o lobo por suas águas.

Quando estava quase se afogando, o animal foi arremessado à margem. Ao acordar, os urubus o observavam sem se aproximar demais, na dúvida se o guará ainda respirava. “Eu não estou morto”, afirmou e se levantou rapidamente. Então as aves voaram e o deixaram em paz, ladeado pelo Rio Paraná.

Fonte: Meus avós. 

Written by David Arioch

November 22nd, 2012 at 12:53 am