David Arioch – Jornalismo Cultural

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O inigualável Farinelli

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Filme de Corbiau conta a história do maior cantor castrato de todos os tempos

Farinelli

Farinelli é interpretado pelo italiano Stefano Dionisi (Foto: Reprodução)

Farinelli, Il Castrato, do cineasta belga Gérard Corbiau, é um filme de 1994 sobre a trajetória do cantor castrato italiano Carlo Broschi, mais conhecido como Farinelli, que na fase adulta conquistou uma tessitura de voz inigualável, jamais alcançada por outro cantor de ópera. Especula-se que Farinelli cantava até 250 notas mantendo o mesmo fôlego.

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Especula-se que o italiano cantava até 250 notas mantendo o mesmo fôlego (Foto: Reprodução)

A obra de Corbiau evita clichês, não trata apenas da glória, fama e riqueza gerada por um dom genial. Vai muito além, transferindo o espectador para um universo barroco de sofrimento, desprezo e expiação. Farinelli (Stefano Dionisi) poderia ser comparado a um semideus pela voz angelical de soprano. Ainda assim, era tão humano quanto qualquer um, com falhas e fraquezas. É justamente aí que subsiste todo o preciosismo da obra do cineasta belga que não se limita apenas a relatar a história de Farinelli, mas também cria inúmeras controvérsias sobre o passado pouco conhecido do cantor.

Carlo Broschi, assim como milhares de garotos europeus pobres, foi castrado na infância para então receber educação musical de qualidade; uma realidade bárbara e incentivada pela Igreja Católica no período barroco. A instituição religiosa era quem mais absorvia os cantores castrati em seus coros, pois precisava de vozes agudas e não permitia o ingresso de mulheres.

O filme mostra também como Farinelli, embora plebeu, foi revolucionário, fazendo a nobreza inclinar-se diante de si; um fato mais tarde contraposto a outro – o desprezo aos cantores castrati que ao perderem força junto à arte europeia passaram a ser vistos como “meio homens” na ótica social da época. No mais, Farinelli é uma metáfora do trinômio céu, limbo e inferno que tem ao fundo temas musicais inesquecíveis de Porpora, Pergolesi, Hasse e o emblemático Händel.

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