David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for November, 2014

Um retrato do jovem poeta maldito

with 4 comments

Arthur Rimbaud faleceu em decorrência de um câncer em 10 de novembro de 1891

Rimbaud deixou um legado que ultrapassa gêneros e estilos (Imagem: Reprodução)

Rimbaud deixou um legado que ultrapassa gêneros e estilos (Imagem: Reprodução)

O poeta francês Arthur Rimbaud tinha apenas seis anos quando foi abandonado pelo pai. Criado pela mãe, uma mulher extremamente conservadora, cresceu revoltado. Na adolescência, encontrou na arte uma forma de lidar com suas insatisfações, inclusive o desprezo pela religião ortodoxa.

Durante a guerra franco-prussiana, Rimbaud fugiu de casa e passou um ano vivendo nas ruas como  andarilho. Existencialmente conflituoso, apaixonado e angustiado, viu na poesia um meio de materializar seus anseios, aflições e visões. Aos 17 anos, escreveu Le Bateau ivre, inspirado no livro “Vinte Mil Léguas Submarinas”, do escritor francês Júlio Verne.

O poema anexado a uma carta foi a maneira encontrada por Rimbaud para se apresentar ao poeta parisiense Paul Verlaine em setembro de 1871. Na obra, o rapaz usa uma farta narrativa recheada de simbolismo e descrições imagéticas.

No mesmo ano, iniciou uma conturbada relação amorosa com o poeta. O relacionamento alimentado com poemas por correspondência o motivou a se mudar para Paris. Com Verlaine, Rimbaud viajou duas vezes para Londres. Foram justamente essas experiências que o motivaram a escrever a célebre obra Une Saison en Enfer (Uma Estação no Inferno), referência do surrealismo e único trabalho publicado por iniciativa própria do autor.

Em 1872, durante um surto de desespero em Bruxelas, na Bélgica, Verlaine atirou no pulso de Rimbaud com uma pistola, principiando o fim do relacionamento. A ação custou a prisão do parisiense. Após dois anos na cadeia, Paul Verlaine se converteu ao catolicismo.

Com 20 anos, Rimbaud abandonou a poesia para tornar-se nômade na Europa e na África. Aceitava qualquer tipo de serviço que o permitisse sentir-se mais vivo. Foi comerciante, explorador e traficante de armas. Há quem diga que chegou a comprar e vender escravos.

Aos 37 anos, vítima de câncer, Arthur Rimbaud concordou em falar com dois padres pouco antes de morrer, mas até hoje não há prova alguma de que ele tenha se convertido ao catolicismo. “Por delicadeza, perdi a minha vida”, dizia o poeta que teve uma carreira meteórica com duração de três anos.

Rimbaud, com sua natureza contraventora, é até hoje apontado como um dos poucos poetas que conseguiram tornar-se referência não apenas em poesia, mas também em artes plásticas, música e cinema. E o mais interessante é que agrada até mesmo artistas de gêneros e estilos antagônicos.

Sua capacidade em unir o belo e o feio, transpassar o bem e o mal, dialogar com o bom e o mau e destrinchar a dualidade humana talvez seja a responsável por feito tão raro. Sem dúvida, Rimbaud se encaixava no conceito de espírito livre de que tanto falava o filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

November 11th, 2014 at 2:24 pm

Ivan & Rose fecha a trilogia Realidade da Periferia

without comments

Além da miséria extrema, o casal convive com graves problemas de saúde (Foto: David Arioch)

Além da miséria, o casal convive com graves problemas de saúde (Foto: David Arioch)

Lançado hoje no YouTube, o documentário Ivan & Rose fecha a trilogia da série Realidade da Periferia. O curta-metragem faz parte de um trabalho que iniciei no ano passado na Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

O filme aborda a história dos catadores de materiais recicláveis Ivan Martins e Rose Santos que vivem em um barraco construído há 20 anos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. No local, um ambiente escuro e pouco arejado, a mobília se resume a itens já deteriorados e retirados da sarjeta. Quando chove, é difícil se abrigar da água que invade o barraco, arrastando até a lama da rua e do quintal.

Além da situação de pobreza extrema, o casal é obrigado a lidar com graves problemas de saúde. Ivan, que já sofreu acidente vascular cerebral (AVC), infarto e convive com um enfisema pulmonar, só é capaz de se manter em pé quando se apoia sobre o carrinho que ele chama de “cadeira de rodas”.

Rose é epilética, tem labirintite e problemas severos na coluna vertebral. Quando é acometida por alguma crise, chega a ficar dias acamada. Apesar disso, o casal continua na luta, coletando recicláveis que garantem um lucro semanal de R$ 70. Enquanto Rose se responsabiliza pela coleta, Ivan guia o carrinho. “O papelão podia render pelo menos 25 centavos por quilo. Pra gente ter uma vida razoável, né?”, reclama Rose.

Ivan & Rose é um documentário cru, sem artificialismos, que integra uma trilogia que inclui os filmes Oficina do Tio Lú e Vila Alta.

“Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

without comments

Uma história de furto de milho com crianças de três e nove anos

Luiz Carlos: "Achei o preço bom, até porque crio aves e preciso de milho para alimentá-las”

Luiz Carlos se arrependeu de alimentar as galinhas com o milho comprado por R$ 15 (Foto: David Arioch)

Há pouco tempo, o artista plástico Luiz Carlos Prates, morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, estava trabalhando no atelier no fundo de casa quando ouviu alguém o chamando em frente ao portão. Foi ver quem era e se deparou com dois garotos sobre uma carroça cheia de sacos de milho. Um deles gritou: “Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

O artista perguntou o preço e o garoto respondeu que cada saco custava R$ 15. “Achei o preço bom, até porque crio animais e preciso de milho para alimentá-los”, explica. Satisfeito pelo bom negócio, Luiz Carlos ficou intrigado no dia seguinte quando os garotos retornaram oferecendo para a sua namorada, Lindinalva Silva Santos, que mora na casa ao lado, um saco de milho por R$ 5.

“Estranhei porque o preço mudou muito rápido de um dia pro outro. Não consegui ver lógica nisso, mas deixei passar”, comenta. No terceiro dia, os garotos apareceram novamente com uma carroça cheia de milho e ofereceram ao artista quatro sacos por R$ 15. “Depois dessa, não tive dúvida e falei pra eles: ‘Vocês tão furtando milho, né? De onde tá saindo todo esse milho que não acaba mais? Não adianta vir com conversa fiada, pode falar a verdade”, esbravejou Prates, preocupado com a procedência do cereal.

Os garotos entraram em conflito na hora de se justificar. Um falou que o milho foi repassado para revenda e o outro declarou que encontraram os sacos abandonados em uma mata não muito distante do bairro. “Sabia que era mentira porque conheço bem essa molecada. Pra você ter uma ideia, tinha tanto milho que eles ficaram uma semana vendendo. Repassaram o produto até pra outras pessoas comercializarem”, destaca.

Ao longo de sete dias, Luiz Carlos perdeu as contas de quantas carroças encontrou pelo bairro, guiadas por crianças que ofereciam sacos de milho para quem criava animais como galinhas, patos, porcos e cavalos. “Lá pra cima já ouvia a criançada gritando: “Olha o milho, olha o milho, olha o milho, baratinho, baratinho, baratinho”, relata.

Preocupado, o artista decidiu investigar a origem do produto. Descobriu que os dois garotos que lhe ofereceram o milho tinham invadido um depósito de cereais em uma fazenda nas imediações da Vila Alta. “O mais incrível é que eles tinham só nove anos. Fizeram um buraco na parede do depósito e a irmã de um deles, prestes a completar três anos, passou pela abertura e abriu uma das janelas para eles entrarem”, enfatiza. Enquanto furtavam o milho, a irmãzinha ficou na janela, à espreita, vendo se não aparecia ninguém.

Quando Luiz Carlos ainda não sabia a verdade, a garotinha viu o cereal na casa do artista e disse ao irmão: “Olha aqui, o tio Lú tem um saco de milho. A gente que pegou aquele dia, lembra? Igual aquele que você levou pra casa!” Evasivo, o garoto de nove anos retrucou: “Você tá enganada! Aquilo que levei pra casa era travesseiro, não era saco de milho não!”

Bravo com a situação e também por ter sido enganado, Luiz Carlos despejou todo o milho em um terreno baldio e reuniu todos os envolvidos na ação criminosa e na venda do produto. “Dei um sermão neles e expliquei que isso não se faz. É errado, é coisa de bandido”, lembra. Uma das ironias da história é que o milho despejado no terreno deu origem a um pequeno milharal abandonado que se desenvolveu sem qualquer cuidado ou supervisão.

Mais tarde, uma das crianças que articulou a invasão ao depósito contraiu sarna. Um dia, chegou até a casa do artista plástico com o corpo repleto por feridas. Sensibilizado, Luiz Carlos cuidou do garoto ao longo de uma semana. “Fui até a casa dele para conversar com a família. Me falaram que os pais dele tinham ido embora para uma Vila Rural. Quando expliquei para a avó que o caso do menino era grave, ela disse o seguinte: ‘Leva esse traste daqui. Pega ele pro senhor, não quero ele mesmo.’”

Surpreso, o artista foi informado que o garoto dormia fora de casa, no quintal, em companhia de diversos animais. Para convencer a criança a receber um tratamento diário à base de sal e limão, Luiz Carlos e a namorada, Lindinalva, prepararam lanches para alguns garotos do bairro a semana inteira. “É só oferecer comida que a criançada vem. Deu tudo certo e na semana seguinte ele sarou. Hoje o menino mora com os pais em uma Vila Rural”, revela o artista plástico.

Written by David Arioch

November 6th, 2014 at 6:50 pm

O dia em que Maria Norinha desafiou o patrão

without comments

Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha tinha 13 anos quando morava em uma colônia a pouco mais de 20 quilômetros da área urbana de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Na época, trabalhava nos cafezais de um dos fazendeiros mais ricos da região. “Comecei na roça com sete anos. Com o tempo percebi que ganhavam muito dinheiro explorando a gente”, relata.

Em um dia de 1969, a jovem foi ao centro de Paranavaí e se apaixonou por um sofá que viu em uma loja. A viagem de retorno para casa foi percorrida a pé, mas com satisfação. “Coloquei na minha cabeça que iria comprar aquele sofá”, conta sorrindo. Quando chegou em casa, um ambiente simples com chão de terra batida, e que nunca acomodou um sofá, explicou ao pai que iria comprar o móvel, mas o homem não concordou e afirmou que o patrão também não concordaria.

Maria Norinha conversou com o fazendeiro e pediu que ele fosse o avalista da compra, justificando que se dedicava à sua roça de café há seis anos. Ainda assim, o sujeito recusou. Obstinada, Norinha foi até o Centro de Paranavaí a pé e comprou o sofá. Na hora da negociação, o gerente da loja disse: “Mas você precisa que o seu patrão seja o avalista. Será que ele vai fazer isso?”

A jovem respondeu: “Ele vai ter que concordar. A gente trabalha pra ele há muito tempo e até hoje não temos sofá em casa.” No dia, os moradores da colônia assistiram a chegada do caminhãozinho que trazia sobre a carroceria um sofá marrom de quatro lugares, cuidadosamente embalado.

Em meio aos olhares curiosos, Norinha pediu que o motorista fosse direto para a casa principal da fazenda, onde vivia o patrão. Chegando lá, mostrou ao fazendeiro que a compra já tinha sido feita e pediu que ele assinasse um documento, assumindo o compromisso como avalista. “Ele hesitou, fez cara feia, mas acabou cedendo”, lembra.

Maria Norinha ficou feliz com a compra. O problema depois foi lidar com a incompreensão do pai e a retaliação do patrão. Por causa do sofá, o fazendeiro a tratou mal por pouco mais de dois meses. “Como nossa casa não tinha piso, eu forrava a base do sofá com plástico e todos os dias o limpava com um pano molhado”, comenta, acrescentando que pagou sozinha pelo produto. O pagamento foi parcelado em 24 meses.

Naquele tempo, sofá era considerado um artigo de luxo na colônia, tanto que muita gente fez questão de ir até a casa de Maria Norinha para checar de perto o conforto do móvel. “Isso era normal numa época em que se ganhava mal e os colonos se endividavam com facilidade, principalmente nos armazéns mantidos pelos próprios patrões. O pagamento era tão ruim que meu irmão teve de trabalhar um ano pra comprar o sapato que ele tanto queria”, revela.

As famílias de colonos costumavam trabalhar de segunda a sexta para custear despesas básicas. Já o final de semana era dedicado aos “bicos” em outras lavouras. “A gente trabalhava sábado e domingo pra juntar um dinheirinho e comprar alguma roupa”, destaca.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

November 4th, 2014 at 12:44 pm