David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

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Uma história de furto de milho com crianças de três e nove anos

Luiz Carlos: "Achei o preço bom, até porque crio aves e preciso de milho para alimentá-las”

Luiz Carlos se arrependeu de alimentar as galinhas com o milho comprado por R$ 15 (Foto: David Arioch)

Há pouco tempo, o artista plástico Luiz Carlos Prates, morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, estava trabalhando no atelier no fundo de casa quando ouviu alguém o chamando em frente ao portão. Foi ver quem era e se deparou com dois garotos sobre uma carroça cheia de sacos de milho. Um deles gritou: “Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

O artista perguntou o preço e o garoto respondeu que cada saco custava R$ 15. “Achei o preço bom, até porque crio animais e preciso de milho para alimentá-los”, explica. Satisfeito pelo bom negócio, Luiz Carlos ficou intrigado no dia seguinte quando os garotos retornaram oferecendo para a sua namorada, Lindinalva Silva Santos, que mora na casa ao lado, um saco de milho por R$ 5.

“Estranhei porque o preço mudou muito rápido de um dia pro outro. Não consegui ver lógica nisso, mas deixei passar”, comenta. No terceiro dia, os garotos apareceram novamente com uma carroça cheia de milho e ofereceram ao artista quatro sacos por R$ 15. “Depois dessa, não tive dúvida e falei pra eles: ‘Vocês tão furtando milho, né? De onde tá saindo todo esse milho que não acaba mais? Não adianta vir com conversa fiada, pode falar a verdade”, esbravejou Prates, preocupado com a procedência do cereal.

Os garotos entraram em conflito na hora de se justificar. Um falou que o milho foi repassado para revenda e o outro declarou que encontraram os sacos abandonados em uma mata não muito distante do bairro. “Sabia que era mentira porque conheço bem essa molecada. Pra você ter uma ideia, tinha tanto milho que eles ficaram uma semana vendendo. Repassaram o produto até pra outras pessoas comercializarem”, destaca.

Ao longo de sete dias, Luiz Carlos perdeu as contas de quantas carroças encontrou pelo bairro, guiadas por crianças que ofereciam sacos de milho para quem criava animais como galinhas, patos, porcos e cavalos. “Lá pra cima já ouvia a criançada gritando: “Olha o milho, olha o milho, olha o milho, baratinho, baratinho, baratinho”, relata.

Preocupado, o artista decidiu investigar a origem do produto. Descobriu que os dois garotos que lhe ofereceram o milho tinham invadido um depósito de cereais em uma fazenda nas imediações da Vila Alta. “O mais incrível é que eles tinham só nove anos. Fizeram um buraco na parede do depósito e a irmã de um deles, prestes a completar três anos, passou pela abertura e abriu uma das janelas para eles entrarem”, enfatiza. Enquanto furtavam o milho, a irmãzinha ficou na janela, à espreita, vendo se não aparecia ninguém.

Quando Luiz Carlos ainda não sabia a verdade, a garotinha viu o cereal na casa do artista e disse ao irmão: “Olha aqui, o tio Lú tem um saco de milho. A gente que pegou aquele dia, lembra? Igual aquele que você levou pra casa!” Evasivo, o garoto de nove anos retrucou: “Você tá enganada! Aquilo que levei pra casa era travesseiro, não era saco de milho não!”

Bravo com a situação e também por ter sido enganado, Luiz Carlos despejou todo o milho em um terreno baldio e reuniu todos os envolvidos na ação criminosa e na venda do produto. “Dei um sermão neles e expliquei que isso não se faz. É errado, é coisa de bandido”, lembra. Uma das ironias da história é que o milho despejado no terreno deu origem a um pequeno milharal abandonado que se desenvolveu sem qualquer cuidado ou supervisão.

Mais tarde, uma das crianças que articulou a invasão ao depósito contraiu sarna. Um dia, chegou até a casa do artista plástico com o corpo repleto por feridas. Sensibilizado, Luiz Carlos cuidou do garoto ao longo de uma semana. “Fui até a casa dele para conversar com a família. Me falaram que os pais dele tinham ido embora para uma Vila Rural. Quando expliquei para a avó que o caso do menino era grave, ela disse o seguinte: ‘Leva esse traste daqui. Pega ele pro senhor, não quero ele mesmo.’”

Surpreso, o artista foi informado que o garoto dormia fora de casa, no quintal, em companhia de diversos animais. Para convencer a criança a receber um tratamento diário à base de sal e limão, Luiz Carlos e a namorada, Lindinalva, prepararam lanches para alguns garotos do bairro a semana inteira. “É só oferecer comida que a criançada vem. Deu tudo certo e na semana seguinte ele sarou. Hoje o menino mora com os pais em uma Vila Rural”, revela o artista plástico.

Written by David Arioch

November 6th, 2014 at 6:50 pm

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