David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for October, 2015

O dia em que Pedro Tenório assassinou Alma de Gato e Bartolo no Líder Bar

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Crime aconteceu no centro de Paranavaí no dia 8 de agosto de 1964

Líder Bar (ao fundo), cenário de um dos crimes mais macabros da região na década de 1960 (Acervo: João Carlos Antunes)

Líder Bar (ao fundo), cenário de um dos crimes mais macabros da região na década de 1960 (Acervo: João Carlos Antunes)

No dia 8 de agosto de 1964, um homem bebendo no Líder Bar, na Avenida Paraná, perto do cruzamento com a Rua Getúlio Vargas, no centro de Paranavaí, explicou a um conhecido que estava negociando a venda de uma fazenda que pertencia a uma família de gaúchos em Querência do Norte. “Vou fechar esse negócio, daí pago a minha dívida, né?”, enfatizou o homem, de acordo com Honório Bonfadini, um dos proprietários do Líder Bar na época, que acompanhou a conversa diante do balcão.

Quando chegou a hora de formalizar a venda, o negociante chamado Pedro Tenório se sentiu lesado porque a transação não foi concluída e ele perdeu a chance de ganhar uma boa comissão. Dois dias depois, retornou ao bar por volta do meio-dia. O local estava lotado, tanto que não havia mais cadeiras e mesas disponíveis. Então Tenório se aproximou do balcão e caminhou até dois homens que conversavam. Sem dizer palavra, sacou um revólver de calibre 44, puxou Onofre de Oliveira, mais conhecido como Alma de Gato, pelo braço e deu-lhe um tiro à queima-roupa no peito.

Alma de Gato foi sepultado na gaveta superior e Bartolo na gaveta inferior do Cemitério Municipal de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Alma de Gato foi sepultado na gaveta superior e Bartolo na gaveta inferior do Cemitério Municipal de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Bartolo Sanches Perez, que estava ao lado do amigo ferido, ficou inerte, com os olhos estalados. Antes que reagisse, também foi alvejado no peito. Os dois caíram lado a lado enquanto o sangue se misturava e se esvaía pelo chão do bar. Durante a ação, alguns fregueses tremiam assustados e encolhidos embaixo das mesas. Outros ficaram tão desesperados que correram em direção à Avenida Paraná. “Todo mundo saiu de perto quando ouviu o primeiro tiro. O atirador não chegou a quebrar nada. Só furou a parede e o forro”, relata Bonfadini.

Com calma, Tenório abaixou o revólver e saiu do bar da mesma forma que entrou, ou seja, calado. “Havia muito sangue no chão e muito medo nos olhos de quem presenciou esse crime”, relata o pioneiro João Mariano. O atirador caminhou com tranquilidade até a Rua Getúlio Vargas, onde foi abordado pelo tenente Walter Porto, da Polícia Militar. Não resistiu à prisão e ainda confidenciou que sua intenção era ir até outro bar assassinar mais duas pessoas que segundo ele faziam parte do grupo que interferiu em seus negócios. Feridos gravemente, Alma de Gato e Bartolo acabaram falecendo no hospital.

O pioneiro e ex-prefeito Deusdete Ferreira de Cerqueira se recorda que foi procurado por João Tenório para testemunhar em favor de Pedro Tenório. “Ele era de família abastada. Eu me dava bem com esse parente dele. Mas um dia ele passou na minha casa e disse: ‘É sobre o Pedro, sei que você faz parte do júri popular e quero pedir que salve ele’. Aí expliquei: ‘Ô Seu João, pra mim é difícil. A única coisa que você pode fazer é pedir pra me tirar do júri porque se eu for lá eu condeno ele. Tenho minha consciência e meu senso de justiça’”, lembra.

Deusdete Cerqueira, Honório Bonfadini e João Mariano conheciam Pedro Tenório e as vítimas (Foto: David Arioch)

Deusdete Cerqueira, Honório Bonfadini e João Mariano conheciam Pedro Tenório e as vítimas (Foto: David Arioch)

Após a condenação, Tenório foi transferido para Curitiba. O que o motivou a matar Alma de Gato e Bartolo foi o desejo de vingança e a sensação de impunidade. “Ele tinha amizade com um juiz e um escrivão que se dispuseram a ajudar ele. Ou seja, tudo gente boa”, ironiza Honório Bonfadini, lembrando que era muito comum as pessoas andarem munidas de revólveres de calibre 22 e 38 em 1964.

O duplo homicídio repercutiu tanto que se tornou o assunto mais falado na região por semanas. Inclusive a polícia exigiu que os Bonfadini fechassem o Líder Bar por alguns dias, reabrindo numa segunda-feira. “E tudo isso por causa da corretagem de uma fazenda. Naquele tempo as pessoas matavam facilmente por causa de comissão de terras. Ainda bem que os outros não quiseram se vingar porque senão ia acabar não sobrando ninguém”, pondera Deusdete.

Vizinho de Bartolo Sanches Perez, o pioneiro João Mariano conta que ele era tranquilo e educado. “Uma vez ele passou por uma situação difícil quando o filho dele foi laçar um boi e o animal o arrastou. Levaram o rapaz ao médico e ele se recuperou, mas ficou sem a mão”, confidencia.

Mariano também defende que Alma de Gato, homem alto e magro que conheceu em 1955, não era má pessoa. “Eu era mais novo que o Alma de Gato e tive o primeiro contato com ele em 1953, um ano depois que cheguei em Paranavaí. A propriedade onde moro hoje [Estância Reno] era do pai dele. Tinham uma fazenda enorme, com muito café e mato. Quando comprei, já tinham loteado. O forte deles sempre foi a cafeicultura”, garante Cerqueira.

Curiosidades

Alma de Gato e Bartolo estão sepultados na primeira seção de gavetas do Cemitério Municipal de Paranavaí.

Alma-de-Gato é o nome de um pássaro originário da Amazônia que tem a cauda longa, o peito acinzentado e a plumagem cor de ferrugem.

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Benílio, um tipo de Verlaine travestido de Rimbaud

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Como se feito de ironias, Benílio era visto por mim como um sujeito vivendo um paradoxo existencial

Benílio, que não aparece na foto, frequentava o Projeto Mais Cinema na Casa da Cultura (Foto: Amauri Martineli)

Benílio, que não aparece na foto, participava das discussões do Projeto Mais Cinema na Casa da Cultura (Foto: Amauri Martineli)

Já passei por situações muito incomuns e estranhas na minha vida e hoje vou relatar uma delas. Em 2008, comecei a coordenar um projeto de cinema na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade. O público era modesto, mas bastante participativo, tanto que com o tempo estreitei contato com os frequentadores mais assíduos. Afinal, tínhamos em comum o amor pelo cinema e o interesse em discutir sobre o tema. Os encontros ocorriam às quartas-feiras, quando exibíamos algum filme fora do circuito comercial. Ao final, eu fazia uma análise e em seguida abria espaço para o público fazer perguntas. Foi assim até 2013. Era gratificante ver que até pessoas de outras cidades gostavam do projeto.

Em 2010, um rapaz a quem chamo de Benílio, para preservar a sua identidade, compareceu ao Mais Cinema. Na primeira vez em que participou, se mostrou bastante atento ao filme, a discussão e tudo que o cercava. Basicamente, um sujeito tranquilo, questionador, com bons argumentos e um humor sardônico. Algum tempo depois, Benílio começou a sumir e ressurgir durante as sessões de cinema. Parecia agitado e incomodado, o que contrastava com tudo que notei anteriormente sobre seu comportamento. A expressão ponderada, o olhar quiescente, foram substituídos por uma agitação frequente que o fazia se levantar da poltrona como se o estofamento estivesse dominado por percevejos.

Às vezes mudava de poltrona, até que sem observar lado algum abandonava o local com pressa, coçando os olhos com tanto vigor que mesmo ao longe dava a impressão de que o objetivo era esmagar o globo ocular com pontadas de dedo. Apesar disso, Benílio continuou frequentando o projeto. Sorridente e trocista, aparentava ser mais jovem do que realmente era. Andava sempre à vontade; de camiseta, bermuda e tênis ou sandálias. Mas ostentava um olhar amaneirado para compartilhar com pessoas de quem desgostava. Como se feito de ironias e de uma acidez vocabular inconstante, Benílio era visto por mim como um sujeito vivendo um paradoxo existencial.

Assim como na Gioconda de Da Vinci, seus olhos eram como uma antítese do sorriso, o que relevava mais intransparência e ardil do que insegurança. Com naturalidade dúbia, despertava reticência, principalmente sobre suas intenções e elucubrações durante as conversas. Jupiteriano, pouco se importava em transmitir clareza quando não simpatizava com alguém. Na realidade, fazia até questão de minar a conversa para afastar o interlocutor. Afeiçoado à arte clássica, ele desprezava com poucas ressalvas a arte contemporânea.

Por volta dos 20 anos, Benílio abandonou o curso de medicina da Universidade Federal do Paraná, mais tarde sendo relegado à pária por colegas, amigos e até familiares. Não se importava com as convenções sociais e as postulações de um mundo em que se deve viver sob a égide cronológica dos deveres. Parecia-lhe um despautério a ideia de que o ser humano deveria se limitar a estudar o suficiente para conseguir um bom trabalho, se casar, ter filhos, netos e falecer; assim não fazendo mais do que uma formiga obreira que percorre o chão nu transportando alimentos em horários estratégicos.

Seu nível de inteligência e cultura estava muito acima da média, o que era endossado por décadas mergulhado em livros, música e outras formas de arte. Um dia, me relatou alguns de seus conflitos amorosos com uma jovem com quem rompeu relacionamento de longa data. “Eis uma perda de tempo, uma relação que minora a alma em vez de alongá-la”, dizia. Em complemento e observação, citei que todo o nosso saber se reduz a aprender a renunciar nossa existência para podermos existir, segundo um aforismo de Goethe.

Ocasionalmente, Benílio me pedia carona na saída da Casa da Cultura. O deixei algumas vezes no cruzamento da Rua Manoel Ribas com a Avenida Paraná, no centro de Paranavaí. À época, eu dirigia ouvindo uma banda romena de rock chamada Travka que curiosamente falava de conflitos de identidade, do recrudescimento humano e da minoração da sensibilidade. Enfim, existentialisme par l’existentialisme.

Notei mais tarde que o rapaz era emocionalmente inconstante e por isso consumia com frequência medicamentos controlados. Solitário, tinha um pai aventureiro que há muito tempo se mudou para Rondônia. A mãe, com quem também pouco convivia, recebia visitas esporádicas do filho no Jardim Santos Dumont. Benílio morava sozinho em uma velha pensão na Rua Amapá, onde dividia o espaço com os mais diferentes personagens marginalizados. A maioria, pessoas que percorriam sob os ditames da penúria um chão de paralelepípedos tão maciço quanto a dor da invisibilidade velada por um sorriso frugal.

Um dia, eu corria pela Avenida Lázaro Vieira, no Jardim Progresso, quando ouvi Benílio me chamando. Olhei para o lado, ele sorriu e se aproximou de mim. Relatou que estava estudando Programação Neurolinguística (PNL) porque acreditava que as ações humanas são motivadas pelas próprias experiências, não pela realidade em si. “A mente e o corpo formam um sistema que a PNL ajuda a harmonizar, estimulando novas formas de pensar, sentir e agir. É um meio de minimizar conflitos entre o corpo e a mente”, comentou.

Na semana seguinte, após mais uma sessão do projeto Mais Cinema, Benílio pediu que eu o deixasse na Praça dos Pioneiros. Eram quase 23h, ele desceu do carro e começou a caminhar sozinho em torno da praça, sem se enfastiar com a solitude e a frágil iluminação precária e açafroada dos postes que atraíam somente insetos. Andou alguns metros e desapareceu no meio da quadra na outonal escuridão enevoada. Ignorava lados e direções, despreocupado em ser expulso da própria introspecção por sacomanos, ladrões, delinquentes ou vadios.

Como já fazia parte da minha rotina percorrer a cidade a trabalho, vez ou outra eu o via vagando sozinho pelos mais distantes pontos da área urbana. Nunca perguntei o que fazia. De qualquer modo, não era difícil perceber que Benílio não se importava em ignorar pessoas e deixar claro que sentia ojeriza pela superficialidade. Demonstrava grande amor por muitas conquistas humanas. Em contraponto, nutria indiferença e desgosto por tanta gente. Julgava o mundo como tornado doente e usava isso como justificativa da pontual ausência de empatia.

Uma vez, há alguns anos, eu e meu amigo Sobhi Abdallah fomos até a casa da mãe de Benílio, onde ele estava hospedado enquanto ela viajava. O objetivo era conversar sobre o roteiro e a pré-produção de um documentário baseado na vida de um eremita conhecido como Negão do Surucuá. Entre tereré e palavras, a tarde até que rendeu bem. Dias depois, Benílio me ligou avisando que precisávamos discutir novamente sobre o roteiro. Segundo ele, a reunião também havia sido acertada com Abdallah e meu amigo Amauri Martineli.

Quando cheguei ao local, estacionei o carro e estranhei que não havia nenhuma movimentação na varanda. De repente, Benílio gritou, pedindo que eu entrasse. Lá dentro, perguntei sobre os outros convidados e ele mentiu afirmando que eles não puderam comparecer. Após minutos, o rapaz se aproximou e me convidou para tomar café. Assim que coloquei os pés na soleira, perguntei o que ele estava preparando. “Não estou preparando nada. O café somos nós dois!”, comentou com naturalidade enquanto penetrava a massa escura de um pão preto com uma longa faca de cozinha. Em seguida, me observou atentamente os olhos, revelando um sorriso narcísico e pela primeira vez naturalmente mórbido.

Me afastei de Benílio, que não reconheci naquela figura tétrica e medonha. Contrariando todas as minhas possibilidades de reação diante de situação tão imprevisível e espantosa, expliquei tranquilamente que iria até o carro buscar o pré-roteiro do documentário. “Já volto. É rapidinho!”, argumentei sem titubear. Ele assentiu com a cabeça e continuou na cozinha. Caminhei a passos curtos e pesados, enojado, sentindo meu olhos queimando e minhas mãos suando. O enorme portão parecia a quilômetros de distância e suspeitei até que Benílio poderia tê-lo trancado. Então me preparei para saltá-lo se necessário. Questionei até se ele não teria deixado ao alcance das mãos uma arma de fogo, caso eu fugisse. Por bem, consegui abri-lo e lá fora senti o sol em todo seu esplendor me revigorando, me banhando com sua energia imperecível.

Por segundos, meus sentidos ficaram mais aguçados do que nunca. Ouvi cães latindo, mãe empurrando carrinho de bebê, homem estacionando carreta e duas crianças brincando de pular corda. Assim que entrei no carro, virei a chave e ouvi o som do motor, meu coração desacelerou. Parti com a sensação de que apesar de tudo o mundo ainda era o mesmo e estava lá para lucilar diante de meus olhos escuros. Nunca mais vi Benílio. Fiquei sabendo apenas que, assim como um tipo peculiar de Verlaine travestido de Rimbaud, foi embora para Rondônia tornar-se desbravador de coisa alguma.

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Quando Rimbaud se tornou traficante de armas

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Rimbaud: "Deixei o meu emprego em Áden [no Iêmen], após uma violenta discussão com aqueles camponeses patéticos" (Foto: Reprodução)

Rimbaud: “Deixei o meu emprego em Áden [no Iêmen] após uma violenta discussão com aqueles camponeses patéticos” (Foto: Reprodução)

No dia 22 de outubro de 1885, o poeta Arthur Rimbaud assume que se tornaria um traficante de armas na Etiópia, começando assim a última etapa do que ele definia como uma vida curta e infame.

Aos 21 anos, em carta escrita a sua mãe, Rimbaud explica que abandonou a parceria poética com Paul Verlaine para se tornar tutor, mendigo, estivador, operário, soldado e ladrão. Quatro anos depois, vira comerciante de café, o que não rende-lhe tanto lucro quanto traficar armas. Em correspondência, sempre dizia a sua mãe que o objetivo era tornar-se rico.

No trecho de outra carta, Arthur Rimbaud relata: “Deixei o meu emprego em Áden [no Iêmen] após uma violenta discussão com aqueles camponeses patéticos que queriam me entorpecer para o bem. Eles fizeram tudo que podiam para me segurar lá, mas os mandei ao inferno com sua cidade imunda e suas ofertas de negócios. Não quero trabalhar em escritório. Há uma distância de milhares de rifles entre mim e a Europa. Vou montar uma caravana e transportar armas para o rei Menelik II da Etiópia.”

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Nicholl, Charles. Somebody Else: Arthur Rimbaud in Africa – 1880-91. University Of Chicago Press (1999).

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Written by David Arioch

October 22nd, 2015 at 1:49 pm

A indiferença e os artistas de rua

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Pensei também em como eles resistem na contramão deste mundo cada vez mais consumista em que vivemos

Pensei também em como eles resistem na contramão deste mundo cada vez mais consumista em que vivemos

Eu estava voltando pela Avenida Heitor Alencar Furtado quando parei em um sinaleiro. À minha frente, um artista de rua fazia malabarismo com facões. Fiquei imaginando quanto tempo ele deve ter levado pra chegar àquele nível.

Pensei também em como ele resiste na contramão deste mundo cada vez mais consumista em que vivemos. Não tenho dúvida alguma de que ele não é ambicioso ou ganancioso. E são pessoas com esse tipo de nobreza que vivem alheios à inveja. Do contrário, não estaria lá, entretendo um público ocasional que muitas vezes pouco se importa com o que ele está fazendo.

Notei pessoas mantendo os vidros fechados e desviando os olhos pouco antes do sinal ficar verde. Achei a cena triste, mas de um contraste que realça a nobreza de quem está sempre acima das mesquinharias. O rapaz fazia reverências e sorria efusivamente até para quem o ignorava ou acenava dizendo que não tinha dinheiro algum, mesmo que esses guiassem veículos que custam mais de R$ 100 mil.

Mais do que uma Era de Consumismo, me deparo com situações no dia a dia que reafirmam a existência de uma Era da Mesquinharia, um sentimento que fui incentivado desde cedo a não ter. Cada vez que você vira as costas ou ignora alguém, você reforça uma tentativa de marginalizar alguém. Se você acredita que não tem nada a oferecer, tudo bem, desde que assim sua consciência o reconheça. Mas triste é quando você sabe que tem, mas prefere não oferecer nada baseando-se na descrença generalizada a respeito do ser humano.

Anteontem à tarde foi diferente. No sinaleiro da Rua Manoel Ribas, em frente ao Posto Minas, um rapaz fazendo malabarismos com pinos ganhou um dinheirinho de todos os motoristas. Achei aquilo bonito e raro porque percebi que existia harmonia naquela ação individual que ganhou força coletiva iniciada nas primeiras fileiras. Havia beleza e uniformidade. E a fisionomia do rapaz realmente mostrou que ele se sentiu recompensado.

Me recordei de um costume que o meu pai tinha quando estava fazendo quimioterapia no Hospital Beneficência Portuguesa em 1997. Sempre que ia a São Paulo, ele separava um pouco de dinheiro. Um dia minha mãe perguntou qual era a finalidade e meu pai respondeu: “É que até chegar ao hospital não quero ter que dizer não a nenhum pedinte.”

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A máfia italiana chega a Paranavaí

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Rastejando, buscaram armas debaixo de suas camas e se posicionaram enquanto uma saraivada de tiros penetrava a sala

Carreador percorrido de jipe pelos membros da Cosa Nostra de Messina em 1943 (Foto: Arquivo)

Carreador percorrido de jipe pelos membros da Cosa Nostra de Messina em 1943 (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Em junho de 1943, o ítalo-brasileiro Vittorino Alambare e os italianos Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo e Sotero Comezzino atravessaram São Paulo e dezenas de cidadezinhas e lugarejos para chegarem ao Noroeste do Paraná. No caminho, encontraram muitos veículos abandonados, se deteriorando. Mas nada chamou mais a atenção dos quatro do que um caixeiro-viajante com idade entre 25 e 30 anos, deitado aos pés de uma bracatinga, ladeado por um jipe com as rodas soterradas.

O rapaz estava morto. Teve os órgãos vitais dilacerados, possivelmente por uma onça. Mas os vestígios de sangue e couro em suas unhas indicavam que lutou com ardor antes de sucumbir. Dentro do veículo, encontraram documentos e uma foto do jovem com a esposa e dois filhos. Paolo se sensibilizou ao ouvir Alambare ler uma carta que o caixeiro jamais entregou à mulher. Na correspondência, Ildefonso Castanho justificou a partida.

“Não quero ser caixeiro-viajante até o dia de minha morte. O que poderia deixar de herança aos nossos filhos? Dívidas? Prometo buscá-los tão logo eu consiga melhorar de situação em um lugar chamado Fazenda Brasileira, onde um amigo me disse ser o direito às terras ofertado a todos que nutrem no coração o sonho de realização. Prometo que lhe enviarei dinheiro o quanto antes. Mande beijos e abraços às crianças e diga que nos encontraremos em breve”, escreveu Castanho, de acordo com o aposentado Genaro Alambare, filho de Vittorino.

Vergatti ficou preocupado com a situação da mulher que teria de criar três filhos sozinha. Em muitos anos, foi a primeira vez que os amigos o viram com olhos marejados por trás de um papel. Enterraram o corpo do caixeiro-viajante na mata, subiram a bordo do jipe Land Rover e seguiram viagem observando o Sol se pondo por trás da densa mata da região de Londrina.

“Onde fica essa Fazenda Brasileira? Seria longe demais? Será que muitas pessoas vivem lá? Parece ser um local pouco habitado. Talvez compense conhecer”, analisou Vittorino Alambare. Os demais também ficaram intrigados. Ainda assim nenhum deles tinha mais interesse no lugar do que Vergatti. O rapaz guardou a carta de Ildefonso Castanho no bolso da calça.

Em Maringá, para onde planejavam se mudar antes do incidente com o caixeiro-viajante, decidiram seguir adiante. No dia 25 de junho, perto de onde surgiria Nova Esperança, um denso nevoeiro matutino atrapalhou a visibilidade da estrada quando Alambare sentiu o impacto e o barulho de algo preso às rodas traseiras. Di Carlo e Comezzino desceram armados e circularam o jipe cautelosamente, revezando olhares em direção à floresta.

Vista parcial da Brasileira na época em que os italianos compraram uma fazenda (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Vista parcial da Brasileira na época em que os italianos compraram uma fazenda (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Apesar do susto, não havia nada embaixo do veículo. Nas imediações, ouviram apenas um acirrante som de água ecoando entre as copas das árvores. Caminharam alguns metros e encontraram um córrego e uma cristalina mina d’água intocada pelo homem. “Depois do banho, Paolo Vergatti saiu para procurar frutas quando foi surpreendido por uma onça-parda. Com o focinho sujo de sangue, o animal se aproximou dele, o observou, cheirou suas mãos e se afastou, correndo mata adentro. Paolo ficou calado e imóvel, sem entender o que aconteceu”, relata Genaro.

Horas depois de reiniciado o trajeto, encontraram um homem cego de meia-idade sobre um cavalo de pelagem escura. Percorrendo em sentido norte a margem de um carreador da futura Alto Paraná, o sujeito trajava apenas uma calça de estopa. Alambare reduziu a velocidade do jipe e perguntou se havia algum vilarejo por perto. Antes de responder, o homem se apresentou como Adolpho Aureliano. “Perdão se minha voz soa atrofiada, mas faz mais de 20 anos que vivo sozinho. Podem seguir adiante que vão encontrar o que procuram. Não estão longe. Ah! Mas se tiverem fome ou sede, venham à minha casa”, convidou.

Seguiram o galope e a pouco mais de um quilômetro viram um casebre com desenhos esfíngicos nas paredes, registrados com uma mistura de jenipapo e urucum. Dependendo da incidência do sol, as imagens pareciam ganhar vida. “Cada desenho retratava uma fase vivida por aquele homem. Em um deles, o viram arando a terra e recebendo ajuda de crianças. Os cômodos da residência eram divididos por galhos longos, finos e bifurcados”, diz Genaro Alambare.

Após o modesto banquete, Battaglia Di Carlo chamou a atenção dos amigos para uma foto com data de 21 de agosto de 1917 grafada com faca ou punhal na moldura de madeira. Jovial, Aureliano estava sentado em um sofá com a esposa e três filhos. O homem se aproximou e explicou que perdeu a família em 1921. “A maleita levou o que eu tinha de mais importante. A culpa foi minha por ter vindo pra cá em 1913. Não deu tempo de encontrar ajuda. Apesar de tudo, quero ficar aqui até o fim dos meus dias”, frisou.

Impotente e sentindo-se culpado pela morte da esposa e dos filhos que tinham entre cinco e nove anos, Aureliano descampou uma área erma a alguns metros de casa e lá ficou deitado, observando o Sol por horas até perder completamente a visão. “Eu sentia uma queimadura interna tão forte que até anestesiava a queimadura externa. Meu corpo pegava fogo, mas isso não era nada comparado ao meu coração que ardia em chamas”, confidenciou.

No canto da sala havia um piano francês Pleyel bem conservado e coberto por uma capa. Sobre ele, uma partitura de “A Sertaneja”, de Brasílio Itiberê. Sotero Comezzino, que estudou na Accademia Nazionale di Santa Cecilia, em Roma, pediu autorização para tocá-la. Aureliano, que circulava pelo ambiente como se a visão não lhe fizesse falta, acenou em aprovação e exibiu dentes tão brancos que pareciam esmaltados artesanalmente. Nos primeiros minutos, Alambare e Di Carlo ouviram um som estranho vindo do fundo da casa enquanto as mãos de Comezzino percorriam as teclas. Quando se aproximaram, Aureliano estava cuidando dos ferimentos de uma tranquila onça-parda rodeada de filhotes. Sem dizer palavra, se comunicaram com os olhos e voltaram para a sala.

Os sicilianos iam até o centro da colônia apenas quando necessário (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Os sicilianos iam até o centro da colônia apenas quando necessário (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

“Aquele eremita transcendeu de alguma forma. Mesmo cego e solitário, não nutria desprezo pela vida, não praguejava. Meu pai dizia que Aureliano descobriu dentro de si algo que só poderia ser sentido ou compreendido por poucos seres humanos”, enfatiza Genaro. Depois da despedida, seguiram viagem. A floresta se tornou mais densa, tanto que em vários trechos tiveram de arrastar árvores tombadas e desviar de cipoais.

Assim que chegaram à Fazenda Brasileira, chamaram a atenção de curiosos na Avenida Paraná, a via mais movimentada da colônia. Crianças descalças cercavam o jipe e gritavam: “Oi, oi, oi, oi, oi!” e “Ô sinhô, de onde cês são?” Os italianos riam, se recordando da infância em Messina, na Sicília. Paolo Vergatti observou um vento repentino obrigando as mulheres a recolherem as roupas ainda úmidas do varal, evitando que a terra arenosa as sujasse. Alambare, que foi pedir informações em uma casa de Secos e Molhados, voltou dizendo que conheceu um fazendeiro chamado Marcolino Rufião. “Ele falou que tem uma terra boa a pouco mais de 20 quilômetros daqui. Quer vender pra voltar pra São Paulo. Se for viável, fechamos negócio”, sugeriu Vittorino.

No trajeto até a fazenda de Rufião, situada na região onde surgiu o Povoado de Cristo Rei, assistiram crianças saltando sobre pequenos tocos, jogando pião, gargalhando e correndo em círculos. “Aqui seremos homens comuns, passíveis de morrer no anonimato”, pontuou Paolo Vergatti. Quando chegaram à propriedade de pouco mais de 110 alqueires, gostaram do que viram. Só que alertaram Marcolino sobre as consequências de uma suposta trapaça.

“Confiamos na sua palavra e acredito que sua intenção de ir embora seja verdadeira. Só que se por ventura formos enganados ou alguém aparecer por aqui reclamando esta terra, vamos atrás do senhor para saldar a dívida”, prometeu Battaglia Di Carlo usando uma flanela do bolso para limpar cuidadosamente uma pistola Parabellum guardada em um estojo com forro de veludo vermelho. Marcolino pediu calma, sorriu e garantiu que eles não teriam problemas.

Na semana seguinte, Rufião não foi mais visto na Fazenda Brasileira. No entanto, após 15 dias, numa noite de sábado, Vittorino, Paolo, Battaglia e Sotero estavam conversando na sala quando ouviram dois disparos contra a porta principal da casa. Rastejando, buscaram armas debaixo de suas camas e se posicionaram estrategicamente enquanto uma saraivada de tiros penetrava a sala e atravessava a cozinha, causando buracos de diversos tamanhos. Os italianos ficaram em silêncio. Sem reagir, observaram quais eram os pontos menos atingidos pelos invasores.

Os quartos de Vergatti e Comezzino ocupavam as duas áreas menos vulneráveis da casa. Então se dividiram em duplas e aguardaram a aproximação dos atiradores. Em menos de uma hora, os sicilianos mataram os 12 invasores com tiros de curta e longa distância à base de pistola e carabina. Usaram como ponto de partida algumas fendas que permitiam ver quem se aproximava da entrada. A vantagem é que só podiam ser notadas por quem estava dentro da casa. Os dois últimos tiros foram disparados por Sotero que atingiu a cabeça de um invasor que tentou fugir.

Estrada do Cristo Rei que dava acesso à Fazenda Niente, onde viveram Alambare, Vergatti, Di Carlo e Comezzino (Foto: David Arioch)

Estrada do Cristo Rei que dava acesso à Fazenda Niente, onde viveram Alambare, Vergatti, Di Carlo e Comezzino (Foto: David Arioch)

Entre os mortos havia homens de 20 a 40 anos. A maioria se vestia com simplicidade. A exceção era um sujeito que trazia joias e ouro nas mãos, na boca e nos pés. O homem era Marcolino Rufião que num momento de desespero correu para tentar salvar a própria vida. “A inexperiência deles era tão grande que parecia que estávamos abatendo animais indefesos”, comentou Comezzino com os amigos.

Os corpos foram colocados dentro do caminhão de Rufião e enterrados numa área de mata nativa a cerca de dez quilômetros da fazenda, com exceção do cadáver de Marcolino, depositado em um buraco mais distante. O posicionaram com o peito para o chão. Suas pernas e braços foram cruzados e amarrados com retalhos das roupas ensanguentadas dos homens que morreram sob seu comando. Antes de taparem o forame com terra, seguraram a cabeça de Rufião e introduziram em sua boca dezenas de bagas de beladona.

“As pernas e os braços cruzados simbolizavam o desencontro, a perdição. Um desejo de que aquele homem nunca mais encontrasse o seu caminho, nem em outra vida. E os frutos tóxicos colocados em sua boca indicavam que foi condenado a passar a eternidade ébrio. Queriam que ele fosse reconhecido no outro mundo como um perene repositório de erva daninha”, relata Genaro, acrescentando que a boca do fazendeiro foi lacrada com a manga longa de uma camisa encharcada com o sangue do homem mais jovem do bando. Dias depois, o caminhão de Marcolino foi abandonado no Ranchão de Zinco, um cemitério de veículos perto do Porto São José.

Mesmo com o desaparecimento de Rufião, ninguém apareceu na Fazenda Niente, dos italianos. E conhecendo a má fama do homem, a polícia ficou satisfeita com o sumiço. Mais tarde, os quatro amigos foram até a Brasileira fazer compras num armazém na Avenida Paraná. Lá, ouviram uma história sobre uma família de italianos que estava se mudando para a Brasileira, trazendo um baú de barras de ouro. “A última vez que vi Marcolino, ele me disse que tinha uma proposta a fazer a esses italianos”, falou um senhor de olhos miúdos segurando um copo de cachaça durante conversa com um compadre.

A ideia de que Rufião confundiu os sicilianos com outra família de italianos que nunca chegou ao povoado intrigou Comezzino e Bataglia. Sotero gargalhou tanto na saída do armazém que chegou a esticar uma grande cicatriz que possuía embaixo do queixo. Paolo Vergatti se mantinha disperso, alheio às brincadeiras dos amigos. Em julho de 1943, pediu a ajuda de Alambare e pagou a um advogado de origem polonesa para datilografar uma carta com destino a Palmas, no extremo Sul do Paraná. A correspondência foi despachada pelos Correios de Londrina através do motorista da catita que fazia a linha Londrina – Fazenda Brasileira.

Junto da carta, Vergatti, se passando por Ildefonso Castanho, enviou um pouco de dinheiro. Dois meses depois, recebeu uma correspondência de Júlia Ramalho contando como os filhos estavam crescendo. Paolo se extasiava com o carinho e compreensão embutidos à escrita da moça. Era como se a chegada daquele pedaço de papel fosse a razão de sua existência, mesmo ciente de que as cartas eram destinadas ao falecido, não a ele.

Na segunda carta de Júlia, duas das crianças escreveram seus nomes no rodapé. Com o tempo a mulher ficou muito surpresa. Ela recebia por mês até três vezes mais do que o necessário para as despesas familiares. Era um sonho a possibilidade do marido ter se tornado alguém tão bem-sucedido em pouco tempo. Por correspondência, Vergatti se apaixonou por Júlia e adotou a personalidade de um pai de família. A natureza gentil e fraternal da moça o encantava. Júlia estranhou apenas quando o suposto marido pediu-lhe que banhasse a carta em seu perfume antes de enviá-la a ele. Ildefonso talvez fosse amável, mas não parecia dominado pelos rompantes passionais de Vergatti.

Sempre que o questionava sobre o dia em que poderia partir com os filhos para encontrá-lo, ele inventava alguma desculpa. Júlia suspeitou que o marido tivesse outra mulher na Fazenda Brasileira. A verdade é que Paolo temia a reação de Júlia. “À mesa, imagino ela me pedindo para levá-la à vila. No campo, vislumbro Roberto e Paula [filhos de Júlia] me convidando para brincar de esconde-esconde. Ah, Romeu! [o terceiro filho ainda bebê] O embalo no colo e o levo para conhecer os cafezais, onde seus intensos olhos negros, como pequeninos diamantes abissais, idealizam no solo arenoso o arquétipo de um parque. Sinto-me neste momento como um verme; incapacitado, inútil, infrutuoso! Se ei de pertencer a morte, que me leve para os umbrais rapidamente! Irrita-me a espera, mesmo quando o destino é deixar de ser humano para tornar-me húmus para esta terra”, segredou Genaro, citando trechos do rascunho de uma carta.

Em agosto de 1945, completou dois anos que os italianos se dedicavam à produção de café, milho e algodão. Sem contar com ajuda externa, trabalhavam apenas para ocupar o tempo e evitavam interagir com curiosos. Iam até a área urbana da Brasileira apenas quando necessário, passando despercebidos pela maioria. Em fevereiro de 1946, Júlia se irritou porque não recebia cartas do marido há mais de um mês. Então viajou para a Brasileira com o irmão Agnaldo Ramalho e os três filhos.

Graças à ajuda de um rapaz chamado Pedro, que era balconista em uma casa de secos e molhados, ficou sabendo que ninguém conhecia Ildefonso. Mas o jovem percebeu que a descrição do lugar de acordo com a correspondência era a mesma da propriedade de quatro italianos que faziam compras ocasionais no armazém. Então Julia decidiu se arriscar. Achou a fazenda, se aproximou da entrada da casa e antes que chamasse alguém foi recebida por Gernaro Alambare que trazia uma faixa preta no braço. De aspecto taciturno, não se importou em ser visto pálido, com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.

Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo e Sotero Comezzino estavam mortos desde janeiro de 1946, vítimas de uma epidemia de leishmaniose tegumentar americana (LTA) que assolou a região. “Meu pai pediu que o irmão de Júlia levasse os sobrinhos para passear pelo pomar e contou a verdade a ela. Disse que Ildefonso Castanho morreu em 1943 e por compaixão Paolo Vergatti se passou por ele. Se apaixonou por Júlia, só que não teve tempo de ganhar coragem para relatar toda a história, preferindo se corresponder por dois anos e meio, enviando até três cartas por semana”, menciona Genaro.

Vittorino a levou para ver os túmulos dos três amigos, enterrados lado a lado, numa área coberta por acácias, a sudoeste da casa principal. Não havia nada escrito nas modestas e pequenas lápides brancas que traziam o mesmo desenho de três punhos unidos. Confusa sobre tudo que ouviu, e com as pernas trêmulas, Júlia agarrou o próprio vestido com as unhas e começou a chorar e soluçar diante do túmulo de Vergatti.

Sozinho, Alambare, que nunca entendeu porque a doença não o matou, retornou para Santos. Antes entregou a Júlia todo o dinheiro de Paolo Vergatti, guardado em uma mala escondida numa tulha. Acompanhada da família, a moça se mudou para a propriedade com o consentimento de Vittorino. Em pouco tempo, aprendeu a amar o homem que nunca conheceu. Todos os dias pela manhã, Júlia carregava um banquinho de cedro até o túmulo de Paolo Vergatti. Sentava ao seu lado e lia as dezenas de cartas enviadas por ele. Foi assim até outubro de 1967, quando Júlia faleceu em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).

Vittorino recebeu a notícia em dezembro do mesmo ano, junto com a informação de que os filhos dela venderam a fazenda. Em janeiro de 1968, o novo proprietário demoliu a casa, as lápides e as acácias, relegando ao esquecimento a passagem dos amigos italianos por Paranavaí.

Sicilianos articularam o assassinato de um líder da Ndrangheta

Membros de um clã da Cosa Nostra de Messina, na Sicília, Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo, Sotero Comezzino e Vittorino Alambare ocupavam posições de destaque na organização. De acordo com Genaro Alambare, Vergatti e Di Carlo eram caporegimes (capitães) especialistas em minimizarem conflitos entre as famílias, evitando guerras desnecessárias.

Comezzino, conhecido como o “carrasco de sottocapo”, era um dos soldados mais temidos da Sicília nos anos 1930, considerado o responsável pela morte de cinco subchefes da Camorra e da NDrangueta. Alambare era um associado da Cosa Nostra e contrabandista com passagem livre pelo Porto de Santos.

O irmão mais velho de Battaglia, Domenico Di Carlo, foi um guerrilheiro da Resistência Italiana que ajudou a capturar e assassinar o ditador italiano Benito Mussolini. Os três fugiram da Itália após articularem o assassinato de um dos principais líderes da Ndrangheta, a máfia calabresa. O clã de Paolo, Battaglia e Sotero era contra a exploração de crianças que se expandia pelo país.

Curiosidade

Mesmo depois de Paranavaí ser desmembrada de Mandaguari em 1951, muitos ainda se referiam ao município como Fazenda Brasileira por causa do nome que surgiu na década de 1930.

Um velório animado

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Eu assistia tudo como um atento espectador, até que minha tranquilidade foi perturbada por um pinscher 

Capela Mortuária de Paranavaí, onde o episódio aconteceu na minha adolescência (Foto: David Arioch)

Capela Mortuária de Paranavaí, onde o episódio aconteceu no início da minha adolescência (Foto: David Arioch)

No início da minha adolescência, quando alguém importante para os professores do Colégio Unidade Polo falecia, eles tinham o costume de convocar os alunos para o velório antes da última aula. O objetivo era realizar uma homenagem póstuma, reafirmar a importância do falecido, mesmo que os estudantes não o conhecessem.

Um dia, ao final do intervalo, a orientadora se aproximou da porta da nossa sala, pediu autorização para a professora, e disse que uma senhorinha aposentada, que trabalhou anos como zeladora do colégio, morreu em decorrência de um ataque cardíaco. “Ela está sendo velada na Capela Mortuária, ao lado do cemitério. Então vocês vão sair mais cedo hoje para se despedir dela”, disse. Fiquei um pouco confuso porque eu não sabia quem era a falecida. Eu não estudava lá há tanto tempo e me questionei sobre como iria me despedir de alguém que eu nunca tinha visto. A mesma preocupação foi partilhada por outros colegas de classe. Um deles levantou a mão e gritou: “Ué, sei nem quem é a tiazinha. Como vou dar tchau pra ela assim?”

Muitos dos alunos não conseguiram se conter e gargalharam. O silêncio voltou com o olhar sisudo e reprovador da professora que lançou uma régua contra a mesa, exigindo respeito. “Será que vocês não entendem que uma pessoa morreu? Isso não tem graça! É inconsequente rir de uma situação tão dolorosa”, reclamou depois de amiudar os olhos, franzir a testa e cerrar os dentes. Quando chegou a hora de deixar a sala, a professora explicou que poderíamos levar nossas bolsas e mochilas. Estávamos autorizados a ir embora dez minutos antes do horário normal de encerramento das aulas. Foi o suficiente para que os estudantes se entreolhassem com sorrisos dúbios e maliciosos.

Logo que coloquei os pés no corredor, notei que havia muita gente. Todos os alunos foram convocados para a despedida, mas existia um grande contraste entre os mais jovens e os mais velhos. A notícia, que trazia poucas lembranças aos estudantes do então primeiro grau, consternou principalmente os do segundo grau, que estudavam no colégio há mais tempo. Apesar disso, um intenso burburinho atravessou o pátio central, por onde sons de pisadas ecoavam com a violência de uma marcha descompassada.

“O que você achou daquele filme Homens de Preto?”, “’O Coro Vai Comê’, do Charlie Brown Jr., é dá hora! Saca coé, né, mano?” “Domingo a gente vai chegar lá nos Três Morrinhos de bicicleta, tá a fim de ir?” “Po, véi, queria tá em casa assistindo Carmen Sandiego!” Entre conversas aleatórias, percebi que pouco se falava sobre a falecida. Em meio ao barulho, atravessamos a área descoberta que dividia o nosso pavilhão e a ala administrativa do colégio.

Descemos em direção ao estacionamento, onde os mais endiabrados escorregavam pelo gramado, penduravam nas costas dos amigos e lançavam suas mochilas sobre os colegas. Antes de deixarmos o portão do estacionamento, a algazarra foi contida por três ou quatro professores que repreendiam os baderneiros com palavras de ordem e ameaças de punição. Caminhamos mais uma quadra até chegar à Capela Mortuária Municipal. Na esquina, olhei para trás e vi que a fila se afunilou. Metade dos estudantes foram embora. Parte virou à esquerda da Rua Miljutin Cogei e parte à direita. Outros correram pela Rua Professora Enira Braga de Moraes em direção ao Ginásio Noroestão, um dos territórios preferidos dos matadores de aula.

Eu, desde sempre desabituado a frequentar velórios, recusei o pedido de alguns amigos que me chamaram para ver de perto quem era a falecida. Fiquei do outro lado da Rua Paraíba, com as costas no muro branco observando a movimentação intensa dentro e fora da capela. “E se mandarem a gente falar alguma coisa? Perguntar como a conheci? Pode ser até que algum doido me confunda com um parente e peça pra carregar o caixão. Imagine só, os outros me olhando com estranhamento e raiva, como se eu fosse um impostor? Não quero isso não!”, refleti, preferindo manter-me no anonimato.

Mas o distanciamento não durou muito tempo. Uma professora me viu do outro lado da rua e me levou até a capela. Ainda assim me mantive o mais afastado possível, atrás de uma grande pedra que algumas pessoas usavam como assento. Perto da multidão, eu ouvia cochichos dos mais diversos tipos. Comida, lazer e futebol figuravam entre as pautas comuns. “O que tem pra comer lá na sua casa, Roberta? Será que sua mãe fez bolo?”, perguntou um estudante com sorriso enviesado. Notei que o nível da conversa oscilava de acordo com a distância do caixão. Os mais lamentosos o cercavam enquanto os mais indiferentes mantinham-se afastados, preocupados com as trivialidades cotidianas.

Eu assistia tudo como um atento espectador, até que minha tranquilidade foi perturbada por um pinscher mesclado que se enfiou entre as minhas pernas e começou a uivar. O som era tão agudo e caricato que ninguém pensou na possibilidade de existir um bicho que uivasse com tamanha trampolinagem. Não, nenhuma pessoa fez questão de ver se havia algum cachorro. A atenção, as caretas e as expressões de raiva e desprezo, até por parte de quem pouco se importava com o velório, se voltaram para mim. “Caramba! Tem gente achando que sei dar esses uivos bizarros! Sacanagem!”, me lamentava.

Sem esconder o constrangimento, dei alguns passos para trás, virei o rosto corado, cocei os olhos e reagi com um sorriso amarelo, sem dizer palavra. Um professor se aproximou e disse: “Poxa, David! Você é um cara tão tranquilo. O que tá acontecendo contigo? Quer bater um papo na orientação?” Respondi que não fiz nada e fui ignorado. E para piorar, o bichinho voltou mais três vezes, uivando em intervalos e se afastando. Ninguém via o pinscher porque ele se enfiava entre os arbustos que cresciam livremente na esquina da capela.

Ameacei ir embora, mas seria pior. Como eu provaria que não fiz nada? Então optei por ficar pelo menos mais alguns minutos. De repente, quando algumas pessoas conversavam em torno do ataúde, alguém pisou de mau jeito e caiu sobre o caixão, o derrubando e fazendo a tiazinha rolar pelo piso. Em meio ao alvoroço, o pinscher correu uivando. Agarrou uma das pernas da falecida com as duas patas da frente e começou a roçar freneticamente o seu pênis diminuto.

Os familiares e amigos da zeladora ficaram horrorizados. Os demais se esforçavam para conter os risos. E o bichinho, elevado à protagonista de uma tragicomédia, não hesitava em mostrar os dentes a qualquer um que tentasse afastá-lo daquela perna rechonchuda. Me senti mal pela tiazinha, mas fui embora satisfeito em provar que aquele uivo caricato não era artifício de um adolescente gaiato.

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Deusdete, o peão que se tornou exemplo de superação  

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“Posso dizer que os políticos mais atrapalharam do que ajudaram no crescimento de Paranavaí. É uma cidade marcada por mais injustiça do que justiça”

O pioneiro segurando a única mala que restou da época em que tinha uma fábrica de malas na Rua Santa Catarina (Foto: David Arioch)

O pioneiro segurando a única mala que restou da época em que tinha uma fábrica de malas na Rua Santa Catarina (Foto: David Arioch)

Em 1952, aos 22 anos, o pioneiro Deusdete Ferreira de Cerqueira deixou Monte Alegre, na Bahia, e viajou de trem de Mundo Novo até a divisa com Minas Gerais, onde subiu em um caminhão pau de arara que parava em qualquer lugar onde alguém acenasse com a mão. Mais adiante, entrou em outro trem na divisa com São Paulo. “Em Ourinhos, peguei o ônibus e a mala errada. Desci com a bagagem de um companheiro. Quando cheguei em Paranavaí, entreguei a mala dele. Perdi tudo”, conta Deusdete às gargalhadas, acrescentando que as malas azuis de madeira foram feitas pelo próprio irmão.

Depois de nove dias de viagem, o pioneiro chegou a Paranavaí em 9 de julho de 1952. A ideia de sair da Bahia surgiu quando Cerqueira ficou sabendo que um irmão do seu cunhado estava morando em Paranavaí. “Viemos em cinco, incluindo meu irmão e outro parente. Parei na Pensão São João, em frente ao Posto Minas, onde fiquei uma semana. Lá estava hospedado um rapaz que era gerente da fazenda onde meu irmão e cunhado trabalhavam”, relata.

O homem que ficaria conhecido como Toninho do Cartório administrava uma fazenda em Itaúna do Sul, onde Deusdete começou a trabalhar como peão. Meses mais tarde, a inexperiência o deixou com as mãos tão feridas que teve de assumir o posto de cozinheiro nas incursões pela mata virgem da região. Depois de preparar a boia, tinha de levá-la para os peões.

O trabalho era tão difícil que poucos resistiam. “Até quem tinha uma vida ruim na cidade natal preferia voltar assim que recebia um dinheirinho, inclusive meu irmão. Eu quis vencer e sempre fui da opinião de ficar”, afirma. Um dia, Deusdete Ferreira percorreu três quilômetros de mata fechada para levar o café da tarde aos peões. Durante o trajeto, se deparou com uma peroba enorme caída no meio de um estreito carreador. Receoso, olhou para um lado e para o outro.

Ao longe, viu uma onça e ficou tão desesperado que gritou, jogou tudo no chão e saiu correndo. Quando chegou ao galpão, teve de aguentar as broncas do fiscal e dos peões. “E olha que onça não pegava ninguém cara a cara. Ela se escondia e atacava de surpresa”, comenta Deusdete rindo e lembrando que como peão trabalhou na abertura de muitas estradas de três a cinco quilômetros de extensão nas fazendas. Naquele tempo as ferramentas mais usadas eram o machado e o traçador.

Cerqueira também derrubou muitas árvores de cedro e canjerana usadas na construção de residências, tulhas e casinhas para manter a sustentação dos pés de café. O salário baixo não o esmorecia. Em pouco tempo foi promovido a subempreiteiro, responsável pela contratação e fiscalização do trabalho de 10 a 20 peões. “Buscava gente nas pensões de Paranavaí e levava pro mato. Fazia o trabalho de peão e ganhava um pouco mais pra cuidar do serviço da turma e cozinhar. O trabalho se estendia por até 12 horas”, enfatiza.

1960 - Deusdete e Raquel na primeira casa que compraram, situada na Rua Pernambuco (Foto: Arquivo Familiar)

1960 – Deusdete e Raquel na primeira casa que compraram, situada na Rua Pernambuco (Foto: Arquivo Familiar)

Nos tempos da colonização de Paranavaí, eram poucos os que se arriscavam a trabalhar como subempreiteiro, já que havia peões brutos. Entre os mais valentes, a moda da época era o bigode com as pontas mirando os olhos. Armados e bravos, não gostavam de lidar com os teimosos, nome dado aos empreiteiros sem experiência profissional, como era o caso de Cerqueira.

Uma vez, trabalhando na Fazenda 5R, o patrão atrasou o pagamento e Deusdete teve de vender o próprio encerado para pagar os peões. “O cara poderia até te matar se você não pagasse. Então era preciso se virar”, explica o pioneiro que também complementava a renda comercializando leite, leite condensado e fumo.

A situação só melhorou quando Cerqueira recebeu uma proposta do proprietário da Pensão Jacobina, onde vivia há um bom tempo. Sem condições de assumir a derrubada de 200 alqueires de mata em uma propriedade em Mirador, que pertencia ao diretor da Mercedes-Benz, o homem ofereceu a Deusdete a oportunidade de coordenar metade do trabalho, desde que ele recebesse uma parte dos lucros.

Deu tudo certo e plantaram 200 mil pés de café. A força de vontade de Cerqueira era tão grande que quando faltava comida ele saía de Mirador a pé para fazer compras em Paranavaí. A vantagem era que o proprietário do armazém mandava entregar tudo de caminhão. “Tinha gente que derrubava o mato e deixava margens de quiçaça de pelo menos 10 alqueires, o que era um problema na hora do plantio de café. Nesses casos os fazendeiros geralmente dispensavam ou davam preferência para outras pessoas”, pontua.

Quando o trabalho na mata durava meses, era normal o empreiteiro montar um barracão para vender alimentos aos peões, principalmente arroz, feijão, jabá e peixe. Deusdete percebeu que a maioria tinha o costume de comprar pinga, beber e abandonar a garrafa. Então ele as recolhia e levava para a cidade. “Eu percorria dois quilômetros a pé para trocar por garrafas cheias. Daí à noite, como eu sabia que os peões não tinham mais pinga pra beber durante o jogo de baralho, eu aparecia com as garrafas e vendia os copinhos de pinga”, garante.

Após as noitadas de bebida e jogatina, os peões se amontoavam em um barracão e dormiam sobre camas de palhas de milho e sacos que antes serviram para o armazenamento de carne seca. Quando esfriava, faziam fogueira, mas tinham o cuidado de isolá-la para evitar incêndio. Aos domingos, Deusdete lucrava de outra forma. Enquanto os demais relaxavam ou jogavam, ele ia até uma mina, onde lavava as roupas dos peões sobre uma pedra. Só entregava à noite. “Como fazia frio, ninguém reclamava e pagava certinho”, assegura.

Em 1958, Cerqueira deixou o trabalho na mata e usou as economias para comprar o Bar Continental, um dos pontos preferidos da população mais humilde de Paranavaí. O estabelecimento antes pertencia a uma família italiana que veio do Rio de Janeiro. No local o movimento era constante. Além do espaço amplo e das dez mesas de sinuca, a freguesia era atraída por cerveja, whisky, gim, Fogo Paulista, Cinzano, conhaque de alcatrão São João da Barra, cachaça Jurubeba, pinga Tatuzinho, refrigerantes Garoto, cigarros e charutos. “Eu vendia dois tipos de cerveja. Só que tinha uma que ninguém queria, então quando todo mundo ficava bêbado eu tirava o rótulo da cerveja boa e colocava na outra. Aí bebiam do mesmo jeito”, confidencia gargalhando.

Anos depois, Deusdete viveu uma situação constrangedora. Um dia houve briga e troca de tiros em um bar ao lado do Bar Continental e o chamaram na delegacia para se explicar sobre o acontecido. “Falei que não foi no meu bar e ainda provei. Não deram a mínima para o que falei porque a confusão tinha acontecido em um local frequentado pelos ricos e poderosos de Paranavaí. Queriam me culpar, já que eu não era ninguém na cidade”, reclama.

Com a experiência de quem se tornou comerciante na Bahia quando era criança, Deusdete ganhou dinheiro o suficiente para comprar uma casa na Rua Pernambuco e investir em pequenas propriedades rurais. “Adquiri uma chácara de um português atrás do 8º Batalhão da Polícia Militar. Depois vendi e comprei cinco alqueires do pioneiro Severino Colombelli perto da Fafipa [Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí]”, assinala.

Cerqueira viu uma boa oportunidade quando o governo começou a pagar para que os produtores rurais cortassem seus pés de café. Numa época em que as terras eram desvalorizadas, Deusdete comprou propriedades cheias de café, derrubou os cafezais e, seguindo a determinação governamental, plantou outra cultura por dois anos. “Quando ficava pronta, eu vendia pro vizinho. Fui indo, comprando e vendendo, até que consegui adquirir uma área de mais de 35 alqueires. Vendi também e comprei outra na Água da Cobra, perto do finado Luiz Lorenzetti”, cita.

Mais tarde, com a ajuda de Raul Piccinin, comprou uma fazenda de café de pouco mais de 100 alqueires em Santa Isabel do Ivaí. O imóvel pertencia a um senhor árabe de Londrina, conhecido como “Seu Nagibe”. Em 1965, Deusdete vendeu o Bar Continental, adquirido com o dinheiro que ganhou trabalhando na fazenda em Mirador. “Não cheguei e comprei. Continuei trabalhando até quitar o valor total. Falava-se em reserva de domínio. Depois vendi a minha metade do bar para um sócio”, revela e informa que o bar abria às 8h e fechava por volta da 1h.

Mais tarde, investiu em uma fábrica de malas de duratex na Rua Santa Catarina, no cruzamento com a Rua Souza Naves. Além de 10 funcionários, tinha também um caminhão. Deusdete vendia tantas malas que precisava viajar de avião com frequência para São Paulo, onde buscava matéria-prima na indústria de Paulo Maluf.

Em melhores condições financeiras, o pioneiro adquiriu a Fazenda Nova Marília, com 120 mil pés de café, de um fazendeiro árabe chamado Ney Jorge. Aproveitou que os bancos estavam oferecendo financiamento com juros baixos e investiu.

"Com o meu touro Reno, fui campeão nacional em 1974 em Uberaba, Minas Gerais" (Foto: David Arioch)

“Com o meu touro Reno, fui campeão nacional em 1974 em Uberaba, Minas Gerais” (Foto: David Arioch)

Deusdete e Raquel se casaram após um mês de namoro

Em 1960, depois de oito anos em Paranavaí, Deusdete Ferreira de Cerqueira foi para a Bahia rever a família. Desembarcou de avião em Feira de Santana e subiu em um caminhão pau de arara com destino a Angico, onde na infância já costumava participar da feira, vendendo galinha, fumo de corda, rapadura, leitoa e banana. “Vi uma mocinha e gostei muito dela. Fiquei na casa do primo João Soares e ela parava lá porque tinha comércio também. Então deu certo da gente namorar. Antes falei com a família dela. A mãe aceitou, até porque o pai da Raquel era afilhado do meu avô e nossas famílias moravam perto. Mas exigiu que eu ficasse lá. Eu disse que não porque estava recomeçando a vida no Paraná”, narra.

Após um mês de namoro, o vínculo de confiança entre os dois era tão forte que decidiram se casar na Bahia com a bênção das duas famílias. Deusdete tinha 30 anos e Raquel Reis, a primeira de uma família de 14 irmãos a sair da Bahia, tinha 18. “Vim pra um lugar completamente diferente, mas não foi muito difícil. Senti muita saudade da família. Fui me adaptando, construindo a vida, fazendo amizades. Gosto de Paranavaí. Lá eu morei 18 anos e aqui 55 anos, então aqui é a minha cidade. Meus filhos nasceram aqui e pretendo ficar aqui por toda a vida”, diz Raquel Reis de Cerqueira.

Deusdete declara que não seria quem é hoje se não fosse a companhia de Raquel. Segundo o pioneiro, a esposa só merece elogios. “O casamento me ajudou demais. Minha mulher me acompanhou desde o começo. Sofreu muito quando tínhamos filhos pequenos e íamos de um lugar para o outro na tentativa de melhorar de vida”, analisa.

“Única coisa que me deu prejuízo foi a política”

Ao receber o convite dos amigos para ser candidato a prefeito de Paranavaí em 2000, Deudete Ferreira de Cerqueira aceitou porque tinha o sonho de ver Paranavaí retomar o caminho do desenvolvimento que rendeu tanta popularidade ao município até o final da década de 1960. “Única coisa que me deu prejuízo foi a política. Você não vence uma eleição se não gastar. Banquei tudo do meu bolso. Gastei demais. É claro que ganhando R$ 4 mil por mês eu nunca iria recuperar isso”, admite.

Porém, o que desanimou mais Deusdete não foram os gastos com a campanha, mas sim o que veio depois. Sem grandes apoiadores, sentiu o peso da influência dos grupos políticos mais representativos de Paranavaí. Um deles interviu para que o município não recebesse recursos dos governos estadual e federal. “Paranavaí tinha R$ 3,5 milhões para receber. E só consegui fazer esse dinheiro chegar depois de muito tempo. Eu não tinha apoio. Dei R$ 1 milhão para a Santa Casa de Paranavaí e sobrou R$ 2,5 milhões. Foi o único recurso que recebi na minha gestão”, desabafa, acrescentando que a cidade tem uma história política marcada pela malandragem de grupos que agem como mafiosos.

A preocupação maior não era o futuro da cidade, mas sim atrapalhar o trabalho do poder público municipal. “Meu apoio era a minha família e o povo que acreditava em mim. Muita gente me defendeu, mas minha família sofreu muito por causa da exposição”, afirma Deusdete e revela que os opositores só não conseguiram prejudicar sua imagem porque ele não devia nada a ninguém. De 2001 a 2004, o então prefeito teve de trabalhar no limite, contando principalmente com recursos municipais.

“Não fiz tudo que gostaria porque não havia muito dinheiro, mas pelo menos deixei para a população algumas escolas novas, reformei praças, ruas, avenidas, investi um pouco em saúde e nos pequenos empresários. Tenho orgulho de ter ajudado na criação de uma cooperativa de costura para mais de 600 donas de casa. O resultado foi bom, mas quando saí acabaram com a cooperativa”, lamenta.

Cerqueira relata que deu continuidade a vários projetos do prefeito anterior. No entanto, desabafa que desde que Paranavaí surgiu a cidade é castigada pela inveja entre prefeitos. É rara a preocupação de não sacrificar o progresso em benefício próprio. “Por que Paranavaí não cresceu tanto quanto os outros municípios? Tínhamos tudo nas mãos, mas aqueles que têm o poder sempre fizeram o possível para que a cidade ficasse para trás. Sabe por quê? Porque eles se beneficiam disso”, enfatiza.

Mesmo quando era prefeito, Deusdete Cerqueira teve de enfrentar o preconceito. Ouvia ofensas até nos corredores da prefeitura. “Sofri muito por causa da minha cor e por ter pouco estudo. Nunca deixei de passar por essa situação. Só que enfrentei tudo de cabeça erguida, ignorando quem me agredia. Não me arrependi de ser prefeito, mas o resultado não foi o esperado. Posso dizer que os políticos mais atrapalharam do que ajudaram no crescimento de Paranavaí. É uma cidade marcada por mais injustiça do que justiça”, avalia.

Saiba Mais

Deusdete Ferreira de Cerqueira nasceu no dia 13 de março de 1930.

Frases do pioneiro e ex-prefeito Deusdete Ferreira de Cerqueira

“Tudo que tenho eu devo a Paranavaí.”

“Prefeitura foi feita para ser tocada como uma empresa, um comércio. Não pode ser administrada com base na politicagem.”

“Peguei a prefeitura com uma dívida de R$ 2,7 milhões. Paguei tudo e não deixei nenhuma dívida quando saí.”

Anu-preto, o sentinela de cauda cor de canela

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Ele saltava e corria com astúcia, mantendo o bico levemente inclinado para cima e os olhos no horizonte

Coquinho que o anu marrom me deu quando eu ainda era criança (Foto: David Arioch)

Coquinho que Marrom me deu quando eu ainda era criança (Foto: David Arioch)

Acredito que tenho sorte de nunca ter sofrido nenhum acidente sério na infância. Nem mesmo quebrei braço, perna ou qualquer outro membro. O que era visto até como anormal na minha rodinha de amigos peraltas. Um dia nos encontramos e cada um disse de que forma já tinha se machucado e quais foram as maiores consequências.

Alguns se orgulhavam de suas cicatrizes e contavam histórias fantasiosas. Na realidade, bem duvidosas. “Ah! Essa aqui na minha perna eu ganhei depois de lutar com um doberman gigante que morava ao lado da casa da minha vó, na Rua Maranhão. Ele me mordeu e eu mordi ele. Ainda fiz dele o meu cavalinho. Hoje, sempre que me vê, ele abaixa o focinho em sinal de respeito”, narrou Henrique com sete anos em 1992.

Naquele ano, Júlio chamou eu e meu irmão Douglas para irmos à sua casa na Avenida Juscelino Kubitschek brincar de pega-pega. Numa das fugas, comecei a circular em torno de uma lixeira presa à calçada. Por descuido, bati a cabeça na quina de ferro e senti a astenia tomando conta do meu corpo. A visão ficou ligeiramente turva e o sangue escorreu pelos meus cabelos, rosto e blusa de moletom.

A poucos metros de distância, no cruzamento com a Rua Chozo Kamitami, enquanto o Seu Roberto, pai de Júlio, tirava o carro da garagem para me levar ao Hospital São Lucas, notei um anu-preto me observando e soltando um pio sibilante. As penas de sua cauda lustrosa se abriam e se fechavam. Quando saímos, olhei pela janela e ele ainda continuava lá, mas já não emitia nenhum som.

No hospital, deitei numa cama e tive a minha primeira experiência com a sutura. Em 15 dias, logo que os poucos pontos foram retirados, fiquei passando a mão, sentindo a lombadinha ainda sensível. Era a minha mais importante cicatriz e todos podiam ver a pequena área raspada com navalha. Curiosos, meus amigos pediam para que os deixasse encostar o dedo. “Que massa, David! Eu nunca tinha visto uma cicatriz na cabeça!”, comentou Thiaguinho.

Durante a minha recuperação, nos reuníamos todos os dias de manhã na Rua Artur Bernardes, no Jardim Progresso, perto da Sanepar. Sentávamos no meio-fio em frente de casa e assistíamos a revoada de um grupo de anus-pretos, moradores de um enorme terreno coberto por matagal. Havia tanta vegetação que nem o muro de quase dois metros de altura impedia que o verde se esforçasse para ultrapassar os limites do cercado de lajotas. Meu avô dizia que a família de anus estava lá antes do surgimento do bairro.

“Esses aí são descendentes dos primeiros que já viviam aqui quando tudo isso era floresta. Eles continuam morando aí porque é onde se sentem mais seguros”, contou. Às vezes eu pendurava sobre o muro para observá-los. Rapidamente notavam minha presença e se aninhavam, protegendo as fêmeas e seus ovos azuis-esverdeados. Suas penugens não eram simplesmente pretas e uniformes. Tinham tons amendoados por causa da terra que pincelava o capim-melado e por consequência suas penas em dia de chuva intensa.

O líder do bando possuía cauda cor de canela, e foi assim que o reconheci como o anu-preto que piou em minha direção no dia em que me machuquei. Ele não era o maior, mas nas muitas vezes que o assisti sempre me pareceu o mais observador. Os outros companheiros nem se incomodavam quando ele saltava e corria com astúcia sobre eles, mantendo o bico curvado levemente inclinado para cima e os olhos no horizonte.

Sempre que algum pássaro estranho ou outro bando de anu invadia o terreno, ele emitia um sinal sonoro curto e estrídulo, preparando os companheiros para uma ofensiva. Ao se deparar com até 15 anus-pretos em estado de alerta, o invasor, em grupo ou sozinho, normalmente não ficava mais de um minuto no terreno, um pedacinho de bosque que contrastava com a urbanidade ainda plácida das quatro vias que o cercava.

Não foram poucas as ocasiões em que vi os anus empoleirados sobre uma árvore se comunicando como se estivessem conversando. Suas vozes mudavam com tanta frequência que eu tinha a impressão de que faziam pilhérias. À tarde, sempre que o sol se lançava sobre os galhos e ramagens de uma sete copas, facilmente observada da janela da sala de casa, eu via três ou quatro anus-pretos se banhando com a luz solar.

Ocasionalmente levantavam a cabeça, abriam as asas e as chacoalhavam. As penas lucilavam com tanta graça que eles reconheciam o seu esplendor ao verem o próprio reflexo no bico reluzente do companheiro mais próximo. Daí estufavam o peito e cantavam em sequência, cobrindo as lacunas de silêncio deixadas pela ausência do vento. Só partiam quando a brisa se intensificava ou o sol se distanciava.

Mais tarde, mudamos para a Rua Sílvio Meira e Sá Bezerra. A minha nova rotina me impedia de ver os anus-pretos com frequência, tanto que cheguei a ficar quase um mês sem visitar o lugar. Num sábado, retornei ao terreno, subi em uma ripa e pendurei sobre o muro. Tive uma grande surpresa. Não havia nenhum anu-preto ou vegetação, apenas um enorme vazio que marcava o fim de uma história iniciada antes da chegada do primeiro pioneiro àquela área.

Percorri as ruas do Jardim Progresso e Jardim Paulista até ser vencido pela estafa. Queria encontrar o bando de Marrom, apelido que dei ao líder dos anus-pretos por causa da sua cauda acanelada. Não encontrei nenhuma pista. Era como se eles nunca tivessem vivido naquele lugar. Fiquei confuso e não me conformei com o fato de que nunca mais ouviria seus cantos maviosos ou veria seus olhos negros – ora escabreados, ora complacentes.

Bati palmas em algumas casas das redondezas para pedir informações. A maioria não se importava ou não fazia questão de me ajudar. “Isso aí traz coisa ruim, mau agouro, morte. Não é coisa de Deus. Foi bom que sumiram daqui”, declarou uma senhora que morava numa casa branca na esquina da Rua Artur Bernardes.

Meses depois, em uma tarde, escorreguei no piso molhado e bati a cabeça no chão quando minha mãe e minha tia Paula estavam lavando a garagem. Levantei estonteado, só que tive a impressão de que estava tudo bem apesar da pancada. Ledo engano. Coloquei a mão na cabeça e senti o sangue fluindo aos pouquinhos. Então chamaram meu pai, abriram o portão e me levaram ao Pronto Socorro.

Curativo feito, retornei para casa e sentei na calçada com as costas escoradas no portão. De repente, ouvi um canto curto e intervalado vindo de uma árvore do outro lado da rua. Olhei para o alto e vi Marrom. Me aproximei e notei que seu bico estava levemente deformado, mas cicatrizado, como se tivesse sido ferido há bastante tempo.

Cheguei mais perto e estendi a mão direita. No mesmo instante o pássaro abriu o bico e me lançou um coquinho que caiu na palma da minha mão. A fechei e desci da árvore. Continuei lá um bom tempo enquanto Marrom estufava o peito e cantava sozinho para o seu único espectador. Me contentava em saber que ele estava vivo, mesmo que eu estivesse imerso no desconhecimento de seu destino.

Antes de partir, emitiu um último som agudo que fez algumas folhas vibrarem e voou. Cada vez mais alto, se afastou do meu diminuto campo de visão. E sua cauda acanelada pelo capim-gordura, banhado em água de chuva e solo arenoso, desapareceu na esquina da Rua Sílvio Meira e Sá Bezerra, onde Marrom foi visto pela última vez.

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25 minutos na fila do hipermercado

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Na minha frente um homem jocoso de não mais que 40 anos aproveitava a lentidão

O garotinho apostou em duas mangas Tommy que o pai aceitou com um sorriso maroto

O garotinho apostou em duas mangas Tommy que o pai aceitou com um sorriso maroto

Em uma das minhas idas ao hipermercado, deixei o carro a quase 100 metros de distância da entrada. Tudo bem, afinal eram quase 18h de sábado. Ainda assim o estacionamento cheio já prenunciava uma curiosa exaustão de ânimos. Logo na entrada, um rapaz empurrando um carrinho em minha direção tentou disputar um estreito espaço entre dois carros com um senhor mais à frente. O resultado foi um choque de carrinhos que lançou ao chão pacotes, frascos, potes, sacolas e garrafas.

“Que isso, meu amigo! Pra que essa sangria desatada?”, questionou o homem de meia-idade. Por sorte, nada quebrou, mas nem por isso o jovem escapou de ouvir uma reprimenda daquelas que os pais dão nos filhos mais encapetados. Acuado pela vergonha, o rapaz abaixou a cabeça, levou as mãos ao rosto, se desculpou e ajudou o homem a recolher as compras e colocá-las no porta-malas.

No interior do hipermercado havia tanta gente entre algumas gôndolas que até hoje não sei se as pessoas se acotovelavam sem querer ou se queriam extravasar a raiva por causa dos preços nas etiquetas. Perto da seção de doces, uma criança risonha de não mais que sete anos aproveitou a distração dos pais para esconder um pacote de paçoca embaixo de um pacote de macarrão parafuso.

Depois que comprei tudo que precisava, caminhei até a seção de hortifruti, onde vi uma fila enorme para o caixa rápido à minha direita. Em forma de L, quase encostava na padaria. Ao longe se ouvia resmungos que pareciam zumbidos de abelha. “Isso aqui promete. Mas sem problema, é sábado mesmo”, pensei, mesmo ciente de que eu era uma exceção diante de uma maioria que interpretava aquilo como um desrespeito ao consumidor – e com razão.

Na minha frente um homem jocoso de não mais que 40 anos aproveitava a lentidão da fila e pedia ao filho de nove ou dez anos que buscasse alguns produtos. Numa dessas demandas, falou ao menino para ver o preço do limão-taiti a poucos metros de distância, à nossa esquerda. Perdido, o garoto não notou a placa diante de seus olhos e o pai disse: “Po, menino! Tá na sua frente aí o negócio! Olha pra cima!” Ainda confuso, o garoto de sorriso amarelo rodopiou e nada, atraindo risos abafados dos clientes. Até que se aproximou da placa e visualizou o valor.

“Pode trazer três desse aí”, avisou o pai após saber o preço. Com a demora e a fome, o garoto começou a percorrer as bancas com os olhos. Algumas frutas mais suculentas que outras instigavam sua imaginação. “Que delícia!”, dizia ele lambendo os beiços e admirando uma caixinha que trazia um modesto cachinho de uva niágara. Contente, se aproximou do pai, estendeu as mãos e mostrou o seu achado. “Pelo amor de Deus, você tá louco? 12 reais por um cachinho que dá pra engolir numa bocada? Nãããoooo, pode devolver!”, sentenciou. A reprovação do pai foi tão enfática que desvaneceu até a vontade de comer uva.

Então o garotinho apostou em duas mangas Tommy que o pai aceitou com um sorriso maroto quando soube que era dia de promoção. A criança também recebeu um olhar beneplácito ao depositar na cesta uma bandejinha de morango ao preço de R$ 2,99. “Agora esse menino tá aprendendo a viver e a não ser enganado”, suponho que refletiu o homem quando deu dois tapinhas no ombro do filho. Nos 25 minutos que fiquei na fila do caixa rápido, o pai que antes transportava uma cestinha já estava carregando duas. E assim a gerência do hipermercado agradece.

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Julio Cortázar vai ao teatro

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“Nada somos, apenas estamos, nos diz Cortázar, mostrando que vivemos de atravessamentos”

Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio se apresenta em Paranavaí no dia 17 (Foto: Divulgação)

Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio se apresenta em Paranavaí no dia 17 (Foto: Divulgação)

No dia 17, sábado, às 20h30, o Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio, de Curitiba, vai apresentar no Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o espetáculo “Cronópios da Cosmopista” que propõe um jogo de espelhos entre o escritor argentino Julio Cortázar, um dos mais importantes nomes da literatura latino-americana, sua obra e o olhar dos artistas em cena. O evento que tem entrada gratuita é patrocinado pelo Sesi Cultural.

Cortázar é o verdadeiro protagonista da peça “Cronópios da Cosmopista”, criada a partir de texto inédito inspirado em fragmentos reinventados, canções, poemas e frases de um realismo fantástico que nasce da gestação de vários mundos dentro de um. “São mundos que se desdobram e se fundem. O fim e o começo, paralelos e sem cronologia, nos dão chão e também nos retiram dele”, comenta o ator e diretor Rafael Camargo que transita pela música e convida o público a mergulhar em questões existenciais.

Especialista em teatro experimental, principalmente em usar a ausência de ação física como estética teatral, Camargo leva ao palco não um espetáculo de personagens, mas de relações criadas a partir de situações e diferentes contextos. “Nada somos, apenas estamos, nos diz Cortázar, mostrando que vivemos de atravessamentos”, destaca o diretor que divide o palco com Christiane de Macedo e Diego Marchioro.

O primeiro espetáculo do Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio foi “Amoradores de Rua”, lançado em 2010, seguido por “End” e “Uma Entre Mil Histórias de Amor”, de 2011. No ano seguinte, estrearam “Buraco da Fechadura”, baseado na obra de Nelson Rodrigues. “Em ‘Cronópios da Cosmopista’, de 2013, observamos o desenvolvimento e as possibilidades do nosso encontro e torcemos para que ele seja sempre tão prazeroso para o público que nos assiste quanto é para nós que o realizamos”, declara Camargo.

Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges (Foto: Divulgação)

Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges (Foto: Divulgação)

Todos os espetáculos do grupo nascem de processos colaborativos que envolvem atores, diretor, dramaturgo e equipe técnica. A proposta é refletir sempre a expressão artística como meio de discussão de temas bem atuais, que questionam a complexidades das ações humanas e sua natureza. No ano passado, e com a parceria do Centro Cultural Teatro Guaíra, o grupo criou a Mostra Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio que levou ao público do Auditório Salvador Ferrante, o Guairinha, as peças “Cronópios da Cosmopista e “Buraco da Fechadura”.

Julio Cortázar, o mestre do conto curto e da prosa poética

Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.

Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.

Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.

Agenda do espetáculo “Cronópios da Cosmopista”

Dia 15 – Maringá

Dia 16 – Umuarama

Dia 19 – Cianorte

Dia 27 – Campo Mourão