David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

A casa queimada e o início da alvorada

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Glutão, o fogo tomou conta do local, formando vultosas labaredas que chamuscavam as paredes

Esquina da Rua Antônio Fachin, onde eu morava em 1985 (Foto: David Arioch)

Esquina da Rua Antônio Fachin, onde eu morava em 1985 (Foto: David Arioch)

No dia 6 de novembro de 1985, quando eu ainda era bebê e estava dormindo, minha mãe conversava na sala com um amigo chamado Jamil. De repente, meu irmão, também pequeno, se aproximou e disse: “Nossa! Tem um vermelhão enorme lá na cozinha. Vai lá ver!” Quanto mais se aproximava, mais minha mãe sentia cheiro de queimado. Glutão, o fogo tomou conta do local, formando vultosas labaredas que chamuscavam as paredes nevadas e limpas. Obscurecia tudo sem reservas e derrubava sobre o piso quente e úmido os restolhos que abrasava sem muito esforço.

Sem pensar nos danos materiais, minha mãe me pegou em seus braços, chamou o Jamil e gritou o nome do meu irmão algumas vezes: “Douglas! Douglas! Venha aqui! Venha aqui! A casa está pegando fogo. Vamos sair! Vamos sair!” E continuei dormindo no caloroso aconchego materno que me protegia da destruição que se intensificava. Minha fisionomia persistia serena. Era cedo demais para reconhecer uma tragédia. Estava imerso num mundo cândido de sonhos onde crianças são sempiternas.

Só abri os olhos grandes, pretos e redondos como duas jabuticabas quando estava fora de casa, como se ainda não me fosse permitido testemunhar os infortúnios da vida. Balancei as pernas no colo de minha mãe e num sorriso singelo e desdentado tentei consolá-la involuntariamente. Estiquei os braços para tocar-lhe o queixo, mas eram curtos demais. Mesmo assim, lágrimas mornas escorriam pelo seu rosto e desciam pelos meus braços curtos que formavam uma ponte disforme.

Soltei uma curta gargalhada e minha mãe voltou sua atenção pra mim. Percebeu que as águas salinas que desciam dos seus olhos me levaram ao riso assim que invadiram uma das aberturas da minha camisetinha regata, tocando minhas axilas e fazendo cócegas. Ela riu e me asseou com uma fralda que trazia uma estampa do Pernalonga comendo cenoura. Passivas, muitas pessoas se aproximavam para assistir a desfortuna como se estivessem prestigiando um espetáculo de piromania. As paredes da casa de madeira da Rua Antônio Fachin, perto da antiga Antarctica, em Paranavaí, caíam uma a uma, como num jogo de dominó. Vencidas pelo fogo, retumbavam e deitavam sobre o chão calcinado, expondo ao público a destruição de um todo que exigiu milhares de horas de trabalho.

Em meio ao intenso bodum de queimado, todos sentiam o sutil aroma dos pães que minha mãe fazia todos os dias. Alheia aos cochichos dos estranhos, ela se mantinha inerte, observando o empenho dos bombeiros. Nada mais podia ser feito. Tarde demais. O rompimento do teto e a queda violenta das telhas de cerâmica vermelha ecoavam um som labiríntico seguido por cortinas de poeira trigueira que velavam um vazio vertical. Tudo parecia rasteiro, menos a tristeza de minha mãe que se amplificou com a chegada das suas irmãs Paula e Smaida e do seu pai João. Eles também moravam na casa e não conseguiam acreditar no que viam. Paula que chorou desesperadamente trouxe na cesta da bicicletinha Caloi verde alguns pães caseiros que não teve tempo de vender naquele dia.

Antes que minha mãe pudesse contabilizar os estragos, alguns repórteres se aproximaram e perguntaram como ela se sentia ao ver a casa em ruínas. Apesar da voz fragilizada e rareada, respondeu educadamente: “Me sinto mal. Muito mal. Tudo que eu tinha estava lá dentro.” Minha mãe, com 27 anos, se afastou da plateia e me carregando no colo caminhou em direção aos escombros. A cada passo, sentia uma pontada no peito. O corpo estremecia e ela resistia, mais pela família do que por si mesma.

“Ainda bem que queimou só essa casa aí. Imagine se o fogo se espalhasse até as nossas? Hunf!”, comentou uma mulher. Com a chegada da polícia, os curiosos foram dispersados. Quando ficamos sozinhos, minha mãe circulou por mais de hora no centro da residência que não existia mais. Observava tudo atenciosamente e caminhava com sapatos sujos entre os detritos, tentando encontrar algo que pudesse ser aproveitado. Meu irmão, minhas tias, Jamil e meu avô faziam o mesmo. Mas a verdade era uma suplantadora de crenças e expectativas, reforçada por duas tábuas caídas no chão. Com pregos mirando o chão, formavam uma cruz acinzentada. Então minha mãe, responsável por criar dois filhos e duas irmãs, não chorou mais.

Mais tarde, Seu Dino, um alemão supersticioso que morava na Rua Minas Gerais e era amigo da minha família, nos procurou para dizer que uma casa queimada marcava o início de uma alvorada. “Não fiquem tristes. Olhe, o fogo queima todo o azar e com ele leva o arremedo de um pesar. Marca um renascimento, um sinal de reavivamento”, profetizou e citou a lenda de Benu, o pássaro egípcio nascido do coração de Osíris e que se aninhava entre ervas aromáticas antes de ressurgir após atear fogo em si mesmo.

Trinta minutos depois que Seu Dino partiu, o calor primaveril deu trégua e o sol complacente desapareceu atrás da copa de um enorme pé de manga que cobria e arrefecia nossa casa. A brisa repentina e duradoura afastou o mau cheiro de crestado, trazendo junto com o frescor da tarde, no seio do descampado, um chuvisco vaporoso com gosto adocicado.

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