David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Projeto de inclusão digital muda a vida dos moradores de Graciosa

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Armando Lehmkuhl: “Estou aqui há três meses e antes eu só sabia apertar o botão de ligar”

O curso com duração de quatro meses atende hoje três turmas que somam 30 alunos em três horários (Foto: David Arioch)

O curso com duração de quatro meses atende hoje três turmas que somam 30 alunos em três horários (Foto: David Arioch)

São quase 19h, e na esquina da Avenida Osvaldo Cruz, em Graciosa, distrito de Paranavaí, alguns moradores atravessam a via em frente à Igreja Nossa Senhora das Graças, onde fazem o sinal da cruz em respeito à padroeira da pacata comunidade de aproximadamente três mil habitantes.

Do outro lado, o professor de informática Jáder Ragazzi abre uma porta de vidro e os recepciona na escola de inclusão digital mantida há dois anos pela cooperativa de crédito Sicredi com a parceria da Faculdade de Tecnologia e Ciências do Norte do Paraná (Fatecie). No local, o clima que envolve professor e alunos com idade de 33 a 58 anos é de muita camaradagem.

À vontade, e perto de casa, ninguém precisa se preocupar com formalidades (Fotos: David Arioch)

À vontade, e perto de casa, ninguém precisa se preocupar com formalidades (Fotos: David Arioch)

Entre brincadeiras e lições, os dez estudantes que até então desconheciam o mundo da internet e da informática se sentem como se estivessem renascendo para uma nova realidade, a virtual. “Estou aqui há três meses e antes eu só sabia apertar o botão de ligar. Hoje uso o programa Excel pra fazer tabelas de custo. Me ajuda muito. Só demorei pra entrar no curso porque tinha uma fila de espera enorme. A procura é muito grande”, conta rindo o agricultor Armando Lehmkuhl, de 43 anos, apontando para o monitor e mostrando que agora se soma a milhões de pessoas que usam mídias sociais como o Facebook.

A modesta e acolhedora escola funciona em uma sala de paredes brancas que abrigava a antiga unidade de atendimento do Sicredi, onde mesas, cadeiras e computadores que seriam descartados ajudam a transformar a vida de agricultores, pintores, motoristas, mecânicos, costureiras, aposentados, autônomos e donas de casa. À vontade, e perto de casa, os alunos não precisam se preocupar com formalidades. “Cada um vem do jeito que quiser. É como estar em casa”, diz o professor Jáder Ragazzi rodeado de estudantes que aproveitam o calor da primavera para assistir as aulas usando camiseta, bermuda e chinelos.

O projeto que se tornou um sucesso em Graciosa despertou receio e hesitação por parte da população no início. Muitos curiosos passavam perto da escola para observar a movimentação, ver à distância como eram as aulas. “Eu sabia que o banco estava ensinando informática, só que só tomei coragem de participar quando minha cunhada fez e falou que gostou. Aqui é assim. Um vai falando e chamando o outro”, explica sorrindo a costureira Rita de Cássia Schuelter Silva, de 47 anos, que vê na internet uma grande oportunidade de se manter informada e fazer amizades.

O curso com duração de quatro meses e realizado sempre na terça e na quinta-feira atende hoje três turmas que somam 30 alunos em três horários. A maioria dos adultos admite que dificilmente aprenderia a usar o computador se tivesse que se deslocar até Paranavaí, a 17 quilômetros de distância. Além das despesas, outra preocupação era a exposição diante de estranhos e jovens afeiçoados à informática. “Tudo começou quando pensamos em fazer um programa de inclusão social com a terceira idade e acabamos atendendo todas as faixas etárias. A Fatecie se dispôs a ajudar e nos forneceu o professor e o material didático”, garante a gerente da unidade do Sicredi de Graciosa, Andreia Rodrigues Mendonça Viana.

Todos os participantes já se comunicam por redes sociais, onde trocam piadinhas e planejam reuniões esporádicas (Fotos: David Arioch)

Todos os participantes já se comunicam por redes sociais, onde trocam piadinhas e planejam reuniões esporádicas (Fotos: David Arioch)

No distrito, mais de 700 moradores são associados da cooperativa, o que significa que o benefício é estendido a praticamente todo mundo, até porque para ingressar na escola basta ter algum parentesco com um associado. “Muitos começaram do zero e veem também uma oportunidade de ter uma remuneração melhor”, comenta Jáder Ragazzi. O mecânico Devanir Perri aponta como uma das vantagens do curso o fato de conseguir emitir nota fiscal dos serviços prestados em sua oficina.

Omir de Oliveira, autônomo de 58 anos, segue na mesma esteira. “Consigo abrir firma pela internet e estou aprendendo a pesquisar tudo que quero”, destaca. Vilson Lourenço de Sousa, de 39 anos, que está se familiarizando com o programa PowerPoint e já faz compras online, justifica que com as novas tecnologias todo caminhoneiro precisa ter bons conhecimentos de informática. “Estou na mesma situação que eles. O meu trabalho de pintor exige que eu saiba pelo menos enviar e-mails e mexer com programas como o Word. Ainda bem que temos um professor calmo e que explica muito bem”, pondera Edilson Lino de Oliveira, de 33 anos, sem velar a satisfação.

A autônoma Janete Rodrigues de Almeida, de 46 anos, assim como a dona de casa Sandra Portela de Oliveira, de 53 anos, e a costureira Rita de Cássia Schuelter Silva, de 47 anos, quis aprender informática principalmente para usar mídias sociais e manter contato com amigos e familiares. “Minhas duas filhas moram fora e assim posso falar com elas com mais facilidade. Temos dificuldades de aprendizado, mas vamos indo. O curso é muito bom”, revela Sandra.

O que também ratifica o êxito do projeto é o baixo nível de desistência. A cada turma, no máximo um ou dois alunos deixam a escola. As causas normalmente são problemas sérios de saúde ou falta de tempo. “Fazemos o possível para evitar que desistam, tanto que oferecemos alternativas de horário”, confidencia Jáder Ragazzi.

Em Graciosa, onde a economia é essencialmente agrícola, a inclusão digital trouxe uma grande transformação social e cultural. Não é difícil ver homens e mulheres trocando a enxada no final da tarde pelo computador, o que é encarado com naturalidade, já que 50% dos participantes atendidos pelo projeto são trabalhadores do campo. “Também recebemos pessoas da área de comércio e indústria querendo aprender a entrar em contato com fornecedor pela internet”, assinala o professor.

No local, o clima que envolve professor e alunos com idade de 33 a 58 anos é de muita camaradagem (Foto: David Arioch)

No local, o clima que envolve professor e alunos com idade de 33 a 58 anos é de muita camaradagem (Foto: David Arioch)

Acostumado a trabalhar com pessoas experientes em informática, Jáder Ragazzi relata que se surpreendeu quando se dispôs a encarar o desafio de lecionar para adultos que nunca usaram um computador. “É um aprendizado bacana, tanto pra eles quanto pra mim. No geral, são curiosos e pacientes. É bonito ver o interesse de um em ajudar o outro. Aprendo inclusive valores com eles. Afinal, muitos são maduros, pessoas com mais experiência de vida do que eu”, avalia.

Quando não estão em sala de aula, os alunos se comunicam pelas redes sociais, onde trocam piadinhas e planejam reuniões esporádicas. “Sempre chamam para dar um pulo na casa deles ou no sítio. Então a gente vai lá e faz uma confraternização. É um pessoal muito bacana, com quem vale muito a pena trabalhar”, afirma Ragazzi.

Curso de informática tem lista de espera para 2016

Ao ingressarem no curso de informática oferecido pela cooperativa Sicredi em parceria com a Fatecie, os participantes passam por um processo de nivelamento para que o professor possa trabalhar adequadamente com todos os alunos ao mesmo tempo.

“Aqui eles aprendem a mexer com a internet e com o pacote Office, da Microsoft, que inclui Word, Excel e PowerPoint. Todo o material didático é entregue a eles em um pendrive. E nesse mesmo dispositivo eles armazenam as atividades”, detalha o professor Jáder Ragazzi, acrescentando que a apostila foi desenvolvida pelo professor André Dias Martins, coordenador do curso de sistemas para a internet da Fatecie.

Para não ficar datado, o material digital é constantemente atualizado. Com o Word, os alunos aprendem a editar texto e melhorar a digitação. Já o PowerPoint é usado mais como recurso preparatório para a inserção de imagens em mídias sociais. “Daí quando chega na internet, eles estão tinindo”, comemora Ragazzi, lembrando que deu aulas em Graciosa até para alunos de 80 anos, com quem mantém contato quase diário pelo Facebook.

Após os quatro meses de curso, os participantes recebem os certificados. Para 2016, a procura pelo projeto de inclusão digital deve crescer ainda mais. A maior prova disso é o fato de que existe uma grande lista de espera.

Saiba Mais

Em julho, a diretoria da Sicredi União embarcou para os Estados Unidos. Em Denver, no Colorado, o projeto de inclusão digital concorreu ao prêmio do Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito (Woccu).

A cada quatro meses 30 novos alunos ingressam na Escola de Inclusão Digital do Sicredi União PR/SP

As aulas são realizadas às terças e quintas-feiras em três horários: 14h às 16h, 16h às 18h e 19h às 21.

Os participantes também podem participar de mais de 800 cursos online disponibilizados pelo Sicredi.

Contato

Para mais informações sobre o projeto, ligue para (44) 3428-1371

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