David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for January, 2016

O destino de Dora

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Um dia, não suportou a pressão e caiu desmaiada no piso gelado da sala de trabalho

Dora

Se recusando a receber qualquer tipo de visita há meses, Dora decidiu aliviar a própria dor cometendo suicídio com chumbinho (Arte: Leisa Collins)

Eu e Dora nos conhecemos no início de 2008, após o falecimento de seus pais em um acidente na BR-376. Ela tinha 23 anos e trabalhava em uma dessas centrais de teleatendimento há três anos. Após a tragédia, em vez de se preocuparem com a moça, todos os familiares se afastaram. Na mesma época, fui demitido de supetão do jornal porque a editoria em que eu trabalhava foi extinta logo após o editor se demitir.

Mas já fazia um bom tempo que eu e Dora nos encontrávamos para conversar, divagar e relatar planos. Inspirado na obra “Dublinenses”, de James Joyce, o meu era usar o dinheiro da demissão para viajar pela Irlanda. Para ser mais preciso, assistir shows da banda de post-rock God Is An Astronaut e anotar em um caderno tudo que eu via de interessante sobre o comportamento humano no Velho Mundo e sua relação com o tempo e o ambiente. Não queria trabalhar, somente vagar até o dinheiro acabar.

“Quero me distanciar para ter a chance de renascer. O ser humano precisa mudar de tempo em tempo senão pode enlouquecer ou se tornar algo até pior – um sujeito resignado”, comentei com Dora que sorriu enquanto batia levemente as pontas das unhas purpúreas sobre a mesa maciça e rústica do bar. Ela se calou por alguns instantes, observou o céu estrelado, apontou a imensa lua com uma de suas delicadas mãos, abaixou os olhos amendoados, os levantou novamente e disse: “Cara, eu tenho leucemia…”

Fiquei sem reação. E acho que nada que saísse de minha boca naquele momento a confortaria. Então simplesmente recobrei minha expressão serena, fixei meus olhos nos olhos dela e dei cinco toquinhos em sua mão esquerda que repousava sobre a mesa. Ela entendeu e sorriu, sem também dizer palavra. Percebi que Dora não queria conversar sobre a doença, somente compartilhar com alguém uma revelação que não teve coragem de contar a mais ninguém.

Mais tarde, a levei até sua casa e fui embora pensando em como sua situação era delicada. Eu que já tinha perdido meu pai para o câncer em 1997, nunca mais consegui encarar a doença como algo menos do que implacável. Ela usurpa do ser humano muito mais do que a própria vida – aniquila sua dignidade. É a reafirmação de nossas fraquezas, do fim, da efemeridade.

Nos encontramos por mais dois meses, até que um dia, conversando pelo celular, ela sugeriu que não nos víssemos mais. Acabei respeitando sua decisão, compreendendo a delicadeza da situação. Ela já não ligava mais a câmera durante as conversas na internet. Também ocultava a foto do perfil. A questionei uma vez sobre isso e me arrependi. Eu já não a via mais nem por acaso. Talvez ela tivesse tomado a decisão de sair de casa somente a trabalho.

Ainda assim, sei que teria me sentido o mais mesquinho dos homens se partisse para minha jornada errante joicyana. Desisti da viagem para a Irlanda e comecei a escrever sobre Dora. Ainda conversávamos com bastante frequência e pedi que me relatasse sua rotina. No trabalho, ela não contou a ninguém sobre o diagnóstico da doença e continuou vivendo como se não tivesse nenhum problema de saúde. Provavelmente eu era a única pessoa que sabia da leucemia. Olhar para mim talvez fosse o atestado da soma de suas fragilidades.

Nunca a questionei se ela se arrependeu de ter me contado sobre a doença, mas comecei a perceber que se sentia mais vulnerável diante de mim. No celular, sua voz doce se amofinava cada vez mais, combalida pela constante contradança de emoções. Às vezes, aflita e aturdida, me ligava de madrugada. Eu mal ouvia sua respiração ofegante e ela desligava arrependida. Sua sensibilidade se acentuava a cada dia – à flor da pele.

No trabalho, não havia trégua e ela não queria de jeito nenhum assumir publicamente a leucemia. Os clientes que ligavam para a central de atendimento se queixando dos serviços oferecidos, pouco se importavam com a vida ou o estado emocional de quem estava do outro lado da linha. “Você é retardada, minha filha? Sua jumenta! Quero o meu dinheiro de volta! Não vou pagar por um serviço que não usei!”, gritou um homem, afirmando que era juiz e prometeu fazer o possível para vê-la demitida, caso seu problema não fosse resolvido.

As ofensas diárias dos queixosos se intensificavam cada vez mais. Num período de três horas, Dora era agredida verbalmente por até 20 clientes. Insatisfeitos, descontavam na moça a cólera em decorrência de problemas pessoais, profissionais e falhas que estavam muito além de sua função. “Escute aqui, querida! Sou médica, está me ouvindo? Estudei muito pra chegar onde estou e não vai ser uma qualquerzinha do teleatendimento, um trabalhinho sujo desse, pra gente burra e desqualificada, que vai tirar vantagem de mim!”, esbravejou uma mulher que disse ser parente de um deputado.

Um dia, Dora não suportou a pressão e caiu desmaiada no piso gelado da sala de trabalho. Estava pálida, com os lábios arroxeados e suava frio. Tirou a tarde de folga e foi para casa. Entrou no quarto, sentou na cama e observou o próprio reflexo no espelho oblongo. Não conseguia sentir-se bonita como antes e começou a chorar, assistindo as lágrimas percorrendo as covinhas transformadas em fendas após a perda acentuada de peso. Lá se foram dez quilos, seus cabelos perdiam volume rapidamente, e quase ninguém sabia o que estava acontecendo com Dora – embora corressem boatos, muito maldosos.

“Ela era tão linda! Que corpo que ela tinha, hein? Lembra das covinhas? Um charme! Será que sofre de anorexia nervosa? Um desperdício! Não tem mais coxas, bunda…nada!”, comentou seu chefe com um colega de trabalho, sem notar a presença de Dora que ouviu tudo quando estava indo ao banheiro. Sentada sobre o vaso, Dora levou as mãos ao rosto. Se esforçou para chorar, só que não restavam lágrimas. Estava esgotada e sentia-se constantemente desidratada, mesmo se empenhando em beber bastante água.

Inclinou o corpo para frente e pediu, com voz diminuta e vacilante, que Deus a levasse o mais rápido possível se o seu destino fosse a morte. Para ela, nada superava a dor causada pela ignorância e insensibilidade humana. Sair de casa se tornou um exercício tortuoso de enfrentamento das piores adversidades.

Até mesmo na rua, desconhecidos a olhavam como se não estivessem diante de um ser humano, mas sim de algo diferente, inominado. “Mãe, por que aquela moça é tão magra?”, perguntou uma garotinha de dez anos. “Sei lá, filha! Pela cara dela, deve tá com Aids”, respondeu a mulher instantaneamente, crente de que a distância era o suficiente para impedir que ela ouvisse a resposta.

Dora pediu demissão do trabalho como operadora de teleatendimento antes de começar o tratamento de quimioterapia. Se fechou dentro de casa, sobrevivendo de economias e se comunicando com o mundo e as pessoas somente através da internet e do celular. Também abandonou o tratamento. Não saía mais nem para ir ao mercado.

Não conseguia distinguir dia e noite, principalmente quando passava muitas horas deitada na cama, dormindo ou olhando para o teto branco que ganhava formas incertas de acordo com o sentimento predominante. “Não vou mentir, Dora. A verdade é que você tem de seis meses a um ano de vida”, revelou o médico oncologista com subitânea naturalidade.

Se recusando a receber qualquer tipo de visita há meses, Dora decidiu aliviar a própria dor cometendo suicídio com chumbinho. Comprou o produto pela internet para não precisar sair de casa. Pagou frete por sedex e aguardou a chegada. Ouviu alguém batendo palmas, abriu a porta e pela primeira vez em mais de 50 dias sentiu o sol tocando seu rosto níveo. Era morno e lhe afagava as finas maçãs. O céu estava tão claro que ela observou com atenção uma revoada ruidosa e amorável de bem-te-vis.

Caminhou até o portão, pegou o pacote da mão do carteiro e antes de entrar em casa observou um cãozinho preto e silencioso, com poucos dias de vida e o umbiguinho pardo virado para cima. Foi abandonado ao lado do vaso bege de íris, o preferido de sua mãe. Dora se surpreendeu com a resistência do espécime que crescia vistoso e fúlgido apesar do abandono.

Assim que abriu o pacote, quebrou o lacre do chumbinho e foi até a cozinha buscar um copo de água, o telefone tocou. “É a senhora Dora? É aqui do laboratório. Estamos ligando para avisar que precisamos que venha aqui com urgência. Descobrimos erros graves nos seus exames. A senhora nunca teve leucemia, apenas anemia.”

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January 31st, 2016 at 4:39 pm

Uma triste constatação sobre a política brasileira

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Retrato de um político atual, segundo o artista Art Brown

Retrato de um político atual, segundo o artista Art Brown

No Brasil, suponho que normalmente os políticos não leem, de fato, os e-mails dos eleitores – ou fingem não ler, o que é um erro grave. Acredito nisso porque há algum tempo fiz um trabalho de pesquisa visando avaliar, para ser mais específico, a relação dos deputados estaduais e federais do Paraná com os eleitores em âmbito virtual.

Consegui uma lista oficial de e-mails dos deputados. Entrei em contato com todos e digo que pelo menos nesse trabalho que fiz nem 20% retornaram. E aqueles que retornaram, não o fizeram em tempo hábil o suficiente para assegurar a confiança do eleitor. Alguns retornaram após dois meses.

Isso mostra o enorme vácuo de comunicação que existe entre políticos e eleitores. O mais curioso é que muitos desses políticos costumam atulhar as caixas de e-mails dos eleitores com propagandas sobre suas atuações. Ou seja, oferecem um canal de comunicação que na realidade não funciona com eficácia.

O e-mail de referência foi o mesmo para todos. Acredito que se eu tivesse enviado algum tipo de denúncia, e não apresentado perguntas padronizadas, de caráter legislativo, de certo, o retorno seria rápido.

Written by David Arioch

January 30th, 2016 at 10:02 pm

A trégua de Benedetti

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Benedetti conta a história de um homem em crise existencial (Foto: Divulgação)

Autor conta a história de um homem em crise existencial (Foto: Divulgação)

Lançado em 1960, o livro “A Trégua”, do escritor uruguaio Mário Benedetti, referência em literatura latino-americana, foi escrito em forma de diário e narra a história de Martín Santomé, um homem de meia-idade que há muito tempo perdeu a comunicação com os filhos, embora morem na mesma casa.

De poucos amigos, tem uma rotina monótona e marcada pela resignação e opacidade. Se contenta em registrar os dias que faltam para se aposentar. Porém, tudo muda com a chegada da jovem tímida Laura Avellaneda, com quem redescobre a própria identidade e capacidade de amar. Dependendo da versão, o livro pode ser encontrado no Brasil por preços que variam de R$ 15 a R$ 40.

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January 30th, 2016 at 7:38 pm

Livro narra causos fantásticos da região de Paranavaí

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Obra é assinada pela professora Elmita Simonetti Pires (Foto: Arquivo Pessoal)

Obra é assinada pela professora Elmita Simonetti Pires (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2013, a professora Elmita Simonetti Pires lançou em Paranavaí, o livro “Memória e Oralidade: Narrativas da Microrregião do Extremo Noroeste do Paraná”. Além de ser um registro da identidade dos povos que vivem em 22 cidades da região de Paranavaí, a obra leva ao público a importância da valorização da cultura oral como fonte literária.

“É uma maneira de destacarmos a importância do nosso folclore. O livro reúne causos contados principalmente por gente simples”, explica a professora que é mestre em letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e docente da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

Dentre algumas das histórias intrigantes contadas no livro estão: “E era mesmo o danado do Saci”, “Ler e escrever: vivência de Dona Arlinda”, “A Vaca da São Francisco”, “Causo de cemitério, chapeuzão e capa preta”; “A Casa Assombrada”, “O Pote de Ouro do Mourão da Mangueira”; “Dia do Pai da Mata”; “A Casa Assombrada”; “O causo do quebra-milho”; e “O Causo de Bainho: aconteceu na mata do Cristo Rei”. “São registros que revelam conhecimento, sabedoria, maneiras de fazer, pensar e ver as nossas relações sociais”, diz a professora.

A princípio, a meta era concluir a pesquisa em dois anos. No entanto, foram necessários quatro. Ainda assim, Elmita admite que havia mais histórias para contar. “Em material cultural, folclórico, a região é muito rica, então fui ingênua em achar que seria possível concluir esse trabalho em apenas dois anos. São muitos costumes, ideais e crenças”, comenta a professora. Acompanhada de uma equipe, Elmita Simonetti fez muitas viagens por cidades da região para ouvir histórias fantásticas narradas pela população.

“É uma maneira de destacarmos a importância do nosso folclore. O livro reúne causos contados principalmente por gente simples” (Foto: David Arioch)

“É uma maneira de destacarmos a importância do nosso folclore. O livro reúne causos contados principalmente por gente simples” (Foto: David Arioch)

O resultado do projeto “Memória e Oralidade”, então transformado em livro graças ao apoio do deputado federal Hermes Parcianello, Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Fundação Araucária e Serviço Social do Comércio (Sesc), entra para a história do Extremo Noroeste do Paraná como mais uma importante referência de pesquisa e fruição para professores, estudantes e leitores interessados pela cultura regionalista. Distribuído em muitas instituições de ensino, o livro traz na contracapa um encarte com DVD. Para mais informações, ligue para (44) 3424-0100.

A beleza é superficial?

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Arte hiperrealista da escultora estadunidense Carole A. Feuerman (Foto: Divulgação)

Arte hiper-realista da escultora estadunidense Carole A. Feuerman (Foto: Divulgação)

Beleza é algo tão superficial que despertou a atenção de Hegel, Kant, Nietzsche, Heidegger, Baumgarten, Hogarth, Hutcheson, Deleuze, Artistóteles, Sócrates, Platão, Plotino e uma lista infindável de pensadores e literatos. Há milhares de anos, o belo fascina o homem, o motiva e faz com que ele busque interpretar suas atitudes, emoções e sentimentos despertados pela beleza.

São muitas as condições e situações que impelem o ser humano a superar seus limites numa construção pessoal do belo, na busca por uma condição harmoniosa. Ainda assim, sempre vai ter gente dizendo que beleza é superficial. A estética está aí pra provar o contrário, desde os tempos antigos da Mesopotâmia, Egito, Pérsia, Grécia, China, Roma, Índia e Escandinávia.

O belo nunca vai ser simplesmente belo porque a beleza é uma forma completa de cognição, não apenas uma palavra vazia atribuída de um valor físico que reflete, partindo do senso comum, a jovialidade humana suscetível ao definhamento.

A beleza ou preservação dela envolve fatores de atração e abstração. É no belo também que desde sempre o homem se inspira para criar mitos e lendas que se perpetuam no imaginário das pessoas. Acreditar na beleza como superficial é uma perspectiva canhestra ou equivocada. Quantas obras de arte, das mais diversas ramificações, foram produzidas inspiradas no que a beleza humana é capaz de despertar? Sem contar com a elevação à posteridade…

Antes de morrer, em 7 de outubro de 1849, o escritor Edgar Allan Poe escreveu que beleza de qualquer tipo, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente excita a alma sensível às lágrimas, o que justifica por que o belo surpreende sem ser tipificado.

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January 29th, 2016 at 11:56 pm

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E se você pudesse apagar suas lembranças?

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Wysoccan, baseado na erva Datura Stramonium, pode apagar todas as memórias de uma pessoa (Foto: Reprodução)

Wysoccan, baseado na erva Datura Stramonium, pode apagar todas as memórias de uma pessoa (Foto: Reprodução)

Em 2004, quando assisti o filme “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, que no Brasil ganhou o nome de “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, com roteiro do inconfundível Mr. Kaufman, me questionei se havia algo no mundo que realmente fosse capaz de manipular as lembranças humanas. Mais tarde, descobri que sim.

Existe o Wysoccan, baseado na erva Datura Stramonium, que pode apagar todas as memórias de uma pessoa. Os nativos angolquinos do Canadá usam a fórmula no rito de passagem da infância para a adolescência. Na crença deles, ninguém pode se tornar um guerreiro se estiver preso às lembranças da infância. O tal do Wysoccan chegou a ser usado por hippies em algumas partes do mundo, já que como alucinógeno é mais potente que o LSD.

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Uma obra de arte em movimento

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O filme pode ser definido como uma transgressora poesia visual (Foto: Reprodução)

O filme pode ser definido como uma transgressora poesia visual (Foto: Reprodução)

Suspiria, do cineasta italiano Dario Argento, é o tipo de filme que mesmo com uma história não tão boa conseguiu conquistar o status de ícone do cinema giallo, um gênero italiano que não por acaso fez muito sucesso entre os anos de 1960 a 1980 com seus clássicos serial killers sendo perseguidos por detetives. Argento e outros cineastas foram convidados para trabalhar nos Estados Unidos justamente por causa desse gênero que influenciou o cinema de horror norte-americano.

Mas voltando a Suspiria, é um filme de 1977 que pode ser definido como uma transgressora poesia visual. Tem uma história aparentemente simples, de uma garota que entra para uma academia de balé e então testemunha uma série de mortes macabras. No entanto, o roteiro é mero coadjuvante diante da direção de Argento que manipula o estado psicológico e emocional dos espectadores como um titeriteiro. É uma obra intrigante criada sob luzes e sons, uma ode à estética psicodélica do absurdo, do irreal e do funesto.

Em 2001, quando assisti Suspiria pela primeira vez, fiquei alguns dias refletindo sobre o filme, pois cada fragmento de luz conduz a uma emoção, sentimento ou ideia. A trilha sonora da banda italiana de rock progressivo Goblin é inesquecível. Assim como a fotografia do filme, brinca com a sinestesia e tem efeitos sobre a experiência consciente. Melhor ainda é assistir a obra de Argento no escuro e com exímia atenção. Mesmo ao final do filme, pode ter certeza que os sons e as luzes o acompanharão por alguns dias. A previsão é de que em 2017 seja lançado o remake de Suspiria, uma promessa antiga.

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January 29th, 2016 at 11:07 pm

O mundo implacável de Berserk

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Anime conta a história de Guts, um jovem guerreiro embrutecido pelos abusos vividos na infância

 Guts (ao centro), um jovem órfão que foi encontrado próximo ao cadáver da mãe enforcada (Imagem: Reprodução)

Guts (ao centro), um jovem órfão que foi encontrado próximo ao cadáver da mãe enforcada (Imagem: Reprodução)

Berserk é uma série de anime, de Naohito Takahashi, inspirada no mangá de Kentaro Miura, baseada no realismo extremo, que conta a história de Guts, um jovem órfão que foi encontrado próximo ao cadáver da mãe enforcada. Adotado por uma mulher que morre pouco tempo depois, a tutela do garoto é passada para Gambino, o líder de um grupo de mercenários. Ainda na infância, Guts é criado com estoico rigor, tanto que durante os treinamentos para se tornar um guerreiro implacável não lhe dão armas compatíveis com a sua estatura, e sim as mesmas usadas pelos adultos.

Curiosamente, mais tarde, as espadas de Guts tornam-se uma extensão do seu desenvolvimento como mercenário. Na fase adulta, ele começa a empunhar uma Dragon Slayer com uma lâmina de dois metros de altura. É como se a espada simbolizasse não apenas sua força, mas a própria existência que refletida na lâmina conduz a larga dimensão das suas agruras.

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O anime se desenvolve e desmitifica a perspectiva de um mundo visceralmente maniqueísta (Imagem: Reprodução)

Ao se preparar para um mundo mergulhado em guerras, Guts, sem saber, é traído pelo pai adotivo que em troca de um punhado de moedas e favores o empresta a um mercenário que o violenta sexualmente. Mais tarde, por um infortúnio, o garoto mata Gambino sem querer, sendo perseguido pelo grupo de mercenários. Apesar disso, consegue escapar. Tempos depois, ainda muito jovem, mas com mais experiência, é forçado a entrar para o famigerado Bando dos Falcões, após ser derrotado pelo líder Griffith, o Falcão Branco.

A partir daí, o mavórcio Guts evolui muito mais, de soldado a comandante da Linha de Frente do Bando do Falcão – o exército mais forte da época, formado por defensores do milenar Reino de Midland, o mais antigo do velho continente. O anime se desenvolve e desmitifica a perspectiva de um mundo visceralmente maniqueísta. Na realidade, com o avanço dos episódios, Berserk se torna ainda mais hermético e figadal porque mostra com mais afluência que as trevas são diuturnamente rondadas pela luz e vice-versa.

O cenário sepulcral, que remete à França e Inglaterra da Baixa Idade Média, destaca com genialidade a barbárie e a intemperança dos tempos clássicos, quando o desejo de suplantar e destruir só poderia ser ofuscado por sentimentos nobres como companheirismo, amizade e amor. É, de fato, um anime de gente grande, que apresenta as falhas humanas a partir de um mundo cabalístico e sombrio, onde a cor predominante é o vermelho, símbolo do derramamento de sangue. Em Berserk, o espectador é convidado a conhecer um universo que conduz vida e morte numa proporção desigual, mas crítica e reflexiva, porque basicamente imita a vida, seja na literalidade do período clássico ou nas suas alegorias sobre o homem da hipermodernidade.

Curiosidade

O anime foi criado em 1997 e o mangá em 1989.

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January 29th, 2016 at 12:09 am

Jaime Mota e as escolas da Etiópia

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Mesmo nuas, crianças não deixam de ir para a escola na Etiópia (Foto: Jaime Mota)

Mesmo nuas, crianças não deixam de ir para a escola na Etiópia (Foto: Jaime Mota)

O fotógrafo andaluz Jesús Jaime Mota, falecido em 16 de junho de 2011, nos deixou uma grande lição de vida. Viajando pelo continente africano, ele se deparou com situações extremamente incomuns. Na Etiópia, Mota encontrou crianças indo nuas para as escolas. Ou seja, nem mesmo a ausência de roupas, em decorrência da pobreza extrema, as afastou do desejo de aprender.

“Eu nunca poderia imaginar que uma viagem de prazer pudesse mudar a minha visão sobre a vida. O turismo pela África é como uma cura para o espírito e a mente. Não procurem imagens sensacionais no meu trabalho. Eu quis apenas retratar cada personagem em sua forma mais pura, capaz de entrar em nossa alma e dar uma olhada sincera dentro de nós. O objetivo do meu trabalho sempre foi transmitir sentimentos e sensações que um dia eu vivi com aquele povo humilde, sentimentos puros e sinceros, sensações intensas e cheias de emoções inesquecíveis.”

Quando suas crianças se recusarem a ir para a escola, mostrem a foto de Jaime Mota a elas. Tenho certeza de que ele agradeceria.

Acesse: www.jaimemota.com

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Written by David Arioch

January 28th, 2016 at 10:17 pm

O triste fim de quem não quer ser ajudado

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pedindo-ajuda

Apesar de tudo, quem ajuda por solidariedade ou empatia não espera nada em troca

Na última terça-feira, dia 26 de janeiro de 2015, fiquei sabendo de um fato que me deixou chocado. No ano passado, eu e mais alguns amigos nos mobilizamos para ajudar um casal que estava passando por uma situação extremamente crítica – aparentemente de miséria, já que viviam em um barraco. Com o tempo, estreitamos o contato com eles e descobrimos que eles não foram tão sinceros conosco. Ainda assim ajudamos do mesmo jeito. Afinal, o que custa fazer o bem a alguém?

Quem ajuda por solidariedade ou empatia não espera nada em troca. Porém, ficamos sabendo mais tarde que essas pessoas, mesmo depois de receber até mais do que tínhamos prometido, começaram a espalhar boatos sobre o nosso trabalho. Supostamente dando a entender que tínhamos arrecadado muito dinheiro e não repassamos a eles, o que por sinal, não fazia o menor sentido, já que investimos até tempo e dinheiro do nosso próprio bolso. Afinal, iríamos roubar nos mesmos? Mas até aí tudo bem.

Os dois eram alcoólatras e se recusavam a mudar de vida, apesar dos nossos conselhos. Inclusive nos recebiam em sua casa embriagados. Na realidade, em algumas situações chegavam a rir e quase cair diante de nossos pés. Um dia, liguei para eles e foram surpreendentemente agressivos. Então amenizei a situação dizendo que ajudaríamos mais um pouco, mas não iríamos mais visitá-los, já que eles poderiam seguir em frente tranquilamente.

Na última conversa, a mulher chegou a fazer algumas acusações, dizendo que eu tinha conseguido o que queria. Eu, como jornalista, não recebo e nunca recebi nada por registrar a realidade da periferia. É um trabalho que faço porque gosto, me interesso, me identifico com tudo isso e acho que vale a pena ser partilhado com outras pessoas e divulgado. Na realidade, se vocês entrevistarem jornalistas, acredito que pelo menos uma boa parte vai dizer que os trabalhos mais gratificantes foram aqueles que menos lhe trouxeram retorno financeiro.

Bom, mas continuando. Fui acusado pela mulher de ter me dado bem ao contar a história deles – só não entendi como isso seria possível. Respondi tranquilamente que ela estava equivocada e tentei me justificar. Mas sua malícia desconsiderou todos os meus argumentos. Fui insultado pela mulher, só que ainda a ajudei mais uma vez. E aquele foi nosso último contato. Nunca mais tive notícias deles.

Então ontem fiquei abismado e até triste ao saber que ela faleceu há 15 dias em decorrência de cirrose hepática. A mulher tinha cerca de 40 anos. E o seu marido teve outro AVC e agora está quase em estado vegetativo. Para cuidar dele, não restou ninguém. Sobrou apenas as visitas esporádicas de filhos e enteados viciados em crack que normalmente os visitavam para buscar dinheiro e alimentos. Os amigos de boteco também desapareceram.

Written by David Arioch

January 28th, 2016 at 9:44 am