David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O triste fim de quem não quer ser ajudado

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Apesar de tudo, quem ajuda por solidariedade ou empatia não espera nada em troca

Na última terça-feira, dia 26 de janeiro de 2015, fiquei sabendo de um fato que me deixou chocado. No ano passado, eu e mais alguns amigos nos mobilizamos para ajudar um casal que estava passando por uma situação extremamente crítica – aparentemente de miséria, já que viviam em um barraco. Com o tempo, estreitamos o contato com eles e descobrimos que eles não foram tão sinceros conosco. Ainda assim ajudamos do mesmo jeito. Afinal, o que custa fazer o bem a alguém?

Quem ajuda por solidariedade ou empatia não espera nada em troca. Porém, ficamos sabendo mais tarde que essas pessoas, mesmo depois de receber até mais do que tínhamos prometido, começaram a espalhar boatos sobre o nosso trabalho. Supostamente dando a entender que tínhamos arrecadado muito dinheiro e não repassamos a eles, o que por sinal, não fazia o menor sentido, já que investimos até tempo e dinheiro do nosso próprio bolso. Afinal, iríamos roubar nos mesmos? Mas até aí tudo bem.

Os dois eram alcoólatras e se recusavam a mudar de vida, apesar dos nossos conselhos. Inclusive nos recebiam em sua casa embriagados. Na realidade, em algumas situações chegavam a rir e quase cair diante de nossos pés. Um dia, liguei para eles e foram surpreendentemente agressivos. Então amenizei a situação dizendo que ajudaríamos mais um pouco, mas não iríamos mais visitá-los, já que eles poderiam seguir em frente tranquilamente.

Na última conversa, a mulher chegou a fazer algumas acusações, dizendo que eu tinha conseguido o que queria. Eu, como jornalista, não recebo e nunca recebi nada por registrar a realidade da periferia. É um trabalho que faço porque gosto, me interesso, me identifico com tudo isso e acho que vale a pena ser partilhado com outras pessoas e divulgado. Na realidade, se vocês entrevistarem jornalistas, acredito que pelo menos uma boa parte vai dizer que os trabalhos mais gratificantes foram aqueles que menos lhe trouxeram retorno financeiro.

Bom, mas continuando. Fui acusado pela mulher de ter me dado bem ao contar a história deles – só não entendi como isso seria possível. Respondi tranquilamente que ela estava equivocada e tentei me justificar. Mas sua malícia desconsiderou todos os meus argumentos. Fui insultado pela mulher, só que ainda a ajudei mais uma vez. E aquele foi nosso último contato. Nunca mais tive notícias deles.

Então ontem fiquei abismado e até triste ao saber que ela faleceu há 15 dias em decorrência de cirrose hepática. A mulher tinha cerca de 40 anos. E o seu marido teve outro AVC e agora está quase em estado vegetativo. Para cuidar dele, não restou ninguém. Sobrou apenas as visitas esporádicas de filhos e enteados viciados em crack que normalmente os visitavam para buscar dinheiro e alimentos. Os amigos de boteco também desapareceram.

Written by David Arioch

January 28th, 2016 at 9:44 am

2 Responses to 'O triste fim de quem não quer ser ajudado'

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  1. Por não haver conseguido deixar um comentário em seu blog, porque não tenho senha no wordpress, deixo-o aqui, David. Abs ZR

    “Uma de suas crônicas mais brilhantes, David; não obstante a séria advertência aos corações puros e solidários, por outro lado, e ainda assim, não renuncia à consciência do dever de que TODOS TEMOS de ajudar e continuar auxiliando àqueles esquecidos pela sorte ou que se envolveram nas misérias da vida por um motivo ou outro.

    Em oportunidades dessas eu sempre repeti, David: pregar dever de auxílio de qualquer espécie a outrem em templos, para um público atento e que para ali fora ávido, disposto a ouvir aquelas palavras, não é difícil e a ressonância é quase sempre certa; atitude verdadeiramente cristã de solidariedade é do tipo dessa que você e amigos silenciosamente tiveram para com esse casal. Mesmo ante as duras resistências dos auxiliandos vocês não desistiram até o último momento.

    As injustiças e afrontas que você cita terem sofrido calados, não são fáceis para ninguém as absorver, David, eu sei, até porque também somos humanos sensíveis. Porém, com certeza o Divino Pai Eterno já as perdoou àqueles autores. O que importa, David, é que no imenso deserto das misérias que há no mundo, você e seus amigos ofereceram aos desventurados sedentos o que havia de mais importante em vocês: a mão amiga com um copo cheio de amor ao próximo. É isto que importa por conta desta nossa breve passagem por este Plano, de onde nada será levado…

    Como músico que de há muito sou, David, todos esses fatos a que você se refere, bem me trazem à lembrança agora o sentido e alcance da voz do poeta na lindíssima letra de “Wish you where here” (que Roger Waters/Pink Floyd a escreveu para o ex-integrante da banda, Syd Barrett, que morrera quase louco), metaforicamente aplicado àquele infeliz casal que por ocasião de suas visitas não conseguia mais distinguir céu de inferno, um sorriso de uma máscara, que tinham por heróis os fantasmas das drogas, e hoje, com a Partida esposa, o homem do casal está lá, acamado por conta do AVC, certamente vivendo os mesmos velhos medos de outrora, lembrando-se da esposa Recolhida e pensando: – “Como eu queria que você estivesse aqui”. Que Deus tenha piedade da alma dele, David. Parabéns a você e seus amigos solidários! Sou seu fã.”

    zerobertobalestra

    28 Jan 16 at 1:30 pm

  2. Balestra, muito obrigado. Seus comentários são sempre valiosos e me fazem refletir bastante. Fiquei feliz de abrir agora o meu e-mail e encontrar essa longa reflexão publicada como um comentário recheado de sabedoria, experiência e sensibilidade. Um grande abraço!

    David Arioch

    28 Jan 16 at 2:09 pm

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