David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

No mundo das mulheres peladas

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Saracoteavam o bumbum aprumado e deslizavam as mãos por toda e extensão das pernas

Acredito que a associação veio através das mulheres nuas que estampavam tubinhos de canetas vendidas na velha rodoviária de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Associação veio através das mulheres nuas que estampavam tubinhos de canetas vendidas na velha rodoviária de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Não me recordo de ter ouvido com frequência a palavra pornografia na pré-adolescência. Me lembro que falávamos mais em revistas ou fotos de mulher pelada. Sim, mulher pelada, sem a conotação que o termo pornô impulsionaria mais tarde no destrinchar de nossas mentes. Acredito que a associação veio através das mulheres nuas que estampavam tubinhos de canetas vendidas na velha Rodoviária de Paranavaí. E também os baralhos eróticos comercializados em algumas lojinhas das imediações. Sem dinheiro, e sem qualquer interesse por carteado, eu e alguns amigos íamos até a banca de jornais e revistas da Praça Brasil e fuçávamos às escondidas.

O baralho de amostra que trazia mulheres de todos os tipos, e para todos os gostos, já estava orelhudo e com as ourelas encardidas. Definhava sem comiseração. Comecei a achar que as modelos das cartas não eram mais tão atrativas. “Por que elas estão sujas assim? Não parecem mais tão bonitas. Sacanagem! Estragaram o baralho…”, comentei entre amigos. Às vezes a rasura comprometia tanto suas formas sinuosas quanto minha empolgação.

Sentia raiva do Parminha, um garoto que tinha o hábito repulsivo de chamar a atenção lambendo as cartas até ninguém mais querer tocá-las. Sua língua, que parecia glutinosa e escorregadiça como couro de sapo ensaboado, deslizava pesadamente pelo papel. E seus olhos esbugalhados e verdes como lodo endossavam a provocação. Enquanto sua testa franzida criava a ilusão de dois chifres bem pontudos e disformes, ele sorria, orgulhoso de seu diastema. “Não! Aqui não tem nada pra vocês!”, dizia comemorando e escamoteando algumas cartas do baralho.

Um dia, Parminha entrou em uma das lojinhas onde sempre fuçava nos produtos e observou um belo carteado erótico pendurado por fios sarapintados. Parecia colocado ali para receber suas carícias. Logo que esfregou a língua na primeira carta, não conseguiu mais tirar. “Isso é pra você aprender, Parminha! Agora vai ter uma cartinha pra lamber pro resto da sua vida”, gritou o dono da lojinha. Desesperado, o menino saiu correndo, tropeçando nos próprios chinelos, em direção à Rua Piauí com a cartinha presa à língua com super cola.

Apesar de tudo, eu, assim como outros garotos da minha geração, sorria ao me recordar das canetinhas eróticas. Elas estavam lá, dispersas por várias lojas, e não poderiam ser amassadas ou comprometidas. No meu ideário meninil, eram intocáveis porque o tubinho plástico as protegia contra tantas mãos afoitas e quezilentas.

Outra vantagem era que Parminha nutria ojeriza pelo gosto de composto sintético. A ideia de lamber plástico o deixava arrepiado e lhe despertava calafrios. Ninguém nunca soube com exatidão o motivo. Apenas corria a conversa de que seu pai o espancava com uma espada de plástico do He-Man, depois de recheá-la com areia umedecida.

Num canto de uma das lojinhas da Praça Brasil, olhávamos ao nosso redor. Sem nenhum estranho por perto, eu invertia a posição da canetinha. Fazia bem devagarinho só para provocar meus amigos que resmungavam da forma mais ruidosa e caricata possível. Conforme o branco e justo vestido da modelo desaparecia, os olhos se agigantavam na mesma proporção em que as bocas se abriam.

Ninguém ousava piscar ao vê-la sem sutiã, com os seios grandes e pontudos expostos, e sem calcinha – usando apenas meias 7/8 e cinta-liga da cor do vestido. “Que mulher! Que mulher! Que mulheeer! Bem que ela podia saltar da canetinha e cair nos meus braços. A gente ia se amar muito. Que pitelzinho!”, comentava Fabiano repetidamente, simulando beijos com bico de pato.

As gargalhadas incontroláveis da turma atraíam a atenção do dono da loja que nos repreendia e ordenava que pendurássemos novamente a canetinha num desses fios que hoje se usa para fechar pacotes de pão. Atendíamos ao pedido e seguíamos para outro lugar em busca de novas aventuras.

Na nossa tenra idade, os baralhos e as canetas eram mais acessíveis, até porque nas bancas ninguém permitiria que folheássemos revistas de conteúdo adulto. E não nos arriscávamos muito por receio do constrangimento e da possibilidade da história chegar aos ouvidos de nossos pais. Porém a gente improvisava.

No centro, eu entrava em alguma banca, cumprimentava cordialmente o dono ou funcionário e pedia para ver sete ou oito gibis – o mais distante possível um do outro. Enquanto os títulos eram reunidos, eu não tirava os olhos das mulheres nuas que estampavam as capas das revistas. Ficava extasiado com tanta diversidade e não conseguia disfarçar o sorriso oblíquo e matreiro. Quando o jornaleiro retornava com as revistinhas, eu já tinha fotografado tudo com os olhos. Memorizava as melhores fotos e descartava o que não me interessava.

Havia pelo menos dez mulheres percorrendo meus pensamentos, mostrando com volúpia lábios mais vermelhos que flor de papoula. Saracoteavam o bumbum aprumado e deslizavam as mãos por toda e extensão das pernas torneadas e acetinadas, provando a mim os poderes da venusiana concupiscência. Na minha divagação havia disputa entre elas. Uma tentava se destacar mais do que a outra, imersas num empurra-empurra onírico alimentado por minha criatividade. Em pouco tempo, eu via um estalar de dedos na minha frente. Era o jornaleiro me informando o preço de cada gibi.

Sem dinheiro, eu respondia: “Ah! Tô só pesquisando. Queria saber se vocês têm todos. Vou falar com minha mãe e meu pai. Volto depois. Muito obrigado!” Saía de lá a passos mais céleres do que quando entrei, ouvindo o som da sola do meu tênis rasteiro. Na esquina, amigos me aguardavam, pedindo para descrever tudo que vi.

Caminhávamos até a Praça da Xícara e sentávamos em um dos bancos de concreto perto do cipoal. Eu pendurava no cipó e iniciava um clássico ritual – descrever as belas formas físicas das mulheres que estampavam as capas das revistas. Detalhista desde pequeno, minha satisfação era ver a molecada calada e entusiasmada – tão atenta quanto nas melhores matinês do extinto Cine Ouro Branco.

Para deixá-los mais instigados, eu começava falando dos cabelos, olhos, boca, nariz, orelhas, formato do rosto e tipo de pescoço. “O bumbum dela parecia mais firme do que o pula-pula do aniversário do Henrique. E os peitos? Tão grandes que deixam melão de feira parecendo laranja”, brinquei, exagerando sem remorso.

Eu fazia circunlóquios até a cólera vir à tona. Curiosos e irritadiços, armavam uma algazarra que chamava a atenção de quem passava pela Rua Bahia. Então eu falava sério, tentando transmitir com deferência os pormenores. A verdade é que eu ia muito além. A ideia era impressionar inventando detalhes que nunca vi.

E mesmo que tudo fosse ilusão, isso pouco importava, já que a engenhosidade de suas mentes faria todo o trabalho dali em diante. E assim, sem tardar, todos arrumavam desculpas para irem para casa, percorrendo rapidamente distintos caminhos, mergulhados num momento de canhestra e incipiente individualidade.

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