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O cavalo e a cachaça

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“Mande buscar na venda um litro de cachaça que vou dar um banho nesse cavalo”

O cavalo e a cachaça

No mesmo dia o cavalo foi enviado a uma arena na região de Orós (Arte: Angel Tarantella)

No início da década de 1940, um cavalo chamado Gato Preto, considerado uma das maiores promessas das corridas da região Centro-Sul do Ceará, decidiu não sair mais do lugar. Por mais que treinadores e pessoas próximas insistissem em fazê-lo se movimentar, o animal nem reagia, simplesmente ignorava.

Depois de muitas tentativas, um homem místico conhecido como Miguel do Padre, sobrenome que recebeu porque foi criado por um padre, se aproximou do proprietário do cavalo e disse: “Olhe, Seu Sigefredo, eu sei como resolver esse problema. Mande buscar na venda um litro de cachaça que vou dar um banho nesse cavalo. Nada funciona melhor do que fazer o bicho sentir o aroma da cachaça. Assim ele cria coragem!”

O fazendeiro Sigefredo levou uma das mãos ao queixo e manteve a hesitação, observando Miguel do Padre e desconfiando da eficácia do método. “Mas será?”, questionou até acabar cedendo. Entregou o dinheiro a um dos empregados e pediu que comprasse a cachaça.

Em pouco tempo um jovem retornou, sorrindo e exibindo a garrafa como um troféu. Então Miguel do Padre fechou os olhos, a abriu e como num ritual esfregou vagarosamente a cachaça pelo corpo do animal que se movimentava como se estivesse reconhecendo a bebida que deslizava pelo seu dorso.

Após percorrer a cabeça de Gato Preto com as mãos molhadas, Miguel do Padre levou uma delas até as narinas do animal que aspirou e relinchou com moderação, fazendo seu corpo tremular com sutileza. No mesmo dia o cavalo foi enviado a uma arena na região de Orós.

Gato Preto largou na frente e manteve a velocidade do início ao fim, sem grande desgaste. Antes de vencer a corrida, o jóquei João Mariano segurou as rédeas para que o cavalo não se cansasse demais. Sem dar mostra de lassidão, Gato preto deixou os rivais ofuscados em meio às cortinas de poeira que chegavam até as velhas arquibancadas de madeira.

Enquanto parte da multidão gritava seu nome, Gato Preto se recolhia sem fazer alarde. Silencioso, preservava na fronte uma expressão curiosa de triunfo. Talvez soubesse que as pessoas dependiam mais dele do que ele delas.

Saiba Mais

Pelo bom desempenho, João Mariano recebeu o equivalente a R$ 2 mil.

Gato Preto foi um dos maiores companheiros do jóquei quando vivia no Ceará.

O cearense João Mariano se mudou para Paranavaí, no Noroeste do Paraná, em 1955.

Written by David Arioch

April 11th, 2016 at 6:26 pm

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