David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Quando meu pai me levou na zona

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As luzes coloridas me faziam crer que na zona todo dia era Natal

percorremos uma irregular e estreita estrada de chão que fez meu corpo sacolejar tanto quanto a minha mente (Foto: David Arioch)

Percorremos uma irregular e estreita estrada de chão que fez meu corpo sacolejar tanto quanto a minha mente (Foto: David Arioch)

Lembro do carro estacionado na Rua Antônio Felipe, perto do antigo Bamerindus. Era noite, meu pai saiu para resolver alguma coisa e deixou eu e meu irmão Douglas esperando dentro do Serrotinho, um fusquinha branco que ele também chamava de Volks. Acho que nunca ouvi ele dizer a palavra fusca, e fazia muito sentido, já que foi o primeiro carro fabricado pela Volkswagen.

Assim que retornou, colocou a chave na ignição, mas desistiu de ligá-lo. Nos observou e perguntou: “Vocês sabem o que é a zona?” Ficamos em silêncio por um instante e eu disse orgulhoso que sim com um sorriso botocudo, me sentindo esperto. “Sim! Zona Urbana, Zona Rural, Zona Leste e muitas outras. Tem muitas placas espalhadas por Paranavaí mostrando diversos tipos de zona”, respondi com expressão de contentamento.

Meu pai começou a rir, deixando eu e meu irmão confusos, até que recobrou a serenidade e explicou que zona era o lugar onde muitos garotos tinham suas primeiras relações sexuais com mulheres. “Vou levar vocês lá na hora certa. É só esperar”, afirmou, sem dar mais explicações. Com 11 anos, fiquei me perguntando porque eu teria que ir na zona. E curioso eu não tinha a quem recorrer.

Um dia, no recreio do Colégio Paroquial, fizemos uma rodinha para falar sobre a zona e a verdade era que ninguém sabia nada sobre o lugar, nem aqueles que se consideravam os mais finórios e experientes. “Já fui na zona várias vezes, cara! Hoje mesmo vou lá me divertir um pouco. Sempre tem umas três ou quatro mulheres me esperando e implorando pra subir comigo. É só chegar junto e se divertir. Não pode dar mancada, né?”, comentou Marcos, de 12 anos.

Após alguns meses, meu pai nos chamou e informou que daríamos um passeio pela zona. Meu corpo ficou gelado e senti uma ansiedade repentina que pareceu tremular até as minhas amígdalas. No início da noite entrei titubeante no carro. Tão tenso que não reconheci mais o interior do Serrotinho. Talvez por força do meu estado psicológico e emocional até a cor do banco se transfigurou.

Assistindo a movimentação pela janela, atravessamos a Avenida Heitor de Alencar Furtado e percorremos uma irregular e estreita estrada de chão que fez meu corpo sacolejar tanto quanto a minha mente. Estávamos em uma área isolada, desconhecida por mim, e apesar de tudo a remanescente vegetação trazia um pouco da eutimia e do frescor que faltava à área urbana.

Quando me senti mais tranquilo, meu pai parou o Volks em frente a uma pulcra casinha de madeira com luzes vermelhas. Por trás das coloridas cortinas, vi parciais silhuetas, movimento de pessoas. Uma moça abriu a porta e caminhou até a pequena varanda, onde deu uma tragada em um cigarro e observou uma lua tão rematada e colossal que parecia prestes a se lançar sobre nós.

Ela invadiu a minha mente como o primeiro símbolo da lascívia. Tinha cabelos longos e escuros até o meio das costas, pele cor de oliva e usava minissaia e um bustiê que destacava muito bem o volume dos seios. Por um momento, sorriu em nossa direção, esmagou a bituca com o sapato de salto alto e entrou na casa, fechando a porta com sutileza, sem precisar puxá-la. Era como se tivesse um tipo de imã nas mãos.

Em pouco tempo descobri que em Paranavaí a zona não era apenas um lugar, mas uma espécie de colônia com inúmeras casinhas. As luzes coloridas me faziam crer que na zona todo dia era Natal. Também não conseguia parar de pensar que se eu fosse visto por algum amigo ou conhecido eu seria apontado nas ruas até os meus últimos dias de vida como o menino dos inferninhos. “Tá vendo aquele? É o David, o menino da zona. Só pensa em coisa errada”, diriam, e assim meu futuro estaria traçado.

Apesar dos pensamentos ruidosos, acabei me distraindo com tantas informações daquele velho e novo mundo. Paramos em frente a uma das casas em uma estradinha em declive e seguimos nosso pai. Descemos do Serrotinho e uma loira entre 20 e 25 anos sorriu ao me ver tropeçando em um dos pequenos degraus da entrada. “Machucou, querido?”, perguntou com voz macia, se aproximando de mim e segurando meu rosto com suas mãos mornas.

Engoli a saliva a seco e, sem dizer palavra, acenei negativamente com a cabeça, sentindo um tremor quando ela se inclinou e um dos seus seios encostou no meu ombro. De longe, não aparentava ser tão bonita, só que de perto percebi algo nela que faltava em muitas mulheres de beleza óbvia. O jeito como falava, caminhava e sorria era inédito para mim. Nunca tinha visto nada parecido. Ela sabia exatamente o que fazer.

Era uma dessas pessoas aptas a induzir reações com muita facilidade. E o vestido que usava, embora valorizasse seu corpo perfeito nas suas imperfeições, não mostrava demais, o que talvez até instigasse ainda mais a curiosidade de muitos, inclusive a minha que nenhum conhecimento possuía sobre o assunto. Assim que ela entrou na casa, notei que meu pai e meu irmão já estavam lá dentro.

Sobre a soleira, testemunhei tudo com calma, quase à meia-luz – um quase silêncio, a pouca movimentação e as portas abertas dos quartos. De paredes azuis, não era uma casa típica, mas construída para um fim que eu desconhecia. De repente a jovem loira retornou, segurou minha mão e me pediu para acompanhá-la até um dos quartos. Lá, quatro moças com a mesma faixa etária de Nika experimentavam roupas diante de um espelho enorme. Quando me viram, vieram me cumprimentar como se eu fosse um animalzinho de pelúcia. Sorriram e deixaram marcas de batom no meu rosto, além de perfume de flores e frutos silvestres.

Calado e sem saber como agir, observei tudo com olhos intumescidos. Trocavam de vestidos, saias, calças e blusinhas. Faziam brincadeiras, se cutucavam, se beliscavam e gargalhavam – chegando a puxar alças do sutiã e elásticos da calcinha. O que vi foi a mais sincera das expressões de contentamento feminino, independente de cicatrizes, silhuetas, sobrepeso e formato do rosto.

Havia algo de tão pleno e alteroso que anos mais tarde se tornaria a minha primeira lembrança de que sentir pode ser mais importante do que ser. A cada minuto que passava um tipo distinto de beleza se acentuava sobre as rebarbas da imperfeição, e essa constatação me hipnotizava sem ponderação. “Sou aquilo que meu corpo carrega”, eu refletiria um dia.

Depois ouvi alguém me chamando e a loira Nika avisou as outras garotas que eu estava de partida. Antes de sair do quarto, o rodízio de beijos mais uma vez me deixou corado como pimentão, e isso as divertiu. Caminhei até onde estavam meu pai e meu irmão e deixamos o lugar. Lá fora, entramos no Serrotinho e meu pai falou sorrindo: “Aprendam desde cedo a nunca subestimar uma mulher.” Passei uma semana sonhando com as experiências daquele dia. Então entendi porque quando à noite caía aquele era o lugar de Paranavaí que mais visitas recebia.

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