David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

A atendente e o café expresso

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Me senti comendo cubos de açúcar em forma de expresso (Foto: Reprodução)

Perto do horário do almoço, passei com minha mãe em uma cafeteria. Ela pediu um café expresso e eu também. Fazia muitos anos que eu não tomava um expresso, tanto que me aproximei da atendente e perguntei a ela como o preparavam, qual era a composição. “Vocês adicionam açúcar?”, questionei. Ela respondeu que não, que a bebida vinha pura para ser adoçada ao gosto do cliente. Então comentei: “Bom! Então você pode me servir na menor xícara.”

Também fiz algumas perguntas sobre um assado de palmito recém-colocado na estufa. Ela se mostrava confusa nas respostas, mas isso não me incomodou porque notei que era nova na função. Enquanto ela me atendia, um homem sisudo a assistia atentamente. Percebi que ele era o gerente e talvez até o dono do lugar. Em pouco tempo, o telefone da cafeteria tocou e ouvi a mesma moça conversando com a filha. Parecia que a menina estava agitada por algum motivo desconhecido e a mãe se esforçava para acalmá-la.

Tão logo desligou, ela veio até a nossa mesa e nos serviu. Suas mãos tremiam. Agradeceu mais uma vez e caminhou em direção ao balcão. Comi o assado, nada mal, porém não era dos melhores. Minha mãe se serviu do café expresso extremamente forte e amargo, bem diferente do que ela pediu. Quando levei a xícara à boca, notei no primeiro gole um gosto extremamente acentuado de açúcar. Ali tinha no mínimo umas duas colheres de chá bem cheias.

Depois de anos sem sentir o sabor do açúcar em estado puro, tive a mesma sensação de quando se é criança e come bolo de festa de aniversário bebendo refrigerante – a língua chega a acidular. Atrás do balcão, a moça e o seu patrão continuavam nos observando. Um espelho lateral os denunciava. Me senti comendo cubos de açúcar em forma de expresso.

Malgrado isso, mantive a expressão serena, assim como minha mãe que só se queixou do café no carro. Quando me levantei para ir embora, caminhei até a atendente e disse: “Foi o melhor café expresso que tomei na vida. O assado também estava excelente. Parabéns!” Acanhada, a moça sorriu, assim como o gerente que desfez o semblante carrancudo e acenou com a cabeça, numa respeitosa reverência. Parti tranquilo, mas ainda sinto na boca o gosto hiperbólico do açúcar.

Written by David Arioch

May 3rd, 2016 at 12:16 am

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