David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

A ressonância magnética e a quimera dos metais

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Tive a impressão de que a máquina diminuía e me comprimia na mesma proporção que o som aumentava

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Até esqueci como aquela máquina pode ser grande (Foto: Steward Health)

Depois de mais de dez anos, voltei a fazer outro exame de ressonância magnética. Chegando na clínica, confirmei meus dados, assinei uma nova guia, recebi um crachá e sentei em uma confortável poltrona na sala ao lado enquanto o programa da Ana Maria Braga exibia a história de um arquiteto enfrentando problemas com cupins. Ao meu redor, ninguém falava nada. Todos se mantinham silenciosos, com a atenção voltada para a TV.

Tentei acompanhar o desfecho daquela tragédia moderna, mas foi impossível. Meus olhos se voltavam para a porta, aberta ou fechada, por onde as técnicas apareciam chamando os pacientes. Nessas circunstâncias a minha ansiedade se sobrepõe a qualquer outra sensação. Apesar da grande movimentação, logo ouvi meu nome. Ajeitei a touca e segui meu rumo porta adentro.

Caminhei até um vestiário e a moça disse que retornaria em dez minutos. Como de praxe, tirei minhas roupas e sentei na poltrona onde constatei outra vez como as clínicas figuram mais glaciais em dias de chuva. Até a mais sutil das brisas parece capaz de atravessar paredes e dar baforadas nos desavisados, lembrando que nada na vida é inatingível e que o momento pode ser tão duro quanto um arremedo de cimento.

Sobre a minha cabeça havia um pequeno cofre para guardar pertences como relógios, telefones celulares e outros objetos. O observei com atenção até que uma frase ecoou pela minha mente: “Deixe aí tudo que contenha metal porque senão pode acontecer alguma coisa ruim”, advertiu antes a técnica em ressonância magnética. Para corroborar, li um aviso ao lado da porta, informando que metais podem danificar a máquina e causar graves lesões nos pacientes.

Aquilo me preocupou tanto que mesmo nu continuei deslizando as mãos pelo meu corpo, tentando encontrar algum resquício de metal. “Será que não tem nada de metal no meu corpo? Será? Será?”, me questionei, tão angustiado que não descartei a possibilidade de brotar agulhas de chumbo debaixo das minhas unhas dos pés e fios de alumínio das minhas orelhas.

Cheguei a tirar a touca e esfregar as mãos nos cabelos para me certificar de que não havia granalha de aço no couro cabeludo. Depois de vestir a calça e a camiseta que me deram, fiquei pelo menos cinco minutos em insondável introspecção. E nesse ínterim divaguei tanto que meu corpo ficou dormente, tão letárgico que me senti como semente. Tentei levantar, mas não consegui me movimentar. Meus pés estavam presos num vazio imerso por um todo. “Que estranho! Parece um sinal!”, inferi.

De repente a técnica bateu na porta e me chamou. Então a segui até uma sala enorme. Fazia tanto tempo que eu não passava por uma ressonância que até esqueci como aquela máquina pode ser grande. Assim que deitei e sorri com brevidade, a moça franziu a testa e fez um esgar de desagrado. “Nossa, você usa aparelho! Não tem como tirar?” Respondi que não. Ela me observou por alguns segundos e consentiu.

“Olha, vai fazer um barulho tremendo, terrível, por isso vou colocar esses protetores no seu ouvido. Se você passar mal, é só acionar essa bolinha que tiro você lá de dentro, tudo bem?” Acenei positivamente com a cabeça, deitei fingindo tranquilidade e aguardei o início do exame, já enxergando aquele túnel branco como um crematório disfarçado.

Não me recordava como ele era pequeno visto de dentro. Após dois, três e quatro minutos, minha imaginação já tinha trabalhado como nunca. “Nem faz muito ruído. É um som paulatino e suave. Vou acabar dormindo”, ponderei depois de aproximadamente cinco minutos. Crente de que o exame chegava ao fim, ouvi um estrondo tão grande que meus olhos amiudados pelo sono se agigantaram.

Como fui tolo! O exame nem tinha começado. Junto com o barulho, tive a impressão de que a máquina diminuía e me comprimia na mesma proporção que o som aumentava, fora de cadência. E para agravar mais a situação, um barulho desconcertante soou como uma explosão.

“Caramba, será que aconteceu alguma coisa? E se essa máquina pegar fogo comigo aqui dentro?”, fantasiei, já notando as costas quentes e cogitando mudar de posição. Pior foi quando me recordei do aparelho nos dentes e não encontrei espaço o suficiente para levar a mão à boca. Me limitei a sentir a gengiva esbraseada.

Naquele momento uma salada de filmes macabros e distópicos percorreram minha mente. De “Eraserhead”, de David Lynch, ao trash “O Incrível Homem que Derreteu”, de William Sachs, que assisti escondido na Boca do Inferno quando era criança, divaguei por um universo intempestivo de tragédias.

Não foram poucas as vezes que encostei a língua no meu aparelho para ter certeza de que continuava tudo normal. E o barulho se intensificava. A ansiedade aumentava entre os intervalos porque o silêncio me desconcertava. Havia um tipo satírico de claustrofobia que fazia da minha mente uma refém. Respirei fundo, fechei os olhos e tentei restabelecer a serenidade. Não demorou e percebi que pode existir algo mais até na crua dissonância dos ruídos.

Então o barulho se transformou em música quando associei o que ouvi a filmes como “Corra, Lola, Corra” e “Trainspotting”, e bandas como Ministry, Atari Teenage Riot, Nine Inch Nails e KMFDM. Quando o exame terminou, tive a mais venusta das sensações de quem vê uma luz no fim do túnel. Levantei com o coração acalentado, me despedi da técnica e caminhei ao vestiário, onde uma moça que fez o mesmo exame gargalhava em frente a uma das portas. Vi que ela também usava aparelho nos dentes. Nem nos cumprimentamos. Somente rimos, reconhecendo na criatividade da ficção uma piada em forma de redenção.

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