David Arioch – Jornalismo Cultural

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Balzac e o seu apetite voraz pela escrita

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A morte do escritor foi atribuída a uma parada cardíaca após muito café e tantas noites sem dormir

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Balzac: “Se eu não alcançar a grandeza com La Comédie humaine, vou pelo menos obtê-la de outra forma no fim de minha vida” (Imagem: Reprodução)

Os últimos meses de vida do prolífico escritor francês Honoré de Balzac foram tão agitados quanto todos os anos de sua vida, o que diz muito sobre a sua inspiração para criar 17 volumes de La Comédie humaine, além de muitos outros trabalhos. São obras que entraram para a história da literatura mundial e influenciaram autores como Marcel Proust, Émile Zola, Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski, Henry James, Italo Calvino, Machado de Assis e Camilo Castelo Branco.

“A condessa polonesa com quem Balzac se correspondeu ao longo de seis anos se comprometeu em se casar com ele assim que ficou viúva. Mas ela preferiu agir com cautela quando soube das dívidas, decepções e apetites do autor”, narra o escritor canadense e professor de literatura Steve King. Ainda assim, faltando cinco meses para o falecimento do francês, a condessa Ewelina Hańska concordou com o casamento, declinando uma proposta também recebida do compositor húngaro Franz Liszt.

Ao saber da boa notícia, Balzac se apressou e a visitou em sua propriedade, onde ele esteve pela primeira vez em 1943 e ficou impressionado ao saber que ela possuía uma área de aproximadamente 21 mil acres, três mil serfs (escravos), 300 empregados, a sua própria orquestra e um hospital.  “Ele levou consigo quatro dúzias de pares de luvas para as belas mãos da condessa”, informa King.

Honoré de Balzac passou a maior parte da sua vida adulta oscilando entre os extremos da riqueza e da pobreza. Com peculiar personalidade, um dos motivos que o levou à falência foi sua tentativa em transformar sua casa em Paris numa fazenda de abacaxis. “Ele escrevia incessantemente, tanto que seu médico atribuiu sua morte a um coração fraco que parou de funcionar depois de tantas noites sem dormir, consumindo grandes quantidades de café”, revela o professor de literatura.

Balzac acreditava que todo ser humano tem a seu dispor uma finita reserva do fluido da vitalidade, e ela diminui de acordo com nossas ações e desejos. No caso do escritor francês, foi condenado a morrer precocemente por causa do seu apetite voraz pela escrita.

Mas não sem antes passar os últimos meses de vida buscando a realização pessoal. “Se eu não alcançar a grandeza com La Comédie humaine, vou pelo menos obtê-la de outra forma no fim de minha vida”, comentou Balzac já com a saúde debilitada, em referência ao casamento com a condessa.

A comédia humana ia além das obras de Balzac; era a sua própria vida. Para abordar os aspectos sociais nos seus romances, ele vagava à noite pelas mais famigeradas ruas de Paris, hábito que manteve por anos, assim como fez Dickens em Londres. Ele também gostava de sair de madrugada porque a prisão de devedores era proibida entre o pôr e o nascer do sol, e assim ele não corria riscos.

Como se a vida imitasse a arte, Honoré de Balzac foi enterrado no Cemitério do Père-Lachaise em um túmulo próximo de onde um de seus personagens mais famosos, o jovem Eugène de Rastignac, do romance Le Père Goriot (O Pai Goriot), derramou a última lágrima no velório do velho Goriot.

Trecho de O Pai Goriot (páginas 236-237)

Às seis horas, o corpo do pai Goriot desceu à cova, em torno da qual estavam os criados das filhas, que desapareceram com os religiosos logo que foi pronunciada a curta oração devida ao bom velho através do dinheiro do estudante. Os dois coveiros, depois de atirarem algumas pás de terra em cima do caixão, para ocultá-lo, ergueram-se, e um deles, dirigindo-se a Rastignac, pediu-lhe uma gorjeta. Eugênio revistou os bolsos e, não tendo encontrado nada, foi obrigado a pedir vinte soldos emprestados a Cristóvão.

Esse fato, tão insignificante em si mesmo, causou a Rastignac um horrível acesso de tristeza. Caía a tarde. Um crepúsculo úmido irritava os nervos. Eugênio contemplou a sepultura e enterrou nela sua derradeira lágrima de rapaz, aquela lágrima arrancada pelas puras emoções de um coração puro, uma dessas lágrimas que, da terra onde caem, se elevam até o céu. Cruzou os braços e admirou as nuvens. Vendo-o nessa atitude, Cristóvão o deixou.

Ficando só, Rastignac encaminhou-se para a parte alta do cemitério e de lá viu Paris, tortuosamente deitada ao longo das duas margens do Sena, onde as luzes começavam a brilhar. Seus olhos fixaram-se quase avidamente entre a coluna da Place Vendôme e os Invalides, no ponto em que vivia aquela bela sociedade na qual quisera penetrar. Lançou àquela colmeia sussurrante um olhar que parecia sugar-lhe antecipadamente o mel e proferiu esta frase suprema: — Agora, é entre nós dois! E como num primeiro ato de desafio à sociedade, Rastignac foi jantar à casa da sra. de Nucingen.

Saiba Mais

Honoré de Balzac nasceu em 20 de maio de 1799 em Tours, na França, e faleceu em Paris em 18 de agosto de 1850.

Entre suas principais obras estão La Comédie humaine, Eugénie Grandet, La Peau de chagrin, Le Père Goriot, Colonel Chabert, La Rabouilleuse, Le Lys Dans la Vallée, Illusions Perdues e Splendeurs et Misères des Courtisanes.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

http://balzac-museum.com/

Graham, Rob. Balzac: A Biography – W. W. Norton & Company; Reprint edition (1996).

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