David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for July, 2016

Tonho o boiadeiro

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“Quando o céu sobre a terra desabar, o homem há de acordar. E todos vamos pastar pelo simples prazer de verdejar”

Foto: á fora, Tonho assobiou e Atalante apareceu, um cavalo preto e robusto de 15 anos (Pintura: Amanda Kate)

Lá fora, Tonho assobiou e Atalante apareceu, um cavalo preto e robusto de 15 anos (Pintura: Amanda Kate)

Tonho abriu os olhos, sentou na cama e observou através da janela o céu revolto e avermelhado na madrugada de domingo. Estranhou o silêncio do galo, mas não se importou. Levantou e caminhou até uma pia no canto do quarto. Lavou o rosto, umedeceu os cabelos, ajeitou a barba com as pontas dos dedos e manteve a cabeça baixa enquanto a água escorria. “Acho que o dia não quer nascer, o sol tá de teimosia. De quem deve ser a culpa? Sei lá eu!”, monologou coçando o peito musculoso.

Vestiu calça jeans e camisa azul, lustrou a fivela cintilante que trazia a letra T em destaque e calçou um par de botas de cano alto. Antes de sair para trabalhar, alinhou o chapéu sobre a cabeça, preparou o café, tomou uma caneca e limpou a barba com o dorso da mão direita. “Agora tô pronto!”, disse sorrindo, batendo solas no piso de tacos, e observando o próprio reflexo no espelho pendurado num prego.

Lá fora, Tonho assobiou e Atalante apareceu, um cavalo preto e robusto de 15 anos. Preparou a sela, subiu sobre o lombo do animal e cavalgou em direção à invernada. Nas primeiras horas da manhã, sem berrante e sem assistência, o rapaz mestiço, de origem caiuá e caucasiana, reuniu mais de mil bois cantando “Cabirúchichi”, uma canção que fala sobre a renovação do amor dos seres humanos pelos animais depois de 30 dias de trovoadas e tempestades.

— Quando o céu sobre a terra desabar, o homem há de acordar. E todos vamos pastar pelo simples prazer de verdejar. É o dia que chega, meus amigos!

O gado entendia as palavras de Tonho. Sempre que ele terminava sua canção e seu discurso, eles o observavam com atenção e complacência. E o silêncio de segundos era ofuscado por um coro de mugidos em direção ao céu. A reação da boiada fazia o pasto vibrar e a relva balouçar.

Aquela era a vida do boiadeiro há mais de 10 anos, e ultimamente seu trato com os animais começou a causar estranhamento nos outros peões. Durante a tradicional travessia do Riacho de Santa Luzia, ele tentava confortar a boiada.

— Fica assim não, Rufião. Você consegue! Olhe pra você, cara! Lindão e forte. Veja também quantos de seus amigos estão esperando você atravessar pra te seguir. Vamos lá! Confie em mim. Por favor!

Hesitante, com os cascos apoiados às margens do riacho, Rufião cedeu ao pedido de Tonho. A travessia de Santa Luzia sempre assustava o gado porque fazia parte do percurso final antes do confinamento seguido de abate. Eles pressentiam que o pior estava por vir. Do outro lado do riacho, a boiada pastava lastimosa, como se seguisse um cortejo fúnebre. Tonho tentava animá-los em vão. Nenhum boi queria enxergar nada além da grama queimada e das pegadas de seus irmãos que jamais retornaram.

Alguns escoravam a cabeça sobre os companheiros mais próximos, crentes de que isso poderia protegê-los e afastá-los da morte. Cansados, mugiam baixinho, até que desapareciam no horizonte ensolarado para nunca mais serem vistos por aquelas bandas. Uma semana depois da última travessia, Tonho pulou no Ribeirão Guararema para salvar um bezerro, filho de Rufião, arrastado pela correnteza.

Quando saiu encharcado da água, com o bezerro tremendo e gemendo em seus braços, notou três homens o esperando, sentados sobre a relva, fumando palheiro. Um deles, Cambuci, o mais velho, parou de furar a terra com um canivete de lâmina escura e disse:

— A gente percebeu que você tá diferente, Tonho. Parou de comer carne, ovo e beber leite. E ainda fica tratando bicho que nem gente. Até aí tudo bem! Tenho nada a ver com suas loucuras. Agora o que você fez foi demais. O patrão ficou sabendo de tudo e disse que isso não tá certo, que você traiu a confiança dele e precisa pagar.

Tonho colocou o bezerro na grama, deu um tapinha em seu lombo e o bicho correu para longe.

— Faça o que tiver de fazer, mas saiba que o mundo de hoje e o mundo de amanhã não há de ser o mesmo, independente da sua vontade ou do patrão. A terra sangra junto com os animais. Vai dizer que tu nunca percebeu? Olha o que isso aqui virou. Esse pasto queimado, castigado por mais de 100 dias de estiagem.

Enquanto falava, recebeu cinco balaços no peito e deitou às margens do riacho. Sem replicar, os três pistoleiros travestidos de peões viraram as costas e partiram. Tonho não chorou, gritou ou gemeu, só observou o céu mais claro do que nunca e sentiu uma porção de água acariciando suas orelhas e massageando seus cabelos.

Também assistiu o filho de Rufião lutando para empurrar seu corpo para fora da água com a cabeça. O bezerro gemia e fazia um esforço descomunal. De repente, um longo filete de sangue escorreu da boca de Tonho e se misturou à água, seguindo a correnteza como se tivesse vida própria. “Siga o sangue, siga o sangue, siga o sangue…”, repetiu antes de falecer.

O bezerro se jogou no Guararema e partiu com a aguagem, sendo arrastado por quilômetros. Estonteado e enfraquecido, foi lançado sobre um banco de areia, onde deitou choroso. Em poucos minutos, ouviu um mugido para além da mangueira. Era seu pai, Rufião, inquieto, tentando atravessar a cerca. Surpresa e emocionada, Mirela, namorada de Tonho, se aproximou e pediu que dois rapazes carregassem o bezerro. Batizado como Obajara aquele foi o primeiro dia do jovem sobrevivente no clandestino Santuário Parassú, para onde Tonho enviou centenas de animais nos últimos meses.

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Written by David Arioch

July 31st, 2016 at 3:51 pm

Sobre erros, apontamentos e violência verbal

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Acredito que a reação baseada na improbabilidade é o melhor caminho (Foto: Reprodução)

Vivemos numa época de tantos apontamentos e violência verbal que acredito piamente que o melhor instrumento de combate a isso é a reação baseada na improbabilidade. Para citar um exemplo, quando cometo erros em meus textos, principalmente por inobservância, já que quem escreve nem sempre percebe as próprias falhas nas primeiras leituras, tento sempre ser justo e amenizador.

Passei por várias situações em que pessoas apontaram minhas falhas de forma hostil e, contrariando o que elas esperavam de mim, sempre agradeci, demonstrei cordialidade e consideração pela observação do meu erro. Pode ter certeza que você desarma qualquer tentativa de confronto agindo dessa forma. Na realidade, acredito que seja algo válido em todas as circunstâncias da nossa vida.

Sobre o assunto, me recordo até de um episódio na academia. Um dia me aproximei de uma máquina de remada cavalinho e não vi ninguém a usando. Daí incluí algumas anilhas e um rapaz que estava papeando com um amigo se aproximou e disse:

“Qual é, cara? Que folga! Estou fazendo aí!” Então expliquei numa boa que faria apenas uma série, bem rapidinho. A contragosto, acabou concordando, mas continuou me olhando incomodado.

Assim que terminei, removi as anilhas que acrescentei e comentei com ele: “Cara, muito obrigado mesmo! Você é gente boa!” E o sujeito ficou sem graça e mudou completamente o semblante carrancudo: “Não precisa tirar não, pode continuar”, sugeriu.

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Written by David Arioch

July 29th, 2016 at 1:27 pm

O amor é belo na literalidade

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Pintura de Leonid Afremov que retrata o amor

Ao longo da vida, sempre ouvi alguém dizendo que o amor, confundido com paixão, é arrebatador, como se feito de fagulhas de insipiência. Quando chega até você o cega e o torna avesso ao juízo e à razão das coisas serenas. O consome de forma inesperada, deixando os lábios ressequidos como chão tracejado pela estiagem severa.

Quantas histórias conheci de suicídio por amor; pessoas saltando de prédios, lançando carros contra árvores, se enforcando, consumindo estricnina e atirando contra a própria cabeça. Jamais entendi como o amor, tão colorido simbolicamente, poderia ter compleição tão funesta.

O amor não deve ser como o luto, um manifesto de pesar. Nem merece ser relacionado à morte se abarca na sua essência os destemores da luz. O coração que ama em abnegação só obscurece quando deixa de bater, este sim fato irremediável do nosso epílogo.

Mas enquanto vive é corado e robusto como uma manga colhida em março. Está além do bem e do mal. O amor é belo na literalidade, na pureza de sua semântica. Nem por isso unilateral ou menos distorcido e depreciado por imperícia, fabulações e desconstruções de sentido.

Não que não haja dor no amor, afinal ela é inerente à vida e nos envia iterados sinais de que o sofrimento também dignifica a existência; ensina que somos pechosos, frágeis e efêmeros como todos os seres que habitam a Terra. Porém, um sentimento torna-se nocivo somente se assim o permitirmos. Pelo menos é o que me mostra a vida desde que comecei a reconhecer o seu enredamento e profundidade.

Written by David Arioch

July 28th, 2016 at 12:09 am

Todos têm o direito de escrever

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Creio que nenhum escritor tem o direito de dizer quem deve ou não escrever (Foto: Reprodução)

Há alguns anos, participei da mediação de um bate-papo com dois escritores. Um deles era mais tranquilo e ponderado, já o outro na primeira oportunidade disse que muitas pessoas deveriam parar de escrever porque segundo ele já existe gente ruim demais no Brasil escrevendo. Mesmo como mero mediador, fiquei surpreso com o comentário. Primeiro porque escrever é também uma expressão existencial.

Claro, mercado editorial aí já é outra coisa. E o que mais lamento em situações como essa é que sei que aspirantes a escritores costumam assistir mesas literárias justamente para buscar uma direção, tirar dúvidas. Agora imagine como uma pessoa que de repente se planejou e, às vezes, até abriu mão de outros compromissos para estar ali, se sente ao ouvir um escritor que admira falando isso?

Creio que nenhum escritor, independente de prestígio, tem o direito de dizer quem deve ou não escrever, até porque não somos oniscientes, logo não sabemos a razão pela qual alguém escreve. Ademais, escrever também é terapia, então dizer isso pode ser como empurrar alguém para um precipício.

 
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Written by David Arioch

July 28th, 2016 at 12:06 am

Tazinha e a galinha Jurema

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Aquele molho envolvia partes de um ser idêntico àquele que corria pelo quintal com o viço de uma criança

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Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: “Mãe, o que a galinha come?” (Foto: Reprodução)

Tazinha chegou em casa e encontrou uma galinha. Ela nunca tinha visto uma de perto, a não ser descaracterizada dentro de uma panela, dividida em peito, pés, coxas e outras partes que depois de consumidas davam a impressão de que o animal reduzido a alimento jamais existiu.

Com cinco anos, Tazinha não imaginava que aquele molho vermelho e borbulhante cobrindo fatias grossas de batata-inglesa envolvia partes de um ser idêntico àquele que percorria o quintal com o viço de uma criança. Quando viu a garotinha de olhos amendoados e graúdos, a galinha se escondeu atrás de um pedaço de capoeira e cacarejou, mantendo os olhos castanhos e vibrantes bem esgazeados. Também abriu as asas mescladas de preto, amarelo e branco e esfregou os pezinhos em uma porção de terra arenosa, fazendo poeirinha.

Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: “Mãe, o que a galinha come?” Então caminhou até a despensa, afundou a mãozinha em um fardo de ração com cheiro de farelo de milho e se apressou em direção ao quintal, arrastando os chinelinhos e deixando um rastro louro como o sol daquela manhã de verão. Ainda desconfiada e hesitante, a galinha a assistiu estendendo as mãos e os farelos deslizando entre os vãos de seus dedos miúdos. Tazinha sorriu apreensiva. Não sabia se devia se aproximar mais ou simplesmente lançar o que restou da ração sobre o chão de terra batida.

Tomou uma decisão. Se ajoelhou, fez um coraçãozinho na terra com o dedo indicador da mão direita e o preencheu com os farelos. Logo que a galinha deu o primeiro passo, Tazinha recuou quase 20 metros, sentou à sombra da jabuticabeira e assistiu a ave se alimentando. Vez ou outra, erguia a cabeça e observava a criança. “Seu nome vai ser Jurema”, disse antes de engolir uma jabuticaba e enterrar a casca. A galinha a olhou rapidamente, cacarejou e continuou comendo, sem levantar a cabeça. Depois daquele dia, sempre que Tazinha corria até o quintal, Jurema a aguardava.

Balouçava as asas e caminhava até a garotinha que a abraçava e acariciava suas penas com o dorso da mão direita. Tazinha sentia cócegas quando a galinha se espichava, esfregando a plumagem contra o seu pescoço. Sua gargalhada era tão alta que atraía a atenção de vizinhos curiosos que penduravam no muro para ver o que estava acontecendo. Em menos de uma semana de convivência, Jurema começou a presentear Tazinha com preciosidades que ela encontrava no quintal.

“Que linda, Jurema!”, comentou assim que a galinha abriu o bico e lançou uma pedrinha colorida na palma de sua mão. Com os presentes, Tazinha fez um colar. Numa noite, quando seus pais questionaram o porquê dela nunca tirá-lo do pescoço, ela respondeu: “Ué, porque a Jurema é minha melhor amiga e quero sempre sentir ela pertinho de mim. Ela teve tanto trabalho pra juntar as pedrinhas.”

Tazinha gostava tanto da galinha que após muita insistência seus pais permitiram que ela levasse Jurema para passear pelas ruas pelo menos três vezes por semana. “Ela também quer se divertir”, justificava, crente de que sua amizade com a galinha seria eterna, e que as duas nunca se separariam. Porém, quando a galinha estava perto de completar seis meses, ela ouviu uma conversa que a entristeceu:

— A galinha que meu irmão deu tá ficando velha, quase seis meses de vida já. Se demorar mais, passa do ponto. E o Alberto chega no final de semana e quer galinha caipira ao molho pro almoço de domingo – disse o pai.

— Meu Deus! E o que vamos falar pra Tazinha? – perguntou a mãe.

— A gente arruma outra galinha pra ela – respondeu o pai.

Desesperada, Tazinha correu até o quintal, pegou a Jurema, a levou até o seu quarto e a escondeu dentro do guarda-roupa, onde passou a noite abraçada com a galinha. Pela manhã, seus pais ouviram um som suspeito vindo do quarto. Encontraram Tazinha chorando e acariciando as penas de Jurema que se mantinha em silêncio, com o bico recostado em seu ombro.

— Por favor! Não mata ela! Eu não sabia que a carne da panela vinha dos bichos. Olha, a Jurema anda, brinca e fica assustada que nem a gente. Coloca a mão aqui, pai! Coloca, mãe! Dá pra sentir o coraçãozinho dela batendo forte. Não mata ela! Por favor! Ela só quer viver!

No domingo, quando Alberto, tio de Tazinha, chegou para o almoço, ele se aproximou do fogão e ergueu a tampa da panela. “Mas que cheiro delicioso é esse, cunhada? Que maravilha!”, declarou. Lá dentro, o molho vermelho borbulhava, exalando olência da combinação de batata, cebola, alho, cebolinha, salsinha, tomate, páprica, azeite e folhas de louro. No quintal, Tazinha amarrava uma fitinha no pescoço de Jurema antes de alimentá-la com um pouquinho de ração.

— Por isso, você me olhou assustada no primeiro dia que te vi. Desculpa! Não precisa mais ter medo, Jurema. A gente nunca mais vai comer carne aqui em casa. Prometo!

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Written by David Arioch

July 24th, 2016 at 2:27 pm

Escrever, uma coisa que faço o tempo todo

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Escrever é uma coisa que faço quase o tempo todo há anos, inclusive mentalmente. Não é porque não tenho uma caneta, um notebook ou um PC ao alcance das mãos que não estou escrevendo. Você chega a um ponto da vida em que sua própria mente se transforma em um caderno ou uma tela, até porque não existe maior exercício de produção do que a atenção, a capacidade de absorver o que as pessoas e o mundo te apresentam. O que agrada quem escreve é isso, no fundo tudo tem potencial para virar uma história, tenha ela poucas ou muitas linhas. E se uma pessoa fala mais do que ouve, ou simplesmente não se esforça o suficiente para enxergar além do óbvio, acredito que pouco ela tem para escrever.

Written by David Arioch

July 23rd, 2016 at 10:29 pm

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Sobre o amor

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O amor para ser verdadeiro não pode ser afugentado. Ele tem vida própria e está acima dos nossos anseios, da nossa existência. Quer maior prova do que a sobrevivência do amor de um Montecchio e um Capuleto após centenas de anos? O amor é uma das poucas coisas da nossa natureza que resiste à morte porque ele não é palpável, é intangível, pode ser imortal, ao contrário de nós. O ódio nunca vai superar o amor porque ele não frutifica na mesma proporção. Além disso, o que o amor enaltece a cólera corrói; e tudo que é deletério mortifica o homem em vida enquanto o amor na sua pureza o sublima. O amor de verdade é uma concessão, sobrevive sem vida e até fora do coração. Ele é nosso enquanto vivemos e torna-se imortal quando morremos.

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July 23rd, 2016 at 10:28 pm

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Um almoço na casa do Tio Lú

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Tio Lú convidou dezenas de crianças e adolescentes da Vila Alta para um almoço em sua casa (Foto: David Arioch)

Hoje, o artista plástico Tio Lú preparou um almoço para dezenas de crianças e adolescentes da Vila Alta, na periferia de Paranavaí. A garotada deveria chegar após às 12h, mas a fome falou mais alto e eles chegaram às 11h. Nesse ínterim, ficaram rindo e brincando, até o momento em que Tio Lú colocou uma panela de 60 litros de sopa de mandioca sobre uma mesinha improvisada. Enquanto ele dizia que a sopa não ficou tão boa quanto esperava, os convidados nem se importavam, comiam com alegria e satisfação.

Seguindo as diretrizes da casa, levaram colheres, copos e pratinhos ou vasilhas de plástico e alumínio. Presenciar um almoço na casa do Tio Lú significa ver crianças extremamente felizes comendo sopa de mandioca. E durante o encontro virei alvo das brincadeiras: “Ô tio, você vai ser Papai Noel agora? Quero meu presente de Natal!”, perguntou uma das crianças. William, de oito anos, o mais falante da turma, indagou como posso ter uma barba tão grande sem ser velho. “Ah, tio! Você comprou essa barba branca e pintou de preto. Pode falar!”, insistiu William. Depois começou a rir quando encostou a mão na minha barba e percebeu que não era de mentira.

Após às 13h, restavam poucos litros de sopa. E antes de partir, as crianças pediam para levar um pouco de sopa para casa, pensando em algum familiar. “Seu Luiz, posso levar um pouco pra minha avó?” “Seu Luiz, posso pegar um pouquinho pro meu pai?”, questionavam. E Tio Lú erguia uma concha gigantesca e enchia os pratinhos e as vasilhas. Os convidados saíam felizes, satisfeitos e repetiam a mesma frase de agradecimento: “O senhor é muito bom, Seu Luiz! Deus te abençoe!”

Written by David Arioch

July 23rd, 2016 at 7:40 pm

Sobre homenagear políticos

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Uma coisa que nunca entendi e nunca vou entender são as homenagens feitas a políticos. Na minha opinião, político não deveria receber homenagem alguma. Eles são eleitos para fazer o que realmente deveriam fazer, e não devem ser parabenizados por isso. Tantos monumentos, prédios, entre outras criações, transformando homens comuns em “deuses”. Acredito que tudo isso apenas reforça a ideia obtusa de que um político deve ser visto pela população como um ser intocável ou inalcançável. Penso que uma homenagem a um político é sempre um tipo perigoso de propaganda.

Written by David Arioch

July 23rd, 2016 at 1:17 am

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Eu e minha barba

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Passando pelo caixa do hipermercado, uma moça me perguntou de onde eu sou. Daí respondi naturalmente: “Sou daqui!” Com um olhar de surpresa, e acredito que até estranhando a minha fluência em português, ela replicou: “Não é não!” Então comentei: “Talvez você tenha razão, nunca se sabe!”

— Ah! É que você tem uns traços diferentes, parece que veio do Oriente Médio.

Written by David Arioch

July 23rd, 2016 at 1:09 am