David Arioch – Jornalismo Cultural

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Leandro Karnal: “Os vegetarianos são insuportáveis”

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“Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não”

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Karnal compara os direitos dos animais com os direitos das cenouras (Foto: Reprodução)

Está disponível no YouTube uma palestra do professor Leandro Karnal intitulada “Os Novos e os Velhos Pecados”. Em um determinado momento, o historiador diz que “Os vegetarianos são insuportáveis. Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não.” Quando você compara um animal com uma cenoura, você está querendo dizer que um animal sofre tanto quanto uma cenoura, ou seja, há uma banalização do sofrimento e da violência. Agora imagine o que isso pode representar na cabeça de um jovem que já não gosta muito de animais.

Bom, achei uma pena vê-lo fazendo esse tipo de comentário satírico e sem embasamento, ainda mais levando em conta que ele costuma viajar pelo país ministrando palestras sobre moral e ética. Pelo jeito, ele precisa estudar sobre direito animalista, que também versa sobre moral e ética. Karnal costuma citar filósofos gregos em suas palestras, e parece-me que ele não sabe que era comum entre eles uma alimentação isenta de carne, e por uma questão moral – o que contrapõe sua observação mais do que irônica.

Em seus artigos e palestras, também há inúmeras citações a Arthur Schopenhauer. Creio que se ele conhecesse profundamente o trabalho do filósofo alemão jamais teria ignorado o fato de que Schopenhauer escreveu que animais não são artigos fabricados para o nosso uso, de acordo com informações da página 375 do livro “Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2 .

Animais não são meros meios para quaisquer fins. Ao pensarmos que sim, somos coniventes com a violência contra outras espécies e incentivamos a exploração animal em todas as esferas, sendo permissivos inclusive com formas inimagináveis de privação e crueldade. E esse tipo de conduta em detrimento de outros seres vivos leva a um questionamento a respeito da nossa própria moralidade que não contempla ninguém além de nós mesmos.

Schopenhauer via isso como um tipo frequente de moralidade de conveniência. Sendo assim, pode-se dizer que a moralidade conveniente ao homem não é moralidade, já que a moralidade genuína depende de você não observar somente a si mesmo e as conveniências que envolvem apenas aqueles que são de sua própria espécie.

“É uma vergonha essa moralidade digna de párias […], chandalas, mlechchas e que não reconhece a essência eterna que existe em cada coisa viva, e brilha com significado inescrutável em todos os olhos que veem o sol”, escreveu Arthur Schopenhauer na página 173 do livro “O Fundamento da Moral”, publicado em 1840.

Seria mais honesto o historiador Leandro Karnal dizer: “Dane-se os animais e os vegetarianos”, que parece ser o que ele pensa, mas não fazer piadas sobre pessoas simplesmente por serem vegetarianas. É curioso reconhecer que já vi ele falando de moralidade e citando Tolstói. Provavelmente ele não sabe que o autor de “Guerra e Paz” e “O Primeiro Passo” era vegetariano.

A segunda obra que citei, publicada pela primeira vez em russo em 1883, fala justamente da nova concepção moral que Tolstói alcançou com o vegetarianismo. Então observo com certo pesar quando alguém discorre sobre moralidade e faz chacota do vegetarianismo, já que a moralidade vegetariana preza pelo bem-estar animal. Ou seja, tenta expandir a compreensão ética e moral para além daquela que abarca somente seres humanos.

Não é a primeira vez que vejo o Karnal cometendo esse tipo de deslize. Uma vez, quando assisti uma de suas palestras, ele confundiu esteroides anabolizantes com vitamina ADE, e usou a imagem de um rapaz para abordar o tema. Ou seja, é importante termos o cuidado de não abordarmos assuntos sobre os quais não temos conhecimento. Também é ético não expor pessoas à situação vexatória, mesmo que por meio de imagens.

Resposta de Leandro Karnal em que ele confunde veganismo com especismo (Imagem: Reprodução)

Resposta de Leandro Karnal em que ele confunde veganismo com especismo (Imagem: Reprodução)

O problema na atualidade é que há pensadores falando sobre assuntos que desconhecem. Seria muito mais interessante e proveitoso para todos se eles se preocupassem basicamente em transmitir informações sobre aquilo que estudaram e sobre o qual desenvolveram um raciocínio valorosamente crítico.

Algumas pessoas me disseram que o Karnal não disse nada de mais ao fazer piada sobre vegetarianos e os direitos animais, já que ele defende, mesmo que sem argumentos, o ponto de vista dele. Bom, se ele tivesse um programa de stand-up, eu não me importaria com o que ele falou. A diferença é que ele é um formador de opinião que viaja pelo país discutindo sobre moral e ética. Ademais, direitos dos animais tem tudo a ver com moral e ética. Logo se ele vai falar alguma coisa sobre isso, é importante sim estudar sobre o assunto.

Além de desconsiderar meu texto e não apresentar argumentos, Karnal continuou debochando de todos que o questionaram sobre o vídeo em que ele satiriza vegetarianos e os direitos animais. Pelo jeito, o historiador não sabe que vegetarianos e veganos, que se recusam a se alimentar de animais por uma questão moral, naturalmente defendem inclusive o direito à vida dos insetos. Parece que houve uma confusão com um entendimento particularista de especismo. Uma pena, mas cada um conhece a sua própria consciência. 

“Se o problema é dor, bastaria dar sonífero para as vacas e matá-las ao som de Mozart, certo? Seria uma carne sem dor.” Muita sensibilidade vinda de alguém que discorre sobre filosofia. Ainda bem que na contemporaneidade tivemos e temos filósofos como Agostinho da Silva, Sônia T. Felipe, Peter Singer e Tom Regan, só para citar alguns, que foram e vão na contramão disso. Outro fato inesperado é que Leandro Karnal deletou os comentários de veganos e vegetarianos o questionando sobre o assunto.

Passagem em que Leandro Karnal ironiza vegetarianos e os direitos dos animais:

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