David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Considerações sobre o discurso “bandido bom é bandido morto”

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Crítica em forma de imagem que tem circulado sobre o assunto na internet 

Um problema que surge quando você se manifesta contra o discurso “bandido bom é bandido morto” é que há pessoas que “entendem” que você passa a mão na cabeça de assassinos, pedófilos, estupradores e outros sujeitos que cometem os piores crimes. Quando alguém diz que é contra o “discurso bandido bom é bandido morto”, normalmente o que a pessoa quer dizer é que não se deve nivelar todos os crimes e que todos eles devem ser punidos de acordo com a prática.

Conversando tranquilamente com um sujeito que defende o discurso “bandido bom é bandido morto”, ele me disse que independente de crime todos os criminosos merecem a “vala”. Achei tal comentário visceral, ainda mais levando em conta as minhas experiências de anos em contato com pessoas que cometeram os mais diversos delitos, além de laranjas, usuários de drogas, alcoólatras e andarilhos. Inclusive conheço e escrevi histórias de jovens que abandonaram o mundo do crime.

Expliquei que sou da opinião de que a justiça não deve ser feita por ele nem por mim, mas por quem tem competência e autoridade para tal, e obviamente que respeitando a legislação vigente. Penso que se as leis são falhas, também temos culpa, porque chegamos a esse ponto por uma questão de permissividade de nossa parte.

Irritado com minha observação, o sujeito retrucou que gostaria de ver minha reação quando um bandido matasse algum de meus familiares ou invadisse minha casa. Realmente sou privilegiado por nunca ter sido vítima de assalto, mas não consigo entender como uma pessoa pode torcer pelo mal do outro simplesmente por não partilhar da mesma opinião.

Devo ser vítima de algum ato bárbaro, cruel, para ter a mesma opinião que a sua? Devemos desejar que todos aqueles que não compartilham desse discurso sejam mortos, tenham familiares violentados e assaltados, só para que, num cenário hipotético, sejam forçados a mudarem de opinião e o outro se sinta satisfeito em sua razão?

Precisamos buscar a reafirmação de nossas crenças na hostilização do outro? Como isso pode não ser propagar mais violência? Se você sente raiva de mim por não concordar com o discurso generalizado “bandido bom é bandido morto”, e me deseja algum mal, o que te incomoda não é apenas a criminalidade, mas também a contrariedade, que surge inclusive na figura de muitas pessoas honestas, que nunca cometeram nenhum crime e desejam o melhor para os outros.

Written by David Arioch

January 19th, 2017 at 1:18 am

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