David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Sobre críticas equivocadas em relação ao veganismo

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Se uma pessoa rejeita o veganismo, mas volta a consumir alimentos baseados em exploração animal, ela está fazendo simplesmente o que julga conveniente

A maior parte dos veganos que conheço seriam incapazes de consumir carne novamente (Arte: Dana Ellyn)

Não raramente circula na internet algum texto de alguém dizendo por quais motivos deixou de ser vegano. Normalmente são desabafos em que alguém volta a consumir alimentos de origem animal e decide antagonizar a filosofia de vida vegana, um motivo que nunca vou entender, porque isso significa se manifestar contra o direito à vida dos animais não humanos. Nesses textos, não raramente um dos pontos mais preocupantes é a afirmação de que veganos compram produtos de empresas que na realidade são boicotadas por veganos. Ou seja, há quase sempre uma confusão entre vegetarianismo e veganismo. Também são comuns as observações que reduzem o veganismo a uma questão ética meramente alimentar, o que não é verdade.

No geral, as críticas dos detratores do veganismo me parecem consideravelmente generalizadas, já que são baseadas em alguns supostos veganos do convívio social do autor – ainda assim são feitas falando do veganismo como um todo – o que é muito estranho se levarmos em conta que é um movimento mundial.

Mesmo pesquisando sobre o assunto todos os dias, eu seria extremamente pedante se julgasse o veganismo na totalidade, até porque não tenho conhecimento para tal. Ademais, experiências compartilhadas ou observações não representam e nunca representarão a universalidade de algo.

Sendo assim, seria legal se as pessoas pesquisassem um pouco sobre as motivações históricas e morais do veganismo antes de tentar se referir ao veganismo a partir de um ponto de vista obtuso e que reflete uma idealização pessoal, não o que realmente é.

E tenho visto muito disso, pessoas com suas bagagens culturais tentando moldar o veganismo de acordo com seus interesses e crenças, ignorando que antes delas existirem já havia todo um trabalho sendo desenvolvido, e que hoje ainda serve de base para milhões de pessoas. Sim, o movimento deve estar em constante aperfeiçoamento e evolução, acredito, mas não deve destoar do propósito maior – que é a libertação animal.

Se você diz que já foi vegano e hoje se alimenta de produtos de origem animal, não nego que acho isso muito estranho, levando em conta que a maior parte dos veganos que conheço seriam incapazes de consumir, por exemplo, carne novamente, por entenderem que se trata do cadáver de um animal que foi privado de existir à sua maneira. Tenho o claro entendimento de que um animal não existe para ser fatiado e colocado em meu prato.

Os animais merecem compartilhar conosco um mesmo universo moral – que lhes garanta pelo menos o direito à vida (Foto: Animal Liberation Victoria)

No entanto, o que tenho visto, e com alguma frequência, são pessoas que se dizem ex-veganas, mas que se tornaram “veganas” pelos motivos errados. O veganismo tem falhas sim, mas dizer que as pessoas não consumirem alimentos de origem animal não faz uma grande diferença é no mínimo uma afirmação bem equivocada, ainda mais levando em conta que o objetivo do veganismo é o abolicionismo animal, e algo que primariamente só poderá ser alcançado quando pararmos de ver os animais como comida ou como objetos.

Além disso, muitas pessoas no contexto do veganismo não se veem como os baluartes da transformação, mas sim como pessoas empenhadas em mudar a mente daqueles com quem elas têm contato, o que na minha opinião já é uma grande coisa. Quem analisa o veganismo de forma ponderada e consciente sabe que todo e qualquer passo é importante.

Porém, não consigo deixar de pensar que se você afirma ser ex-vegano e hoje come carne, naturalmente creio que você não sente compaixão pelos animais não humanos nem reconhece que eles merecem compartilhar conosco um mesmo universo moral – que lhes garanta pelo menos o direito à vida.

Como disse Schopenhauer, a moralidade que é conveniente ao ser humano não é moralidade. Se uma pessoa rejeita o veganismo, mas volta a consumir alimentos baseados em exploração animal, ela está fazendo simplesmente o que julga conveniente. O escritor sul-africano J.M. Coetzee diz que é um crime contra a natureza resumir qualquer ser vivo a uma unidade de um processo industrial.

Então, se voltamos a compactuar com isso, e simplesmente por não concordarmos com as ações de alguns veganos ou grupos de veganos “que julgamos como se fossem todos ou a maioria”, estaremos sendo cúmplices e financiadores da exploração animal, o que naturalmente é um passo para trás.

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Written by David Arioch

March 21st, 2017 at 2:12 am

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