David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Sobre “justiça com as próprias mãos”

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Tatuagem feita como forma de “punição” (Foto: Reprodução)

Sobre o garoto de 17 anos que, após uma tentativa de furto de uma bicicleta, teve a testa tatuada com as palavras “Eu sou ladrão e vacilão”. Sim, sou contra o que fizeram com ele. Acredito que o mundo está se tornando um semeadouro de impaciência, e todos os dias as pessoas perdem um pouco mais de sensibilidade e plasticidade. A cada ano que passa a vida vale um pouco menos. Muitos se consideram aptos a decidir quem merece viver e quem merece morrer.

Mas o problema maior subsiste no fato de que com o crescimento dessa linha de pensamento é inevitável pensar na possibilidade de que o mundo pode se tornar um lugar muito pior. Vejo isso como um retorno ao primitivismo. Já não é mais velado o desejo do retorno da Lei de Talião, do Código de Hamurabi.

A violência insufla as pessoas de um tipo peculiar de medo que faz com que elas matem ou desejem a morte de outrem não porque acham que é a única forma de sobreviver, mas sim porque são alimentadas diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis.

Há muitas pessoas que não apenas consideram a violência como algo intrínseco à realidade, como acham justo tomar parte nela. É aquela consciência de que se as leis não funcionam corretamente, posso criar as minhas próprias. Ou seja, serei o senhor de meus atos e ninguém terá o direito de me deter, já que rejeito e condeno os mecanismos de justiça da atualidade.

Outro agravante é o fato de que se todos alimentarem um senso de justiça individualista, não há de tardar para as pessoas menosprezarem um pouco mais a vida. Sendo assim, um indivíduo pode achar justo matar alguém porque invadiu sua casa.

Outro pode considerar plausível assassinar uma pessoa porque lhe deve dinheiro ou porque arranhou a pintura do seu carro em um acidente. O justo seria um criminoso aos olhos do injusto e vice-versa. Sendo assim, se seguíssemos nessa direção, não seria tão obtuso acreditar no futuro como o prólogo do fim da humanidade.

Até hoje me recordo do caso de um pai que, por engano, matou o próprio filho a tiros em Joanesburgo, na África do Sul. Em uma madrugada, o garoto foi confundido com um ladrão quando estava atravessando o quintal para entrar dentro de casa.

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Written by David Arioch

June 11th, 2017 at 11:13 pm

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