David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Vou compartilhar as fotos íntimas dela na internet”

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Arte: Kate Kretz

Há duas semanas, um amigo de longa data veio conversar comigo na hora do almoço. Me disse que foi traído pela namorada e que estava pensando em publicar fotos íntimas dela na internet, além de compartilhá-las pelo Whatsapp.

— Sério mesmo ou você está brincando?
— É sério sim.
— Então ela te traiu mesmo?
— Sim. Ninguém me disse. Eu vi tudo.
— Isso realmente não é legal. Mas compartilhar essas fotos vai reparar o erro dela?
— Não, mas pelo menos posso retribuir de alguma forma o que ela me fez.
— E como seria essa retribuição no seu entendimento?
— Ué, simples. Vou expor a intimidade dela e isso vai machucá-la de alguma forma, assim como ela me machucou.
— Tem certeza que existe alguma proporcionalidade nisso?
— Como assim?
—Ela o traiu, e por pior que você se sinta hoje isso ainda vai passar. Mas fotos íntimas, uma vez lançadas na internet, não desaparecem assim. Quero dizer, é natural que você tenha algum sentimento negativo em relação a ela. Mas agora você está exaltado, sente raiva, e sem dúvida não quer ser o único a se sentir mal diante de tudo, então sua primeira reação é a vingança. Você acha que ferir o outro pode te trazer alguma sensação de bem-estar. Só que infelizmente isso não vai acontecer. Se defender atacando nunca é uma coisa boa, e revela mais sobre suas fraquezas do que sobre as fraquezas dela. Deixe ela viver a vida dela e vá viver a sua. Você não precisa disso, menos ainda se você sempre foi um sujeito honesto e fiel a si mesmo. Por que macular isso com um comportamento nocivo?
— Sempre fui fiel a mim e a ela. Nunca fiz nada para que ela me sacaneasse e estou puto da vida.
— É compreensível. Mas reflita sobre um ponto. A sua raiva vai passar, e talvez daqui uma semana, um mês ou um ano você se arrependa de ter divulgado as fotos dela. O que você poderá fazer sobre isso? Nada, porque você não vai ter como impedir que as fotos dela continuem circulando. Você também não será visto como é hoje, e se você for realmente um bom sujeito, como sei que é, terá vergonha de si mesmo. Vale a pena? Você definitivamente não precisa disso. Nem deve fazer isso.
— E como eu fico nessa situação? Devo deixar quieto? Cara, eu vomitei quando vi os dois se pegando.
— Você fica como sempre ficou, sendo fiel ao que existe de mais verdadeiro dentro de você, e não se entregando a uma emoção arrebatadora, destrutiva e transitória.
— Não sei não, cara. Estou muito mal e preciso fazer alguma coisa a respeito.
— Então faça o seguinte. Me prometa que vai esperar uma semana, só uma semana antes de fazer qualquer besteira. Se você ainda estiver se sentindo da mesma forma então conversaremos sobre isso. Mas não faça nada antes, nada mesmo.
— Tudo bem. Vou tentar.

Na semana passada, ele me avisou que apagou todas as fotos íntimas da ex-namorada do celular, do PC e do notebook.

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Written by David Arioch

June 20th, 2017 at 1:02 am

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