David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Você acha que as pessoas são ruins por se alimentarem de animais?”

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Arte: Dana Ellyn

Não. O consumo de alimentos de origem animal é cultural, então creio que as pessoas se apeguem a três fatores – costume, paladar e saúde. Sabemos que o terceiro é mais facilmente refutado, já que há tantos vegetarianos e veganos saudáveis pelo mundo afora. Porém a questão de costume e paladar é mais delicada, porque muitas pessoas os veem inclusive como indissociáveis.

Eu, assim como muita gente, cresci me alimentando de animais por um fator cultural baseado no costume. E quando esse fator está tão enraizado na cultura de alguém não é tão fácil enxergar o que realmente existe por trás do que consumimos. Também não é tão simples convencer todo mundo a abandonar esse hábito que muitas vezes representa inclusive todas as refeições que uma pessoa consome ao longo do dia. Há pessoas que tomam leite ou comem queijo no café da manhã, comem carne no almoço, e assim por diante.

Basicamente um dia todo consumindo animais. Fora que as pessoas passam uma vida toda sendo bombardeadas com informações que as convençam de que os alimentos de origem animal devem ser consumidos diariamente. Há uma indústria que te impele a isso; além de escolas, universidades, profissionais de saúde, e toda uma cultura comercial que absorve essa produção surreal que custa a vida de bilhões de animais a cada ano. Olhe à sua volta e veja quantos estabelecimentos em um raio de quilômetros você pode citar que vendem animais reduzidos a produtos. E neste momento penso em mercados, empórios, bares, lanchonetes, restaurantes, etc.

Arte: Dana Ellyn

Claro, muitas pessoas, principalmente adultos, sabem que estão se alimentando de um animal que foi morto, ou de algo que foi retirado dele em regime de privação ou sofrimento. No entanto, saber, enxergar e entender não são a mesma coisa. Uma pessoa pode testemunhar a morte de um animal, mas isso não significa que ela tenha uma real dimensão do que aquilo representa realmente; porque isso depende do seu nível de cognição em relação ao que foi visto e o que aquilo é capaz de despertar nela.

Também é preciso considerar o fato de que hábitos alimentares podem se tornar vícios mesmo que as pessoas não percebam. E alimentos de origem animal têm um poder muito grande de despertar algum tipo de dependência. Porém, qualquer hábito alimentar é passível de mudança, já que somos seres de hábitos mutáveis embora isso pareça aparentemente difícil, o que na realidade não é.

Nós que temos essa crença e essa resistência. Acredito que não existe nada que o ser humano não seja capaz de fazer nesse sentido. Tudo é possível quando falamos de hábitos alimentares. Mas antes é preciso estimular um novo nível de consciência. Porque uma transição para o vegetarianismo ou veganismo sem uma sólida razão pode ser transitória, efêmera. Uma perspectiva vegana da crueldade pode ou não ser partilhada por quem não é vegetariano ou vegano.

Quero dizer, o vegano está em um nível diferenciado de consciência sobre a exploração animal, e aquilo pode ter um efeito positivo ou não sobre quem não é dependendo da acepção de quem o lê ou o ouve. Darei um exemplo. Duas pessoas observam carnes em um açougue. Uma delas é vegana e a outra não. A vegana fica chocada com o que vê, por entender que está diante dos pedaços do cadáver de um animal, o que é a mais honesta compreensão da realidade.

Arte: Dana Ellyn

Por outro lado, quem não é vegano ou vegetariano observa apenas a carne, dissociada do animal. Não reflete sobre o que aconteceu antes daquela carne chegar àquele local. Vamos supor que aí existe a possibilidade de um diálogo. Se esse diálogo estiver muito aquém do nível de consciência ou da predisposição interpretativa daquele que se alimenta de animais, o resultado pode não ser tão positivo dependendo da abordagem.

Claro, a pessoa citada nesse exemplo pode ter algum nível superficial de consciência de que aquilo foi um ser vivo, mas isso não significa que ela tenha feito ou pelo menos esteja disposta a fazer uma conexão entre carne, privação e morte. É como um cenário em que duas pessoas estão diante de um assassinato – uma delas assiste tudo e a outra escuta apenas os tiros e os gritos. Ou seja, a primeira pessoa naturalmente estará em um nível de reflexão mais profundo do que foi visto. E como a outra não viu nada, seja por recusa ou temor do que aquilo poderia despertar nela, talvez a interpretação do fato seja dissonante.

No geral, creio que é problemático qualificar quem consome animais como alguém ruim. Naturalmente, pesamos o sofrimento dos animais e isso é terrível. Porém, se nos entregamos à emoção facilmente perdemos a razão, como diz o clichê. Sim, não tenho dúvidas de que há pessoas que não teriam problema nenhum em matar animais e comê-los. Talvez até por uma questão de disfunção narcotizante, que seria a banalização da morte, mas esses não representam a maioria da população. Na realidade, a maioria sequer já teve contato real com animais reduzidos a alimento e produtos. Tenho certeza de que a maioria precisa apenas de uma oportunidade de conscientização, de contato mais profundo com essa questão da exploração animal; de tudo que envolve a redução dos animais a alimentos e outros produtos.

Normalmente me deparo com situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo um caso em que havia um mamilo em um pedaço de bacon e houve bastante comoção. Muita gente apontou hipocrisia nisso, o que não deixa de ser verdade, já que ao comer bacon, você está comendo um pedaço de um porco, um animal com mamilos. Mas, por outro lado, entendo que essa reação também pode ser um indicativo de um choque de realidade que pode instigar conscientização e sensibilidade, enfim, predisposição a uma verdadeira reflexão do que é o sofrimento animal. Sendo assim, vejo nessas pessoas que ficam chocadas uma franca possibilidade de mudança.

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