David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for September, 2017

O perfume do veneno

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Pintura: Long Road Home, Ally Benbrook

Às vezes, deita a cabeça e sente o perfume do veneno. Sabe que é veneno, mas abre a boca para inalar, engolir, tragar, manducar. Derrama da cabeça, da mente erodente. Escorre pelo corpo, se entranha no chão e vira semente. Cresce na mesma noite, usando os pés como raiz; é rasteira, é videira. Brota pelas mãos, cotovelos, orelhas, nariz, boca, topo da cabeça.

Batem na porta, não consegue se mover. Mesmo que conseguisse, não se importaria. Deixe que vão. Melhor assim. Deita, sente a cama forrada de folhas frescas e macias. Murcham num minuto. Secas como a boca ressequida, lábios tracejados, lanhados. O manto verde arranha as costas, fere a pele. Os espinhos não param de crescer, furam a carne. Sangue, sangue, sangue. Sangra mesmo. Salta da cama e caminha em direção à janela.

O veneno escorre pelos poros. Amarescente, não mais. Da vergonha subjacente ainda resta a dor de dente. Talvez devesse ter falado. Não importa mais. Abre a janela e deixa a chuva torrencial entrar, oblíqua como a própria existência. Fecha os olhos e deixa a água lavar. Lava tudo. Não resta mais nada, a não ser um corpo cicatrizado, quiçá provisoriamente purificado.





Written by David Arioch

September 30th, 2017 at 11:14 pm

Posted in Crônicas/Chronicles

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“Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito”

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Minha mãe me ligou e contou que encontrou um amigo de longa data que cria gado leiteiro.

— Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito. Está compensando mais como carne do que como fonte de leite.
— Mas quem vai fazer isso? Você?
— Não, não tenho essa coragem. O peão que vai matar.
— Mas você não é o responsável por ela?
— Não adianta. Não consigo matar nenhum animal. Não consigo nem olhar.
— Você tem entrado no blog do David?
— Sim, mas os textos dele sobre veganismo eu não leio. Só leio os outros.
— Por que não?
— Prefiro não ler. Não quero ficar com isso na cabeça.





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 11:52 pm

Sobre “O Conto da Cabra” de Yosef Agnon

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Ao perceber que a cabra sempre desaparece por período inexato, o homem conversa com o filho, crente de que o gosto do leite tem relação com as viagens da cabra. O jovem então decide segui-la. O percurso que parece durar horas, mas pode significar até dois dias, termina em uma caverna, uma passagem para um paraíso inimaginável chamado Terra de Israel.

Extasiado, e ciente de que a véspera do sabat anteciparia a escuridão, ele se vê incapaz de retornar para casa. Preocupado, prende um bilhete na orelha da cabra e pede que ela a entregue a seu pai. Quando vê o animal chegando sozinho, o homem entra em desespero e pragueja a cabra, a quem responsabiliza pelo sumiço do filho. Movido por surto momentâneo, a entrega a um açougueiro. Depois de assassinada, o bilhete cai da orelha da cabra.

“Ai do homem que rouba de si mesmo a sua própria fortuna, e ai do homem que reivindica o bem com o mal”, gritou o velho arrependido, batendo as mãos na própria cabeça. O luto durou dias. O homem se debruçou choroso sobre o animal e se recusou a ser consolado. Na história, o leite é também uma metáfora dos caminhos e dos descaminhos do homem.

Sobre a obra “סיפורו של העז” ou “O Conto da Cabra”, de Shmuel Yosef Agnon.





Companhias suspeitas de financiarem a semi-escravidão em países subdesenvolvidos

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Companhias que, de acordo com a organização Human Rights Watch, não fornecem informações claras sobre a origem de seus produtos, levantando suspeitas sobre o financiamento de sweatshops, ou seja, locais onde pessoas trabalham em más condições e por longas jornadas, em um regime de semi-escravidão. Das 72 companhias contatadas pela HRW, apenas 17 assinaram um documento se comprometendo em fornecer todas as informações sobre seus fornecedores a partir de dezembro deste ano.

Por enquanto, esta é a lista de companhias na mira da coalizão formada pela Clean Clothes Campaign, Human Rights Watch, IndustriALL Global Union, International Corporate Accountability Roundtable, International Labor Rights Forum, International Trade Union Confederation, Maquila Solidarity Network, UNI Global Union e Worker Rights Consortium:

Abercrombie & Fitch, Adidas, ALDI North, American Eagle Outfitters, Arcadia Group, Armani, Asics, ASOS, Benetton, BestSeller, C&A, Canadian Tire, Carrefour, Carter’s, Clarks, Coles, Columbia Sportswear, Cotton On Group, Debenhams, Decathlon, Desigual, Dick’s Sporting Goods, Disney, Esprit, Fast Retalling, Foot Locker, Forever 21, G-Star Raw, Gap, H&M Group, Hanesbrands, Hudson’s Bay Company, Hugo Boss, Inditex, John Lewis, KiK, Kmart Australia, Levi Strauss, LIDL, Lindex, Loblaw, Mango, Marks and Spencer (M&S), Matalan, Mizuno, Morrison’s, Mountain Equipment Co-op (MEC), New Balance, New Look, Next, Nike, Patagonia, Pentland Brands, Primark, Puma, PVH Corporation, Raph Lauren Corporation, Rip Curl, River Island, Sainsbury’s, Shop Direct, Sports Direct, Target Australia, Target USA, Tchibo, Tesco, The Childen’s Place, Under Amour, Urban Outfitters, VF Corporation e Walmart, Woolworths.

 





Grandes companhias ajudam a financiar a exploração do trabalho infantil

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Grandes companhias que têm ajudado a financiar a exploração do trabalho infantil em países subdesenvolvidos:

Nestlé, H&M, Phillip Morris, Walmart, Victoria’s Secret, Gap, Apple, Nike, Zara, Urban Outfitters, Aldo, Primark, Disney, Forever 21, Hershey, Mars, ADM, Godiva, Kraft Foods, Cadbury, Fowler’s Chocolate, Starbucks, Aeropostale, La Senza e Toys R.

De acordo com informações da International Labour Organization (ILO), 152 milhões de crianças trabalham em regime de semiescravidão no mundo todo. Desse total, 72,1 milhões de crianças são exploradas na África, 62,1 milhões na Ásia, 10,7 milhões nas Américas, 1,2 milhão no Oriente Médio e 5,5 milhões na Europa e na Ásia Central.





“Não basta tê-lo atingido, precisa ainda do corpo como troféu de sua glória”

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Foto: Acervo Viral Nova

Num raio de sol por detrás da gameleira, o safado espreita o pássaro negro dos sonhos dourados e de súbito, ao alcance da pedra da atiradeira, interrompe o glorioso voo. O pássaro cai dos céus e para a sombra do rasteiro e sorrateiro. Cambaleia, tenta voo e não consegue sair do chão. Surge a surpresa de repente, faz parecer o fim; sem a força do brilho do voo tem como último recurso a sombra raquítica da graminha que vai se dobrando aos poderosos passos do safado infeliz. Não basta tê-lo atingido, precisa ainda do corpo como troféu de sua glória. Destroncar o pescoço caso ainda não esteja morto. A insensibilidade é o prazer amplificado. A pequena sombra é o recurso infinito que confunde os olhos do gigante no meio do silêncio da impotência e do pavor.

“As Gameleiras”, páginas 41 e 42 do livro “Tear Africano: Contos Afrodescendentes”, de Henrique Antunes Cunha Junior.

 





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 2:09 pm

Um papo com um pecuarista

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É evidente que bovinos têm emoções e sentimentos

Na casa de um amigo já idoso, chegou um senhor com um chapéu de couro sobre a cabeça. Nos cumprimentamos e ele começou a reclamar com o anfitrião.

— Como vai o senhor? — perguntou o amigo.
— O senhor fique sabendo que gado hoje em dia não dá dinheiro como antigamente — respondeu coçando a cabeça.
— Pra mim o manejo do gado tá saindo muito caro, sempre sobra pouco depois da venda do rebanho. Isso não é certo. A indústria tá levando a melhor.
— É, não é fácil.
— Esse menino aqui não come carne, não come nada de origem animal — comentou o amigo apontando para mim.
— Por que não, rapaz?
— Não vejo necessidade, é desnecessário.
— Como assim desnecessário?
— Olhando pra mim, o senhor acha que eu pareço alguém que precisa de carne ou algo de origem animal?
— Não. Mas o que tem de errado em comer carne?
— O que tem de errado em não comer carne?

Silêncio.

— Bom, vou ser honesto com o senhor. Não acho correto matar animais para reduzi-los à comida. Será que a morte vale a pena? Qual seria a expectativa de vida desses animais se eles não fossem enviados para o matadouro?
— Ih, rapaz. Nem sei, se não desse dinheiro, eu nem criaria. Quando a gente faz isso a vida toda não pensa nessas coisas não — comentou sorrindo.
— Mas o senhor já considerou isso?
— Talvez, quando era criança, mas a vida endurece o homem.
— O senhor tem razão, mas acredito que a vida só endurece o homem quando ele fecha os olhos para coisas que em algum nível já o incomodaram.
— Sim, mas a vida é desse jeito mesmo, realidade pura e cada um cuidando do seu.
— O senhor tem filhos, netos, não?
— Sim…
— Eles brincam com os animais que o senhor cria?
— Meus netos, às vezes, mas só com bicho manso, né?
— E o que isso significa?
— Não sei, me diga você.
— Um animal que brinca com um ser humano normalmente reage a um estímulo, e esse estímulo é baseado em como ele se sente diante do outro. Quero dizer, enquanto reação natural esse comportamento revela emoção, sentimento. O senhor concorda?
— Pode ser.

— Na realidade, até quando o gado é bravo, ele revela emoção e sentimento, já que isso significa que ele resiste a ser subjugado.

— Não tem problema, dá-se um jeito.
— Como seus netos brincam com o gado manso, por exemplo?
— Passam a mão na cabeça, afagam o pelo.
— Como o gado reage?
— Fecham os olhos. Temos um novilho que deita no chão e esfrega as costas no pasto, parece cachorro — respondeu rindo.
— E ele vai ser enviado para o matadouro?
— Sim…claro, criamos pra isso.
— Me desculpe a pergunta, mas como o senhor se sentiria se um amigo o abraçasse, o tratasse com carinho e no dia seguinte preparasse uma emboscada para matá-lo?
— Claro que ficaria bravo e decepcionado. O que isso tem a ver com a conversa?
— Não é esse o tratamento dado ao gado?
— Gado não é gente, meu rapaz.
— Sim, o senhor tem razão. Mas a questão não é coloca-los no nível dos seres humanos. Se eles brincam, demonstram emoções, será que não são capazes de sentirem-se traídos?
— Não tenho a mínima ideia.
— Não é uma forma de dissimulação ou traição evitar que o gado reconheça o seu destino? Quero dizer, não é padrão um boi testemunhar outro sendo morto. Provavelmente, porque ele vai querer fugir. Afinal, não é isso que ele quer para a vida dele, não é mesmo?
— Não sei. A gente só recebe de volta o que foi investido no animal.
— O senhor, nunca se sentiu como se estivesse traindo esses animais? Imagino que também já acariciou bois, vacas…

Silêncio.

— Essa conversa tá estranha, rapaz.
— Tudo bem.
— O senhor comentou há pouco que a criação de gado não está dando dinheiro. Há culturas hoje em dia com boa demanda e pouca oferta, como chia orgânica e feijão orgânico. Talvez seja algo que o senhor possa considerar. Tenho um amigo que é engenheiro agrônomo e já transformou áreas de pastagens, inclusive degradadas, em lavouras de chia e feijão aqui no Norte do Paraná.
— Se dá dinheiro, me interessa. Peça pra ele falar comigo.
— Ok.





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 2:02 pm

Tudo que as pessoas que não gostam de veganos querem é que veganos sintam-se inseguros

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Foto: Peaceful Prairie

Tudo que as pessoas que não gostam de veganos querem é que veganos sintam-se inseguros em relação à suas escolhas e decisões. Alguns tentarão fazer você acreditar que é hipócrita, que na realidade não está contribuindo efetivamente com os animais. Há pessoas capazes de observar os seus hábitos para encontrar alguma falha, esquecendo-se de uma premissa básica – veganismo não significa perfeição, mas sim um aperfeiçoamento constante em franca oposição à exploração animal. Também não faz objeção às questões humanas, já que o veganismo é muito benéfico à humanidade, e inclusive uma questão de justiça social.

Quando me fazem questionamentos sobre o assunto, normalmente de antemão consigo identificar a intenção. A escolha das palavras, o tom e a forma como elas são usadas dizem muito sobre o propósito do interlocutor; se ele realmente está disposto a dialogar. Assim consigo avaliar também se devo responder, sorrir ou ignorar. Não me recordo de nenhum momento em que me senti em risco por qualquer indagação desse tipo.

Porque me sentir em risco significaria amargar dubiedade sobre as minhas próprias decisões; e hesitação e vacilação também são ferramentas de altercação. Bom, não apenas tenho segurança em relação ao que defendo, como também sei que a fragilidade do desconhecimento de quem ataca vem sempre carregada pelos arroubos da ignorância, da ablepsia e da equívoca passionalidade; e isso também costuma suprimir o que deveria florescer.

Mas, claro, aponte-me meus erros respeitosamente, e eu o considerarei, mas se faz isso de forma impolida e debochada, concluirei que estou diante de alguém que tripudia sobre a realidade; que resiste em aquiescer a óbvia razão dos que não aceitam a objetificação animal. E não apenas não aceitam como estão sempre dispostos a mostrar como somos evidentemente arbitrários na nossa relação com os outros animais, tenha tal ação uma acolhida positiva ou negativa.

 

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Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 1:17 am

A galinha Zezinha

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Eu e meu irmão éramos crianças quando fomos para uma cidadezinha no Mato Grosso do Sul visitar um sobrinho do meu avô. Na manhã do dia seguinte, pediram que meu irmão destroncasse o pescoço de uma galinha parda que estava quietinha ciscando sobre a relva.

— Se você matar ela a gente já limpa e faz galinha ao molho.

Olhei para o meu irmão e fiquei apreensivo, aguardando sua reação.

— Não, obrigado — respondeu na sua típica fleuma.
— Vamos, rapaz! Mate ela! Mate-a! Não há nada de errado nisso.

Me levantei e caminhei em direção ao homem.

— Ele não quer e não vai matar. O senhor pode respeitar a vontade dele?
— Tudo bem, mas agora alguém tem que matar.
— Por quê? — questionei.
— Porque a carne já tá começando a ficar dura, e não quero ficar no prejuízo.
— Então a galinha viver é prejuízo pro senhor?
— Claro que sim! Eu que cuidei dela até hoje. E ela não bota mais ovo.
— O que o senhor quer pela galinha?
— Nada, vamos comer a bichinha.

A galinha parou de ciscar e virou a cabeça em nossa direção.

— Será que ela está prestando atenção? — pensei, na minha curiosidade meninil.
— De um jeito ou de outro, daqui a pouco a gente vai matar ela, viu? — avisou o homem.

Quando não havia mais ninguém por perto, pegamos a galinha Zezinha e corremos por mais de dois quilômetros e nos escondemos em uma área de mata nativa. Nem pensamos na possibilidade de sermos surpreendidos por algum animal selvagem. Só queríamos protegê-la.

— Aqui a gente tá seguro — comentou meu irmão.

Ficamos lá até escurecer, quando nossos pais nos encontraram sujos e famintos. De volta ao sítio, meu irmão, que estava com o braço quebrado há duas semanas, mostrou o gesso para o sobrinho do meu avô:

— O senhor ainda acha que ela não merece viver? — questionou.

No gesso do meu irmão, Zezinha fez um desenho de formas incertas com o bico, mas que de algum modo pareciam revelar algum tipo de afeição. O homem ficou calado.

— Se quiser, podem levar a galinha. Ela gosta de vocês.

Zezinha viveu com a gente por três anos antes de falecer. Gostava de subir na jabuticabeira, colher as frutas uma a uma e deixá-las na entrada da cozinha, presentes de galinha.

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Tenho em mente o quão gritante é a minha imperfeição

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Tenho em mente o quão gritante é a minha imperfeição, mas ela não grita, sussurra. Somos cúmplices. Ah! Sim! Acompanha-me desde a tenra idade, me motinando e me acalmando. É sobriedade, é loucura. Que seja sempre um pouco dos dois, assim não me distancio da verticalização da minha existência. Eu? Sou um admirador de defeitos, não do tipo corrosivo ou destrutivo, mas, sei lá, singelo talvez. Prefiro não definir para não obstruir. A gama é grande, tamanho, tipo, olência, validade. Não nego, a perfeição me aborrece, me enfastia, porque é tão irreal quanto a celeridade que inebria.

 





Written by David Arioch

September 26th, 2017 at 1:59 am