David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Mãe e filho

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Foto: Wired

Vi uma criança chorando, forçada a ficar longe de sua mãe. Claro que ela não queria, mas não tinha forças para fazer a sua vontade prevalecer. Sua mãe também tentou se aproximar. Não adiantou. Correu para alcançar o filho. Tarde demais. Manteve os olhos no horizonte, vendo o caminhão se afastar com a criança na carroceria.

Enquanto a seguravam, parecia querer atravessar a cortina de poeira com os olhos. Balançou a cabeça e manteve a perspectiva. A observava e ela reagia. Olhos baixos e escuros, cabelos cobrindo parcialmente a fronte. Um olhar sorrateiro, o último registro daquele amor despedaçado pela violência da vida.

Ninguém chorou pela situação, só os dois que amargavam as agruras da inocência, da intransigência e da sofreguidão. Ele morreria mais cedo, a mãe morreria mais tarde depois de uma vida de servidão. Sobreviveriam as lembranças dos toques, das brincadeiras, das cabeças se tocando e se amornando. A bonomia da amamentação. Talvez o cheiro do campo, da relva. Sim, alguém de sensibilidade não esqueceria.

Mais surgiriam e mais morreriam. A história se repetiria muitas vezes no campo, quando fosse dada a ordem: “Aqui o bezerro não mama mais. Esse leite é pra vender. Pode levar!” Seria muita sorte permitir que os dois se encontrassem como pedaços de bife sobre um prato. Não! Não! Não! A morte, sob jugo humano, clama por destinos diferentes, destinos que não permitem encontros, porque quando a mãe partir os cascos da criança não existirão mais.

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