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Sobre o sofrimento animal diante da morte

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O animal não humano diante da finitude sofre sobejamente (Foto: Vemsteroo)

Quando um ser humano está na iminência de ser morto por algum ser de outra espécie, ele é tomado por desespero inenarrável. Esse desespero é uma consequência natural da impossibilidade em comunicar ao outro o que está sentindo. Quero dizer, posso falar, gritar, verbalizar o que sinto. Mas se o outro não for dotado da mesma capacidade, isso será insignificante, em vão. Afinal, não haverá resquício de compreensão. Então é natural que em situações como essa o sentimento de terror seja anômalo.

O outro, por não ser da mesma espécie, é visto como um arcano, um enigma apavorante que amplifica as nossas impossibilidades de sobrevivência. A morte então é axiomática, e todas as nossas emoções concorrem ao mesmo fim. Acredito que este seja o sentimento de um animal quando é morto por mãos humanas, animais reduzidos a alimentos e produtos. Sem dúvida, a incapacidade de se comunicar como nós torna tudo muito pior, abissal, atemorizante.

A certeza de que não poderá reclamar pela própria vida mimetizando a comunicação humana avulta a dor e a sensação de impotência. É uma experiência visceral, figadal. Por isso, o animal não humano diante da finitude sofre sobejamente, porque não apenas sabe que vai morrer enquanto quer viver, mas também por talvez reconhecer que sua dor será banalizada, desconsiderada pela incapacidade de se comunicar humanamente. “Sem grito, sem choro, sem bravia resistência, está tudo bem. Eles não sofrem muito”, diriam muitos humanos, julgando os outros animais sob a obtusa perspectiva humana.





Written by David Arioch

October 8th, 2017 at 1:12 am

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