David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Um corpo no asfalto

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Ilustração: Stipan Tadić

Havia um corpo no asfalto. Ontem era uma vida. Partiu pela manhã. Uma carcaça sem ser carcaça, derribada, exígua. Um caminhão, um ônibus, um carro, uma caminhonete… Os despojos continuam no mesmo lugar. Quem se importa? Foi atropelado 78 vezes, 75 depois de morto. Conta da tarde. “É só o corpo de um animal, um mero animal.” Por que desviar? Não vale o mínimo esforço. “É apenas um cadáver, cadáver de bicho. Já morreu!” Incorpóreo. Posposto. As partes foram esmagadas, amolgadas. Tantas vezes, restou apenas uma tatuagem no asfalto. Outros continuarão, os pneus não cessarão, até que a chuva arraste a marca que um dia foi uma vida, invisível dantes, invisível agora.





Written by David Arioch

October 10th, 2017 at 12:09 pm

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