Archive for November, 2017
Brian May: “Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro”
No dia 5 de dezembro de 2010, o jornal britânico Sunday Express publicou um artigo intitulado Why I have to speak for the Animals (Por que eu tenho que falar pelos animais), assinado por Brian May, guitarrista e compositor da lendária banda de rock Queen, além de astrofísico. No texto, May, que há muito tempo se tornou um ativista pelos direitos animais, fez duras e contundentes críticas à exploração animal, versando sobre a redução de animais a alimentos, caça e experiências laboratoriais. Logo abaixo, segue o artigo traduzido na íntegra:
Alguém me perguntou recentemente como eu gostaria de ser lembrado. We Will Rock You? Tocando no Palácio de Buckingham? Eu disse, dada a escolha, que prefiro ser lembrado por acelerar o fim da crueldade contra os animais e por ter semeado as sementes de verdadeiro respeito em relação a maneira como tratamos todas as criaturas. Parece uma mudança radical de carreira para mim, não é? Meu amor pela música é inabalável, juntamente com meu amor pela astrofísica, estereoscopia e Photoshop, mas o meu amor pelos animais me levou a deixar a minha guitarra em segundo plano para tentar dar voz aos animais. Então, diariamente, me torno impopular com várias pessoas, que ainda acreditam que os animais foram colocados na Terra para serem usados e abusados pelos seres humanos. Humano é o nome que damos a nós mesmos, e há um adjetivo derivado disso, implicando compaixão, sensibilidade e justiça: a palavra “humano”.
Ao longo da história, o homem tentou justificar o seu comportamento em relação a outros humanos e outros animais. Na Era do Iluminismo, ele justificou que mulheres eram queimadas por estarem possuídas pelo diabo. Ao escrever a Constituição dos Estados Unidos, ele justificou que os escravos deveriam ser mantidos porque “eles não eram iguais a nós”, e que a sociedade entraria em colapso sem a escravidão. Os homens justificaram tantos comportamentos terríveis: tortura de prisioneiros políticos, degradação das mulheres, abuso de crianças, vitimização das minorias e a quase erradicação dos povos nativos.
Esses abusos horríveis são vistos hoje de forma vergonhosa. Como poderíamos pensar que por um ser humano ter uma aparência diferente, ele não tem sentimentos, direito à liberdade, comida, respeito e igualdade de oportunidades? Outra revolução está acontecendo agora. Começamos a perceber que outras criaturas neste planeta têm tanto direito de viver, respirar e aproveitar o seu tempo quanto nós. Mas estamos no primitivo início dessa realização. Enquanto escrevo, milhões de animais estão sofrendo nas mãos dos seres humanos. A indústria animal (leia “Comer Animais”, de Jonathan Safran Foer) envolve o abuso de milhões de criaturas todos os dias, com sentimentos semelhantes aos nossos.
Ian Redmond, zoologista renomado mundialmente, diz que há uma geração atrás, qualquer biólogo que atribuísse “sentimentos e comportamento maternos” a uma macaca abraçando a sua prole seria acusado de antropomorfismo e jamais seria levado a sério novamente como cientista. Esse não é mais o caso. O mapeamento recente dos genomas revelou a surpreendente semelhança entre a composição humana com a dos primatas, e apenas um pouco menos semelhante a de mamíferos como ratos e camundongos. Agora não é mais aceitável a ideia de que os animais agem simplesmente por instinto enquanto os “seres humanos pensam e se comportam racionalmente”.
Em 2004, depois de 100 anos desde que pessoas iniciaram um trabalho de cuidados aos animais, o Hunting Act foi aprovado neste país [Inglaterra], proibindo o “esporte” covarde e desprezível da caça à raposa, juntamente com a caça às lebres e a caça aos cervos com matilhas. Recentemente, vimos a indignação do público em relação ao assassinato sem sentido de um magnífico veado, e banalmente por causa dos seus chifres. Mas esta é apenas a ponta do iceberg; milhões de criaturas altamente inteligentes, mais inteligentes do que cães e gatos que esta nação tanto ama, estão sendo abusadas na Grã-Bretanha neste momento.
Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro. Frangos e galinhas são criados em gaiolas sem a indulgência de uma vida ou morte decente [natural]. Todos os animais de criação são agora espécies criadas pelo ser humano para atender a demanda por mais produtividade e mais e mais dinheiro sem qualquer preocupação com o seu bem-estar. Aqueles perus, que serão abatidos neste Natal, nunca irão andar [em referência ao fato de que muitos engordam tanto em pouco tempo que são incapazes de se locomover, além de sofrerem com as articulações fragilizadas].
Outras aves são criadas em gaiolas, e depois libertadas para viverem uma vida lamentavelmente curta que termina com tiros de espingarda, só por diversão. Milhões de primatas, que são nossos parentes mais próximos, são usados em experiências, mantidos em gaiolas em laboratórios, campos de concentração que chamamos de “humano” [Brian May faz uma crítica a banalização do termo ‘humane’, normalmente usado na tentativa de banalização do sofrimento animal. O termo humano traz embutida a ideia de que um animal é bem tratado antes de morrer, o que é uma contradição em essência, já que nenhuma criatura explorada morre feliz]. E temos um governo que quer trazer de volta a caça às raposas (alegando que isso é humano, pedindo “provas” de que as raposas sofrem).
Referência
May, Brian. Why I have to speak for the animals. Sunday Express. Publicado em 5 de dezembro de 2010.
Mais um especial de Natal da Sadia
Tradicionalmente, nesta época, muitos se emocionam com o comercial da Sadia, um especial de Natal, mas poucos se sensibilizam com os animais reduzidos a produtos. Alegria, família, crianças sorrindo, abraços, confraternização, uma verdadeira lição de harmonia e fraternidade. Muito amor envolvido. Embalagens bonitas, rótulos bem elaborados, tudo para dissociar o que se come da realidade.
E claro, um peru feliz divulgando a própria carne, como se estivesse se oferecendo para morrer. Como sempre, uma utopia que vela uma distopia. Afinal, a realidade do peru e de outros animais mortos, embalados (inteiros ou não) e servidos sobre uma mesa funestamente colorida, a Sadia e nenhuma outra indústria alimentícia faz questão de mostrar.
Brian May: “Todos nós deveríamos ser veganos”
“Se as pessoas pudessem ver o que acontece com esses animais que serão comidos, acho que veríamos muitas pessoas se tornando veganas”
O guitarrista e compositor inglês Brian May, da lendária banda de rock Queen, deu inúmeras entrevistas nos últimos anos. Porém, em vez de falar da sua história com o Queen, ele tem preferido direcionar a conversa para uma questão que há muito tempo se tornou uma prioridade em sua vida – os direitos animais. Na Inglaterra, não é nenhuma novidade que Brian May é um fervoroso defensor dos animais. Inclusive foi por uma questão ética que há alguns anos ele abdicou completamente do consumo de carne.
Em entrevista a Steve Jones, ex-guitarrista e membro-fundador da banda de punk rock Sex Pistols, ele revelou em 24 de agosto deste ano que o seu próximo passo é tornar-se vegano. “Eu sou vegetariano e ainda não consegui me tornar vegano. Muitos dos meus amigos são. Como muita comida vegana, mas ainda não posso me considerar vegano”, disse durante o Jonesy Jukebox Show. De acordo com Brian May, as pessoas não refletem sobre o fato de que estão comendo animais que tiveram uma vida péssima e foram nutridos com os alimentos errados. Além disso, passaram por muito estresse em decorrência de privações.
“Toda criatura deste planeta tem o mesmo direito de ter uma boa vida. Não devemos abusar dos animais. Acho que entendemos tudo errado. Não fomos colocados aqui para usar e abusar de outras criaturas. Estamos aqui para fazer coisas boas”, declarou a Steve Jones. O guitarrista do Queen reclamou que a cada ano as pessoas se alimentam de bilhões de animais que sofreram os mais diferentes abusos.
Além do sofrimento animal, Brian May apontou que outro problema é que a criação de animais com a finalidade de reduzi-los a produtos facilita o surgimento de doenças, principalmente no cenário atual, com uma demanda tão alta por alimentos de origem animal. “Sim, todos nós deveríamos ser veganos”, recomendou.
Em 29 de maio de 2016, o jornal britânico The Guardian publicou a matéria “Brian May: ‘All sorts of stuff happens in my workshop”, de Nicola Davis. Na reportagem, May foi questionado sobre o impacto da realidade virtual e dos vídeos de 360 graus como forma de ativismo contra a exploração animal. Ele acredita que essa tecnologia pode contribuir cada vez mais para que as pessoas compreendam que os animais têm os mesmos tipos de sentimentos que nós.
Na opinião de Brian May, uma realidade virtual que apresenta com fidedignidade a realidade dos matadouros pode trazer grandes transformações. “Se as pessoas pudessem ver o que acontece com esses animais que serão comidos, acho que veríamos muitas pessoas se tornando veganas. […] Em uma realidade virtual, se você se tornar uma raposa sendo perseguida por cães famintos, e experimentar ser despedaçado, acho que isso pode alterar a sua sensibilidade”, complementou.
Em outra entrevista ao The Guardian, publicada em 4 de maio de 2011, Brian May se queixou que informações são constantemente manipuladas para fazer com que o público que não é vegano nem vegetariano veja os ativistas pelos direitos animais como pessoas sensacionalistas, dissimuladas e até mesmo violentas. “Caçar e matar animais por prazer é algo que não entra na minha mente. Não entendo por que as pessoas são assim. Luto contra isso o tempo todo. Não acho que um ser humano saudável precisa matar ou causar dor para ser feliz. Por que deveria? Uma vida decente e uma morte decente – é o que pedi para mim, e é isso que peço para qualquer criatura”, ponderou May, que também é astrofísico.
Na matéria “Brian May: my quest to save the badger”, publicada em 4 de maio de 2011, Patrick Barkham, do The Guardian, escreveu que há muito tempo Brian May já defendia que os animais têm direitos – tanto morais quanto legais, deixando claro que ele é contra a ideia equivocada, antropocêntrica e especista de que os seres humanos são os únicos animais importantes deste planeta. “Não posso deixar de reverenciar as criaturas selvagens que sobreviveram depois de tudo que fizemos. Somos os vândalos do mundo, não há dúvidas disso”, criticou May.
Em 2015, ele gravou um vídeo veiculado no YouTube fazendo um convite para que as pessoas assistam uma das palestras sobre veganismo do ativista estadunidense Gary Yourofsky. No mesmo ano, em 12 de julho, Brian May participou de um debate sobre mudanças no “Hunting Act”, uma determinação do Parlamento do Reino Unido que desde 2004 proibia o uso de cães na caça de animais como raposas, cervos, lebres e visons.
Na discussão transmitida pela Sky News, May confrontou o ex-secretário do meio ambiente Owen Paterson, defensor da caça. “Você precisa parar de fingir que as caças às raposas são uma forma de proteger as fazendas. Isso não tem nada a ver com a agricultura. Conheço muitos fazendeiros e posso dizer que eles não saem matando raposas em seu tempo livre. Isso é sobre pessoas que vão ao campo para torturar animais até a morte, e apenas por diversão. A caça às raposas é sobre isso. É uma fraude absoluta fingir que isso é sobre agricultura”, desabafou Brian May, conquistando a simpatia de muitos espectadores.
Há alguns anos, ele deu uma entrevista ao jornal britânico Sunday Times, revelando que a defesa dos animais é de extrema importância em sua vida:
“Quando eu partir, certamente as pessoas se lembrarão de mim por causa do Queen, mas eu gostaria muito mais que se lembrassem de mim por tentar mudar a maneira como tratamos os nossos companheiros animais.”
Referências
https://www.theguardian.com/technology/2016/may/29/brian-may-owl-stereoscope-interview
https://www.theguardian.com/environment/2011/may/04/brian-may-champion-badger-welfare
Queen’s Brian May: ‘I’d rather be remembered for saving animals’
Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”?
Como podemos chamar os órgãos vitais de um animal de “miúdos”? Talvez miúda seja a nossa sensibilidade e consciência em relação ao papel que esses órgãos tiveram para esses seres que um dia foram cheios de vida.
A realidade do pato antes de chegar ao prato
Um animal que também entra na lista dos mais procurados para o Natal é o pato. Claro, preferido enquanto comida. Entre as receitas mais populares envolvendo esse ser senciente, consciente e inteligente está o “Pato ao Molho de Laranja”, em que depois de morto nos primeiros meses de vida, ele é preparado cozido ou assado. Em vez de adorná-lo com fatias de laranja, há quem goste de colocá-lo também em uma travessa rodeada por batatas, cheiro verde e outros belos e nutritivos alimentos do reino vegetal que ajudam a criar um cenário mais favorável de dissimulação estética.
Será que muitas pessoas já refletiram conscienciosamente sobre a maneira como esse animal foi parar no forno ou na panela de alguém? Como era a sua vida antes de ser reduzido a alimento? Acredito que poucos pensem a respeito. Nem mesmo aqueles que criam esses animais com essa finalidade, já que há uma dissociação predominante que faz com que o animal não seja visto como um sujeito de uma vida, como diria Tom Regan, o que favorece a sua morte.
Embora muita gente ignore, patos são animais bastante sociáveis que costumam ser abatidos com três a cinco meses de vida; isto porque com essa idade a sua carne é muito mais macia. Ou seja, mata-se precocemente um animal que poderia chegar aos dez anos porque a sua carne é considerada “saborosa”. Uma nobre justificativa, não?
Antes do abate, os patos são deixados em jejum por um período mínimo de seis horas. O objetivo é favorecer o esvaziamento gástrico, assim facilitando a limpeza da “carcaça”. Segundo produtores de patos, o conteúdo do intestino dessas aves pode amargar e comprometer a qualidade da carne. Então eles são deixados com fome para que possamos nos deliciar com a sua carne não comprometida por uma necessidade fisiológica.
Um dos meios mais eficazes e comuns de se abater patos é por meio da degola, que costuma ser feita com faca ou com um machado. Depois de morto, o pato é deixado de cabeça para baixo até o sangue escoar completamente. Em matadouros especializados, ele é pendurado sobre grilhões, assim como frangos, galinhas, perus e outras aves.
A próxima etapa é a depenagem, que consiste em mergulhar a carcaça do animal em água quente por dois minutos. O pato também é decapitado, seus intestinos são esvaziados e seus órgãos, vulgarmente chamados de “miúdos”, são retirados e também comercializados. Recomenda-se nessa etapa o máximo de cuidado porque se houver algum rompimento da vesícula biliar, a carne estará perdida. Muito sensível, não?
Mais tarde, ele é comprado, e já dissociado de uma vida, é preparado cozido ou assado para o deleite de uma família que jamais conheceu a sua história ou considerou o seu desejo de não morrer. Toda essa cultura de abate de patos e desconsideração do valor de suas vidas enquanto seres sencientes não tem uma razão plausível.
Um exemplo científico? Em 15 de junho de 2016, foi publicado na prestigiada revista Science um artigo intitulado “Ducklings imprint on the relational concept of ‘same or different”, de Antone Martinho III e Alex Kacelnik, do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, na Inglaterra. No artigo, eles afirmam que patos, além de serem animais sensíveis, são capazes de reconhecer a própria mãe 15 minutos após o nascimento.
O estudo provou que os patos têm capacidade de abstração cognitiva, tanto que sem qualquer tipo de treinamento, eles conseguiram distinguir pares de objetos iguais e diferentes. Ou seja, como se fosse um quebra-cabeças. A pesquisa deixou claro que subestimamos a inteligência animal e ignoramos o quanto os patos são seres capazes. Claro que não estou citando esse exemplo para associar inteligência com direito à vida, até porque inteligência não é parâmetro de direito à vida.
Porém o reconhecimento científico da inteligência dos patos mostra como estamos imersos em uma cultura tão especista, de objetificação animal, que levamos tempo demais para começar a reconhecer algo que deveria ser óbvio. Sendo assim, te convido a refletir sobre isso quando for se alimentar de um animal.
Um aperitivo polêmico
Na minha infância, quando estava com a minha família em Porto Rico, um dia serviram algo de graça para as pessoas provarem em um restaurante.
De longe, notei que era um tipo de carne e fiquei assistindo a movimentação perto de um bambuzal. Ao final, depois que as pessoas terminaram de comer, mostrando-se satisfeitas, o homem que ofereceu o “aperitivo” disse que tinham acabado de comer carne de gato. As pessoas ficaram revoltadas e começaram a cuspir e a amaldiçoar o homem.
Então ele olhou para elas e disse:
“Eu poderia ter dito que era carne de lebre. Aposto que ninguém acharia ruim. Mas como é de gato, vocês reclamam, né? Come carne todo dia, tá reclamando de que? Não adianta fazer careta”, criticou o homem gesticulando em frente a uma pequena churrasqueira.
“Vocês veganos são ridículos”
— Vocês veganos são ridículos. Vivem imitando o sabor e o aroma da carne. Vocês se apropriam do que é nosso.
— Legal, irmão. Não sabia que os ingredientes que dão sabor e aroma à carne são de origem animal. Pelo jeito você tempera a carne com vísceras, pele e sangue de animais, não é mesmo? Acredito que você não use nada do reino vegetal, como especiarias, condimentos, etc.
Mesmo em um campo de concentração, alemão se manteve fiel à sua filosofia de vida como vegetariano
Em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, o pacifista alemão Edgar Kupfer-Koberwitz foi classificado como um inimigo da Alemanha e enviado para um campo de concentração em Dachau, ao norte de Munique. Mesmo vivendo em situação degradante, ele se manteve fiel a sua filosofia de vida como vegetariano.
Durante os anos em que esteve em Dachau, ele escreveu diariamente sobre a sua vida e suas impressões da realidade. Para Kupfer, o fato do ser humano negar humanidade a seus semelhantes e, assim agir de forma cruel, sempre foi determinante na legitimação da brutalidade contra os animais.
“Acredito que enquanto o homem torturar e matar animais, ele vai torturar e matar seres humanos também – e guerras serão travadas – pois o assassinato deve ser praticado e aprendido em uma pequena escala. Devemos tentar superar nossa própria pequena crueldade irrefletida, evitá-la e aboli-la”, escreveu em seu diário que deu origem ao livro “Dachauer Tagebücher Die Aufzeichnungen des Häftlings 2481”, publicado em Munique em 1997, baseado em suas memórias e reflexões.
Mindhunter, uma boa opção para quem se interessa por séries sobre serial killers
Para quem se interessa pelo tema serial killers, recomendo a série Mindhunter, da Netflix. Creio que o diferencial maior é que o drama policial de David Fincher (diretor de filmes como Clube da Luta, Zodíaco e O Curioso Caso de Benjamin Button) é de fato baseada na realidade, inclusive com caracterizações fidedignas e diálogos reais ou parcialmente reais envolvendo alguns controversos psicopatas do século 20, como Ed Kemper III, Dennis Rader, Jerry Brudos, Monte Ralph Rissell, Richard Speck e Darrell Gene Devier. O livro que inspirou a série foi escrito pelo analista do FBI John E. Douglas.
O drama policial também discorre sobre a origem dos termos serial killer, mass murderer, M.O. e signature. Em síntese, Mindhunter mostra como a partir do momento que surgiu o interesse não apenas por traçar o perfil psicológico de assassinos em série, mas também o desenvolvimento de metodologias que permitissem aprender algo sobre suas mentes, houve uma evolução na identificação desses criminosos. Os dez episódios da primeira temporada foram ao ar no dia 13 de outubro e já foi confirmada renovação para a segunda temporada.
Dezembro é o mês mais violento para os animais
Dezembro é o mês mais violento para os animais. O mês em que é celebrado o Natal, o espírito natalino, um tempo de paz, é marcado por muita violência. Mas como assim? É em dezembro que a demanda por carne é muito superior a de qualquer outro mês. Há muitas encomendas, de animais inteiros, com olhos, com boca, decapitados, eviscerados, fatiados, etc. Vai do gosto e da (in)sensibilidade do freguês.
Pelo menos no Ocidente, é costume as pessoas encherem os carrinhos de carne nessa época do ano. Compram quilos e mais quilos de aves, bovinos, suínos, ovinos, caprinos e “peixes nobres”, preparados das mais diferentes maneiras. Em muitas casas, é possível juntar pedaços de animais e fazer um presépio. “É preciso oferecer uma mesa farta”, dizem apontando para uma grande variedade de carnes, que nada mais são do que partes fatiadas ou inteiras, e normalmente assadas, de espécies mortas (você pode preferir abatidas) para a celebração do nascimento de Jesus.
Segundo a tradição cristã, quando Jesus nasceu, os animais estavam bem próximos à manjedoura, e o calor de seus corpos o aqueceu. Atualmente, no Natal, são as pessoas que aquecem os corpos desses animais, mas nas brasas da churrasqueira, no forno, na grelha. Com a chegada do Natal, mais do que nunca, bebês, pais e mães de outras espécies são servidos sobre uma mesa.
Antes há muitos abraços. As pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida, e sendo rejeitados como seres sencientes e conscientes. Às vezes, com sorte, pode ser que dividam o mesmo espaço sobre a mesa. Claro, não na mesma forma ou travessa, mas talvez nas imediações, pedaços sem vida combinando a poucos centímetros. Seria uma baita coincidência, não? Talvez um gesto inconsciente de bonomia? Difícil dizer.
No Natal, o espírito de solidariedade e fraternidade emerge como nunca. Sorrisos, lembranças e olhares que miram grandes pedaços de carne, mas que se recusam a racionalizar que cada fragmento já foi parte de uma vida; da vida de uma criatura que até o seu último momento não desejou morrer precocemente, assim como qualquer outro animal, humano ou não.