David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Sobre o envio de 27 mil bezerros para a morte na Turquia

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O destino desses animais é o abate halal

Em 15 dias, ou talvez um pouco mais, o Porto de Iskenderun, no Mar Mediterrâneo, na Turquia, espera receber 27 mil bezerros que embarcaram no Porto de Santos. São jovens animais que antes enfrentaram uma viagem desgastante de 500 quilômetros confinados em carretas. Tanto que muitos embarcaram visivelmente cansados.

Em entrevista, o representante do navio libanês Nada, responsável pelo transporte, disse que tudo foi feito para que os bezerros não sofram durante a viagem. Mas a objetificação desses animais reduzidos a alimentos e a própria viagem em si não são atos de violência? Será que os 27 mil bezerros têm condições de suportar uma viagem desse tipo? Com duração de no mínimo 15 dias em um ambiente totalmente fechado, e privados da luz solar. Pense no nível de estresse desses animais nos próximos dias.

Viagens de carreta já são desgastantes, agora imagine ser enviado em seguida para uma viagem de navio. Além disso, é importante ponderar que embora os animais estejam viajando dentro de um navio, os bezerros ficam bem próximos uns dos outros, e partilhando de um espaço bem reduzido e do mesmo sentimento de estranhamento. Imagine esses animais, cada um pesando 450 quilos, desembarcando na Turquia depois de tanto tempo sem espaço para se locomover adequadamente.

Isso é saudável? Qualquer animal condicionado, logo forçado a passar dias sem se movimentar, está sendo privado de sua natureza, já que corpos foram feitos para o movimento. Após 17 anos, estamos vivendo um retrocesso, já que o último transporte com “carga viva” registrado no Porto de Santos foi em 2000. E quando falamos em bezerros não podemos esquecer que são animais precocemente afastados do convívio com os seus. Isso é justo? Viver para ser reduzido a pedaços de carne? Infelizmente é isso que financiamos quando nos alimentamos de animais. Outro ponto que parece ter sido ignorado é que esses bezerros estão sendo enviados para um país onde o abate predominante é o halal.

Nesse tipo de abate, o animal é degolado com um golpe em forma de meia lua, que consiste em cortar os três principais vasos – jugular, traqueia e esôfago. Há quem diga que um “bom golpe” pode não gerar “sofrimento ao animal”, o enquadrando inclusive como “abate humanitário”, embora registros de ações em matadouros mostrem exatamente o oposto.

O chamado “abate humanitário” é hoje a bandeira da indústria de carne visando persuadir os consumidores a acreditarem que estão se alimentando de uma carne “sem dor”, o que é uma ilusão, já que qualquer tipo de privação precedente a morte já é uma forma de violência que gera sofrimento em diversos níveis. Alguma dúvida? Veja o desespero de um animal quando ele reconhece que está em um ambiente de onde não sairá com vida. Outra notícia desalentadora é que se a viagem for “bem-sucedida” a tendência é que o Porto de Santos seja usado com mais frequência para o transporte de “cargas vivas”.





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