David Arioch – Jornalismo Cultural

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A memória é uma das mais belas armadilhas da natureza

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A memória é uma das mais belas e intrigantes armadilhas da natureza. Você pode carregar alguém dentro dela por dias, meses e anos, mas o olvidamento não depende simplesmente da sua vontade. Você pode se apaixonar neste momento – ou amar alguém romanticamente neste momento. Seu coração pode rufar como um tambor, flores podem crescer dentro do seu estômago.

Ou você pode simplesmente se apaixonar ou alimentar esse amor com a idealização que sua fecundidade imaginativa permite – ou com a racionalização que sua razoabilidade anui. E isso te faz feliz no presente. Mas se tudo se dilui alheio ou não à sua vontade, o desmemoriamento não tem obrigação alguma de corresponder ao seu anelo, porque a sua memória é um ser que vive dentro de você, e que tem suas próprias vontades.

Sim, o ser humano pode aprender a condicionar a própria mente, mas nunca totalmente. E a memória que construímos, ou melhor, que nos constrói, não perpassa pela vontade (diferentemente do pensamento treinado ou condicionado), mas por critérios de relevância que não são definidos por mim nem por você. Por isso acredito que a memória é um ser que habita – um ser tão inaudito que se partir anula o construto da nossa própria existência.

 





Written by David Arioch

July 26th, 2018 at 12:31 am

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