David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Olhos

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Arte: Juliann Sweet

Enquanto eu assistia a movimentação na rua, uma moça cutucou-me um dos olhos. Não senti nada, mas o olho sim, que incomodado saltou ao chão e a circulou. Ia de um lado para o outro tentando intimidá-la. Cercava, cercava; pulava como bolinha de pingue-pongue.

A moça recuava, e não recuava. O que fazer? O que não fazer? Eu não sentia nada. Em menos de minuto, onde havia uma cavidade nasceu um novo olho. O outro tentou retornar. Uma olhada no meu nariz, uma olhada na minha testa. Ainda bem que não doeu. O novo olho ameaçava sair. Queria lutar, mas não queria perder o lugar.

Movi a cabeça de um lado para o outro, tentando evitar uma briga de olhos. O olho direito, que não tinha nada a ver com a história, também queria brigar. Mas também não queria perder o lugar. Vibravam, vibravam, meus olhos coçavam. Três olhos e dois lugares. E agora? A moça gargalhou e partiu. O velho olho sumiu.

Written by David Arioch

August 19th, 2018 at 3:17 pm

Posted in Crônicas/Chronicles

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