David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for January, 2020

Diante do luar

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Deito fora os desconfortos da minha alma diante do luar. Não em definitivo. Existe um aroma imperceptível trazido pela noite que invade essências filtrando suas inconsistências e pacificando seus conflitos. Mas é preciso serenar por tempo que pode variar.

Cada um sabe qual é o seu momento. Os olhos voltados tanto para lá quanto para cá – o diante e o eu mesmo – que miro sem precisar intervalar. Parece impossível, mas não. Apenas exercício.

Uns aprendem, outros desistem. Outros nem tentam. Sente-se alguma coisa ou coisa nenhuma. Verdade, placebo (como se pudesse ser ingerido na sua imensidão) ou superstição.

Não há relevância nessa consideração. É apenas acreditar ou não acreditar. Na pior das conclusões, não há tempo perdido, quando há um céu lá fora a se observar. E alguém diz imerso num sonho: “Como se sempre a nos esperar.”

Written by David Arioch

January 28th, 2020 at 10:25 pm

Por que não ser apenas empático?

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Há pouco, eu estava correndo e pensando: Se não matar outro ser humano fosse um imperativo moral desconectado de suas implicações legais (que nesse caso seriam inexistentes), será que quantas pessoas matariam outras? Qual seria a proporção da mortandade?

Claro que existe a questão da impunidade, mas qual seria o percentual de aumento de assassinatos? Eu não sei dizer até que ponto e em que proporção a humanidade em geral reconheceria o assassinato como errado porque se trata da obliteração de vidas, da imposição de sofrimento (para quem morre e/ou para quem fica), e não porque, dependendo de quem comete o ato, e que tipo de ato, a pena pode significar anos na cadeia (claro, a não ser que você seja um dos premiados pelo fator impunidade).

Mas realmente me intriga que em muitos casos de homicídios não há tanta discussão moral sobre o ato em si, não o seu processo legal. “Fulano de tal fez besteira e pode pegar não sei quantos anos de cadeia…” Essa é uma consideração comum, não o contempto moral que desencadeou tal possibilidade.

Então quer dizer que só não devemos cometer homicídio porque a Justiça pode punir? Não devemos roubar porque podemos ser presos em flagrante? Não devemos agredir pessoas para não parar na cadeia ou ter de pagar fiança? Por que não simplesmente não fazer nada disso porque é errado? Por que não ser apenas empático? Talvez também seja um sintoma da ausência de filosofia moral em nossas vidas, quando necessária.

Guarda-chuva para dois

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Estava chovendo quando saí da academia pouco antes das 18h30. Uma senhora, com seus mais de 70 anos, me chamou.

Imaginei que pediria informação, mas queria apenas que eu não me molhasse e disse que poderíamos dividir o guarda-chuva.

Expliquei que não era necessário, que prevendo chuva, saí de casa de carro, e que não me importaria em me molhar um pouquinho. Mas ela insistiu: “Pelo menos até a outra esquina.”

Como ela era pequenina, segurei o guarda-chuva e atravessamos a rua. Seus passos eram bem curtos e, enquanto andávamos pela calçada, ela escorregou e quase foi ao chão, mas conseguiu segurar no meu braço.

“Viu só como não foi perda de tempo? Te ajudei com o guarda-chuva e você me ajudou com o braço. Isso é mutualidade. Ninguém saiu perdendo.”

“A senhora tem razão. Agradeço a generosidade.” Sorrimos e mais adiante nos despedimos.

 

 

Written by David Arioch

January 26th, 2020 at 8:39 pm

A vida tem um cheiro estranho

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Arte: J. Coates

Com nove ou dez anos, encontrei um senhor em frente de casa, subindo a rua e carregando apenas uma pequena mala. Ele disse: “A vida tem um cheiro estranho….é….a vida tem um cheiro estranho….tem sim….a vida tem um cheiro estranho…”

Parou e me observou enquanto eu acariciava o pelo do Happy. “Você não concorda comigo?”, perguntou. “Não sei.” “Tem sim, meu jovem, um cheiro muito estranho.” “Que cheiro é esse?” “Depende, o que você comeu hoje, o que você fez hoje, com quem você falou hoje?”

“Estou vendo você e esse cachorro aí. O cheiro dele em você, e o seu cheiro nele. Vejo que você estava brincando e se sujou um pouco também.” “Mas a gente toma banho e acaba não ficando cheiro nenhum disso, né?”

“Não é bem assim, o cheiro que desaparece é o cheiro que deixa vestígio no corpo, mas há um cheiro que é aquele que acumulamos ao longo da vida. Somos sortidos de cheiros. E você sabia que o cheiro pesa?” “Como assim?” “Sim, o cheiro pesa.” “Como o cheiro pesa?”

“Ora, imagine carregar tanto cheiro desde o momento em que nasce até o dia em que se morre. Por quantos lugares você passou, quantas pessoas conheceu, quantas situações viveu…tudo isso tem cheiro…que se transformam num pequeno universo de cheiros que nos habita, irreconhecíveis para a maioria. Imagine se colocássemos todos esses cheiros em uma garrafa, nem eu nem você conseguiríamos carregá-la, por certo.”

“Mas isso não faz mal pra saúde?”, questionei. O homem coçou a barba e riu. “Pode fazer mal tanto quanto pode fazer bem. Tudo depende da origem do cheiro, da emoção, sentimento ou experiência que trouxe esse cheiro. O cheiro surge tanto pela intenção quanto pela reação e associação. Os bons são levinhos e os ruins podem ser bem pesados. Mas também podem se transmutar e o bom pode ficar ruim e vice-versa. Então recomendo evitar a condenação sem razão. Seja paciente.”

“Ué, mas não tem jeito de se livrar do cheiro?” “Para o bem ou para o mal, não tem, porque de alguma forma o cheiro somos nós e nós somos o cheiro.” “Humm….” “O que você pode fazer é se esforçar mais para encontrar os cheiros bons ou que pareçam bons, assim quando você acumular cheiros ruins, sejam eles transmutáveis ou não, você terá uma vantagem gerada pelas buscas anteriores ou recorrentes.”

“Isso parece difícil…” “Sim, não é fácil, mas vale a pena, porque com o tempo os cheiros ruins que se acumulam drenam nossa energia. Imagine como seria ficar sem fazer as coisas que você gosta porque não restou muitas forças…”
“Parece terrível…” “Pois saiba que sim, muito…” “E o senhor sabe quanto cheiro já acumulou?” “Ninguém sabe, e é importante não saber, para não se acomodar. Mas estou aqui e é isso que importa, não é mesmo?”

“É…acho que sim.” “A vida tem um cheiro estranho….é….a vida tem um cheiro estranho…tem sim…a vida tem um cheiro estranho…”, disse o homem antes de partir e deixar a pequena mala vazia ao lado do Happy. Nela, uma frase: “Guarde bem os seus cheiros.”

 

Written by David Arioch

January 22nd, 2020 at 11:39 pm