David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Os marginalizados em Fellini e Buñuel

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Um dos meus filmes preferidos do Fellini é “A Estrada da Vida”. Já foi uma das obras mais subestimadas do cinema internacional. O enredo me remete em alguns aspectos a “Os Esquecidos”, do Buñuel, também um dos meus preferidos.

Traz a interpretação mais icônica da Giulietta Masina em início de carreira, como a inocente e sonhadora ajudante Gelsomina que acompanha um sáfaro artista de rua após ser vendida por uma porção de moedas.

Os dois filmes são da década de 1950, e creio que talvez Fellini tenha conhecido a fase mexicana do espanhol alguns anos antes. O que me agrada na história de cada obra, entre outros elementos, são as nuances de escapismo que fogem ao melodrama para abordar miséria humana, realidade social, condicionamento, esperança e descrença.

Ainda assim, os dois trazem poesia e lirismo, seja a partir da condição onírica dos personagens da obra mexicana, que são garotos pobres sem perspectiva de futuro e reféns da violência que buscam amparo para a própria carência; ou da antítese de Gelsomina e Zampano – que são como água e óleo – ela é romântica e sonhadora, entregue a uma condição platônica de viver, e ele o oposto disso – o distanciamento físico também é um reforçador – e assim vão se equilibrando e se desequilibrando perante as necessidades.

Nos dois filmes há personagens brutos de contextos diferentes, mas que nascem de uma miséria análoga, praticamente universalizada, onde aquele que sobrevive, como numa escala predatória, são os menos suscetíveis aos arroubos e impactos da sensibilidade – como se sentir, consoante intensidade, pudesse também em longo prazo ser um prólogo do próprio definhamento.

Quando assisti os dois pela primeira vez, notei a influência do neorrealismo, embora Fellini tenha sido criticado pela abordagem que destoa da corrente tradicional (da qual ele nunca fez parte), mas ainda assim o desfecho não deixa de surpreender. Além disso, são filmes que fixam na mente por dias e te impulsionam a uma série de analogias com a realidade atual, que, em determinados aspectos, nada mudou de lá pra cá.

Written by David Arioch

April 6th, 2020 at 12:46 am

Posted in Cinema

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