David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Natureza das relações e metamorfoses em “História de um Casamento”

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Lançado em 2019, “História de um Casamento” é um filme em que Noah Baumbach apresenta os conflitos de um fim de casamento com um quê de autoralidade, mas transitando entre Woody Allen e Ingmar Bergman – a princípio com uma influência mais latente do primeiro, embora sua vontade transpareça ser uma aproximação até mais contemplativa com o cineasta sueco que, como poucos, explorou com rara sensibilidade os conflitos das relações humanas e marcou a história do cinema tendo um background teatral.

A obra de Baumbach tem como ponto de partida marido e esposa destacando em off, separadamente e com leveza descritiva, o que consideram mais atrativo um no outro e, mais do que isso, o que os motivou a construírem uma relação a dois.

Isso ocorre em um típico cenário nova-iorquino com um caráter de ficção-documental, também em relação ao rigor casual-estético. Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver) são artistas – ela uma atriz que trocou o cinema pelo teatro e ele um diretor de teatro que aspira à Broadway trilhando um caminho alternativo.

Na história, o que os une também é exatamente o que os separa. Na primeira etapa do filme, Nicole viaja para Los Angeles, sua cidade natal, onde fortalece seu desejo de se divorciar do marido, com quem divide sua rotina. E mais do que isso, por influência externa, toma a decisão de fazê-lo por vias legais – o que não havia sido acordado entre eles.

Ela sustenta que depois de tanto tempo vivendo em Nova York, um ambiente que não reconhece como familiar, teve sua liberdade artística sufocada pela autoridade de Charlie – já que,por falta de incentivo, acabou se limitando a trabalhar nas peças do marido, um diretor respeitado em seu meio.

Com uma advogada na história, o calmo Charlie fica surpreso, mas também é obrigado, apesar da reticência, a viajar inúmeras vezes para Los Angeles e encontrar um advogado na cidade para não correr o risco de não ter direito à guarda compartilhada do filho Henry (Azhy Robertson).

A princípio, Noah estimula o espectador a escolher um dos lados, mas, aos poucos, essa realidade de quem está certo ou errado é desconstruída por um simples fato – seres humanos sofrem metamorfoses e podem fazer com que os outros se sintam diluídos pela desatenção; o que pode separá-los pela emergência de uma crônica desconexão emocional ou de interesses mútuos – ou falhas sazonais ou frequentes acentuadas por algum tipo de alheamento ou desinteresse.

Mesmo com o acirramento de uma falta de acordo entre os dois em relação ao divórcio, Nicole não se mostra racionalmente interessada em prejudicar Charlie, e nisso há recíproca. Mas se o oposto transparece como verdade, é apenas resultado de um acúmulo de ausências ou de falta de cumplicidade que se acentuam a partir das memórias que vão se construindo em relação à vida do casal.

Durante as contendas diante dos advogados, que acrescentam um ardil ao drama, as mágoas rasteiras de um casal em processo de separação, e que se entende menos ainda, se tornam fôlego em direção a uma vitória mais almejada por Nicole do que por Charlie – que teme apenas a perda da guarda do filho. Talvez porque ele reconheça menos os erros dela do que ela os dele (Nicole crê que sofreu mais) – já que houve um momento de traição de Charlie que Nicole pereniza.

Há momentos em que a relação durante a separação passa por uma gradação que pode principiar a dissolução de qualquer possibilidade de comunicação entre eles. No entanto, quando se dão conta de tudo que aconteceu nesse processo, e até mesmo dos custos do divórcio (que nos EUA pode equivaler a um patrimônio), isso parece ser interpretado por eles, pelo menos até algum ponto, como uma lição sobre a tortuosa e ingrata luta pela razão ao final de uma relação marital.

Mas a razão pode explicar pouco ou quase nada sobre a complexidade das motivações humanas quando alavancada por insatisfações e frustrações. Ao final, talvez o que deva prevalecer seja apenas o desejo de seguir em frente, não de elevar alguém, ao final de uma relação, a vitorioso ou derrotado, completamente certo ou visceralmente errado – já que ganhos e perdas são partilhados também no campo imaterial.