David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Lion”: um filme sobre família, esperança e recomeço

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Lançado em 2016, “Lion: Uma Jornada para Casa”, de Garth Davis, é um filme inspirado na história real de Saroo Brierley, um indiano naturalizado australiano que teve sua vida transformada após se perder do irmão Guddu (Abhishek Bharate) quando insistiu para acompanhá-lo em sua jornada de trabalho longe da aldeia indiana onde viviam.

Com planos abertos e, por vezes, transitando entre o lirismo e o neorrealismo, Davis introduz o espectador à realidade do jovem Saroo (Sunny Pawar), de apenas cinco anos, que tem uma profunda relação de amizade e cumplicidade com o irmão em um contexto de pobreza extrema, onde o trabalho de um dia todo carregando pedras não é o suficiente para aplacar a fome da família que vive sem qualquer recurso em um barraco análogo aos que encontramos nas áreas mais pobres do Brasil.

Nesse cenário, o maior sonho de Saroo é comer uma porção de jalebis, uma massa doce frita e açucarada à base de farinha de trigo, parecida com um pretzel de formas finas. A realidade e inocência determinam suas aspirações de criança.

Numa noite, quando seu irmão avisa que está saindo para trabalhar, Saroo insiste em acompanhá-lo. Guddu cede apenas depois de muita insistência. No trem, ele acaba dormindo e Guddu não consegue acordá-lo. Então o deixa em um banco e pede que não saia do lugar até ele retornar.

A partir daí, chama atenção o contraste concebido por Garth Davis. Em um momento, temos um retrato superpopuloso de uma megametrópole onde aos mais miseráveis não é permitido dormir, caso queiram sobreviver. O barulho e celeridade das idas e vindas são desconfortáveis – como se houvessem tantas pessoas e ao mesmo tempo uma profunda desconexão coletiva – uma ausência de identificação entre elas – por mais mecânicas e homogêneas que parecessem por força da rotina exaustiva.

Quando acorda, Saroo decide procurar o irmão e o cenário muda. Não há mais pessoas e o silêncio predominante também soa ensurdecedor por mais paradoxal que pareça. O pequenino parece engolido por uma escuridão desconhecida – e os planos abertos mais uma vez destacam tanto uma ideia de desencontro quanto de supressão; porque, para Saroo, é como se ele não existisse sem Guddu.

O desespero do menino procurando o irmão é um dos momentos mais líricos da história – quando beleza e tristeza se fundem na própria e intrínseca dualidade. A impressão que se tem é de que é uma busca sem fim, porque quanto mais Saroo procura, menos ele encontra. Os vazios vão se prologando e se multiplicando na proporção em que Saroo se fragiliza rumo à exaustão.

Sua expressão ao entrar em um trem desconhecido, sem saber para onde vai, e observar a escura e amedrontadora madrugada enquanto clama pelo irmão e pela mãe, sabendo que dificilmente haverá resposta, é um retrato doloroso de uma realidade que marcou a vida de tantas crianças pelo mundo afora. A solidão de Saroo no trem dura etapa significativa da primeira parte do filme – o que, com o tempo, intensifica ainda mais um sentimento de medo, angústia e desesperança.

Dali em diante a situação não melhora. Saroo vai parar em Calcutá, na Bengala Ocidental, e sem saber falar bengali, a incomunicabilidade e o desespero são elevados a um novo nível – que por um momento me trouxe lembranças da “Trilogia do Silêncio”, de Bergman. Quando consegue uma aproximação junto a um grupo de crianças, Saroo é obrigado a correr para sobreviver porque elas são sequestradas enquanto dormem.

Garth Davis não dá respostas sobre o episódio, mas a impressão que se tem é de que seriam utilizadas com alguma finalidade – talvez prostituição ou mesmo tráfico de órgãos – e a polícia apenas faz vista grossa. Tudo isso acontece antes do dia amanhecer, o que torna a situação mais aterradora.

Apesar de tudo, Saroo não desiste e continua vagando por um território desconhecido. Encontra uma mulher que fala hindi e o leva para casa. Logo Saroo fica desconfiado quando ela convida um homem para conhecê-lo. O sujeito percorre o corpo da criança com as mãos e dá pistas de ser alguém que atua no ramo de exploração sexual infantil. Estranhando o comportamento do homem e já desconfiando da mulher, ele foge.

Outra cena bucólica de destaque do filme, e que me trouxe lembranças do realismo poético de Vigo, surge quando Saroo, morrendo de fome, assiste um rapaz tomando sopa em um restaurante. Carregando apenas uma colher, que se esforça para manter limpa, ele imita com cuidado, entre penúria e sorrisos, cada movimento do jovem.

Sensibilizado com a situação, o rapaz se aproxima e decide ajudá-lo. Saroo então é encaminhado à polícia, tentam encontrar sua mãe, mas sem sucesso. O que dificulta também sua situação é que ele não sabe o nome exato de sua aldeia e, por um erro comum às crianças, a pronuncia errado. Saroo acaba em uma espécie de orfanato, onde a cada noite, crianças desaparecem, sendo entregues a pedófilos por funcionários da própria instituição.

Garth Davis também evidencia o quanto a corrupção pode ser encontrada em qualquer lugar de uma sociedade corrompida por uma minoria privilegiada que mantém sob rédeas uma massa de miseráveis que nem sempre vê com terror ações aberrantes e visceralmente imorais – até por força da naturalização.

Saroo escapa a um destino terrível ao atrair a simpatia da Senhora Sood (Deepti Naval). Porém, antes de ter sua vida transformada ainda mais, e para sempre, ele a questiona: “Você realmente procurou minha mãe?” A confirmação vem em seguida. Sensibilizada com a criança, ela garante sua adoção por um casal australiano.

Sua fase de adaptação na Austrália, quando conhece a nova mãe Sue Brierley (Nicole Kidman) e o pai John Brierley (David Wenham), e o seu choque positivo diante de um novo mundo, apenas reforçam que estamos diante de uma criança que sobreviveu porque, apesar de enfrentar tanta pobreza e adversidades, encontrou na esperança uma motivação.

A segunda parte com Dev Patel como Saroo e a atriz vegana Rooney Mara como Lucy também é interessante porque marca, mais de 20 anos depois, o desejo do reencontro de Saroo com as suas próprias origens, esquecidas pelo tempo, mas reavivadas pelo anseio em saber o que aconteceu com a mãe e o irmão.

No entanto, não tão contagiante nem lírica quanto a fase com Sunny Panwar, que parece ser a essência do filme que na segunda parte cria uma complexidade a partir dos conflitos existenciais dos personagens. Em síntese, “Lion” é um drama biográfico sobre a importância da família, esperança, recomeço e mais do que vontade de sobreviver – de viver.