David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Coleirinha também quer viver

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(Foto: Jorge Schlemmer/IBC)

Uma coleirinha caiu da árvore enquanto um homem caminhava pela calçada. Estava viva, mas com as asas machucadas, sem condições de voar. Ele a pegou com cuidado, a ajeitou em uma espécie de ninho com a jaqueta e saiu caminhando.

Em casa, improvisou curativo e porção de alpiste e painço. Ficou observando a passarinha dentro de uma caixa de madeira com dois furos redondos que permitia deixar o biquinho pra fora.

“Deve ter de 40 a 50 dias de idade”, pensou. À noite, colocou a caixa ao lado da cama e começou a dar toquinhos. Dois toquinhos faziam a coleirinha reagir com duas bicadas leves. Achou graça. Três toquinhos e três bicadas, quatro toquinhos e quatro bicadas…

Pela manhã, como não havia mais bichos em casa, a deixou solta – com comida e água à vontade. Apenas fechou as janelas para evitar que se machucasse ou fosse capturada. À tarde, a levou ao veterinário. Como imaginou, não era grave, e em poucos dias poderia partir.

Na semana seguinte, já recuperada, começou a voar dentro de casa. Hora de partir. Abriu a janela e a coleirinha voou até escapar do seu campo de visão. “Missão cumprida”, pensou.

À noite, enquanto chuviscava, ouviu barulho familiar. Duas bicadas intervaladas, três bicadas intervaladas. Assim que abriu a janela, a coleirinha caiu em sua mão, sangrando e contraindo o que restou das asinhas molhadas.

Começou a chorar quando viu os chumbinhos cravados em sua carne. “Isso não pode ser coincidência”, disse. Passou a noite acordado na sala de espera da clínica veterinária – vez ou outra observava a coleirinha de costas, fragilizada.

Fez promessa pela sobrevivência da passarinha. Dois meses depois, a coleirinha já saudável partiu para não mais retornar e Mauro fechou sua fábrica de chumbinhos.