David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

“Paddleton”, um filme sobre cumplicidade e o direito de não sofrer

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Assisti a um filme de drama com comédia na Netflix lançado em 2019 que realmente me agradou. O título é “Paddleton”, em referência a um esporte criado por dois amigos que têm uma profunda relação de cumplicidade.

Um deles descobre que tem câncer e já não muito tempo de vida. Ele decide não fazer o tratamento e consegue uma autorização para tirar a própria vida em casa antes que a doença se torne dolorosa. Então pede ajuda ao amigo para morrer “da forma mais confortável possível”.

Eles viajam de carro por seis horas até chegarem a uma cidadezinha formada por imigrantes dinamarqueses. Lá, compram o “medicamento” que servirá para que Michael (Mark Duplass) tire a própria vida sem que haja sofrimento. Há algo de irônico e estúrdio nisso.

Andy (Ray Romano), ainda incomodado com a ideia, compra um cofre de brinquedo na mesma farmácia e decide esconder o medicamento, na tentativa de impedi-lo de morrer – justificando que um “milagre” poderia acontecer e Michael ter sua saúde restabelecida.

Mas, no fundo, e pelo peso da realidade que os dois dividem em suas solitárias vidas que encontram cumplicidade na partilha de convergências como um filme de kung-fu dos anos 1970 e jogos desconhecidos pela maioria, eles entendem que dor e partida são inevitáveis.

Ao longo da trajetória, há muitas boas sacadas de humor sobre os paradoxos da vida. A morte é tão temida quanto escarnecida. Em “Paddleton” é interessante a ausência de apelos melodramáticos.

A solidão é tão espaçosa quanto a solitude, com quem se confunde. Até mesmo o sofrimento recebe uma construção diferenciada, de algo que, quando não nos consome, somos nós que o consumimos – como em uma troca.

É um filme com poucos personagens e cenários – o que importa são os dois amigos, a relação entre Michael e Andy, a doença e suas percepções sutis, singelas, satíricas e pueris da vida.

A fotografia também chama a atenção porque por vezes transmite algo de morno e letárgico, talvez em referência ao que nos cabe dentro do que definimos como normalidade da vida diante daquilo que foge ao nosso controle.