David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Autoral’ Category

Eu e a minha alimentação

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Comecei a me preocupar mais com a minha alimentação há pouco mais de dez anos (Foto: Reprodução)

Peso 90 quilos, com não mais do que 10% de gordura corporal. Tenho demandas energéticas muito elevadas, metabolismo acelerado. Dizem que meu biotipo é predominantemente mesomorfo. Mas a minha alta demanda de micro e macronutrientes tem relação com o fato de eu praticar atividades físicas de alta intensidade diariamente (principalmente musculação) há mais de dez anos.

Nunca fui obeso. Não tenho facilidade em acumular gordura. Preciso comer muito para ganhar gordura, o que só acontece em fase de bulking (ganho de massa muscular). Minha alimentação é boa. Sou saudável e não consumo nada de origem animal. Nunca fico doente, nunca tive nenhum problema grave de saúde. Pensando bem, me recordo que tive dengue há alguns anos, mas meu sistema imunológico respondeu tão bem que continuei treinando diariamente mesmo com dengue.

Me questionaram recentemente sobre o motivo de eu não seguir uma dieta crudívora. Simplesmente porque o crudivorismo não combina com o meu estilo de vida. Respeito quem vai por esse caminho, mas não é o meu, ainda mais em fase de bulking. Não demonizo alimentos cozidos, porque na minha opinião isso não faz sentido. Assim como não vejo motivo para demonizar glúten, caso a pessoa não seja celíaca. Falo isso como alguém que não é nutricionista, mas que conquistou todos os resultados quanto à estética e saúde por conta própria ao longo dos anos. Então pelo menos quanto ao meu corpo e organismo, sei o que estou falando, já que realizo exames de rotina a cada seis meses – e está tudo muito bem.

Há pessoas que me perguntam às vezes porque as minhas receitas têm valores nutricionais detalhados. Simplesmente porque peso tudo que como há anos. Hoje não faço isso toda hora porque decorei os valores nutricionais de dezenas de alimentos. O tempo facilita isso. Sei quais são minhas necessidades diárias de glicídios, proteínas e lipídios. Me alimento seis vezes por dia, porque é o que funciona melhor pra mim. E isso não tem relação com a “teoria do metabolismo acelerado”.

Basicamente, sempre fui um cara disciplinado. E sobre as receitas que publico em meu blog Vegaromba, de culinária, bom, às vezes alguém diz que algumas são “porcarias”. Aí depende muito do que você come, quanto come e com qual objetivo. Algumas eu como ocasionalmente no que chamo de “Dia do Lixo”, que alguns não gostam, mas outros gostam. Sou um dos que gostam, até para “quebrar a dieta”. As minhas receitas são elaboradas atendendo a um objetivo específico. A maioria, mesmo aquelas do Dia do Lixo, têm alguma finalidade, não são combinações aleatórias de calorias vazias, e mesmo que fossem não vejo nada de errado, desde que não sejam parte da minha rotina alimentar.

 

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Written by David Arioch

May 29, 2017 at 3:06 pm

Eu e Má (minha mãe)

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Acredito que as minhas melhores qualidades vêm dela

Eu e Má (minha mãe), sempre tivemos um relacionamento muito próximo. Acredito que as minhas melhores qualidades vêm dela. Quando meu pai faleceu em 1997, e eu e meus irmãos éramos praticamente crianças (o Juninho então era um bebê – tinha um ano), ela assumiu a responsabilidade de criar os três filhos sozinha. Antes, ela já havia criado suas duas irmãs.

Acredito que se escrevo hoje em dia, também devo isso à minha mãe, porque ninguém me incentivou mais a escrever do que ela. Sempre achei meu trabalho razoável ou simplesmente aceitável, e ela, que lê tudo que escrevo, sempre fez questão de dizer que não, que não existe nada de ordinário no que faço, e que devo sempre seguir em frente independente do que os outros pensem ou digam.

Written by David Arioch

May 14, 2017 at 10:55 pm

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As histórias do vovô

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Hoje, digo que o vovô foi o maior contador de histórias que conheci (Foto: David Arioch)

Meu avô, pai de minha mãe, faleceu no final de fevereiro. Desde criança, nunca o chamei de vô, mas sim de vovô. Ele foi o último dos meus avós a partir. Já não tenho mais nenhum. Não escrevi a respeito no dia do falecimento, isto porque acho que na data em que uma pessoa próxima morre os sentimentos e as lembranças de quem fica não estão na mais perfeita sinergia.

Normalmente estão em estado de transição da irrealidade para a realidade, e o que se pode escrever nesse estado pode não representar exatamente o que se quer. E comigo sempre foi assim. Gosto de escrever sobre alguém quando estou no meu estado sereno de avaliação das coisas.

Antes do vovô falecer, antes mesmo de imaginarmos que isso aconteceria, a nossa convivência se tornou diária por quase dois anos. Gravei horas e mais horas de bate-papo com ele. Sentávamos em “cadeiras de área”, como ele dizia, ao lado das pimenteiras e de outros alimentos orgânicos que ele cultivava. Abelhas o visitavam todos os dias no mesmo horário, e ele nunca se incomodava. Muito pelo contrário, comemorava.

Decidi registrar tudo que ele narrava porque isso é importante, porque os idosos são os livros da cultura oral. A matéria do vovô poderia desaparecer, mas não a essência do que ele tinha a oferecer. Ele não era um ser humano perfeito, assim como também não sou, mas foi com ele que aprendi a amar histórias e contá-las.

Ele era uma biblioteca ambulante, um memorialista. Desde a minha infância, devo ter passado milhares de dias sentado ao seu lado ouvindo histórias de um passado remoto, que quase ninguém conhece porque não foi registrado nos livros. Quero dizer, pelo menos até eu decidir conservar suas palavras.

Hoje, digo que o vovô foi o maior contador de histórias que conheci na minha vida, e quando o vi dentro de um caixão, com o corpo gelado e a tez rija, eu já sabia que ele não estava mais lá, mas sim dentro de todos aqueles que resguardaram suas histórias.

 

 

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Written by David Arioch

May 11, 2017 at 5:07 pm

Quem eu era na infância ainda vive dentro de mim

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The False Mirror, de René Magritte

Sempre que termino a musculação, faço treino de mobilidade por 10 a 15 minutos. Como não havia espaço no local onde sempre realizo esse treinamento, deitei perto do espelho que fica em frente à polia. Então prestei bastante atenção no meu rosto, e sorri sozinho, porque reconheci que quem eu era na infância ainda vive dentro de mim.

Percebi isso nos meus olhos, e me senti realmente grato, porque perder isso seria perder a minha própria identidade. Às vezes, se olhar no espelho não tem nada a ver com narcisismo, ainda mais se o que quero ver somente o reflexo não pode me oferecer.





Written by David Arioch

May 4, 2017 at 1:30 am

Nascemos para a liberdade

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Nos condicionamos facilmente às prisões (Arte: Blacksmiley)

Nascemos para a liberdade, mas nos condicionamos facilmente às prisões. Isto porque elas são sedutoras, e nos parecem mais viáveis, alcançáveis. Temos uma intrigante capacidade de rejeitar e negar a liberdade que um dia deu mais sentido às nossas vidas.

A alegria de sonhar como nos tempos de criança não raramente cede espaço ao temor da desilusão, e as incertezas de qualquer realização se transformam em fuga e rejeição. E assim, desaparecemos pouco a pouco. Quem sabe, assumimos a identidade daquilo que outrora temíamos.

É triste morrer vagarosamente sem reconhecer a própria finitude. Há dias que assumem a forma de pesadelos, mas que são naturalizados de forma a não parecerem tão ruins. Então busca-se viver somente, e não se sabe se verdadeiramente, nos finais de semana, nos feriados, quando se vela um pesar que parece impossível de enterrar.

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Written by David Arioch

April 17, 2017 at 8:31 pm

Sobre ofensas no trânsito

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Dias atrás, descendo pela Heitor de Alencar Furtado, um caminhão invadiu a pista em que eu trafegava (Foto: Helder Shiroshima)

Dias atrás, descendo pela Heitor de Alencar Furtado, um caminhão invadiu a pista em que eu trafegava. Quando estava a poucos centímetros de bater no meu carro, comecei a buzinar e o motorista recuou. Então segui meu caminho.

Um quilômetro depois, o mesmo caminhão encostou do meu lado. O motorista abaixou o vidro e começou a falar: “Ô seu palhaço, você é um palhaço, você mesmo, seu idiota! Por que ficou buzinando lá atrás? Babaca!”

Nem abaixei o vidro, só fiquei em silêncio e mantive meus olhos na avenida. Então refleti depois: “Qual é o sentido de xingar uma pessoa que você não conhece? De ir atrás dela e abordá-la apenas com a finalidade de intimidá-la ou ofendê-la?”

Há pessoas que sentem raiva e ódio com muita facilidade. Seria interessante se elas pudessem conhecer a vida das pessoas que xingam ou ameaçam no trânsito. Acredito que pelo menos uma parcela se arrependeria desse ato impensado.

Também me questiono se pessoas que fazem isso são capazes de ter a mesma atitude enquanto andam. Por exemplo, um cara esbarra em mim e começo a tentar intimidá-lo, xingá-lo. A probabilidade disso acontecer é sempre maior quando nos sentimos ilusoriamente seguros e intocáveis atrás de um volante.

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Written by David Arioch

April 12, 2017 at 12:09 am

Caso queira se surpreender…

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Caso queira se surpreender, anote suas reflexões e volte a lê-las daqui a um ano. Suspeito que você não vai poder dizer que não mudou em nada ou que não evoluiu em nenhum nível. Claro, se esta for sua vontade.

Written by David Arioch

April 9, 2017 at 10:53 pm

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No caixa do Muffato

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Na fila do caixa do Muffato, encontrei uma mulher sofrendo para carregar a compra em uma cestinha, então me ofereci para ajudar. Quando chegou a vez dela, a filhinha, que deve ter uns três anos e carregava um pacote de bolachas e um saquinho de frutas, esperou eu me afastar um pouquinho e disse: “Que muçulmano bonzinho, mãe!”





Written by David Arioch

April 1, 2017 at 11:06 pm

A morte de João Gilberto Noll, uma triste surpresa

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Mediei um bate-papo com João Gilberto Noll e Luís Henrique Pellanda em setembro de 2012 (Foto: Sesc)

Fiquei sabendo agora do falecimento do escritor gaúcho João Gilberto Noll, vencedor de cinco Jabutis. Me recordo que em setembro de 2012, quando eu ainda estava na casa dos 20, logo mais inseguro do que hoje em dia, tive a oportunidade de mediar um bate-papo com ele e com o Luís Henrique Pellanda, de Curitiba, durante a Semana Literária do Sesc.

Foi uma noite inesquecível; um bate-papo que se estendeu por quase duas horas, e depois continuou na mesa de uma pizzaria em frente ao Grande Hotel, onde ele pediu uma latinha de Coca Zero. Reservado, sua conversa era pausada, reflexiva e bastante ponderada. Por outro lado, como autor era um libertador, arrebatador; sempre semeando um espírito com ânsia pela liberdade. Penso que sua força literária era a sua coragem existencial. Quem sabe, até como reação de uma severa formação religiosa que lhe impôs tantos limites.

Ainda me recordo de sua voz morna durante a leitura ao público. Persistia uma serenidade que se misturava à ansiedade de seus personagens imersos em anseios e situações que escapavam à imaginação do público. Acredito que ainda tenho o áudio do nosso bate-papo. Se eu encontrar, e espero encontrar, vou tentar transformar em alguma coisa que compense a leitura.

 





Written by David Arioch

March 30, 2017 at 2:20 am

Children of the White Gold Cinema

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I saw the tears streaming down his face, wetting his plaid shirt buttoned up at the point of his neck

The White Gold Cinema, one of the great entertainment points of the population of Paranavaí (Archive: Osvaldo Del Grossi)

I am not part of a generation that has the strongest and clearest memories of the White Gold Cinema, one of the great entertainment points of the population of Paranavaí, in the Northwest of Paraná, until 1993. When the cinema was closed, I was still a child. Despite this, I went to the Gold Cinema for a few years of my childhood, and I have fond memories of that time.

My first time at the movies was a session of “The Bumbling Heroes – An Adventure in the Jungle”, on a weekend in 1988. By then, the biggest screen I had seen was the 21-inch TV, covered by a box of varnished wood, which was in the living room. Even so, I was happy watching cartoons on it.

As soon as my brother, my mother and I arrived in front of the White Gold Cinema, in Manoel Ribas Street, in the downtown, I paid attention to the people lined around the box office. Tiny, I watched everything in the proportionality of my stature. I saw more shoes, legs and belts than faces. Except, of course, when people were as little as I was.

Before we got inside the cinema, I walked slowly and backwards along the sidewalk, trying to observe the height of the White Gold’s building, but it was impossible for me. So, I thought that was the biggest movie theater in the world. Who knows, maybe it crossed the skies and had direct contact with the paradise they talked about in school.

The gentle popcorn seller smiled at me, noticing through my large, cylindrical black eyes that it was my movie debut. “Is it your fist time?” You’ll like it and you’ll want to come back many times”, he said, straightening a small amount of sweet pop corn, preventing it from mixing with the salty one.

Warm and smelling, the popcorn popped into the cart. For a moment, I believed, in my boyish illusion, that maybe the popcorn had a life, and wants to go to the movies to watch “The Bumbling Heroes”. By my side, prevailed a sweet aroma that pacified the most bewildering children – yes, it was an effective white-hot soothing odor.

It reminded me of the airy red tabebuia tree, that I saw every day near my house, when I pointed with my finger and shouted: “Look that sweet popcorn tree!” On the other side of the popcorn cart, the smell of popcorn changed, as well as the public. The adults, especially the men, approached and asked: “Give me the salty one, please!”

Skilled, the popcorn seller knew the exact amount of popcorn to fill every bag. I watched his grooved hands glittering in front of the small yellow lamp that glowed and gilded his wrinkled face. It was that way, whenever he leaned in or steeled himself. That was his spectacle, and at the entrance of the White Gold Cinema, nobody was more important than the popcorn seller.

On that day, before we went to the cinema, five shoeshine boys, aged between 6 and 14, approached. They leaned against a wall next to the White Gold Cinema and, as the ragamuffins boys from Buñuel’s “The Young and the Damned”, started smoking, watching families getting out of cars and crossing the sidewalk.

“If I had a father or a mother I would not be in this life, brother! Being poor and alone is not easy. No, sir! Look how much luxury those kids have”, said one of the four boys to his friends. Without a word, they just shook their heads in agreement, crushing little butts with their little feet.

Dirty, with grimy nails and the nauseating smell of cheap cigarettes, a shoeshine boy no more than 12 years old lead a group of kids. As someone hesitant about entering or leaving, he folded his arms and raised his face as one of the entrance lights highlighted his dubious expression of satisfaction

“Guys, listen up! Quickly! This movie ‘Bumbling Heroes’ is very good. There’s only one bad thing. Mussum and Zechariah die at the end. Thanks! Bye! “He shouted and ran laughing, while his dark and curly hair was fluttering. At that moment, he became an antagonist worthy of the villain Scar.

The boy dragged his shabby slippers and, with his companions, went down to Pará Street. Some children did not care about the revelation, but others were so angry that they wanted their parents to call the police or do something about it. For good, no one pursued them.

Inside the Gold White, I was stunned by the out of sight seats. “There are one thousand five hundred seats here. Look up there, it’s like an opera”, my mother told us, watching our reactions. Unhurried, we spun around the mastodontic room, trying to see all the details.

Luckily, there were vacant seats in the front row. Then, we walked there, crossing hallways and listening to the sounds of spectators eating popcorn, talking, making fun of someone and hugging each other. Near us, the usher accompanied everything with its indefectible aura of firefly. He felt like the leader of a coliseum where nothing would happen without his permission, especially when the lights went out.

As soon as I sat down, I observed a boy in mended clothes sitting next to me, accompanied by his mother. His name was Juscelino, and he was a year or two older than me. It was also his first time at the movies. I noticed his anxiety because his small feet kept swinging, as did mine.

His trembling hands sweated so much that every time he wiped them on the sides of his plaid pants. Juscelino was talking to me, keeping his face toward the disproportionate projection screen. I thought he was excited because of the movie, until I noticed something different in his eyes, a crystal clarity like I’ve never seen before. Naturally, the mother revealed that her son was born blind.

Juscelino could not see anything. Still, his excitement at White Gold Cinema surpassed even mine. The sounds and smells that came to him were like immaterial gifts, memorials. With a rare auditory and olfactory acuity, Juscelino could even see what people were doing or eating in the furthest seats- and he liked to discuss everything with me.

Son of peasants from Alto Paraná, he arrived in Paranavaí by bus in the morning, and stayed waiting for hours for the ticket office to open. His father could not participate in the big event, because the savings just barely covered the expenses of his wife and child. “It’s going to start, mom!” Said the little boy seconds before the projector started showing the movie, as if he had a gift for omens.

From beginning to end, Juscelino was completely silent, trying to absorb as much sound information as possible. Occasionally, he moved about the chair without making a sound, worried about bothering people. Juscelino, my brother and I were united by an experience that would never be repeated. Our greatest discoveries were visual, and those of Juscelino were auditory. Perhaps even richer than ours, as he put himself in the position of creator by putting forth to the creativity of everything he heard.

Still in the dark, I saw the tears streaming down his face, wetting his plaid shirt buttoned up at the point of his neck. At the end, with the return of the lights, I asked him what it was like to watch a movie at the cinema without being able to see. My mother scolded me, but Juscelino’s mother did not mind the question.

“I can not explain it right, but I see, yes, I just do not see with my eyes. I see everything I carry inside me”, he justified before taking hold of his mother’s hand and walking in short steps toward the exit. The artificial lighting contrasted and harmonized with the compliant light of the newly arrived portentous moon.

On the corner, at the intersection between Pará and Manoel Ribas Street, the five shoeshine boys, children living as adults, drummed their boxes. They were seated on the curb, immersed in false smiles and sullen stares, trying to exist for a world that scarcely recognized their true intentions.

Returning home on foot, we crossed the street. As we passed them, the same boy, who caused the commotion at the entrance to the cinema, pulled me by the arm and, with an implied look, asked “Hey, my friend. Can you tell us the story of the movie you saw there at the cinema?”

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Written by David Arioch

March 30, 2017 at 1:28 am