David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Cinema’ Category

Peter Cushing, do cinema de terror para a Sociedade Vegetariana

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“Amo os animais, e quando estou no país [Inglaterra], sou um dedicado observador de pássaros”

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Peter Cushing na franquia “Frankenstein” (Foto: Reprodução)

O ator britânico Peter Cushing foi um dos maiores nomes do cinema de terror, além de um dos artistas mais celebrados da Hammer Films, produtora que lançou clássicos como “Dracula”, “The Mummy” e a franquia Frankenstein, iniciada com “The Revenge of Frankenstein”.

Cushing sempre contracenava com outros nomes de peso da arte cinematográfica, como Christopher Lee e Vincent Price. Embora interpretasse muitos personagens incomuns, enigmáticos e assustadores, Cushing era um sujeito bastante agradável, educado e que gostava tanto de animais que abdicou do consumo de carne na juventude.

“As pessoas olham para mim como se eu fosse algum tipo de monstro, mas não consigo entender o porquê. Em meus filmes macabros, fui um criador de monstros ou um destruidor de monstros, mas nunca um monstro. Na realidade, sou um camarada gentil. Nunca prejudiquei uma mosca. Amo os animais, e quando estou no país [Inglaterra], sou um dedicado observador de pássaros”, disse em entrevista publicada na ABC Film Review em novembro de 1964.

De acordo com informações do livro “Living Without Cruelty”, de Lorraine Kay, entre as comidas preferidas do ator britânico estavam torradas de pão integral com Olde English Marmalade. Em 1965, ele interpretou o inesquecível Dr. Who em “The Dr. Who and the  Daleks”. Em 1977, viveu o personagem Grand Moff Tarkin, comandante da “Estrela da Morte” no filme “Star Wars Episode IV: A New Hope”.

Em 1966, o ator britânico revelou novamente o seu incômodo em ser confundido com seus personagens, o que na realidade era uma consequência dele ter participado de muitos filmes de terror: “Fico terrivelmente cansado com as crianças do bairro dizendo: ‘Minha mãe diz que ela não gostaria de encontrá-lo em um beco escuro.’”

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Cushing como o professor Van Helsing (Foto: Reprodução)

Em 1971, Peter Cushing perdeu sua esposa Violet Helene Beck, o que provavelmente foi a maior perda de sua vida, deixando-o inconsolável. Em 1982, foi diagnosticado com câncer de próstata, mas optou por não fazer nenhum tratamento agressivo. Em 1987, o ator recebeu um convite para assumir a função de patrono da Vegetarian Society (Sociedade Vegetariana), sediada em Manchester, na Inglaterra. Assumiu o cargo orgulhosamente até 11 de agosto de 1994, quando faleceu aos 81 anos.

“Um vegetariano apaixonado a maior parte de sua vida. Peter Cushing será lembrado como um homem de fala mansa e gentil. Ele amava os animais selvagens e era um dedicado ornitologista. Quando sua esposa faleceu em 1971, ele sentiu que sua vida também acabou. Sua autobiografia, publicada somente 15 anos depois, não faz menção à sua vida após a morte de Helena. Em 11 de agosto de 1994, depois de uma longa doença que ele carregou com característica dignidade, ele se juntou a ela. Seus amigos vão sentir falta de seu deslumbrante intelecto e sagacidade. Sua vida, pela qual damos graça, é um bom testemunho do vegetarianismo. Estamos orgulhosos de ter Peter Cushing como nosso patrono”, publicou a Vegetarian Society no jornal “The Vegetarian” em 1994.

Saiba Mais

Peter Cushing nasceu em 26 de maio de 1913 em Kenley, Surrey, na Inglaterra.

Em 2016, 22 anos após sua morte, Cushing apareceu em “Rogue One: A Star Wars Story”, novamente como Grand Moff Tarkin, por meio do uso de CGI.

Sua carreira como ator começou em 1939 e terminou em 1986.

A Vegetarian Society é a entidade vegetariana mais antiga ainda em atividade. Ela foi fundada em 30 de setembro de 1847.

Referências

Gullo, Christopher. In All Sincerity, Peter Cushing. XLIBRIS (2004).

Kay, Lorraine. Living Without Cruelty. Sidgwick & Jackson Ltd; 1st edition (1990).

http://web.archive.org/web/19981205075607/www.vegsoc.org/HQdata/cushing.html

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James Cromwell: “Não temos o direito de usurpar o destino de qualquer ser senciente”

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Para o ator e produtor, o veganismo é a melhor forma de ajudar os animais

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“Fazer o filme ‘Babe’ abriu meus olhos para a inteligência e personalidade curiosa dos porcos” (Foto: Divulgação)

O ator e produtor James Cromwell, mais conhecido como o fazendeiro Arthur Hoggett, do filme “Babe”, que, a partir da história de um porquinho, fez muita gente se questionar sobre a forma como nos relacionamos com os animais, se tornou vegetariano em 1975 e vegano em 1995. Em entrevista ao TakePart em 27 de dezembro de 2011, ele explicou que a experiência ao trabalhar com muitos animais o levou a aderir ao veganismo.

“Fazer o filme ‘Babe’ abriu meus olhos para a inteligência e personalidade curiosa dos porcos. Eles possuem uma incrível capacidade de amar, sentir alegria e tristeza, o que os torna muito semelhantes aos nossos amigos caninos e felinos”, disse. Quando interpretou Hoggett, ele percebeu que estava interpretando um homem com a capacidade de ver os animais como seres sencientes, como se fosse o seu próprio destino tornar-se vegano. A aspiração do fazendeiro foi partilhada pelo próprio ator que teve a oportunidade de encarar de frente os fatos que o levaram a uma nova transição.

Em entrevista a Mike Pearl, da Vice, em 6 de agosto de 2015, ele contou que na última cena de ‘Babe’, quando ocorre uma competição de suínos, um porquinho foi colocado em um grande campo, e ficou lá observando o céu azul, a grama verde e o mar. Foi como se o suíno dissesse: “Não quero nada disso. Vou cair fora”, e saiu correndo. Um monte de homens o seguiram para capturá-lo. Como testemunha, James Cromwell riu e aprovou a ação do porquinho, não imaginada pela produção.

Para o ator veterano, que começou a carreira em 1974, “Babe” é um filme sobre o que fazemos com os outros para nos classificar, para colocar animais não humanos em categorias que assegurem nosso senso de direito, posição e poder. “O porquinho questiona isso e encontra uma consciência receptiva do fazendeiro Hoggett”, argumentou à Vice. Porém, nem todo mundo entendeu isso, tanto que ‘Babe’ acabou sendo banalizado como um filme para crianças, segundo Cromwell. De acordo com o ator, se você sente que as pessoas precisam entender o que existe de errado em relação à cultura em que estão inseridas, e isso desnecessariamente custa a vida dos animais, é preciso mostrar o que eles não querem ver, já que nem sempre as pessoas são tocadas por uma abordagem mais sutil.

No filme “Babe”, um dos momentos de revelação surge quando o fazendeiro Hoggett encontra suas ovelhas mortas. Sua reação instantânea é pegar a espingarda e se preparar para atirar em Babe. No entanto, como se já imaginasse que estivesse cometendo um equívoco, ele não atira, provavelmente porque já não vê mais o porquinho como antes, despertando para um novo princípio de empatia. “Ele tem a oportunidade de reajustar sua perspectiva e aprender alguma coisa. Se você se permitir, podemos chegar a mesma conclusão, porque não temos o direito de usurpar o destino de qualquer ser senciente para beneficiar nossas próprias necessidades e interesses”, declarou James Cromwell a Mike Pearl.

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“Estamos aqui para tomar conta deles porque eles não podem tomar conta de si mesmos” (Foto: RE/Westcom/Starmaxinc)

A transição do ator para o vegetarianismo ocorreu em 1975, logo depois que ele percorreu o Texas de moto e observou como viviam os animais em confinamento. “Isso é realmente uma porcaria. Não posso fazer parte disso”, refletiu à época. Depois que retornou da Austrália, após a finalização de “Babe”, Cromwell se viu na obrigação de fazer algo pelos direitos animais. Então se envolveu com a organização Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta) e iniciou uma jornada de campanhas em favor dos animais.

Ele atuou no resgate de muitos animais, narrou documentários sobre a exploração animal, incluindo “Farm to Bridge”, de 2011, e ajudou santuários. Na visão de Cromwell, negar a um animal o direito à vida e à autodeterminação é uma agressão contra o planeta e todos os seres sencientes. Para o ator, o veganismo é a melhor forma de ajudar os animais. Contudo, ele sugere que quem tem dificuldades ou receio em fazer a transição comece diminuindo os ingredientes de origem animal em uma refeição por dia, depois aumentando para um dia da semana. Mais tarde, uma semana, um mês…até adotar definitivamente essa filosofia de vida. ”Trabalhe seu caminho para não consumir animais e produtos animais, informe-se. É muito fácil. Esse processo começa com a sua consciência”, ponderou ao TakePart.

O ator estadunidense considera equivocado o uso de palavras como to own (possuir) e pet (animal de estimação) em referência aos animais que mais convivem com os humanos, porque, na sua perspectiva, ninguém pode possuir outra criatura. Ele justificou que esse conceito foi desenvolvido nos séculos 15 e 16 na Inglaterra, e provavelmente em outros lugares onde pessoas e animais foram expulsos de suas terras para que outros pudessem criar e normatizar uma estrutura de comércio e preços para tudo, inclusive vidas.

James Cromwell falou ao TakePart que qualificar os animais como simplesmente de estimação tem uma conotação de que somos superiores e que eles são inferiores, dando a ideia de que devem se submeter a nós. “Estamos aqui para tomar conta deles porque eles não podem tomar conta de si mesmos. São animais de companhia. Tenho usado o veganismo como uma maneira de tentar elevar o nível de conscientização sobre o sistema vigente. Temos fazendas industriais e bilhões de animais são mortos nesses lugares”, queixou-se. O que facilita a naturalização disso tudo é que é muito fácil consumir alimentos de origem animal de forma inconsciente, ou seja, quando não se tem contato com o sistema de produção.

Outra preocupação de Cromwell são os cavalos de corrida que são enviados aos matadouros do Canadá e do México quando não geram mais lucros aos seus “donos”. Por causa disso, o ator começou a se empenhar na criação de projetos de fundo de aposentadoria para esses animais que geraram tantos lucros aos seres humanos, o que permite que eles se aposentem e vivam seus últimos anos de vida em santuários, em vez de serem abatidos e reduzidos à carne de cavalo. “Fiz um filme chamado ‘Secretariat’, e uma das minhas queridas amigas do movimento animal, Karen Dawn, disse: ‘Você sabe alguma coisa sobre corrida de cavalos?’ Eu disse que não, e comecei a conversar com as pessoas, principalmente com jóqueis”, revelou.

Ao TakePart, James Cromwell relatou que uma corrida de cavalos tem 8, 10 ou 12 cavalos. E como não são todos os animais que vencem as corridas, muitos dos animais amargam uma triste realidade que envolve abusos, negligência e morte. “Além do fato de que corridas de cavalos são incrivelmente perigosas para cavalos e jóqueis. Há centenas e centenas de cavalos que são mortos. É preciso uma oportunidade para pegar esses cavalos que tenham cumprido seu papel e salvá-los do seu fim; dar a eles um lugar para viver”, defendeu.

 Saiba Mais

James Cromwell, que já participou de mais de 200 produções entre teatro, cinema e TV, nasceu em Los Angeles, na Califórnia, em 27 de janeiro de 1940.

Referências

http://www.takepart.com/article/2011/12/27/james-cromwell-you-dont-own-another-creature

https://www.vice.com/en_us/article/babe-is-20-years-old-so-is-star-james-cromwells-animal-rights-crusade-382

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Written by David Arioch

March 4, 2017 at 8:57 pm

Clive Barker: “Perdi mais amigos por ser vegetariano do que por ser gay”

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Barker é autor de clássicos como “Hellraiser”, “Candyman” e da série “Livros de Sangue”

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No filme “Midnight Meat Train”, Barker faz críticas ao consumo de carne e à violência contra os animais (Foto: Reprodução)

No dia 23 de fevereiro de 2012, o escritor e cineasta estadunidense Clive Barker, autor de clássicos como “Hellraiser”, “Candyman” e da série “Livros de Sangue”, publicada inclusive no Brasil, fez uma declaração no Twitter sobre como as pessoas do seu círculo social reagiram quando ele decidiu tornar-se vegetariano: “Perdi mais amigos por ser vegetariano do que por ser gay.”

Em 1997, quando divulgou em seu site as atividades realizadas ao longo do ano, a Peta, organização em defesa dos direitos animais, destacou que entre as sugestões estava uma proposição de Clive Barker. Ele sugeriu que os jornais colocassem notícias de caça e pesca nas sessões de obituários, de acordo com informações da página 57 do livro “Women and Guns: Politics and the Culture of Firearms in America”, de Deborah Homsher, lançado em 2001.

Barker decidiu se tornar um membro da Peta por se identificar com as pautas contra a exploração de animais nas indústrias alimentícia, de vestuário e entretenimento. Considerado por Stephen King na década de 1990 como a face da literatura de horror do futuro, Barker produziu o filme “Midnight Meat Train”, lançado em 2008, em que critica o consumo de carne ao colocar seres humanos no lugar dos animais.

A obra baseada em seu conto homônimo de 1984, e publicada no primeiro volume da coleção “Livros de Sangue”, conta a história de Leon, um fotógrafo vegetariano, interpretado por Bradley Cooper, que trabalha registrando o que existe de mais obscuro na humanidade. Um dia, ele testemunha uma tentativa de abuso contra uma modelo em um trem. A moça desaparece e ele começa a suspeitar de um açougueiro que estava no mesmo vagão naquela noite.

Leon então descobre que os passageiros do trem são assassinados a marretadas para que suas carnes sirvam de alimento para alienígenas carnívoros. Tais ações criminosas remetem ao que fazemos diariamente com bois, cavalos, porcos e aves. “Midnight Meat Train” mostra por meio de cenas de extrema violência o quão brutal pode ser o abate com a mera finalidade de transformar cadáveres em alimento.

Em síntese, no filme de terror o trem onde a carne humana é selecionada nada mais é do que um matadouro móvel. Na história de Barker, ele explora a compulsão pelo consumo de carne e aborda como o meio tem grande influência sobre quem somos, o que pode ser percebido pelo espectador ou leitor ao final do conto ou do filme.

Saiba Mais

No Brasil, o filme “Midnight Meat Train” recebeu o nome “O Último Trem”.

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Arcade Fire e Orfeu Negro

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O vídeo da música “Afterlife”, da banda canadense Arcade Fire, que exibe cenas do filme “Orfeu Negro”, do cineasta francês Marcel Camus, é uma boa combinação. Ouvi Arcade Fire pela primeira vez por causa desse clipe. Orfeu Negro é um filme baseado na peça de Vinicius de Moraes, que venceu o Festival de Cannes de 1959. Inspirada no realismo poético, a obra conta uma trágica história de amor. Excetuando os clichês, é uma obra bela e inesquecível.

E a música do Arcade Fire tem tudo a ver com o filme, com o dilema do pós-vida, quando Orfeu não aceita a perda do seu grande amor e recorre a uma sessão espírita para tentar reencontrar sua amada. E o mais intrigante é que Jerry Zucker fez algo parecido décadas depois em “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, com Patrick Swayze e Demi Moore. “Quando o amor acaba, para onde ele vai?”, é um dos questionamentos da música do Arcade Fire e que parece reproduzir a indagação que aflige Orfeu no filme.

Written by David Arioch

January 3, 2017 at 12:37 am

Fassbinder…

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Fassbinder faleceu em 10 de junho de 1982 (Foto: Reprodução)

O alemão Rainer Werner Fassbinder foi um dos cineastas mais controversos da Alemanha das décadas de 1960 a 1980. Conheci o trabalho dele no final da minha adolescência, quando assisti Der Stadtstreicher (O Vagabundo da Cidade). Foi a primeira vez que vi um sujeito marginalizado e não romantizado como protagonista de um filme, mesmo que de curta-metragem.





Written by David Arioch

December 28, 2016 at 3:33 pm

O Mito da Caverna de Platão e Barravento

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Vocês já viram alguma versão do Mito da Caverna de Platão feita com negros? É só assistir Barravento, lançado por Glauber Rocha em 1962. Não sei se foi intencional, até porque ele nunca falou sobre isso. Também nunca vi ninguém fazer tal associação, mas está lá, segundo minha cognição.

Written by David Arioch

December 24, 2016 at 7:22 pm

Palestra sobre o papel do negro no cinema

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Fui convidado pelo Sesc para dar uma palestra para professores hoje à tarde no Seminário Multidisciplinar – Diversidade Étnico Racial, Indígena e Cigana no Núcleo Regional de Educação de Paranavaí. Fazia mais de dois anos que eu não dava uma palestra sobre cinema, e hoje fui até lá para falar sobre o papel do negro no cinema brasileiro ao longo da história. Foi uma experiência muito rica e interessante. Me trouxe muitas lembranças dos cinco anos em que ajudei a coordenar o Projeto Mais Cinema. Uma vez por semana, após a exibição dos filmes, eu fazia uma análise e discutia a obra com o público.

Written by David Arioch

December 6, 2016 at 12:53 am

Um olhar sensível sobre o homem negro

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“Alma no Olho” é esteticamente silencioso porque o barulho é despertado na mente do espectador (Foto: Reprodução)

Em 1973, o ator e cineasta Zózimo Bulbul lançou o filme experimental de curta-metragem “Alma no Olho”, de 11 minutos. Na obra intimista, um olhar sensível sobre a escravidão, vemos um homem negro. Somos levados a conhecê-lo fisicamente. A câmera parte do todo para acompanhar os detalhes do seu corpo. Seu semblante, seu sorriso, o seu suor e a sua dor são tão reais e intensos quanto de qualquer outro ser humano.

No filme, uma metáfora da vida, o personagem é privado da liberdade. A alegria de viver, celebrada com música e dança, é substituída por grilhões que o impedem de existir. Sua reação é de estranheza e desespero. A princípio, a resignação o vence, mas ele desperta e resiste.

Quando ganha a liberdade, comemora, sem se dar conta de que continua preso aos grilhões da escravidão. A vida segue, e ele aceita tudo passivamente, até se dar conta de que a sua liberdade depende em primeiro lugar da sua conscientização e da sua verdadeira resistência. Então ele se liberta das correntes e segue seu caminho.

“Alma no Olho”, metáfora da escravidão e da liberdade do homem negro, é um filme que tem apenas um personagem em um mesmo cenário, que pode ser qualquer lugar, já que a escravidão e o preconceito não têm local específico para acontecer. Ademais, é esteticamente silencioso porque o barulho é despertado na mente do espectador, testemunha das ações e das emoções que guiam e dominam o protagonista.

Written by David Arioch

December 5, 2016 at 11:48 pm

Sobre a cena de estupro em “Último Tango em Paris”

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No filme, Maria Schneider, que não foi avisada, participa de uma cena de estupro (Foto: Reprodução)

Tenho lido sobre a mais polêmica cena do filme “Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, lançado em 1972, com a então jovem Maria Schneider, estuprada pelo personagem de Marlon Brando.

Bertolucci admitiu que Maria não sabia que se trataria de uma cena de estupro, visando reproduzir as reações dela como mulher, não atriz. É triste, mas não fiquei tão surpreso porque o cinema está repleto de casos como esse. Isso me lembra um artigo que escrevi há algum tempo, sobre a concepção moral de alguns artistas. Há artistas, inclusive entre os grandes, que não se importam com a perspectiva moral que normatiza a vida em sociedade.

A diferença é que alguns levam isso para as telas, outros a restringem ao escapismo. Além disso, a arte para muitos está acima de qualquer coisa, e pouco importa pra eles se isso significa transpor os direitos de alguém. E isso não é contemporâneo não, muito menos se restringe ao cinema. É só estudar a vida dos pintores do passado. Estamos falando de algo que existe desde o surgimento da arte. Para alguns ou muitos, o que vale é transmitir o que eles querem transmitir. O resto é realmente encarado como resto. O doa a quem doer não raramente é levado à literalidade sem ressalvas.

Written by David Arioch

December 5, 2016 at 12:52 am

Jean Vigo, um dos cineastas que mais me emocionou

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Jean Vigo faleceu com apenas 29 anos em decorrência de tuberculose (Foto: Reprodução)

Jean Vigo, um dos cineastas que mais me emocionou, é praticamente desconhecido por quem não conhece o realismo poético, o cinema francês pré-nouvelle vague. Houve uma época da minha vida que fiquei tão imerso em suas obras que assisti tudo que ele produziu e comprei todos os livros de referência sobre a sua vida.

Lembro que me comprometi em escrever sobre ele, mas fiquei tão comovido que acabei fazendo justamente o oposto – nada. Até hoje, não escrevi nada sobre ele. Me senti mal mesmo pelo seu trágico final. Jean Vigo era um sonhador, morreu com 29 anos e não teve nenhum tipo de reconhecimento em vida.

Aquilo me surpreendeu sobremaneira. Quando terminei de assistir e de ler tudo que encontrei sobre ele, refleti: “Sim, Jean Vigo era um artista intenso, e por isso vocês não podem resumi-lo a quatro obras e dizer que aquilo era o que ele tinha a oferecer ao mundo. O cara estava apenas começando. Ele exalava vida, sublimidade, alegorias, simbologias, lirismo. Em seu tempo, era o mais genuíno dos poetas do cinema francês, Ademais, quem exala vida não poderia morrer dessa forma.”

Ele deixou trabalhos promissores, que provavelmente teriam revolucionado muito mais o cinema. Vigo faleceu depois de lançar “L’Atalante”. Este filme, que marcaria o princípio da sua carreira profissional, a sua própria estilística cinematográfica, foi eleito um dos melhores da história do cinema em algumas pesquisas.

O mais paradoxal disso tudo é que “L’ Atalante”, que narra uma história de amor e seus conflitos, passou por modificações, alterações que não foram feitas nem desejadas por ele. Logo é uma obra descaracterizada, não fidedigna. Sim, Vigo está ali, mas não puramente ou tão liricamente. Não se mexe em um poema audiovisual. Isso é obliteração.

Vigo influenciou outro de meus cineastas preferidos – François Truffaut, que eternizou uma das mais belas cenas do cinema – aquela em que os estudantes correm pelas ruas de Paris e são acompanhados pela câmera, num dos momentos mais bucólicos e eletrizantes de “Les 400 Coups”. Esta referência vem do primeiro filme ficcional de Vigo. intitulado “Zéro de conduite”.

O jovem Jean Vigo viveu intensamente, mas não colheu os frutos de seu trabalho. No leito de morte, foi tratado como um ninguém, um pária. Morreu da mesma forma que nasceu, como um rejeitado, um injustiçado indesejado em um mundo já conturbado e ensoberbado. Acabou vitimado por uma tuberculose que o perseguia desde a infância, gestada no seio das precárias condições de vida.

Apesar de tudo, é curioso reconhecer como somos capazes de mergulhar na vida de uma pessoa com quem nunca tivemos contato direto. É o poder da arte. O tempo passou, mas sinto como se Vigo ainda fosse muito real, e continuasse exalando vida, vivendo imaterialmente, mesmo que ele tenha partido em 5 de outubro de 1934.

Written by David Arioch

December 4, 2016 at 4:45 pm