David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Contos/Short Stories’ Category

Mate Coma

leave a comment »

“Que demais esse lugar. Dizem que os lanches deles são os melhores da região”

Arte: Dana Ellyn

Inauguraram uma lanchonete fora da cidade. Mate Coma. Ioan e Colomano percorreram pouco mais de 15 quilômetros até chegarem ao local. Boa vegetação nativa nos entornos, arborismo, tirolesa, frescor; cães, gatos e coelhos brincando às margens de uma lagoa.

— Que demais esse lugar! – disse Ioan.

— Show mesmo! Não conhecia isso aqui – comentou Colomano.

— Dizem que os lanches deles são os melhores da região.

— Também fiquei sabendo disso. Veremos se é verdade.

Lá dentro, a iluminação não era das melhores. Intencional. Os fregueses comiam como se não houvesse amanhã. Normal. Ian e Colomano foram ignorados. Ninguém se importava com quem entrava ou saía. Sem piscar, um homem com um lanche desmesurado entre as mãos o devorava; vez ou outra, roçando a língua pela carne malpassada.

— Delícia! – monologou, ignorando as pessoas à sua volta.

— Tem sangue na roupa daquele homem, e não é pouco. Será que ele sabe disso?

— Não tenho a mínima ideia. Seria uma boa avisá-lo?

— Pode ser.

Ioan se aproximou, cutucou o ombro do homenzarrão e ouviu um grunhido.

— Senhor, com licença, me perdoe a intromissão, mas só quero avisar que tem sangue na sua roupa.

— É?

— Sim…

Nenhuma palavra, risos, bafo quente. O homem virou as costas e continuou mastigando.

— Parece que as pessoas aqui só querem comer. Nada mais importa.

— Bom, isso aqui é uma lanchonete, não é mesmo? — ironizou Colomano.

— Pois é…

Diante de uma mesa, Ioan pegou o cardápio. Grande variedade de carnes. De cavalo a jacaré. Na última página, um aviso – “Conseguimos qualquer tipo de carne, independente de espécie.”

— Isso é interessante — concluiu Colomano.

Ao lado da descrição de cada lanche havia sugestões de abate, de como garantir que as partes mais nobres da carne não sejam maculadas durante e após a execução de cada animal.

— O que significa isso? E essas ilustrações de abate? Isso é realmente estranho — reclamou Ioan.

— Será? Acho que não. Me parece algo bem honesto, diferente do que vemos por aí.

— Sei lá, cara! Isso parece demais pra minha cabeça.

Em uma vitrola perto do balcão tocava “Everybody Hurts”, do REM, enquanto os fregueses comiam. “When you’re sure you’ve had enough of this life…Hang on.”

— Boa noite. Sejam bem-vindos ao Mata Come. O que vocês desejam?

— Falaram que é possível comer à vontade e de graça neste lugar. Não vou negar que foi isso que trouxe a gente aqui.

— Ah sim! Esplêndido! Já sabem como funciona?

— Não… – responderam ao mesmo tempo.

— Pois bem! O que vocês vão querer?

— É simples assim? – questionou Ioan.

— Esse é o primeiro passo – respondeu o garçom.

— Ah…ok.

— Quero um X-Vitela. Ele vem mesmo com 300 gramas de carne?

— Sim, na opção tradicional, mas nessa modalidade que vocês querem a quantidade de carne é ilimitada.

— Uau! Que maravilha! — comemorou Ioan.

— E você, Colomano?

— Quero algo mais usual. Um X-Filé Mignon vai bem.

— Podem me acompanhar?

— Tudo bem.

Atravessaram a cozinha e caminharam até um galpão bem iluminado com dezenas de divisórias. Grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, torneiras, pias, facas, marretas, sangue fresco e riscos no chão. Não. Nenhuma alucinação.

— Que gritos e gemidos são esses? – perguntou Ioan.

— É o grito da comida, meu senhor, simplesmente o grito da comida. Não se preocupe.

Pios, cacarejos, gorjeios, uivos, assobios, grunhidos, mugidos, latidos, miados, coachos, relinchos.

— Que barulheira! Isso aqui parece uma selva – comentou Colomano.

— Não exatamente. Apenas atendendo o gosto do freguês.

— Me acompanhem, por favor.

Atravessaram um corredor, barulho mais intenso, luzes amarelas, insetos agitados, nenhuma janela.

— Os senhores podem entrar aqui. Aguardem um momento.

O garçom fechou a cortina branca e os deixou sozinhos com um robusto boi acastanhado. Enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, o animal visivelmente dopado mugia com a cabeça escorada em um latão; um mugido sepulcral e fragilizado.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou Ioan já exaltado.

— Vamos esperar – sugeriu calmamente Colomano.

O garçom retornou acompanhado de um peão empurrando um carrinho de mão. As rodas rangiam e as pernas do bezerro tremiam. Tiraram o animal de cima do carrinho e o colocaram no chão. Fraco demais para manter-se em pé.

— O que é isso? – questionou Ioan.

— O X-Vitela.

— Como?

— Isso mesmo!

Sem dizer mais nada, o garçom mostrou um mural com duas opções de execução — MARRETADA OU DEGOLA.

— Aqui no Mate Coma o senhor pode comer à vontade e sem pagar nada se matar o animal usado no recheio do seu lanche. O senhor pediu um X-Vitela e o seu amigo um X-Filé Mignon. Temos aqui um boi e um bezerro. Tudo é feito por nossa conta, menos o abate do animal. Quem deseja começar?

— Isso é loucura! Não posso matar um animal. Nem mesmo posso vê-lo morrer – esbravejou Ioan.

— Mas imagino que o senhor coma carne, não?

— Claro que sim, mas não tomo parte na morte do animal.

— Será?

— Que desaforo! Não vou ficar aqui sendo tratado com desrespeito.

— Acalme-se, Ioan! – sugeriu Colomano.

— O garçom tem razão. Se comemos, matamos, a única diferença é que não golpeamos.

— Você também? Pelo amor de Deus, Colomano! O que está acontecendo com você?

— Ora, nada! Apenas uma fagulha oportuna de sensatez.

— Quer saber? Mate você os dois. Perdi o apetite.

— Que assim seja, meu amigo.

Ioan atravessou o barracão a passos céleres e caminhou em direção à lanchonete. Sentou-se.

Resistente, o boi mugia entre as marretadas de Colomano. Foram 12 para entregar-se ao fim. O sangue escorria pelo piso. Fresco, grosso e escuro — o mousse da morte. Língua de fora, cabeça pesada, olhos vazios.

— Me desculpe, meu amigo, mas agora é a sua vez – falou segurando a cabeça do bezerro caramelo que tremia e se encolhia no canto com olhos vendados.

Um golpe certeiro na garganta o fez deitar e se debater com as patas moles até perecer. Expressão final de terror e desespero. O sangue não parava de jorrar, se misturando ao do boi recém-falecido. Eram como pai e filho, lado a lado, combinando carcaças.

— Parabéns! O senhor não fugiu. Realmente assumiu a responsabilidade — disse o garçom.

— Certo…Que seja! Vai demorar muito para os lanches ficarem prontos?

— Não muito. O senhor pode seguir esse corredor e virar à direita. A última porta é um banheiro. Pode se limpar ou se lavar lá.

— Ok. Obrigado…

Na lanchonete, Ioan não conteve as lágrimas enquanto assistia “Blackfish”, de Gabriela Cowperthwaite.

— Que história mais triste. Meu coração está com você, Tilikum – monologou esfregando as pontas dos dedos nos olhos.

— Sabia que você não iria embora. E aquela conversa de que perdeu o apetite? – indagou Colomano.

— Fiquei mal na hora, mas já passou – justificou Ioan.

— Ah sim. Então tá.

— Os lanches logo serão servidos, inclusive o seu. Vai querer ou não?

— Assim sim.

— Bueno! Bueno!

Quando o garçom retornou com o X-Filé Mignon e o X-Vitela, Ioan e Colomano ficaram extasiados com o que viram. Cada lanche tinha 12 camadas.

— É sempre assim? Com 12 camadas?

— Não. É porque o senhor matou o boi com 12 marretadas.

— Isso foi criativo, devo admitir.

— Podemos comer sem tocar nesse assunto? — reclamou Ioan.

— Ok…ok..ok… — concordou Colomano.

Assim que deu a primeira mordida, Ioan cuspiu um pedaço de lanche no prato.

— Que nojo! Meu Deus do céu! O que tem errado neste lugar?

Colomano também sentiu um gosto estranho na boca e fez o mesmo.

— Garçom, amigo, venha aqui, por favor.

— Isso é extremamente nojento. Horrível! Estou com ânsia de vomito.

— O que houve, meus senhores?

— O que houve?

— Tem um fio de cabelo longo e castanho no meu lanche. Que repugnante!

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





O que vem do bicho é do bicho

leave a comment »

Pintura: Child With Chicken, de Diego Rivera

Na escolinha, a professora Helena falou sobre a relação dos seres humanos com os animais e mostrou dezenas de figuras para os alunos.

— A brincadeira é formar duplas e montar as peças de acordo com o que cada animal oferece de bom para a gente, tudo bem?
— Siiiiiiiiiimmmmmm! – responderam.

Depois de distribuir os quadrinhos de madeira para as crianças, a professora percebeu que Rubinho preferiu ficar sentado em um canto.

— O que foi, Rubinho? Você está passando mal? Sentindo alguma dor?
— Não…
— O que houve?
— Estou triste só…não quero brincar.
— Mas por que não? Você sempre amou brincadeiras envolvendo animais.
— Dessa eu não gostei.
— O quê?
— Esse jogo é de enganar.
— Como?
— Ah, não fala a verdade e quase todo mundo acredita.
— Qual é a verdade?
— Enquanto a gente se diverte os animais sofrem, e quase ninguém liga.
— Como assim, Rubinho?
— Ah, tia. Você falou que o boi, o frango, o porco e o peixe dão a carne; que a vaca dá o leite, a galinha dá o ovo e a abelha dá o mel. Isso não é certo…
— Por que você acha isso?
— Porque eles não dão nada pra gente, tia. Eles morrem, ficam presos ou sofrem por causa disso. É errado. Um dia, o vovô quase matou uma galinha na nossa frente. Ela se balançava e tentava escapar, com as perninhas pro ar. Fazia um barulhinho tão triste com o bico. Eu e a Marcelinha choramos e o vovô soltou ela. O chão ficou forrado de pena. Tadinha, se escondeu no galinheiro e começou a fazer um sonzinho esquisito. Acho que ela tava chorando. Ele ia matar ela só pra fazer galinha ao molho.
— A vida deles é essa, Rubinho.
— Mas não precisa, né? Eu e a Marcelinha não comemos carne, a gente nem sente falta. Tô vivo aqui. Ela também.
— Tudo bem, Rubinho. Mas não tem problema em tomar leite e consumir os ovos da galinha e o mel da abelha.
— Acho que tem sim, tia. Até o ano passado, o leite da minha mãe era meu. Então o leite da vaca é do bezerrinho até acabar. Não acho certo tomar o leite que é dele.
— Mas e os ovos e o mel?
— Ah, tia, não como nada de bicho não. O que vem do bicho é do bicho. Acho que se fosse pra mim ele me oferecia.
— É, Rubinho. Não posso negar que você tem um bom argumento.
— A gente não precisa de nada disso. Tem tanta coisa gostosa pra gente comer sem judiar de ninguém.
— Eu acredito.
— Minha mãe faz bolo, torta, pão, sorvete, tudo isso sem nada dos bichinhos.
— Sério?
— É sim. Na semana que vem vou trazer um bolo bem fofinho pra todo mundo experimentar.
— Traga sim. Tenho certeza de que vamos adorar.

Rubinho desfez o semblante tristonho, sorriu, abriu o caderno e mostrou um desenho para a professora. Um homem idoso soltava um peixe em um rio. Ao seu lado, havia um cão, um boi, um porco, uma cabra e uma galinha.

— Quem é esse?
— É o vovô, ele não come mais carne.
— Que legal! Então você conseguiu mudar a cabeça do vovô?
— Sim…no ano passado.
— Isso é incrível! Você deve ter ficado muito feliz.
— Fiquei sim!
— Muito bom, Rubinho! Parabéns!
Ah, tia. Aquela hora eu falei que os animais não dão nada pra gente. Eles dão sim.
— O quê, Rubinho?
— Eles dão lição de vida.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





“Me vê um pedaço daquele cadáver ali”

leave a comment »

Vintage Poster – A Trip To The Butcher Shop

Um senhor, o primeiro da fila que se estendia por mais de 50 metros, se aproximou do açougueiro.

— Me vê um pedaço daquele cadáver ali.
— Como?
— Aquele pedaço de bicho morto pendurado no gancho. Gostei daquele – falou apontando para uma costela bovina bem visível sob a vitrine.
— Que absurdo! O senhor não tem a mínima educação com a comida – disse uma senhora.
— Que homem grosseiro! Nojento! – comentou uma moça.
— Quer aparecer, irmão? Amarre uma melancia no pescoço – criticou um rapaz.
— E o que vocês pensam que estamos comprando aqui? Nada mais do que bicho morto. Ou vocês acham que esses pedaços de carne brotaram da terra? São cadáveres, ora! Deliciosos, mas ainda assim cadáveres.

Durante a discussão, algumas pessoas se entreolharam chocadas e saíram da fila sem dizer palavra.

— Mas o senhor não precisa falar assim — reclamou outra mulher.
— Falo a realidade, minha senhora, só a realidade.
— Quanto o senhor quer? — perguntou o açougueiro.
— Não tenho certeza. Quanto custa o quilo dessa morte?

O açougueiro respondeu e o homem acenou com a cabeça.

— O senhor deseja mais alguma coisa?
— Verei.
— Assassinaram esse leitãozinho aqui fora de época, meu amigo. Esse aqui deve ter uns dez dias pelo que vejo. Deu tempo de desmamar? Acredite, não deu. Coitado! Vocês compraram de quem?
— Não posso fornecer essa informação, senhor. Teria que ver isso com a gerência.
— Ok…obrigado.

Enquanto o homem deslizava os dedos pela vitrine levemente embaçada, observando outros tipos de carne, uma criança começou a chorar.

— Mãe, aquela carne na bandeja é bicho morto, cadáver? O que aquele homem disse é verdade?
— Não, filhinha, não é não. Ele estava brincando.
— Como, senhora? Brincando? Pra que mentir para as crianças? Se comemos, temos que comer com consciência, sem mentiras. Se compro e como é porque alguém mata a bicharada por minha causa, por sua causa, por causa de todo mundo nesta fila. Não temos porque iludir os pequenos. Os matadouros vivem lotados graças a nós.
— Seu velho grosso e sem noção!

Depois de tapar brevemente os ouvidos da filha, a mulher a pegou pela mão e a levou para longe do açougue, em direção ao setor de hortifruti.

— O senhor vai afastar toda a freguesia — comentou um rapaz.
— Amigo, desde que cheguei neste açougue só falei verdades. Não fui rude nenhuma vez. Fui honesto apenas. Não é culpa minha se tem gente que rejeita a realidade.
— Mas não tem porque se referir à carne dessa forma tão sombria…
— Não tem nada sombrio aqui, meu jovem. Sombrio é o que acontece nos matadouros. Mas o que os olhos não veem o coração não sente, não é mesmo? Ou até sente, mas não se importa. Afinal, depende de quem falamos, concorda?
— Sei lá!

Quando o homem deixou o açougue, havia poucas pessoas na fila, e um silêncio desconfortável tomou conta do lugar. Sem olhar para trás, passou na padaria, pediu alguns pães e caminhou até o caixa. No estacionamento, um segurança chamou-lhe a atenção.

— O senhor pode me acompanhar, por favor?
— Tudo bem!

Após uma curta caminhada, entraram em um escritório, onde foram recebido pelo gerente.

— Boa tarde. Tudo bem?
— Sim e o senhor?
— Estou bem também. Obrigado por perguntar – respondeu o cliente.
— Quero pedir um favor ao senhor.
— Diga.
— O senhor causou um alvoroço no açougue. Seria possível não fazer mais isso?
— Como?
— O senhor falando em cadáveres, bicho morto, matadouro, assustando a freguesia. Não trabalhamos assim e não aceitamos isso.
— Como assim? É apenas a realidade, sem eufemismos.
— Sim, mas isso é inaceitável, não está dentro dos nossos padrões, e as pessoas não gostam disso.
— Mas não falo dessa forma para que as pessoas gostem de mim ou do que falo. Não busco aplausos. Respeito sua política de trabalho, mas não sigo padrões. Afinal, sou cliente, não funcionário. Entenda, não desrespeitei ninguém.
— O que o senhor ganha agindo assim?
— Ao ser consciente das minhas ações, e dividir isso com os outros? Não sei…talvez um pouco de honestidade e menos permissividade. Afinal, refugiar-se na ilusão também pode ser uma forma de abraçar a exclusão.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





O homem e o urubu

leave a comment »

“Tens razão, e admito que sou comedor de carniça. Admitir isso é sensato”

Um humano ficou enojado quando viu um urubu comendo carniça na beira da estrada. Se aproximou e tentou bater no animal com um galho caído sobre o asfalto quente.

— Saia daí, seu carniceiro. Fique longe desse cadáver.

Para a surpresa do homem, o urubu continuou se alimentando do cãozinho atropelado. Até que incomodado com os berros do homem, virou-se em sua direção.

— Os seus atropelam o cachorro por falta de atenção e indiferença, o que resta é somente a carne que jaz, sem vida, e você vem me dar sermão? Quem é você?
— Que isso! Que isso! O urubu tá falando!
— Estou sim! E daí?
— Pare de comer esse bicho aí. Deixe ele em paz. Vou enterrar ele naquele mato ali.
— Para quê e por quê? O que restou aí é alimento para os meus. Dependemos disso pra sobreviver. E a vida que existiu ali já se foi há muito tempo.
— Não! Não! Não posso deixar você fazer isso.
— O quê?
— Isso é muito nojento.
— Nojento?
— E a carne que vocês comem, não é? Deixe os animais apodrecendo sobre o solo e veremos se existe alguma diferença entre esse cachorro deitado sobre o asfalto e aqueles que vocês matam sem necessidade.
— Sem necessidade? Você é uma piada!
— Não, senhor. Somos realmente carnívoros, e não matamos animais e nos alimentamos deles para além da nossa necessidade. Comemos para viver, não vivemos para comer. Considere também o fato de que vocês são incapazes de se alimentar da carne em estado natural, o que é chocante para nós carnívoros. Isso não existe. Comemos o que está à nossa disposição e como nos foi ofertado, sem máscaras, ou seja, sem fogo, sem tempero. Respeitamos a natureza.
— Você é louco! Louco!
— Talvez, se estamos falando de um mundo onde ser normal é matar para agradar o paladar.
— Pelo menos não como nada do chão.
— O cachorro que morreu por uma fatalidade se incomodaria menos de ser comido por nós nessa situação do que os animais que vocês agradam para depois matar em atitude traiçoeira. Afinal, o que tem de glorioso em abraçar antes de golpear? Sejamos honestos, meu amigo.
— Não vou perder meu tempo discutindo com um comedor de carniça.
— Poderia dizer o mesmo de você, já que nós dois nos fartamos da carniça de seres que viviam.
— Eu não. Você! Você! Só você!
— Tens razão, e admito que sou comedor de carniça. Admitir isso é sensato. Mas por que levanta a voz, range os dentes e demonstra tanto incômodo e desconforto? Examine a sua consciência, pois a minha resplandece tranquila – disse o Urubu antes de continuar se alimentando do cãozinho.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





“Também num gosto de carne”

leave a comment »

Pintura: Xueling Zou

Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.

— Qual é o seu nome, tio?

— David e o seu?

— Bruno…

— Você é forte, né, tio?

— Eu tento…

— É sim!

— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…

— Por que você acha isso?

— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.

— Não como não…

— É?

— É sim…

— Não precisa?

— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.

— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.

A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:

— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.

Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

June 6, 2017 at 3:19 pm

As exigências da formiga-faraó

leave a comment »

“Você é lerdo e cabuloso, hein? A gente quer açúcar cristal, cara!”

Ela gesticulava e falava comigo enquanto movia suas antenas

Acordei antes das seis horas ouvindo um som estranho no quarto. Como eu estava muito sonolento, não consegui identificar a origem. Eu só queria dormir mais um pouco. Mas o som persistiu, até que reconheci uma voz ecoando. Abri os olhos e não entendi de onde vinha aquela algazarra. Parecia tão próxima e ao mesmo tempo tão distante de mim. Pensei que estivesse imaginando coisa, até que alguém berrou:

— Acorda, lazarento! Acorda! Vamos! Acorde!

Virei o rosto para o outro lado e não vi nada.

— Aqui, trouxa! Pra onde você está olhando? Você é cego, otário?

Então vi uma formiga-faraó em cima da cômoda. Ela gesticulava e falava comigo enquanto movia suas antenas.

— Que isso? Que loucura! — falei esfregando as mãos contra os olhos e dando tapinhas na minha própria testa.

— Estou aqui sim, mané! Não adianta esfregar a mão na cara. Não vou desaparecer enquanto não conseguir o que quero, certo?

— Como assim. Você quer o quê? E como você está falando? Como isso é possível?

— Olhe, cara! Vamos parar com essa lorota porque não tenho tempo a perder. Como falo ou deixo de falar não interessa. A real é que você tem sido um desgraçado, cara. E isso não pode continuar assim.

— Desgraçado? Eu? Como? Nunca fiz nada contra formigas.

— Eu sei, cara! Você é vegano e todo aquele blá blá blá. Mas o negócio é o seguinte: Sei que você não come açúcar, mas e nós, seu egoísta? Você pensou na gente quando parou de comprar açúcar? Outra coisa, você acha que a gente gosta de açúcar de coco, açúcar demerara… Mano, a gente gosta de açúcar cristal. O mascavo ainda vai, mas não venha mais com esse açúcar de coco, cara. A gente gosta do branco reluzente.

— E onde eu entro nessa história?

— Você é lerdo e cabuloso, hein? A gente quer açúcar cristal, cara! Você vai ter que comprar, e se não atender nosso pedido, pode se preparar. Estamos espalhadas por todos os cômodos da sua casa. Você não tem noção, mano, do estrago que a gente consegue fazer em um dia. Estamos atrás dos rodapés, no forro, em todas as frestas da casa, nos armários, nas dobras das roupas. Não tem pra onde fugir.

— Mas por que tanta maldade?

— Maldade? Tem maldade nenhuma, irmão. É a lei da sobrevivência.

— Entendi. Vou dar um jeito nisso. Mas posso saber de onde vocês vieram?

— Viemos daqui, cara. Meus ancestrais já moravam aqui antes de você e dos seus.

— É? Sério?

— Não! Mentira! Claro que sim.

— Hum…Por que esse mau humor?

— Por causa da abstinência. Tem nada doce por aqui e a gente precisa de açúcar, cara. Já viu alguém feliz com fome? Você fica feliz com fome?

— Não…

— Então, pergunta respondida!

— Posso fazer outra pergunta?

— Caramba, mano! Mais uma? Tá! Manda lá!

— Por que chamam vocês de formiga-faraó?

— Ah! É isso? Beleza!

A formiga saltou em cima da cama, escalou o meu braço, subiu em meu ombro esquerdo e me observou por um instante.

— Louco demais! Essa barba dá um ninho da hora! A gente pode morar aí?

— Claro que não!

— Por que não, cara? Um ajuda o outro. A gente até estica ela pra você, dá mais volume; e ainda come as sobras de comida e alinha seu bigode. Fora que com a nossa presença ela ganha um tom de luzes do tipo caramelo.

— Sai fora!

— Beleza! Mas a permuta é boa e o azar é seu. Perdeu a chance de veganizar umas formigas.

— Me diga por que realmente chamam vocês de formiga-faraó.

— Ah! De novo isso? Ok!

— Meus ancestrais diziam que um dia um grande faraó decidiu banir as formigas do Egito. Ele começou proibindo a fabricação de açúcar e a importação de açúcar da Índia por um longo período. Uma de nós apareceu pra ele, assim como estou fazendo agora, e tentou dialogar. Ele não aceitou o acordo. Então elas comeram o faraó.

— Nossa! Sério isso?

— Sim…talvez…Claro que não, né?

Com a visão ligeiramente turva, cocei os olhos mais uma vez. Quando olhei para o meu ombro, a formiga tinha desaparecido. Minutos depois, meu celular tocou.

— Você estava dormindo? Estou te ligando há mais de dez minutos e você não atende — reclamou meu irmão.

— É…acho que sim.

Por via das dúvidas, esperei o mercado abrir, comprei cinco quilos de açúcar cristal e guardei no armário.

 

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

May 20, 2017 at 9:44 pm

Beijos ao acaso

leave a comment »

Praça do Teatro Municipal, onde nos beijamos (Foto: Elessandro Almeida)

Durante um espetáculo no Teatro Municipal, sentei sozinho nas últimas poltronas, como de costume. Gosto do silêncio da plateia e da ampla perspectiva do palco. Assim que me levantei, esbarrei em uma moça. Era muito bonita. Me desculpei e ela perguntou se poderia sentar ao meu lado.

— Sim, fique à vontade.

Trocamos alguns olhares que se encontravam e outros que se desencontravam.

— Quer sair daqui? — ela perguntou.

— Como?

— Dar uns beijos…

— Onde?

— Lá fora.

— Pode ser. Vamos aí.

Ela sorriu, deu um puxão na minha barba e saiu na minha frente. Fui atrás dela e nos encontramos lá fora. Não havia ninguém além de nós. A praça não estava tão clara, mas uma luz amarelecida e vacilante iluminava nossas cabeças. Nos beijamos por alguns minutos, espreitando a movimentação.

— Vamos lá pra casa – ela disse.

— Será que é uma boa? Não nos conhecemos direito…

— É sim. Você vai gostar. Relaxa…

— Ok…

Chegando lá, encontramos a família toda na sala. Provavelmente 10 a 12 pessoas. Ela perguntou meu nome na frente do pai e da mãe. Respondi naturalmente enquanto coçava a barba.

— Você não é brasileiro, é? — perguntou o homem.

— Não…

— Sabia! Com essa cara…

— Hum…

— Vamos lá pra varanda — ela sugeriu.

Nos beijamos um pouco mais, até que começamos a nos estranhar. Depois de meia hora, os olhos dela não eram mais os mesmos. Àquela altura, percebi que não tínhamos nada em comum, a não ser tempo ocioso. Ela me observou e disse:

— Você é muito barbudo. A gente podia cortar um pouco. Vou pegar a tesoura.

— Que isso? De jeito nenhum!

— Olhe, meu amor, se quiser namorar tem que ser do meu jeito…

— Como assim namorar? Quem aqui está falando em namoro?

— Como não, seu filho da puta? Você acha que é bom demais pra mim? É isso?

— De jeito nenhum. Você é incrível. Acho apenas que não estamos namorando…

— Como? Gostou de beijar, não gostou? Agora tem que seguir o riscado.

—Que isso, moça! Que riscado? – questionei com o coração palpitando.

— Você acha que é assim?

— Nos conhecemos, sei lá, acho que não tem mais de 40, 45 minutos…

— Não interessa. Você aceitou conhecer meus pais. Eles estão de prova.

Subitamente, ela gritou e o velho apareceu segurando um facão. O imaginei vindo para cima de mim arrastando a lâmina no piso e saltando com o facão apontado para a minha garganta.

— Quer um pedaço de cana? Estou rachando agora — perguntou o homem.

— Não, senhor, mas muito obrigado pela gentileza — respondi tentando esconder o suor das mãos que tremulavam.

O velho piscou e voltou para dentro da casa sem dizer nada. Ela continuou furiosa.

Falei que era melhor eu ir embora.

— Amanhã você vem que horas me ver?

— Não moro aqui.

— Mas você volta, né?

— Volto sim.

— Sendo assim, vou confiar na sua palavra.

Por garantia, passei três meses escondido dentro de casa.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

May 10, 2017 at 1:48 pm

Fogo no matadouro

leave a comment »

O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim

Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria (Arte: G.D.St. John)

Escuto a chuva. Não é violenta, até que é calma. Começou a esfriar ontem. Não faz diferença. Aqui dentro poucas coisas importam. Minha mente continua lá fora; dizem que com o tempo você se acostuma. Será? Não sei, vou vivendo como dá. Eu poderia morrer agora, mas por eles prefiro viver, não vou dar esse prazer. Falaram que vou apodrecer aqui, que jamais vou ganhar a liberdade. Faz sentido, só que é estranho porque lá fora também é uma prisão.

Louco, psicopata, doente, terrorista, perturbado; me chamam assim agora. O dinheiro tem o poder de garantir esses nomes pra você na mídia. Falsos diagnósticos médicos sempre ajudam. Pagando bem que mal tem, não é mesmo? Inventaram um histórico de instabilidade psicológica e emocional que nunca tive. Sempre fui um cara pacífico, e muita gente virou as costas pelo que fiz. Não me arrependo.

Ah! Sou um risco para a sociedade. Isso é engraçado de se reconhecer quando a sociedade é um risco para si mesma. Autofagia! A sociedade come a si mesma. Ontem, um sujeito mal-encarado veio me visitar. Ajeitou o chapéu de couro de boi sobre a cabeça, cuspiu um naco de fumo em minha direção, levantou os olhos, mostrou os dentes amarelecidos e disse: “A gente tem juiz no bolso e força no Congresso. Você já era, filho da puta! Você não é ninguém!” Mostrei o polegar pra ele, sorri e comentei que se eu tivesse mais tempo teria feito muito mais.

Ficou puto e vi nos seus olhos a vontade de me matar. “Não, cara! Não aqui e agora.” Sugeri que parasse de mascar fumo se não quisesse ficar com os dentes iguais aos do Beetle Juice. Ele não entendeu. Recebi visitas de outros tipos estranhos. Outro dia, mandaram um engravatado me oferecer uma boa grana para entregar meus amigos. Se fosse por dinheiro, eu não teria feito o que fiz.

O dinheiro é a raiz de toda essa desgraça. Não que eu seja contra ganhar dinheiro; sou contra a escravidão que ele gera. Talvez você esteja se perguntando o que fiz para estar neste buraco. Tem gente me apoiando aqui, e acho que se a coisa ficar feia pode ser que eu não esteja sozinho. Neste momento, registro minha história neste papel higiênico.

Tudo começou em 2015, quando eu participava de um fórum na darknet. Havia pessoas de vários estados do Brasil. Era um grupo de ativistas pelos direitos animais. Nosso lance era ciberativismo mesmo. A gente se articulava por lá e produzia textos e vídeos para rebater falácias especistas e conscientizar as pessoas sobre a indústria da exploração animal. Era legal, mas chegou um momento em que tudo aquilo começou a parecer pouco, muito pouco.

Afinal, qual é o propósito de dedicar tanto tempo a algo que proporcione poucos resultados? A gente queria mais, muito mais. Lembrei da lei de Thelema, do Aleister Crowley dizendo “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei.” Não demoraria; a gente faria. “Porra, vamos colocar fogo no mundo, cara!”, disse Nikolai. Figura de expressão, hipérbole. Sim, não no mundo, mas algo iria queimar, com certeza. Tínhamos pessoas o suficiente para fazer isso acontecer. Amadores com corações profissionais, isso nos define até hoje.

Acordamos de madrugada naquele domingo e nos dividimos em dois carros e um caminhão. Dirigimos pouco mais de 150 quilômetros até chegarmos ao nosso destino – um dos maiores matadouros do Sul do Brasil, situado em uma área rural, ladeado por uma lagoa com a água mais suja que já vi em toda a minha vida.

Senti náuseas diante do odor intenso daquele depósito de lixo flutuante. Restos de animais, fezes, resíduos químicos e outras porcarias se misturavam enquanto a água espumava e esfumaçava como um cenário de um filme do Ed Wood ou da Troma. “Que diabos é isso?”, perguntou Sonia.

Não sei se aquilo era normal ou se tinha acontecido algum acidente, mas o solo estava carcomido por algum tipo de podridão. Fedia absurdamente, banhado por um líquido nojento e pegajoso que emborcava lá longe, em uma nascente. Matava tudo que inspirava vida, desde a menor até a maior das plantas. Tudo naquele inferno inspirava à morte. E estávamos lá por isso.

Quando vi um homem parado no portão, caminhei até ele. Não subornei ninguém, senão seríamos tão sujos quanto qualquer um que vive da degradação social. “Seja como nós, ou seja contra nós”, concluí coçando a nuca. Acenei minha cabeça e Borges retribuiu a cordialidade:

— O senhor sabe o que a gente veio fazer aqui.

— Sei sim.

— E está bem com isso?

— Sim, faça o que tiver que fazer. Falei com os outros, já desativaram todo o sistema de segurança.

Borges era o chefe da segurança, e também tio de Juliane, nossa amiga. Quando ele assobiou, três seguranças acenaram positivamente com a cabeça; caminhamos matadouro adentro. Não era limpo como a TV, os jornais, os vídeos institucionais e os folders mostravam. Talvez improvisassem bons ângulos, vai saber.

Conforme eu andava, o ar pesava, uma energia ruim que emanava daquele ambiente onde entrava a vida e saía pedaços de morte bem embalados. O matadouro tinha muros extremamente altos, como uma fortaleza. Imaginei os gregos invadindo o lugar dentro do Cavalo de Troia.

Do lado de fora, era impossível ver o que acontecia lá dentro. Enquanto Eu, Nikolai, Sonia e Juliane entramos, Marcelo, Roberto, Lúcia e Bruna percorreram as imediações, para se certificarem de que não havia nenhum animal, humano ou não, por perto.

Azulejo branco nas paredes e piso vermelho por onde escorria o sangue dos inocentes. Corredores estreitos, plataformas, grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, ferrugem, torneiras, pias de lata, pistolas, facas, tubos, marretas, escadas, sangue seco, riscos no chão – marcas de luta; campos de concentração aprovados pela humanidade e legitimados pela legislação.

As dependências vazias contavam histórias de terror e medo. Borges relatou que milhões de animais morreram naquele lugar. Muitos resistiam em vão. Ele tinha razão. Ouvi porcos se contorcendo e grunhindo, presos aos grilhões enquanto o sangue quente jorrava. Famílias de bois, vacas e bezerros, assassinados em espaços diferentes – mortes sempre solitárias. Nenhum deles queria morrer; ninguém queria reconhecer.

Como podemos comer algo que um dia teve pernas para fugir, olhos e ouvidos para assistir e ouvir o próprio fim? Algo que um dia fez parte de alguém que sentiu calor, frio, fome e sede como nós mesmos; que não teve a oportunidade de viver o suficiente para descobrir algum prazer em existir, porque foi forçado a sucumbir. Morrer cedo demais é algo que animal nenhum deseja ou espera – jamais.

Poderíamos ter provocado um incêndio no departamento de expedição, causando uma pane no painel de controle da esteira que conduz os pedaços de cadáveres que eles chamam de produtos. Mas então não teríamos como mensurar a proporção do estrago. Não! Tinha que ser feito à moda antiga.

Descarregamos galões de querosene e derramamos sem economia por todos os espaços. Alguns de nós gargalhavam e entoavam: “Para aqueles que só o que pesa no bolso pesa na consciência, ignorando dos mais fracos a capacidade de senciência.” Ficamos em silêncio e terminamos de despejar os últimos litros de querosene pelas dependências.

O odor não era agradável. Pelo menos mascarava a gelada fedentina de morte. Pedi que os outros saíssem do matadouro e me esperassem na entrada. Me ajoelhei, inclinei a cabeça em direção ao chão e falei: “Que vocês me perdoem por tudo que não fiz.”

Acendi um coquetel molotov e arremessei com força, fazendo a garrafa atravessar dezenas de metros antes de explodir em chamas, como um pássaro dourado ganhando a liberdade. O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim.

Borges e os seguranças já tinham partido. Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria. Assim que o prédio começou a desmoronar, Marcelo confirmou que não havia ninguém nas imediações. E o tempo previsto para a chegada do Corpo de Bombeiros não poderia ser outro – somente quando as chamas deitassem a última fundação.

Talvez tenha sido o maior espetáculo de nossas vidas. Afinal, ninguém dança melhor que o fogo, especialmente quando suplanta a crueldade humana contra outras espécies. Ele é livre, mais do que nós na nossa incompletude existencial que perpetuamos por arrogância e pedantismo.

— Sentimos muito pelas pessoas que podem ficar desempregadas, mas ninguém deveria se profissionalizar em tirar vidas. Isso destrói o outro e você, mesmo que você não perceba – declarou Sonia.

— É, não acho que alguém consiga ser feliz trabalhando num lugar desgraçado desse, ainda mais num ambiente onde se gera mais morte do que emprego; e menos ainda qualidade de vida – acrescentou Lúcia.

Fomos embora, não crentes de que estávamos salvando o mundo, mas acreditando que uma mensagem foi dada – nem todos abaixam a cabeça ou se mantêm calados diante da intransigência humana, de suas ações desnecessárias, caprichosas e gananciosas.

Me entreguei à polícia no dia seguinte, e insisti para que ninguém fizesse o mesmo. Se eu não me entregasse, provavelmente as pessoas não saberiam o que de fato aconteceu no matadouro. Ah! Matérias capciosas dizem que sou um piromaníaco, desequilibrado; alguém sem qualquer motivação. A mídia independente e as redes sociais estão aí para provar o contrário.

Ainda não fui a julgamento. Faz dois meses que estou em prisão preventiva. Muita gente se afastou de mim; naturalmente, pessoas que não me fazem falta. Os poucos e bons amigos me trazem notícias. Fiquei sabendo que mais 32 matadouros foram incendiados até agora. Não sei onde e quando. Ninguém se feriu ou morreu. Isso é bom. Dizem que sou o mentor intelectual. Isso é ruim. A única coisa que fiz foi mostrar que hoje não é ontem, e que o fogo também representa o renascimento daquilo que amortece o desconhecimento.

É. Há muito tempo, tive um pesadelo em que eu era um boi indo para um matadouro. A diferença é que eu era um bovino com consciência humana – prestes a morrer e incapaz de verbalizar meu desespero. E tudo isso intensificou ainda mais meu medo. Se todas as pessoas tivessem esse pesadelo, acho que teríamos grandes mudanças. Só vou deixar de ter esperanças quando eu morrer, porque sem esperança acredito que não há pelo que viver.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Joana do Matadouro

leave a comment »

Um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana

“Um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana”

Enquanto as crianças choravam, Joana abriu a porta da geladeira e viu que não havia nada lá dentro, a não ser um pouco de água em uma garrafa pet. Ela já sabia disso, mas talvez por motivo de fé acreditasse que uma porção de alimentos pudesse brotar da porta. Ou, quem sabe, das planas divisórias de plástico, iluminadas por uma lâmpada que tremulava, ameaçando se apagar completamente a qualquer momento, assim como sua própria vida.

Com as mãos no rosto, sentiu o palato arder e se esforçou para não gritar e esmurrar a parede com o pouco de força que restara. Não teve coragem de pedir novamente ao vizinho que “emprestasse” uma xícara de arroz e feijão. Quando o silêncio tomou conta da casa, ela sabia que as crianças já estavam dormindo:

— Eu morreria aqui agora pela salvação dos meus filhos. Eles não merecem sofrer por minha causa – balbuciou diante de uma vela, a única luz da casa após o corte de energia elétrica no final da tarde.

Depois de receber cesta básica por três meses, Joana não tinha mais a quem recorrer, e por ter sido abandonada, muitos a culpavam, dizendo que ela era um fracasso como mulher – “incapaz de atender as necessidades do marido”. Quando saía às ruas, vez ou outra ouvia alguma ofensa. Em vez de reagir, ela ignorava. Preferia se preocupar somente com os filhos, e deixar que a vida se encarregasse do resto.

Em uma tarde de domingo, o vizinho João Batista contou que abriram uma vaga no Frigorífico Areia Nova, onde ele trabalhava como motorista há mais de dez anos.

— Só que é na linha de abate, serviço que pode ser desagradável e pesado às vezes. O salário não é dos melhores, mas já é alguma coisa. Se for do seu interesse, posso levar a senhora lá.

Com a experiência de quem já trabalhou no corte de cana e na colheita de mandioca, a palavra “pesado” não assustava ou incomodava Joana, mas sim a ideia de matar animais para sobreviver. Por isso, hesitou por dois dias até concordar em participar do treinamento na linha de abate.

Em uma manhã, pegou carona com João Batista, e na cabine do caminhão sentiu um estranho cheiro agridoce. Notando a reação, o vizinho explicou:

— Deram nos córneos dum boi fujão aí que a gente foi buscar lá pelas bandas da Pedra Gaiteira. Ele não queria vir por bem, tivemo que arrasta na pancada. Quando deitou lá atrás, já tava desmaiado. A boca do bicho sangrou que nem bica de mina. Nunca vi coisa igual. Só machucaram a cabeça; deram choque nele. Não podia exagerar pra não estragar o couro. Agora esse cheiro que ficou aí é dele, e taí pra mais de semana. Não sei se a senhora acredita em sortilégio, mas acho que esse bicho morreu antes da hora, e o sangue taí pra lembrar a gente toda hora.

Joana não disse nada, mas sentiu um calafrio que começou na ponta dos pés e terminou na nuca. “A morte nunca cheira bem”, ecoou na sua consciência. O silêncio foi mantido até a chegada ao matadouro, onde outros caminhões estacionaram para descarregar a boiada.

Joana testemunhou os passos lentos e pesados da manada, que parecia um cortejo fúnebre. Nunca tinha visto de perto tantos animais reunidos em um mesmo lugar. Em pouco tempo, todos estariam mortos; incapazes de sentir o frescor da manhã outonal, de trocar olhares com os seus, ou de simplesmente matar a sede que já não existiria mais. Seria o fim de tudo que se movia sob quatro patas naquele pedaço de terra vermelha onde diziam que tudo dava, menos o direito à vida bovina.

Sob ordens humanas, e em meio a olhares mecânicos, naturalizados pela prática cotidiana, pouco a pouco o gado seguiu até um corredor relativamente estreito – de vinte metros de comprimento e quatro metros de largura. “Se fosse gente, já estariam dando com os cotovelos um no outro. Que lugarzinho apertado”, comentou Joana com João Batista, que respondeu com um sorriso amarelecido.

Daquele lugar, nenhum dos bois corpulentos fugiria. Seria preciso machucar um companheiro para conseguir algum espaço; e nenhum deles parecia disposto a ferir alguém. A boiada continuou atravessando o corredor. Conforme os animais desapareciam da fila, mais adiante ouvia-se barulhos estranhos de metais, algo se chocando contra o piso, alguns mugidos curtos e outros mais longos.

Sem tempo para cordialidades, um dos encarregados gritou o nome de Joana e falou que se ela quisesse o trabalho teria que acompanhá-lo. “Seu trabalho aqui vai ser na caixa, mas antes veremos como você se sai no treinamento”, avisou Oliveira, o responsável pelos magarefes. Ela o seguiu até um local, onde um boi branco foi colocado dentro de um caixote. Quando o animal entrou, ele olhou para Joana e, sensibilizada, ela desviou os olhos. “Você tem que ver o serviço. É pra isso que você tá aqui, não é não?”, questionou o encarregado.

Ele mostrou uma pistola para Joana e disse que o processo é bem simples, mas é preciso atingir o ponto certo no crânio do boi. “É nessa altura aqui, tá vendo? Nem pra cá, nem pra lá. Não tem segredo. É um serviço quase sempre limpo.” Enquanto Joana prestava atenção, o boi recebeu um tiro de pistola disparado por Oliveira. Depois que o dardo atravessou o cérebro do animal, ele deu um mugido lamurioso e desabou no chão, fazendo a caixa tremer.

— Seu serviço basicamente é esse. Colocar o bicho pra dormir. O resto é com a outra equipe. A não ser que você queira colocar a mão na massa. O que acha?

— Não, senhor — respondeu, se esforçando para velar o impacto que aquela cena teve sobre ela.

Depois de conhecer todas as etapas do trabalho no matadouro, e de ser aprovada no treinamento, Joana foi contratada na semana seguinte. O salário de mil e trezentos reais custaria muitas mortes ao final do mês. Para não pensar tanto nisso, ela sempre olhava uma foto dos três filhos com idade entre 3 e 6 anos, deixados aos cuidados da avó enquanto trabalhava.

Em uma manhã de segunda-feira, após três semanas de serviço, Joana sabia que seria preciso abater o primeiro boi sem a supervisão de Oliveira. Antes de sair de casa, se ajoelhou diante da cama e orou, pedindo a Deus que garantisse que tudo corresse bem em mais um dia de trabalho.

Como de costume, Joana assistiu mais uma vez a chegada da boiada, foi ao banheiro vestir o uniforme e umedeceu o rosto diante do espelho. Estava pálida e assustada. Ainda não tinha se acostumado a segurar uma pistola; nem a testemunhar a queda daqueles dóceis animais que em poucos segundos sucumbiam com os cérebros dilacerados. Não choravam como nós, mas choravam como eles, na quietude da incompreensão, trazendo nos olhos cristalinos a inocência de quem da humanidade espera a redenção.

Tão logo Joana ouviu um barulho, um boi foi empurrado para dentro da caixa. A cena se repetiu muitas vezes naquele dia e em muitos outros. À tarde, um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana. A ausência de som e de movimentos por parte do boi a chocou mais do que se ele tivesse reagido e tentado fugir – porque a mansidão significava que ele confiava nela.

As mãos de Joana tremularam até que ela ouviu um grito ao fundo: “Vamos agilizar isso aí que hoje a fila é grande.” Joana posicionou a pistola e disparou contra a cabeça do animal. O dardo não penetrou o cérebro, mas fez um furo no crânio, por onde o sangue desceu. Longe de se entregar ao próprio fim, o boi começou a mugir e a tentar escapar da caixa, mas não sem antes confrontar os olhos de Joana, mostrando que ele sabia que ela tentou matá-lo. Desesperada, se afastou e começou a gritar por ajuda.

Oliveira interveio e assobiou para dois rapazes. “Deu merda! Deu merda! Vamos! Vamos! Rápido!” Eles entenderam e se apressaram carregando duas marretas. Mandaram Joana se afastar e intercalaram marretadas na cabeça do boi. Agitado, respingava sangue e mugia como se sua vida dependesse dos seus berros. Diante da cena, e do boi lutando para sobreviver mesmo depois de inúmeras pancadas, Joana ficou chocada. Havia sangue em seu uniforme, cabelos e pescoço.

Não conseguia mais negar a si mesma que tinha tomado parte em um tipo nefasto e lancinante de violência. O tiro de pistola, que parecia limpo, até então serviu apenas para mascarar um fato imutável – não há romantismo na morte de quem não quer morrer, independente do método. A constatação fez seu coração disparar. Mais constrangida e abalada do que nunca, se afastou e correu até o banheiro sem pedir autorização. Vomitou tanto que sentiu dores intensas na garganta. Vendo o estado de Joana, Oliveira a dispensou, permitindo que ela fosse para casa.

— Você tem doença, Joana. E não é doença de brincadeira. É coisa séria — disse Oliveira.

— Como assim?

— Você tem a doença do “não matarás”. Pode ir pra casa. Aqui não é lugar pra você. Vou dar um jeito de garantir que você receba o salário do mês pelo seu esforço.

Antes de deixar o matadouro, Joana tomou um banho demorado e, quando terminou, se encolheu nua em um canto. Através do ralo, por onde a água descia, ela viu um pedaço de carne bovina que se liquefazia. Os olhos do boi morto à marretadas a espiavam entre os frisos do ralo. Por minutos, Joana viu tudo girando, mas não conseguiu chorar.

Em casa, à noite, ainda sentia o cheiro agridoce do sangue do boi que respingou em seu corpo. Perguntou aos filhos e à sua mãe se eles notaram algum odor diferente nela, mas ninguém percebeu – só Joana. Depois de um jantar sem carne, caminhou até o quintal e falseou um sorriso ao ver os filhos brincando.

— Olha, mãe! Eu sou o boi Tadinho, o Guilherme é o boi Chorinho e o Gabriel é o boiadeiro Marquinho. A brincadeira é correr e não deixar o boiadeiro pegar a gente — contou Gustavo, o filho mais velho, com expressão doce e quiescente.

Joana simulou mais um sorriso e sentou-se em uma cadeira sob a jabuticabeira. Quando seus filhos e sua mãe dormiram, ela retornou ao quintal, observou o céu estrelado e uma fazenda que começava onde seu bairro terminava. Em seu colo, havia um embrulho. Ela desenrolou um revólver calibre 38.

— Que a justiça seja feita aqui e agora, que meus filhos e minha mãe superem essa perda e que Deus me perdoe por todo o mal que eu fiz.

Joana tirou a arma do colo e colocou o cano gelado dentro da boca. Fechou os olhos e as lágrimas desceram pesadas e silenciosas. Prestes a acionar o gatilho, ouviu um barulho, abriu os olhos e tirou a arma da boca. Um bezerro pardo, que trazia um coraçãozinho branco de pelos no topo da cabeça, começou a lamber a sua mão. Joana guardou o revólver.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Algo brilhava dentro do forno

leave a comment »

Arte: Brasil Pantanal

Algo brilhava dentro do forno, e não era papel alumínio, mas a pele untada de um pintado inteiro que trepidava. Quando o tiraram do forno, toda a gente viu seus olhos vacilantes que respondiam à boquinha tremulante. As únicas partes que não foram marcadas pelo fogo. Ainda tinha vida.

Seu couro parecia envernizado, e quando tentaram tocá-lo, queimaram os dedos. Era o carimbo da natureza, denunciando que cada bolinha no corpo do Pintado representava uma semana de vida que ele já não teria. Enquanto o peixe agonizava, Manuela gritava. Com o barulho, o pintado se lançou no chão da cozinha.

A criança se afastou, e quando alguém ameaçou colocá-lo de novo no forno, Manuela berrou: “Não! Não! Não!” Enrolou o peixe já sem vida em um lençol branco, caminhou até o quintal e o enterrou no jardim, ladeado por um pé de Jasmim. Deu a ele o nome de Querubim, afirmando que quem nasce nadando morre voando.

 

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

April 14, 2017 at 8:10 pm