David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Contos/Short Stories’ Category

Boi Velho

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Quando eu era criança, meu avô me contou a história do Boi Velho, um bovino que viveu por 31 anos em um sítio perto do Povoado de Cristo Rei. Quando jovem, seu nome era Bolgar, mas passou mais da metade de sua vida sendo chamado de Boi Velho. Por causa desse nome, muita gente acreditava que ele nasceu velho.

Bolgar era manso, tão manso que as crianças que viviam na região saíam até uma hora mais cedo de casa para brincar com ele antes de partirem para a escola. Mesmo com a idade avançada, o Boi Velho deitava no pasto e rolava como uma criança sobre o descampado. Às vezes, os garotos tinham que ajudá-lo a tirar o capim que invadia suas narinas.

Seus olhos eram cristalinos; uns dizem que pela idade, outros pela bondade. Um dia, Toninho, uma das crianças que visitava o Boi Velho todos os dias, massageou o pelo do boi, chorou e disse: “Não como mais seus irmãos, Boi Velho. E meus irmãos também vão parar. Prometo pra você!” Uma das crianças entendeu o que Toninho falou para o boi. Outras, não.

— Vocês abraçam o Boi Velho e depois vão comer carne na janta. Vocês tão errado — insistia o menino.
— Errado? Por que errado? — perguntaram.
— Olhe só. O Boi Velho é da mesma carne que vocês comem, que vocês gostam de comer. Vocês já pensaram em fazer churrasco do Boi Velho?
— Claro que não, né? Você é doido? Isso é horrível! Quero não.
— Ué, então não come os outros.
— Humm…

Alguns dos garotos se recordavam das palavras de Toninho, mas logo que chegavam em casa e sentiam o cheiro de carne cozida ou assada, esqueciam completamente. Sempre vencia o paladar, mas Toninho não desistia. Num final de tarde, conversou com Seu Boni e pediu autorização para fazer uma surpresa para os amigos. O velho que cuidou a vida inteira de Bolgar concordou.

— Tá certo. Vá lá — respondeu o velho húngaro.

Toninho chamou o seu tio Magrão para encontrá-los no sábado à tarde no sítio do Seu Boni. Quando os garotos chegaram ao local, Magrão estava afiando uma faca longa com cabo de madeira. Movia a lâmina de um lado para o outro, e de ponta a ponta com destreza.

— Que isso? O que o seu tio tá fazendo, Toninho?
— Não sei. Deixe ele.
— Mas cadê o Boi Velho?
— Sei lá.

Magrão chamou a atenção dos sete garotos que o rodeavam e caminhou até um barracão.

— Vocês fiquem aqui que eu vou preparar a carne pra vocês, tá bom? Sei que vocês gostam muito de carne.
— Quê? Que carne? — questionou Laurinho.

Seguiram Magrão, mas foram impedidos de entrar no barracão. Não era possível ver nada. Só ouvir. Quanta agitação. Havia algo de errado na ausência do Boi Velho.
Golpes. Mugidos. Gemidos. Cascos se batendo contra o chão. Violência. Violência. As crianças começaram a gritar e a chorar.

— O que você tá fazendo com o Boi Velho, tio? Pelo amor de Deus! Não mata ele. Pelo amor de Deus! — suplicavam.
— Por que você não faz nada, Toninho?

Toninho se afastou sem dizer palavra.

— Tá bom! Tá bom! A gente não quer carne. A gente não quer mais saber de carne. Nunca mais vou comer carne. Prometo! Prometo mesmo!
— É verdade, juro!
— É sim, tio! Solta ele!
— Ele é nosso melhor amigo. Faz isso não, tio!
— Tô pegando raiva e nojo de carne. É sério!

Tarde demais. O que tá feito tá feito — gritou Magrão lá de dentro, fazendo sua voz grave e fúnebre ecoar.

Choro. Choro. Choro. Berro. Berro. Berro. Lágrimas. Quando Magrão abriu a porta do barracão, não havia mais ninguém lá dentro. O Boi Velho, que repousava ao lado da mangueira, se levantou e caminhou até as crianças. Lágrimas e risos. Risos e lágrimas. O boi assistiu tudo, imerso na sua mansidão. Correram e o abraçaram. Bolgar caiu no chão feito criança. Nenhum dos garotos comeu carne novamente.

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Tertuliano e a boiada

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Pintura: Roz

Em 1951, meu avô conheceu um rapaz em uma fazenda na Água do Cedro. Seu nome era Tertuliano e ele tinha chegado há pouco tempo do interior de São Paulo para atuar como motorista de caminhão. Seu trabalho era buscar mantimentos para três casas de secos e molhados situadas no centro de Paranavaí. Tertuliano era “meio aéreo”, como diziam, e sempre que tinha algum tempo livre, era visto sentado na cabine do caminhão, apoiado sobre o painel escrevendo em um caderninho.

Um dia, fizeram uma proposta para que ele transportasse uma boiada até um matadouro na saída para Nova Aliança do Ivaí. A missão de Tertuliano era buscar os animais na Fazenda Alto Remanso em Alto Paraná. Precisando de dinheiro, não pensou duas vezes. Quando chegou ao local de manhã, os animais já estavam prontos para partir. Um homem gritou: “Tá no jeito!”

Tertuliano desceu a rampa parda e resistente de madeira e assistiu a boiada a subindo lentamente. Hesitação. Resistência. Um dos animais empacou no limiar da rampa. Quatro peões reuniram forças para que o boi, que tinha apelido de Teimoso, aceitasse o seu malquisto destino. Antes de desaparecer dentro da carroceria, o animal observou Tertuliano. Ele desviava o olhar, mas o boi persistia com seus olhos escuros.

— Você leva esses que depois a gente acerta — disse o administrador da fazenda.
— Sim, senhor.
— Quer que alguém te acompanhe?
— Não. Já tá tudo certo do lado de lá.
— Então tá bom. Pode ir.

Tertuliano subiu na cabine. Antes deu outra olhadela nos bichos. Silêncio desconfortável. O incomodava saber que os animais não reagiam mais. Sem barulho. Não odiavam os seres humanos, nem Deus, se houvesse um para eles.

— Que diacho de vida é essa? Sabe que vai morrer e vai aceitando assim?

Durante o percurso, parou o caminhão na estrada. Circulou pela carroceria e ouviu a respiração ruidosa de um deles.

— Será que tá com medo? — questionou.

Quis subir na carroceria para ver melhor a boiada. Feito. Lá em cima, nenhum deles movia os cascos, mas somente os olhos em sua direção.

— Por que num chora, num grita, num berra, num odeia? — questionou assistindo a boiada.
— Será que cês sabe mesmo pra onde cês vão? Será?
— Talvez sim, talvez não.
— Tô é ficando louco, falando com boi. Melhor seguir viagem.

Demora. Estrada estreita de terra. Animais silvestres atravessando carreadores e se escondendo na mata. Na saída para Nova Aliança do Ivaí, Tertuliano parou o caminhão e observou a pouco mais de 300 metros um barracão onde funcionava o matadouro. Não gostou do que viu. Hora da despedida. Ou não.

Desistiu da entrega. Seguiu viagem. Parou em um sítio em Graciosa, onde comprou ração e pediu água. Dirigiu até o Porto São José. Chegou depois de quatro dias. Em outro sítio, a boiada desceu a rampa sem medo. Deram alguns passos pasto adentro e deitaram sobre a braquiária. Verde, verde, verde. Sol morno. Sem medo.

— Olhe aí, pai! Parece criança.
— E não são? — indagou o velho acendendo um palheiro.

Não perguntou a origem da boiada. Talvez não quisesse saber, ou não tivesse relevância.

— O senhor pode cuidar deles pra mim?
— Deixe, onde come cinco, come até vinte, acho — respondeu sorrindo.
— Tá certo.

Teimoso, que não era mais teimoso, mugiu brevemente pela primeira vez quando o rapaz virou as costas. Avisou ao pai que era preciso resolver a situação.

— Dá-se um jeito — garantiu o velho.

Na semana seguinte, Tertuliano decidiu retornar a Alto Paraná para resolver a situação na Fazenda Alto Remanso. Perto de Guairaçá, encontrou galhos na estrada e desceu para movê-los. Emboscada. Sete tiros de carabina. Três homens. No banco do caminhão havia um pequeno saco de estopa, dinheiro que seria entregue como forma de compensação.

Agonizando e deixado para morrer, resfolegou. Um novilho atravessou a cerca e se aproximou. Lambeu seus olhos. O rapaz sorriu e sucumbiu. Sua história real não seria contada. Ganhou fama de ladrão de gado quando o que menos queria era roubar vidas. Até os anos 1980, ainda havia uma cruz onde Tertuliano morreu. Trazia a frase: “Se vive para não ver, não há o que querer.”

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Mate Coma

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“Que demais esse lugar. Dizem que os lanches deles são os melhores da região”

Arte: Dana Ellyn

Inauguraram uma lanchonete fora da cidade. Mate Coma. Ioan e Colomano percorreram pouco mais de 15 quilômetros até chegarem ao local. Boa vegetação nativa nos entornos, arborismo, tirolesa, frescor; cães, gatos e coelhos brincando às margens de uma lagoa.

— Que demais esse lugar! – disse Ioan.

— Show mesmo! Não conhecia isso aqui – comentou Colomano.

— Dizem que os lanches deles são os melhores da região.

— Também fiquei sabendo disso. Veremos se é verdade.

Lá dentro, a iluminação não era das melhores. Intencional. Os fregueses comiam como se não houvesse amanhã. Normal. Ian e Colomano foram ignorados. Ninguém se importava com quem entrava ou saía. Sem piscar, um homem com um lanche desmesurado entre as mãos o devorava; vez ou outra, roçando a língua pela carne malpassada.

— Delícia! – monologou, ignorando as pessoas à sua volta.

— Tem sangue na roupa daquele homem, e não é pouco. Será que ele sabe disso?

— Não tenho a mínima ideia. Seria uma boa avisá-lo?

— Pode ser.

Ioan se aproximou, cutucou o ombro do homenzarrão e ouviu um grunhido.

— Senhor, com licença, me perdoe a intromissão, mas só quero avisar que tem sangue na sua roupa.

— É?

— Sim…

Nenhuma palavra, risos, bafo quente. O homem virou as costas e continuou mastigando.

— Parece que as pessoas aqui só querem comer. Nada mais importa.

— Bom, isso aqui é uma lanchonete, não é mesmo? — ironizou Colomano.

— Pois é…

Diante de uma mesa, Ioan pegou o cardápio. Grande variedade de carnes. De cavalo a jacaré. Na última página, um aviso – “Conseguimos qualquer tipo de carne, independente de espécie.”

— Isso é interessante — concluiu Colomano.

Ao lado da descrição de cada lanche havia sugestões de abate, de como garantir que as partes mais nobres da carne não sejam maculadas durante e após a execução de cada animal.

— O que significa isso? E essas ilustrações de abate? Isso é realmente estranho — reclamou Ioan.

— Será? Acho que não. Me parece algo bem honesto, diferente do que vemos por aí.

— Sei lá, cara! Isso parece demais pra minha cabeça.

Em uma vitrola perto do balcão tocava “Everybody Hurts”, do REM, enquanto os fregueses comiam. “When you’re sure you’ve had enough of this life…Hang on.”

— Boa noite. Sejam bem-vindos ao Mata Come. O que vocês desejam?

— Falaram que é possível comer à vontade e de graça neste lugar. Não vou negar que foi isso que trouxe a gente aqui.

— Ah sim! Esplêndido! Já sabem como funciona?

— Não… – responderam ao mesmo tempo.

— Pois bem! O que vocês vão querer?

— É simples assim? – questionou Ioan.

— Esse é o primeiro passo – respondeu o garçom.

— Ah…ok.

— Quero um X-Vitela. Ele vem mesmo com 300 gramas de carne?

— Sim, na opção tradicional, mas nessa modalidade que vocês querem a quantidade de carne é ilimitada.

— Uau! Que maravilha! — comemorou Ioan.

— E você, Colomano?

— Quero algo mais usual. Um X-Filé Mignon vai bem.

— Podem me acompanhar?

— Tudo bem.

Atravessaram a cozinha e caminharam até um galpão bem iluminado com dezenas de divisórias. Grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, torneiras, pias, facas, marretas, sangue fresco e riscos no chão. Não. Nenhuma alucinação.

— Que gritos e gemidos são esses? – perguntou Ioan.

— É o grito da comida, meu senhor, simplesmente o grito da comida. Não se preocupe.

Pios, cacarejos, gorjeios, uivos, assobios, grunhidos, mugidos, latidos, miados, coachos, relinchos.

— Que barulheira! Isso aqui parece uma selva – comentou Colomano.

— Não exatamente. Apenas atendendo o gosto do freguês.

— Me acompanhem, por favor.

Atravessaram um corredor, barulho mais intenso, luzes amarelas, insetos agitados, nenhuma janela.

— Os senhores podem entrar aqui. Aguardem um momento.

O garçom fechou a cortina branca e os deixou sozinhos com um robusto boi acastanhado. Enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, o animal visivelmente dopado mugia com a cabeça escorada em um latão; um mugido sepulcral e fragilizado.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou Ioan já exaltado.

— Vamos esperar – sugeriu calmamente Colomano.

O garçom retornou acompanhado de um peão empurrando um carrinho de mão. As rodas rangiam e as pernas do bezerro tremiam. Tiraram o animal de cima do carrinho e o colocaram no chão. Fraco demais para manter-se em pé.

— O que é isso? – questionou Ioan.

— O X-Vitela.

— Como?

— Isso mesmo!

Sem dizer mais nada, o garçom mostrou um mural com duas opções de execução — MARRETADA OU DEGOLA.

— Aqui no Mate Coma o senhor pode comer à vontade e sem pagar nada se matar o animal usado no recheio do seu lanche. O senhor pediu um X-Vitela e o seu amigo um X-Filé Mignon. Temos aqui um boi e um bezerro. Tudo é feito por nossa conta, menos o abate do animal. Quem deseja começar?

— Isso é loucura! Não posso matar um animal. Nem mesmo posso vê-lo morrer – esbravejou Ioan.

— Mas imagino que o senhor coma carne, não?

— Claro que sim, mas não tomo parte na morte do animal.

— Será?

— Que desaforo! Não vou ficar aqui sendo tratado com desrespeito.

— Acalme-se, Ioan! – sugeriu Colomano.

— O garçom tem razão. Se comemos, matamos, a única diferença é que não golpeamos.

— Você também? Pelo amor de Deus, Colomano! O que está acontecendo com você?

— Ora, nada! Apenas uma fagulha oportuna de sensatez.

— Quer saber? Mate você os dois. Perdi o apetite.

— Que assim seja, meu amigo.

Ioan atravessou o barracão a passos céleres e caminhou em direção à lanchonete. Sentou-se.

Resistente, o boi mugia entre as marretadas de Colomano. Foram 12 para entregar-se ao fim. O sangue escorria pelo piso. Fresco, grosso e escuro — o mousse da morte. Língua de fora, cabeça pesada, olhos vazios.

— Me desculpe, meu amigo, mas agora é a sua vez – falou segurando a cabeça do bezerro caramelo que tremia e se encolhia no canto com olhos vendados.

Um golpe certeiro na garganta o fez deitar e se debater com as patas moles até perecer. Expressão final de terror e desespero. O sangue não parava de jorrar, se misturando ao do boi recém-falecido. Eram como pai e filho, lado a lado, combinando carcaças.

— Parabéns! O senhor não fugiu. Realmente assumiu a responsabilidade — disse o garçom.

— Certo…Que seja! Vai demorar muito para os lanches ficarem prontos?

— Não muito. O senhor pode seguir esse corredor e virar à direita. A última porta é um banheiro. Pode se limpar ou se lavar lá.

— Ok. Obrigado…

Na lanchonete, Ioan não conteve as lágrimas enquanto assistia “Blackfish”, de Gabriela Cowperthwaite.

— Que história mais triste. Meu coração está com você, Tilikum – monologou esfregando as pontas dos dedos nos olhos.

— Sabia que você não iria embora. E aquela conversa de que perdeu o apetite? – indagou Colomano.

— Fiquei mal na hora, mas já passou – justificou Ioan.

— Ah sim. Então tá.

— Os lanches logo serão servidos, inclusive o seu. Vai querer ou não?

— Assim sim.

— Bueno! Bueno!

Quando o garçom retornou com o X-Filé Mignon e o X-Vitela, Ioan e Colomano ficaram extasiados com o que viram. Cada lanche tinha 12 camadas.

— É sempre assim? Com 12 camadas?

— Não. É porque o senhor matou o boi com 12 marretadas.

— Isso foi criativo, devo admitir.

— Podemos comer sem tocar nesse assunto? — reclamou Ioan.

— Ok…ok..ok… — concordou Colomano.

Assim que deu a primeira mordida, Ioan cuspiu um pedaço de lanche no prato.

— Que nojo! Meu Deus do céu! O que tem errado neste lugar?

Colomano também sentiu um gosto estranho na boca e fez o mesmo.

— Garçom, amigo, venha aqui, por favor.

— Isso é extremamente nojento. Horrível! Estou com ânsia de vomito.

— O que houve, meus senhores?

— O que houve?

— Tem um fio de cabelo longo e castanho no meu lanche. Que repugnante!

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O que vem do bicho é do bicho

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Pintura: Child With Chicken, de Diego Rivera

Na escolinha, a professora Helena falou sobre a relação dos seres humanos com os animais e mostrou dezenas de figuras para os alunos.

— A brincadeira é formar duplas e montar as peças de acordo com o que cada animal oferece de bom para a gente, tudo bem?
— Siiiiiiiiiimmmmmm! – responderam.

Depois de distribuir os quadrinhos de madeira para as crianças, a professora percebeu que Rubinho preferiu ficar sentado em um canto.

— O que foi, Rubinho? Você está passando mal? Sentindo alguma dor?
— Não…
— O que houve?
— Estou triste só…não quero brincar.
— Mas por que não? Você sempre amou brincadeiras envolvendo animais.
— Dessa eu não gostei.
— O quê?
— Esse jogo é de enganar.
— Como?
— Ah, não fala a verdade e quase todo mundo acredita.
— Qual é a verdade?
— Enquanto a gente se diverte os animais sofrem, e quase ninguém liga.
— Como assim, Rubinho?
— Ah, tia. Você falou que o boi, o frango, o porco e o peixe dão a carne; que a vaca dá o leite, a galinha dá o ovo e a abelha dá o mel. Isso não é certo…
— Por que você acha isso?
— Porque eles não dão nada pra gente, tia. Eles morrem, ficam presos ou sofrem por causa disso. É errado. Um dia, o vovô quase matou uma galinha na nossa frente. Ela se balançava e tentava escapar, com as perninhas pro ar. Fazia um barulhinho tão triste com o bico. Eu e a Marcelinha choramos e o vovô soltou ela. O chão ficou forrado de pena. Tadinha, se escondeu no galinheiro e começou a fazer um sonzinho esquisito. Acho que ela tava chorando. Ele ia matar ela só pra fazer galinha ao molho.
— A vida deles é essa, Rubinho.
— Mas não precisa, né? Eu e a Marcelinha não comemos carne, a gente nem sente falta. Tô vivo aqui. Ela também.
— Tudo bem, Rubinho. Mas não tem problema em tomar leite e consumir os ovos da galinha e o mel da abelha.
— Acho que tem sim, tia. Até o ano passado, o leite da minha mãe era meu. Então o leite da vaca é do bezerrinho até acabar. Não acho certo tomar o leite que é dele.
— Mas e os ovos e o mel?
— Ah, tia, não como nada de bicho não. O que vem do bicho é do bicho. Acho que se fosse pra mim ele me oferecia.
— É, Rubinho. Não posso negar que você tem um bom argumento.
— A gente não precisa de nada disso. Tem tanta coisa gostosa pra gente comer sem judiar de ninguém.
— Eu acredito.
— Minha mãe faz bolo, torta, pão, sorvete, tudo isso sem nada dos bichinhos.
— Sério?
— É sim. Na semana que vem vou trazer um bolo bem fofinho pra todo mundo experimentar.
— Traga sim. Tenho certeza de que vamos adorar.

Rubinho desfez o semblante tristonho, sorriu, abriu o caderno e mostrou um desenho para a professora. Um homem idoso soltava um peixe em um rio. Ao seu lado, havia um cão, um boi, um porco, uma cabra e uma galinha.

— Quem é esse?
— É o vovô, ele não come mais carne.
— Que legal! Então você conseguiu mudar a cabeça do vovô?
— Sim…no ano passado.
— Isso é incrível! Você deve ter ficado muito feliz.
— Fiquei sim!
— Muito bom, Rubinho! Parabéns!
Ah, tia. Aquela hora eu falei que os animais não dão nada pra gente. Eles dão sim.
— O quê, Rubinho?
— Eles dão lição de vida.

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“Me vê um pedaço daquele cadáver ali”

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Vintage Poster – A Trip To The Butcher Shop

Um senhor, o primeiro da fila que se estendia por mais de 50 metros, se aproximou do açougueiro.

— Me vê um pedaço daquele cadáver ali.
— Como?
— Aquele pedaço de bicho morto pendurado no gancho. Gostei daquele – falou apontando para uma costela bovina bem visível sob a vitrine.
— Que absurdo! O senhor não tem a mínima educação com a comida – disse uma senhora.
— Que homem grosseiro! Nojento! – comentou uma moça.
— Quer aparecer, irmão? Amarre uma melancia no pescoço – criticou um rapaz.
— E o que vocês pensam que estamos comprando aqui? Nada mais do que bicho morto. Ou vocês acham que esses pedaços de carne brotaram da terra? São cadáveres, ora! Deliciosos, mas ainda assim cadáveres.

Durante a discussão, algumas pessoas se entreolharam chocadas e saíram da fila sem dizer palavra.

— Mas o senhor não precisa falar assim — reclamou outra mulher.
— Falo a realidade, minha senhora, só a realidade.
— Quanto o senhor quer? — perguntou o açougueiro.
— Não tenho certeza. Quanto custa o quilo dessa morte?

O açougueiro respondeu e o homem acenou com a cabeça.

— O senhor deseja mais alguma coisa?
— Verei.
— Assassinaram esse leitãozinho aqui fora de época, meu amigo. Esse aqui deve ter uns dez dias pelo que vejo. Deu tempo de desmamar? Acredite, não deu. Coitado! Vocês compraram de quem?
— Não posso fornecer essa informação, senhor. Teria que ver isso com a gerência.
— Ok…obrigado.

Enquanto o homem deslizava os dedos pela vitrine levemente embaçada, observando outros tipos de carne, uma criança começou a chorar.

— Mãe, aquela carne na bandeja é bicho morto, cadáver? O que aquele homem disse é verdade?
— Não, filhinha, não é não. Ele estava brincando.
— Como, senhora? Brincando? Pra que mentir para as crianças? Se comemos, temos que comer com consciência, sem mentiras. Se compro e como é porque alguém mata a bicharada por minha causa, por sua causa, por causa de todo mundo nesta fila. Não temos porque iludir os pequenos. Os matadouros vivem lotados graças a nós.
— Seu velho grosso e sem noção!

Depois de tapar brevemente os ouvidos da filha, a mulher a pegou pela mão e a levou para longe do açougue, em direção ao setor de hortifruti.

— O senhor vai afastar toda a freguesia — comentou um rapaz.
— Amigo, desde que cheguei neste açougue só falei verdades. Não fui rude nenhuma vez. Fui honesto apenas. Não é culpa minha se tem gente que rejeita a realidade.
— Mas não tem porque se referir à carne dessa forma tão sombria…
— Não tem nada sombrio aqui, meu jovem. Sombrio é o que acontece nos matadouros. Mas o que os olhos não veem o coração não sente, não é mesmo? Ou até sente, mas não se importa. Afinal, depende de quem falamos, concorda?
— Sei lá!

Quando o homem deixou o açougue, havia poucas pessoas na fila, e um silêncio desconfortável tomou conta do lugar. Sem olhar para trás, passou na padaria, pediu alguns pães e caminhou até o caixa. No estacionamento, um segurança chamou-lhe a atenção.

— O senhor pode me acompanhar, por favor?
— Tudo bem!

Após uma curta caminhada, entraram em um escritório, onde foram recebido pelo gerente.

— Boa tarde. Tudo bem?
— Sim e o senhor?
— Estou bem também. Obrigado por perguntar – respondeu o cliente.
— Quero pedir um favor ao senhor.
— Diga.
— O senhor causou um alvoroço no açougue. Seria possível não fazer mais isso?
— Como?
— O senhor falando em cadáveres, bicho morto, matadouro, assustando a freguesia. Não trabalhamos assim e não aceitamos isso.
— Como assim? É apenas a realidade, sem eufemismos.
— Sim, mas isso é inaceitável, não está dentro dos nossos padrões, e as pessoas não gostam disso.
— Mas não falo dessa forma para que as pessoas gostem de mim ou do que falo. Não busco aplausos. Respeito sua política de trabalho, mas não sigo padrões. Afinal, sou cliente, não funcionário. Entenda, não desrespeitei ninguém.
— O que o senhor ganha agindo assim?
— Ao ser consciente das minhas ações, e dividir isso com os outros? Não sei…talvez um pouco de honestidade e menos permissividade. Afinal, refugiar-se na ilusão também pode ser uma forma de abraçar a exclusão.

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O homem e o urubu

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“Tens razão, e admito que sou comedor de carniça. Admitir isso é sensato”

Um humano ficou enojado quando viu um urubu comendo carniça na beira da estrada. Se aproximou e tentou bater no animal com um galho caído sobre o asfalto quente.

— Saia daí, seu carniceiro. Fique longe desse cadáver.

Para a surpresa do homem, o urubu continuou se alimentando do cãozinho atropelado. Até que incomodado com os berros do homem, virou-se em sua direção.

— Os seus atropelam o cachorro por falta de atenção e indiferença, o que resta é somente a carne que jaz, sem vida, e você vem me dar sermão? Quem é você?
— Que isso! Que isso! O urubu tá falando!
— Estou sim! E daí?
— Pare de comer esse bicho aí. Deixe ele em paz. Vou enterrar ele naquele mato ali.
— Para quê e por quê? O que restou aí é alimento para os meus. Dependemos disso pra sobreviver. E a vida que existiu ali já se foi há muito tempo.
— Não! Não! Não posso deixar você fazer isso.
— O quê?
— Isso é muito nojento.
— Nojento?
— E a carne que vocês comem, não é? Deixe os animais apodrecendo sobre o solo e veremos se existe alguma diferença entre esse cachorro deitado sobre o asfalto e aqueles que vocês matam sem necessidade.
— Sem necessidade? Você é uma piada!
— Não, senhor. Somos realmente carnívoros, e não matamos animais e nos alimentamos deles para além da nossa necessidade. Comemos para viver, não vivemos para comer. Considere também o fato de que vocês são incapazes de se alimentar da carne em estado natural, o que é chocante para nós carnívoros. Isso não existe. Comemos o que está à nossa disposição e como nos foi ofertado, sem máscaras, ou seja, sem fogo, sem tempero. Respeitamos a natureza.
— Você é louco! Louco!
— Talvez, se estamos falando de um mundo onde ser normal é matar para agradar o paladar.
— Pelo menos não como nada do chão.
— O cachorro que morreu por uma fatalidade se incomodaria menos de ser comido por nós nessa situação do que os animais que vocês agradam para depois matar em atitude traiçoeira. Afinal, o que tem de glorioso em abraçar antes de golpear? Sejamos honestos, meu amigo.
— Não vou perder meu tempo discutindo com um comedor de carniça.
— Poderia dizer o mesmo de você, já que nós dois nos fartamos da carniça de seres que viviam.
— Eu não. Você! Você! Só você!
— Tens razão, e admito que sou comedor de carniça. Admitir isso é sensato. Mas por que levanta a voz, range os dentes e demonstra tanto incômodo e desconforto? Examine a sua consciência, pois a minha resplandece tranquila – disse o Urubu antes de continuar se alimentando do cãozinho.

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“Também num gosto de carne”

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Pintura: Xueling Zou

Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.

— Qual é o seu nome, tio?

— David e o seu?

— Bruno…

— Você é forte, né, tio?

— Eu tento…

— É sim!

— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…

— Por que você acha isso?

— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.

— Não como não…

— É?

— É sim…

— Não precisa?

— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.

— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.

A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:

— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.

Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.

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Written by David Arioch

June 6th, 2017 at 3:19 pm

As exigências da formiga-faraó

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“Você é lerdo e cabuloso, hein? A gente quer açúcar cristal, cara!”

Ela gesticulava e falava comigo enquanto movia suas antenas

Acordei antes das seis horas ouvindo um som estranho no quarto. Como eu estava muito sonolento, não consegui identificar a origem. Eu só queria dormir mais um pouco. Mas o som persistiu, até que reconheci uma voz ecoando. Abri os olhos e não entendi de onde vinha aquela algazarra. Parecia tão próxima e ao mesmo tempo tão distante de mim. Pensei que estivesse imaginando coisa, até que alguém berrou:

— Acorda, lazarento! Acorda! Vamos! Acorde!

Virei o rosto para o outro lado e não vi nada.

— Aqui, trouxa! Pra onde você está olhando? Você é cego, otário?

Então vi uma formiga-faraó em cima da cômoda. Ela gesticulava e falava comigo enquanto movia suas antenas.

— Que isso? Que loucura! — falei esfregando as mãos contra os olhos e dando tapinhas na minha própria testa.

— Estou aqui sim, mané! Não adianta esfregar a mão na cara. Não vou desaparecer enquanto não conseguir o que quero, certo?

— Como assim. Você quer o quê? E como você está falando? Como isso é possível?

— Olhe, cara! Vamos parar com essa lorota porque não tenho tempo a perder. Como falo ou deixo de falar não interessa. A real é que você tem sido um desgraçado, cara. E isso não pode continuar assim.

— Desgraçado? Eu? Como? Nunca fiz nada contra formigas.

— Eu sei, cara! Você é vegano e todo aquele blá blá blá. Mas o negócio é o seguinte: Sei que você não come açúcar, mas e nós, seu egoísta? Você pensou na gente quando parou de comprar açúcar? Outra coisa, você acha que a gente gosta de açúcar de coco, açúcar demerara… Mano, a gente gosta de açúcar cristal. O mascavo ainda vai, mas não venha mais com esse açúcar de coco, cara. A gente gosta do branco reluzente.

— E onde eu entro nessa história?

— Você é lerdo e cabuloso, hein? A gente quer açúcar cristal, cara! Você vai ter que comprar, e se não atender nosso pedido, pode se preparar. Estamos espalhadas por todos os cômodos da sua casa. Você não tem noção, mano, do estrago que a gente consegue fazer em um dia. Estamos atrás dos rodapés, no forro, em todas as frestas da casa, nos armários, nas dobras das roupas. Não tem pra onde fugir.

— Mas por que tanta maldade?

— Maldade? Tem maldade nenhuma, irmão. É a lei da sobrevivência.

— Entendi. Vou dar um jeito nisso. Mas posso saber de onde vocês vieram?

— Viemos daqui, cara. Meus ancestrais já moravam aqui antes de você e dos seus.

— É? Sério?

— Não! Mentira! Claro que sim.

— Hum…Por que esse mau humor?

— Por causa da abstinência. Tem nada doce por aqui e a gente precisa de açúcar, cara. Já viu alguém feliz com fome? Você fica feliz com fome?

— Não…

— Então, pergunta respondida!

— Posso fazer outra pergunta?

— Caramba, mano! Mais uma? Tá! Manda lá!

— Por que chamam vocês de formiga-faraó?

— Ah! É isso? Beleza!

A formiga saltou em cima da cama, escalou o meu braço, subiu em meu ombro esquerdo e me observou por um instante.

— Louco demais! Essa barba dá um ninho da hora! A gente pode morar aí?

— Claro que não!

— Por que não, cara? Um ajuda o outro. A gente até estica ela pra você, dá mais volume; e ainda come as sobras de comida e alinha seu bigode. Fora que com a nossa presença ela ganha um tom de luzes do tipo caramelo.

— Sai fora!

— Beleza! Mas a permuta é boa e o azar é seu. Perdeu a chance de veganizar umas formigas.

— Me diga por que realmente chamam vocês de formiga-faraó.

— Ah! De novo isso? Ok!

— Meus ancestrais diziam que um dia um grande faraó decidiu banir as formigas do Egito. Ele começou proibindo a fabricação de açúcar e a importação de açúcar da Índia por um longo período. Uma de nós apareceu pra ele, assim como estou fazendo agora, e tentou dialogar. Ele não aceitou o acordo. Então elas comeram o faraó.

— Nossa! Sério isso?

— Sim…talvez…Claro que não, né?

Com a visão ligeiramente turva, cocei os olhos mais uma vez. Quando olhei para o meu ombro, a formiga tinha desaparecido. Minutos depois, meu celular tocou.

— Você estava dormindo? Estou te ligando há mais de dez minutos e você não atende — reclamou meu irmão.

— É…acho que sim.

Por via das dúvidas, esperei o mercado abrir, comprei cinco quilos de açúcar cristal e guardei no armário.

 

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Written by David Arioch

May 20th, 2017 at 9:44 pm

Beijos ao acaso

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Praça do Teatro Municipal, onde nos beijamos (Foto: Elessandro Almeida)

Durante um espetáculo no Teatro Municipal, sentei sozinho nas últimas poltronas, como de costume. Gosto do silêncio da plateia e da ampla perspectiva do palco. Assim que me levantei, esbarrei em uma moça. Era muito bonita. Me desculpei e ela perguntou se poderia sentar ao meu lado.

— Sim, fique à vontade.

Trocamos alguns olhares que se encontravam e outros que se desencontravam.

— Quer sair daqui? — ela perguntou.

— Como?

— Dar uns beijos…

— Onde?

— Lá fora.

— Pode ser. Vamos aí.

Ela sorriu, deu um puxão na minha barba e saiu na minha frente. Fui atrás dela e nos encontramos lá fora. Não havia ninguém além de nós. A praça não estava tão clara, mas uma luz amarelecida e vacilante iluminava nossas cabeças. Nos beijamos por alguns minutos, espreitando a movimentação.

— Vamos lá pra casa – ela disse.

— Será que é uma boa? Não nos conhecemos direito…

— É sim. Você vai gostar. Relaxa…

— Ok…

Chegando lá, encontramos a família toda na sala. Provavelmente 10 a 12 pessoas. Ela perguntou meu nome na frente do pai e da mãe. Respondi naturalmente enquanto coçava a barba.

— Você não é brasileiro, é? — perguntou o homem.

— Não…

— Sabia! Com essa cara…

— Hum…

— Vamos lá pra varanda — ela sugeriu.

Nos beijamos um pouco mais, até que começamos a nos estranhar. Depois de meia hora, os olhos dela não eram mais os mesmos. Àquela altura, percebi que não tínhamos nada em comum, a não ser tempo ocioso. Ela me observou e disse:

— Você é muito barbudo. A gente podia cortar um pouco. Vou pegar a tesoura.

— Que isso? De jeito nenhum!

— Olhe, meu amor, se quiser namorar tem que ser do meu jeito…

— Como assim namorar? Quem aqui está falando em namoro?

— Como não, seu filho da puta? Você acha que é bom demais pra mim? É isso?

— De jeito nenhum. Você é incrível. Acho apenas que não estamos namorando…

— Como? Gostou de beijar, não gostou? Agora tem que seguir o riscado.

—Que isso, moça! Que riscado? – questionei com o coração palpitando.

— Você acha que é assim?

— Nos conhecemos, sei lá, acho que não tem mais de 40, 45 minutos…

— Não interessa. Você aceitou conhecer meus pais. Eles estão de prova.

Subitamente, ela gritou e o velho apareceu segurando um facão. O imaginei vindo para cima de mim arrastando a lâmina no piso e saltando com o facão apontado para a minha garganta.

— Quer um pedaço de cana? Estou rachando agora — perguntou o homem.

— Não, senhor, mas muito obrigado pela gentileza — respondi tentando esconder o suor das mãos que tremulavam.

O velho piscou e voltou para dentro da casa sem dizer nada. Ela continuou furiosa.

Falei que era melhor eu ir embora.

— Amanhã você vem que horas me ver?

— Não moro aqui.

— Mas você volta, né?

— Volto sim.

— Sendo assim, vou confiar na sua palavra.

Por garantia, passei três meses escondido dentro de casa.

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Written by David Arioch

May 10th, 2017 at 1:48 pm

Fogo no matadouro

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O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim

Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria (Arte: G.D.St. John)

Escuto a chuva. Não é violenta, até que é calma. Começou a esfriar ontem. Não faz diferença. Aqui dentro poucas coisas importam. Minha mente continua lá fora; dizem que com o tempo você se acostuma. Será? Não sei, vou vivendo como dá. Eu poderia morrer agora, mas por eles prefiro viver, não vou dar esse prazer. Falaram que vou apodrecer aqui, que jamais vou ganhar a liberdade. Faz sentido, só que é estranho porque lá fora também é uma prisão.

Louco, psicopata, doente, terrorista, perturbado; me chamam assim agora. O dinheiro tem o poder de garantir esses nomes pra você na mídia. Falsos diagnósticos médicos sempre ajudam. Pagando bem que mal tem, não é mesmo? Inventaram um histórico de instabilidade psicológica e emocional que nunca tive. Sempre fui um cara pacífico, e muita gente virou as costas pelo que fiz. Não me arrependo.

Ah! Sou um risco para a sociedade. Isso é engraçado de se reconhecer quando a sociedade é um risco para si mesma. Autofagia! A sociedade come a si mesma. Ontem, um sujeito mal-encarado veio me visitar. Ajeitou o chapéu de couro de boi sobre a cabeça, cuspiu um naco de fumo em minha direção, levantou os olhos, mostrou os dentes amarelecidos e disse: “A gente tem juiz no bolso e força no Congresso. Você já era, filho da puta! Você não é ninguém!” Mostrei o polegar pra ele, sorri e comentei que se eu tivesse mais tempo teria feito muito mais.

Ficou puto e vi nos seus olhos a vontade de me matar. “Não, cara! Não aqui e agora.” Sugeri que parasse de mascar fumo se não quisesse ficar com os dentes iguais aos do Beetle Juice. Ele não entendeu. Recebi visitas de outros tipos estranhos. Outro dia, mandaram um engravatado me oferecer uma boa grana para entregar meus amigos. Se fosse por dinheiro, eu não teria feito o que fiz.

O dinheiro é a raiz de toda essa desgraça. Não que eu seja contra ganhar dinheiro; sou contra a escravidão que ele gera. Talvez você esteja se perguntando o que fiz para estar neste buraco. Tem gente me apoiando aqui, e acho que se a coisa ficar feia pode ser que eu não esteja sozinho. Neste momento, registro minha história neste papel higiênico.

Tudo começou em 2015, quando eu participava de um fórum na darknet. Havia pessoas de vários estados do Brasil. Era um grupo de ativistas pelos direitos animais. Nosso lance era ciberativismo mesmo. A gente se articulava por lá e produzia textos e vídeos para rebater falácias especistas e conscientizar as pessoas sobre a indústria da exploração animal. Era legal, mas chegou um momento em que tudo aquilo começou a parecer pouco, muito pouco.

Afinal, qual é o propósito de dedicar tanto tempo a algo que proporcione poucos resultados? A gente queria mais, muito mais. Lembrei da lei de Thelema, do Aleister Crowley dizendo “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei.” Não demoraria; a gente faria. “Porra, vamos colocar fogo no mundo, cara!”, disse Nikolai. Figura de expressão, hipérbole. Sim, não no mundo, mas algo iria queimar, com certeza. Tínhamos pessoas o suficiente para fazer isso acontecer. Amadores com corações profissionais, isso nos define até hoje.

Acordamos de madrugada naquele domingo e nos dividimos em dois carros e um caminhão. Dirigimos pouco mais de 150 quilômetros até chegarmos ao nosso destino – um dos maiores matadouros do Sul do Brasil, situado em uma área rural, ladeado por uma lagoa com a água mais suja que já vi em toda a minha vida.

Senti náuseas diante do odor intenso daquele depósito de lixo flutuante. Restos de animais, fezes, resíduos químicos e outras porcarias se misturavam enquanto a água espumava e esfumaçava como um cenário de um filme do Ed Wood ou da Troma. “Que diabos é isso?”, perguntou Sonia.

Não sei se aquilo era normal ou se tinha acontecido algum acidente, mas o solo estava carcomido por algum tipo de podridão. Fedia absurdamente, banhado por um líquido nojento e pegajoso que emborcava lá longe, em uma nascente. Matava tudo que inspirava vida, desde a menor até a maior das plantas. Tudo naquele inferno inspirava à morte. E estávamos lá por isso.

Quando vi um homem parado no portão, caminhei até ele. Não subornei ninguém, senão seríamos tão sujos quanto qualquer um que vive da degradação social. “Seja como nós, ou seja contra nós”, concluí coçando a nuca. Acenei minha cabeça e Borges retribuiu a cordialidade:

— O senhor sabe o que a gente veio fazer aqui.

— Sei sim.

— E está bem com isso?

— Sim, faça o que tiver que fazer. Falei com os outros, já desativaram todo o sistema de segurança.

Borges era o chefe da segurança, e também tio de Juliane, nossa amiga. Quando ele assobiou, três seguranças acenaram positivamente com a cabeça; caminhamos matadouro adentro. Não era limpo como a TV, os jornais, os vídeos institucionais e os folders mostravam. Talvez improvisassem bons ângulos, vai saber.

Conforme eu andava, o ar pesava, uma energia ruim que emanava daquele ambiente onde entrava a vida e saía pedaços de morte bem embalados. O matadouro tinha muros extremamente altos, como uma fortaleza. Imaginei os gregos invadindo o lugar dentro do Cavalo de Troia.

Do lado de fora, era impossível ver o que acontecia lá dentro. Enquanto Eu, Nikolai, Sonia e Juliane entramos, Marcelo, Roberto, Lúcia e Bruna percorreram as imediações, para se certificarem de que não havia nenhum animal, humano ou não, por perto.

Azulejo branco nas paredes e piso vermelho por onde escorria o sangue dos inocentes. Corredores estreitos, plataformas, grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, ferrugem, torneiras, pias de lata, pistolas, facas, tubos, marretas, escadas, sangue seco, riscos no chão – marcas de luta; campos de concentração aprovados pela humanidade e legitimados pela legislação.

As dependências vazias contavam histórias de terror e medo. Borges relatou que milhões de animais morreram naquele lugar. Muitos resistiam em vão. Ele tinha razão. Ouvi porcos se contorcendo e grunhindo, presos aos grilhões enquanto o sangue quente jorrava. Famílias de bois, vacas e bezerros, assassinados em espaços diferentes – mortes sempre solitárias. Nenhum deles queria morrer; ninguém queria reconhecer.

Como podemos comer algo que um dia teve pernas para fugir, olhos e ouvidos para assistir e ouvir o próprio fim? Algo que um dia fez parte de alguém que sentiu calor, frio, fome e sede como nós mesmos; que não teve a oportunidade de viver o suficiente para descobrir algum prazer em existir, porque foi forçado a sucumbir. Morrer cedo demais é algo que animal nenhum deseja ou espera – jamais.

Poderíamos ter provocado um incêndio no departamento de expedição, causando uma pane no painel de controle da esteira que conduz os pedaços de cadáveres que eles chamam de produtos. Mas então não teríamos como mensurar a proporção do estrago. Não! Tinha que ser feito à moda antiga.

Descarregamos galões de querosene e derramamos sem economia por todos os espaços. Alguns de nós gargalhavam e entoavam: “Para aqueles que só o que pesa no bolso pesa na consciência, ignorando dos mais fracos a capacidade de senciência.” Ficamos em silêncio e terminamos de despejar os últimos litros de querosene pelas dependências.

O odor não era agradável. Pelo menos mascarava a gelada fedentina de morte. Pedi que os outros saíssem do matadouro e me esperassem na entrada. Me ajoelhei, inclinei a cabeça em direção ao chão e falei: “Que vocês me perdoem por tudo que não fiz.”

Acendi um coquetel molotov e arremessei com força, fazendo a garrafa atravessar dezenas de metros antes de explodir em chamas, como um pássaro dourado ganhando a liberdade. O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim.

Borges e os seguranças já tinham partido. Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria. Assim que o prédio começou a desmoronar, Marcelo confirmou que não havia ninguém nas imediações. E o tempo previsto para a chegada do Corpo de Bombeiros não poderia ser outro – somente quando as chamas deitassem a última fundação.

Talvez tenha sido o maior espetáculo de nossas vidas. Afinal, ninguém dança melhor que o fogo, especialmente quando suplanta a crueldade humana contra outras espécies. Ele é livre, mais do que nós na nossa incompletude existencial que perpetuamos por arrogância e pedantismo.

— Sentimos muito pelas pessoas que podem ficar desempregadas, mas ninguém deveria se profissionalizar em tirar vidas. Isso destrói o outro e você, mesmo que você não perceba – declarou Sonia.

— É, não acho que alguém consiga ser feliz trabalhando num lugar desgraçado desse, ainda mais num ambiente onde se gera mais morte do que emprego; e menos ainda qualidade de vida – acrescentou Lúcia.

Fomos embora, não crentes de que estávamos salvando o mundo, mas acreditando que uma mensagem foi dada – nem todos abaixam a cabeça ou se mantêm calados diante da intransigência humana, de suas ações desnecessárias, caprichosas e gananciosas.

Me entreguei à polícia no dia seguinte, e insisti para que ninguém fizesse o mesmo. Se eu não me entregasse, provavelmente as pessoas não saberiam o que de fato aconteceu no matadouro. Ah! Matérias capciosas dizem que sou um piromaníaco, desequilibrado; alguém sem qualquer motivação. A mídia independente e as redes sociais estão aí para provar o contrário.

Ainda não fui a julgamento. Faz dois meses que estou em prisão preventiva. Muita gente se afastou de mim; naturalmente, pessoas que não me fazem falta. Os poucos e bons amigos me trazem notícias. Fiquei sabendo que mais 32 matadouros foram incendiados até agora. Não sei onde e quando. Ninguém se feriu ou morreu. Isso é bom. Dizem que sou o mentor intelectual. Isso é ruim. A única coisa que fiz foi mostrar que hoje não é ontem, e que o fogo também representa o renascimento daquilo que amortece o desconhecimento.

É. Há muito tempo, tive um pesadelo em que eu era um boi indo para um matadouro. A diferença é que eu era um bovino com consciência humana – prestes a morrer e incapaz de verbalizar meu desespero. E tudo isso intensificou ainda mais meu medo. Se todas as pessoas tivessem esse pesadelo, acho que teríamos grandes mudanças. Só vou deixar de ter esperanças quando eu morrer, porque sem esperança acredito que não há pelo que viver.

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