David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Críticas’ Category

Drauzio Varella e as falhas na afirmação de que a crítica ao consumo de carne é ideológica

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Não é verdade que não há trabalhos científicos comprovando os malefícios da carne

A minha intenção não é desmerecer o trabalho do médico oncologista Drauzio Varella (Foto: Extra)

No último dia 25 de abril, o médico oncologista Drauzio Varella, que há muito tempo se tornou uma referência para a população brasileira, afirmou na entrevista intitulada “Crítica à carne é ideológica”, publicada pela Revista Globo Rural, que não existe trabalho científico comprovando que a carne vermelha faz mal à saúde do homem”. Drauzio declarou que se criou “uma porção de mitos” a partir de estudos realizados nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos.

Drauzio Varella tem todo o direito de se opor a pesquisadores, acadêmicos e médicos que apontam os malefícios do consumo de carne, até porque ele nunca velou que é um defensor do consumo de alimentos de origem animal. Porém, a afirmação de que não há trabalhos científicos comprovando isso não é realmente verdadeira, e pode naturalmente induzir o leitor a crer que realmente ninguém nunca apresentou nenhuma evidência das implicações do consumo de carne.

O livro “The China Study”, publicado em 2005 pelo bioquímico estadunidense T. Colin Campbell, que tem doutorado na área de efeitos da nutrição na saúde em longo prazo, e que foi criado em uma fazenda de gado leiteiro nos anos 1940 e 1950, mostra que isso não é realmente verdade. O seu livro examina a relação entre o consumo de produtos de origem animal e o surgimento de doenças cardíacas, diabetes e câncer. E chega à conclusão que uma dieta vegetariana é mais saudável.

O trabalho, que começou no início dos anos 1970 e se estendeu por 20 anos, foi realizado pela Academia Chinesa de Medicina Preventiva, da Universidade Cornell, em parceria com a Universidade de Oxford. Eles analisaram as taxas de mortalidade por câncer e outras doenças crônicas em 2400 condados chineses, reunindo ao final do estudo dados de 880 milhões de chineses (96% da população à época).

O trabalho foi realizado por iniciativa do premier chinês Zhou Enlai. Diagnosticado com câncer, pediu que fizessem um mapeamento da doença na China, para entender de que forma isso estava relacionado com os hábitos alimentares dos chineses. O estudo registrou que nos condados onde o consumo de alimentos de origem animal se tornou muito elevado, as taxas de mortalidade eram mais altas, o que eles classificaram como “doenças ocidentais”, já que esses hábitos foram influenciados pela cultura do Ocidente. Por outro lado, nas localidades onde pouco ou nada se consumia de origem animal, as pessoas eram mais saudáveis. O trabalho mais tarde foi considerado o maior estudo de nutrição da história.

Claro que há variáveis a se ponderar, como por exemplo, a prioridade a alimentos saudáveis e prática de atividades físicas, entre outras coisas. No entanto, o “The China Study” justifica que somos mais suscetíveis a contrair determinadas doenças quando consumimos carne, laticínios e ovos, o que não significa que vegetarianos ou veganos estejam livres de doenças. Mas apenas que estão indo por um caminho onde isso pode ser evitado com mais facilidade com os devidos cuidados.

Na entrevista, Dráuzio Varella diz também que nos Estados Unidos “como a carne vermelha tem colesterol, foi concluído que o consumo dela devia ser reduzido. O que aconteceu então? Os americanos diminuíram significativamente o consumo de carne e, no lugar, colocaram carboidratos. A partir dessa resolução, até hoje, a epidemia de obesidade nos EUA aumentou descontroladamente. E, dada a influência dos EUA na área da saúde, essa ideologia cresceu sem parar. Resultado: estamos todos enfrentando uma epidemia de obesidade.”

T. Colin Campbell, autor do livro “The China Study”, que estudou as implicações do consumo de alimentos de origem animal por 20 anos (Foto: Second Opinion)

Não sei em quais estudos ele se baseou para fazer tal declaração, mas isso também não é de todo verdade. Sim, os estadunidenses, assim como pessoas de outros países do Ocidente, consomem quantidades excessivas de carboidratos, e isso sem dúvida favorece o surgimento de muitas doenças, mas há equívocos substanciais no discurso de Varella. Normalmente quem opta por uma dieta vegetariana visando saúde ou qualidade de vida, dificilmente vai consumir quantidades estratosféricas de glicídios, alimentos industrializados – principalmente processados. Não se troca seis por meia dúzia quando se visa conscientemente a saúde.

Ademais, em 19 de agosto de 2016, a Fusion TV publicou uma matéria sobre um assunto também repercutido por muitos outros veículos de comunicação – “Last year americans ate meat like it was going out of style (it’s not)”, que mostra que houve um aumento no consumo de carne nos Estados Unidos em 2015, baseando-se em estudos do Rabobank. Ou seja, por si só, isso já é um indicativo de que as pessoas não estão trocando proteínas de origem animal por carboidratos ruins na velocidade apontada por Varella, mas sim consumindo os dois – que combinados são responsáveis pelo comprometimento da saúde humana.

Outra prova que refuta a posição de Drauzio é que nos Estados Unidos 5% da população se declara como vegetariana, e 2,5% vegana, segundo dados da organização One Green Planet. Sendo assim, onde está toda a população que ele afirma abdicar do consumo de proteínas de origem animal em favor dos maus carboidratos? O vegetarianismo e o veganismo tem crescido, mas, por enquanto, não na proporção desejada por vegetarianos e veganos. Ao mesmo tempo que diz que os críticos do consumo de carne se baseiam em generalizações, Varella parece ignorar que também faz o mesmo, principalmente quando diz que a crítica ao consumo de carne é meramente ideológica.

Então se não for por honestidade e visando o bem da população, por que o pesquisador T. Colin Campbell, filho de produtores de leite, se tornou um defensor da dieta vegetariana que ministra palestras contra o consumo de leite? Por que Howard Lyman, ex-pecuarista que tinha mais de sete mil cabeças de gado, abdicaria disso tudo para se manifestar contra o consumo de carne? Inclusive registrando em seu livro “Mad Cowboy” que ele mesmo tinha o hábito de mandar seus funcionários pulverizarem inseticidas na alimentação e na água do gado para afastar insetos e “pragas”.

Acredito que esses dois homens têm conhecimento mais profundo da realidade do sistema de produção de alimentos de origem animal e das suas consequências na alimentação humana do que o oncologista Dráuzio Varella que, embora seja um profissional respeitado no que diz respeito a vários assuntos, nunca realizou nenhum estudo relevante sobre o tema e incorre em análises equivocadas quando discorre sobre consumo de carne e vegetarianismo, que são áreas que fogem da sua competência.

Em 2006, o The New York Times qualificou o “The China Study” como o “Grande Prêmio da Epidemiologia”, e o “mais abrangente grande estudo já realizado sobre a relação entre a dieta e o risco de desenvolver doenças.” Drauzio pode discordar do conteúdo do livro, mas ele poderia apresentar algum outro estudo equivalente sobre o qual alguém tenha dedicado 20 anos de pesquisa?

Frank Hu: “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura” (Foto: Arquivo Pessoal)

E uma prova de que talvez ele não conheça a obra “The China Study” pode ser encontrada na entrevista para a Revista Globo Rural. Drauzio Varella, parafraseando o epidemiologista Walter Willet, da Universidade Harvard, assinala que somente um estudo com duração de 20 anos poderia trazer resultados realmente consistentes. Como mencionado anteriormente, o livro de T. Colin Campbell foi baseado em um projeto de pesquisa com duração de 20 anos.

E se o “The China Study” não for o suficiente para levar o leitor a refletir sobre a questão, é válido citar o artigo “Cutting red meat – For a longer life”, publicado em junho de 2012 pela Universidade Harvard, a mesma citada por Varella quando diz que não se pode associar o consumo de carne com o surgimento de doenças. “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura”, disse Frank Hu, um dos principais cientistas envolvidos no estudo e professor de nutrição da Harvard School of Public Health.

Na pesquisa, publicada no Archives of Internal Medicine em 9 de abril de 2012, uma equipe de pesquisadores de Harvard procurou estabelecer ligações entre o consumo de carne e a as causas de mortalidade. Eles examinaram os casos de 84 mil mulheres e 38 mil homens em mais de duas décadas. Aqueles que consumiam principalmente carne vermelha claramente se enquadravam nos grupos de risco de morte prematura.

Depois de 28 anos, aproximadamente 24 mil pessoas que participaram dos estudos da Harvard Medical School sobre a associação entre consumo de carne e mortalidade, faleceram em decorrência de doenças cardíacas e câncer. Analisando os questionários feitos pelos pesquisadores, constatou-se que essas pessoas tinham entre seus hábitos alimentares o consumo de bife, carne de porco, cordeiro e hambúrgueres.

Eles também comiam embutidos como bacon, cachorro-quente, salsicha e salame, entre outros. O estudo determinou que cada porção diária adicional de carne vermelha aumentou o risco de morte em 13%. O impacto subiu para 20% tratando-se de carne processada.

Na entrevista à Revista Globo Rural, Dráuzio Varella pontua que qualquer um tem o direito de ser vegetariano, mas que nem por isso evitará um ataque cardíaco, caso seja sedentário, tenha genética desfavorável, colesterol elevado e hábito de exagerar na comida. Bom, os vegetarianos e veganos que conheço não se veem como imune a todas as doenças do mundo, mas fazem o que está ao seu alcance para tentar evitá-las.

O vegetarianismo enquanto opção alimentar não é perfeito, e sabemos que há inúmeras variáveis, mas usar desse discurso para desconsiderar a dieta vegetariana é reverberar senso comum, já que ninguém está negando o fato de que sedentarismo e obesidade também podem ser prejudiciais para vegetarianos e veganos. No entanto, o que os estudos que mostram os malefícios do consumo de produtos de origem animal provam é que é mais fácil ser saudável não consumindo carne do que comendo. Ou seja, uma pessoa obesa que opta por uma dieta vegetariana tem mais chances de recuperar a própria saúde.

Outro artigo da Universidade Harvard, intitulado “Becoming a Vegetarian”, e publicado em outubro de 2009 e atualizado em 18 de março de 2016, explica que comparado com os consumidores de carne, vegetarianos tendem a consumir menos gorduras saturadas e colesterol, e mais vitaminas C e E. Também têm uma dieta mais rica em fibras, ácido fólico, potássio, magnésio, carotenoides e flavonoides.

Como resultado, eles têm níveis mais baixos de mau colesterol, pressão sanguínea mais baixa, e tudo isso pode ser associado à longevidade e redução do risco de muitas doenças crônicas. Em 2003, a Associação Dietética Americana (ADA) publicou um relatório afirmando que os vegetarianos têm 50% menos riscos de contrair diabetes, doenças cardíacas e amargar oscilações nos níveis de colesterol.

Outra citação de Drauzio Varella que merece atenção é a de que a carne é uma fonte maravilhosa de B12. Realmente, carne é uma fonte de B12, mas frisar que é uma fonte maravilhosa é algo contestável, porque dá a entender que o consumo de carne por si só sempre vai ser o suficiente para impedir a deficiência de vitamina B12, o que não é verdade.

O mito de que consumir carne sempre garante bons estoques de B12 foi derrubado em 2000, quando o Framingham Offspring Study, publicado pelo The American Journal of Clinical Nutrition, constatou que 39% dos participantes de uma pesquisa realizada com três mil homens e mulheres sofriam de deficiência de vitamina B12. A informação mais reveladora é que não foi percebida diferença entre quem consumia carne vermelha, aves, peixes ou nenhum desses alimentos.

A conclusão do estudo foi de que todos, vegetarianos ou não, devem fazer exames e, se necessário, consumir suplementos de vitamina B12. E quanto à carne ser uma grande fonte de ferro, é importante deixar claro que ela não é a única. Drauzio poderia ter citado também as leguminosas, castanhas, sementes, cereais integrais, couve, frutas secas e melado.

A minha intenção não é desmerecer o trabalho do médico oncologista Drauzio Varella, que é uma referência para tantos brasileiros, e com sua experiência e conhecimento trouxe luz a importantes debates ao longo de décadas. Porém, no que diz respeito ao vegetarianismo e à defesa do consumo de alimentos de origem animal, ele tem feito declarações, e não de hoje, ignorando todos os estudos que fazem oposição a uma dieta rica em proteínas de origem animal.

Fontes que comprovam que uma dieta vegetariana é mais saudável não faltam. Outro exemplo é a pesquisa “Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2”, da Universidade Loma Linda, referência em cardiologia, realizada com 70 mil pessoas nos Estados Unidos. Depois de seis anos, os pesquisadores concluíram que o número de morte entre vegetarianos foi 12% menor do que entre aqueles que consumiam carne.

Saiba Mais

O estudo “Comparison of Nutritional Quality of the Vegan, Vegetarian, Semi-Vegetarian, Pesco-Vegetarian and Omnivorous Diet”, concluído em 14 de março de 2014 por pesquisadores belgas concluiu que veganos têm os hábitos alimentares mais saudáveis.

O livro “The China Study” inspirou a criação do documentário “Forks Over Knives“, que conta a história do jornalista Lee Fulkerson, que teve a vida transformada depois de adotar uma dieta vegetariana.

Referências

http://revistagloborural.globo.com/Colunas/sebastiao-nascimento/noticia/2017/04/critica-carne-e-ideologica-diz-drauzio-varella.html

http://www.socakajak-klub.si/mma/The+China+Study.pdf/20111116065942/

http://www.health.harvard.edu/staying-healthy/becoming-a-vegetarian

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10648266

http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23836264

https://www.andeal.org/vault/2440/web/JADA_VEG.pdf

http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318

 

Americans are eating meat like it’s going out of style (it’s not)

 

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O veganismo não reconhece nada de origem animal como alimento de consumo humano

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Reconhecer algo de origem animal como alimento é uma defesa do utilitarismo, bem-estarismo, não veganismo (Arte: Reprodução)

O veganismo não reconhece nada de origem animal como alimento de consumo humano, por entender que estaríamos consumindo algo que não foi feito para nós. Reconhecer algo de origem animal como alimento é uma defesa do utilitarismo, bem-estarismo, não veganismo.

O veganismo por defender o abolicionismo animal, naturalmente rejeita a ideia de que qualquer coisa produzida pelos animais seja legitimada como fonte de nutrição humana. Até porque, se esse discurso fosse endossado pelo veganismo, a luta não seria pela libertação animal, mas somente pela criação de animais em grandes espaços, disseminando uma ingênua ideia de liberdade.

Afinal, ainda assim os animais estariam confinados a uma realidade servil, que é a de fornecer alimento aos seres humanos. Sendo assim, não seria nada mais do que um tipo de exploração que pareça simpática aos olhos, e que impacte menos na nossa consciência.

Particularmente, não tenho nada contra quem é bem-estarista, mas se um dia a libertação animal for conquistada, não tenho dúvida alguma de que isso terá sido possível graças ao ideal vegano. Não há como alcançar um grande objetivo se todos forem condescendentes ou concordarem com uma “flexibilização” de ideais. Um posicionamento menos vacilante é imprescindível. Os abolicionistas do passado são a prova disso.

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Dos males, o menor?

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Arte: Pawel Kuczynski

Dos males, o menor? Não quando se trata de política. Acredito que tal reflexão quando se fala em política e políticos é algo que acaba por soar como um tipo de anuência em relação às atrocidades que são cometidas em nome da politicagem e da ânsia por poder.

Muitas das desgraças que testemunhamos hoje no mundo têm relação com o raciocínio de conivência baseado na conveniência. “O cara comete excessos, mas é linha dura. Ninguém faria melhor” ou “Ele é ladrão, mas tem lá suas qualidades.” Esse tipo de conformismo tem lesado não somente a humanidade, mas obviamente outras espécies.





Written by David Arioch

April 22, 2017 at 7:51 pm

Sobre campos de concentração para homossexuais na Tchetchênia

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Ramzan Kadyrov (ao centro) leva uma vida de ostentação na Tchetchênia (Foto: Reprodução)

Tem circulado na internet uma petição contra campos de concentração para homossexuais na Tchetchênia. Esses campos são antigos e não foram construídos pelos tchechenos, mas simplesmente por quem há muito tempo está no controle da Tchetchênia, e que por sinal é pró-Rússia. É importante não confundir tchechenos com governo tchetcheno.

Filho de Akhmad Kadyrov, considerado um dos maiores criminosos de guerra da história da Tchetchênia, o atual presidente da Tchechênia, Ramzan Kadyrov, que há anos é acusado de violar direitos humanos, comanda um exército privado conhecido como Kadyrovtsy, que opera uma rede de prisões secretas. De acordo com a Federação Internacional de Helsinki para Direitos Humanos, o exército que Kadyrov herdou de seu pai é responsável por 75% dos crimes de guerra cometidos contra os tchetchenos.

Outro ponto a se considerar é que se esses crimes contra homossexuais realmente são cometidos, em algum nível o presidente russo Vladimir Putin tem alguma responsabilidade, já que foi ele quem colocou Ramzan Kadyrov na presidência. Sendo assim, acho importante assinar petições, até porque naturalmente repercutem. Mas também é importante saber quem é que está no controle dessas ações, até para evitarmos a desinformação e a generalização.

Leitura sugerida:

Independência e sangue

 

 

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Written by David Arioch

April 22, 2017 at 5:41 pm

Sobre suicidas a serviço do terrorismo

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(Foto: Omar haj kadour/AFP)

O sujeito, já preparado para morrer, dirige um caminhão cheio de explosivos e mata um monte de crianças famintas na Síria. E com esse ato cruel e bárbaro ainda espera descansar no paraíso, em um lugar privilegiado. É absurdo, não? Para nós, não para eles.

A verdade é que suicidas como esse não se importam em morrer porque julgam que não têm nada a perder. E a propaganda mais forte dos grupos terroristas não gira em torno da fé ou do respeito ao islamismo. Na realidade, a religião mesmo, deturpada ou não, acaba por ter até um intrigante papel secundário.

A propaganda se sustenta na idealização e na promessa do paraíso. Ou seja, o que esse ato tem a oferecer ao ser humano que se sacrifica pela fé – nisso há um viés antropocêntrico. Livros como “Isis: Inside the Army of Terror” e “The Secret History of al Qaeda” deixam isso claro.

Pelo menos por parte dos grandes meios de comunicação, quando se fala em terrorismo no Oriente Médio, pouco se aborda que os mentores intelectuais dessas ações jamais cometeriam suicídio, e é por isso que eles se perpetuam no comando de organizações criminosas. Quando morrem, não foi porque quiseram assim.

Eles fazem lavagem cerebral nos mais miseráveis, ignorantes e analfabetos. Inventam histórias, prometem cuidar de suas famílias miseráveis quando esses partirem. A fé dissimulada, e no pior contexto, tem mais chances de cegar um homem faminto do que aquele de barriga cheia.

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Written by David Arioch

April 17, 2017 at 12:39 am

Posted in Críticas

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Sobre pessoas contra o veganismo

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O veganismo preconiza que não tratemos os animais como produtos (Foto: Jordan Gardone)

Não tenho nada contra quem afirma que abandonou o vegetarianismo ou mesmo o “veganismo”, mas sempre surge um problema quando alguém, por questões particulares, se empenha em tentar convencer os outros de que o veganismo não é viável.

O veganismo preconiza algo bem simples – não trate os animais como produtos e desconsidere a legitimação dessa exploração, não é difícil entender isso. Claro, alguém pode levantar pontos a serem discutidos, o que pode ser bem positivo.

Porém, acho triste quando alguém insiste em tentar desmotivar pessoas que estão considerando o veganismo, e existe muito disso hoje em dia. Até mesmo o que pode parecer um desabafo de alguém, e que na realidade tem uma visão confusa do veganismo, por isso não entendeu o seu propósito, pode servir muito bem para disseminar a desinformação.

Quando uma pessoa é contra o direito dos animais à vida ou faz piada disso, é difícil não imaginar que seu discurso vem embutido de uma força desmedida que se empenha em empurrar um pouco mais os animais para o fosso da negligência e do esquecimento, onde a cobertura prevalecente é a da ignorância humana. Ademais, a compaixão não é o que fazemos dela, mas sim o que ela faz de nós.

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Written by David Arioch

March 23, 2017 at 12:27 am

Proteínas e musculação

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Protein-Shakes

Todos os dias, vejo pessoas se empanturrando de proteínas, algumas inclusive com baixas necessidades – e aqui faço questão de citar principalmente aquelas que pesam menos de 80 quilos. Mal sabem que isso na realidade não vai fazer nenhuma diferença no ganho de massa muscular ou se lá qual for o objetivo para se consumir tantas proteínas.

Vivemos em uma sociedade que exalta tanto as proteínas de origem animal que, pelo menos no meio da musculação, é mais fácil encontrar quem consome proteínas em excesso do que quem as consome em quantidade suficiente ou até mesmo inferior ao necessário. A indústria foi magistral em criar falsas necessidades simplesmente para gerar lucro. E falo disso com alguma propriedade porque anos atrás eu também acreditava que o caminho era consumir grande quantidade de proteínas.

Em academias, vemos inclusive mulheres leves, que fazem inúmeras refeições ao dia e, ainda assim, não abrem mão do shake de whey protein. Talvez seja um placebo que gere algum tipo de motivação, porque é ingenuidade crer que é preciso se empanturrar de proteínas para alcançar qualquer objetivo.

Conheça seu corpo, suas próprias necessidades e busque ajuda profissional se necessário, mas uma dica que dou levando em conta os meus mais de dez anos de musculação é: se distancie desse mito que faz as pessoas associarem musculação com quantidades estratosféricas de proteínas. A maior prova da força da indústria é a incapacidade da maioria em conversar sobre musculação sem citar proteínas na maior parte das frases sobre o assunto.

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Written by David Arioch

March 13, 2017 at 7:16 pm

A disfunção narcotizante e a banalização da morte animal

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“A dor de uma mãe”, da artista francesa Stephanie Valentin

Quando estudei teoria da comunicação na faculdade, um dos conceitos que mais me intrigou foi o da disfunção narcotizante, proposto por Lazarsfeld e Merton, que nada mais é do que a banalização da violência, e mesmo de tudo que é errado, imoral ou antiético.

Durante muito tempo, associei essa ideia a de uma criança que depois de testemunhar tantas mortes, já não sente mais nada quando vê um corpo caído; a do homem que lê tantas desgraças nos jornais que já não sente nada diante das tragédias.

Hoje, eu relacionaria também a disfunção narcotizante com, por exemplo, a nossa realidade nos açougues, onde encontramos animais mortos, e inclusive inteiros (como é o caso do leitão), mas normalmente nos negamos a vê-los como seres que, assim como nós, respiravam, se emocionavam. Enfim, tinham vida.

Tenho certeza de que a maioria das pessoas quando vai ao açougue jamais pensa em como foi a vida do porquinho que repousa morto atrás de uma vitrine. Afinal, por que confrontar a realidade quando podemos ignorar a exploração e a violência, vivermos em uma realidade de disfunção narcotizante?

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Considerações sobre o consumo de laticínios

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confinamento-gado-de-leiteConsidero um equívoco quando alguém me diz que o problema do sofrimento dos animais nos grandes laticínios poderia ser resolvido se as pessoas comprassem leite de pequenos produtores. Tudo bem, então você compra leite do pequeno produtor e eu também. Daí quando as pessoas perguntarem, explicamos que o ideal é nunca comprar de grandes produtores.

Em pouco tempo, teremos uma infinidade de pessoas indo pelo mesmo caminho, e assim esses pequenos produtores serão obrigados a tornarem-se grandes produtores ou a saírem do negócio, já que eles deverão suprir a demanda ou ceder espaço para quem faça isso. A verdade é que enquanto as pessoas continuarem consumindo leite, inclusive muito mais do que os próprios bezerros, a intensa exploração da vaca vai continuar. Afinal, usa-se leite em quase tudo, até mesmo na composição de adoçantes.

Não há uma solução mais sustentável do que abdicar desse consumo, muito menos como evitar que todas as vacas do mundo passem por algum tipo de sofrimento ou privação enquanto as pessoas consomem quantidades exorbitantes e mesmo nocivas de laticínios. Não existe nem mesmo área para que todas as vacas da indústria leiteira sejam criadas de forma “humanizada”. Afinal, essa é a realidade do sistema industrial predominante, que atua conforme a demanda. E se a demanda é grande, o ritmo de produção é acelerado, o que significa que mais do que nunca o lucro se torna prioritário.868141253

Além disso, os produtores de leite do Brasil descobriram há muito tempo que é possível lucrar até três ou quatro vezes mais criando o gado leiteiro sob regime de confinamento, seguindo o exemplo de países como os Estados Unidos. Logo não vejo por qual motivo eles iriam abdicar desse sistema se não for por força de uma grande desaceleração no consumo, já que o mercado age em conformidade com as reações dos consumidores.

Um fato a se considerar sobre a produção nacional de leite é que em 2015, de acordo com dados da Leite Brasil, somente as 15 maiores empresas do ramo de laticínios do Brasil foram responsáveis por quase 10 bilhões de litros de leite. Só a Nestlé respondeu por 1,8 bilhão de litros. Levando isso em conta, como alguém pode afirmar que não contribui com a exploração industrial das vacas simplesmente porque não bebe o leite comercializado por grandes produtores? Isso não diz nada.

Seria uma grande ilusão, a não ser que a pessoa seja vegetariana ou vegana, porque quem consome laticínios, ou não lê os rótulos dos produtos (que costumam conter derivados lácteos) e os compra, naturalmente contribui para a manutenção desse sistema. Mesmo que alguém afirme que as vacas sejam “bem tratadas”, que não sofrem violência, isso não muda o fato de que elas são submetidas à ordenha natural ou mecânica por anos, até que, com a queda da produção, são vendidas aos frigoríficos, abatidas e reduzidas a pedaços de carne expostos em um açougue.

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Uma triste face da realidade da indústria leiteira

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Assisti hoje mais um dos centenas vídeos disponíveis no YouTube sobre a realidade da grande indústria leiteira. Animais que morrem pouco a pouco para que as pessoas possam consumir laticínios. As vacas produzem leite em quantidades absurdas, ou seja, não naturais, e não raramente levam uma vida de sofrimento e privações até o dia de sua morte. Ademais, o bezerro que nasce nesse meio é reduzido à carne de vitela porque é mais cômodo para a indústria.

Vale a pena beber leite e consumir derivados a esse preço? Não creio. Por isso não compro nem consumo nada que tenha leite. De repente, pode aparecer alguém dizendo que isso não é uma realidade que se deve generalizar. Acredito que seja a realidade sim porque a maior parte das pessoas compra leite industrializado, o que significa que estamos falando de grandes produtores. Para atender a demanda, é preciso exigir muito dos animais, reduzindo expectativa de vida e consequentemente gerando sofrimento. Até porque nenhum animal é feliz produzindo leite para seres humanos.

Em síntese, esse tipo de situação só existe porque há uma grande demanda de leite e derivados. Se um animal é levado a viver dessa forma, isso acontece porque tem quem compre o resultado da exploração desse animal. Se possível, pense nisso quando for comprar leite, iogurte, queijo, etc. É apenas uma sugestão.

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