David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Críticas’ Category

Se quiser ter filhos, seja feliz. Se não quiser, que seja também

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Os animais não afastam o ser humano de sua “humanidade”. Na realidade, eles a estimulam.

Há um texto sendo compartilhado em mídias sociais em que um senhor afirma que os bebês estão perdendo espaço para os “pets” ou “animais domésticos”, e que por isso estamos nos afastando de nossa “vocação humana”. Para ser honesto, não gosto muito do termo “pet”, porque como disse James Cromwell algumas vezes em entrevistas sobre direitos animais, quando falamos em “pet” há uma objetificação, uma reafirmação de uma ideia de que estamos falando de um ser vivo que parece que existe para nos servir, nos entreter. Claro que a ideia não é condenar quem usa o termo inocentemente, mas sim propor uma pequena reflexão.

O sujeito que publicou o texto em que critica quem convive com animais, mas não tem filhos, se posiciona como filósofo. Eu não o conheço, mas sei que no contexto da filosofia não cabe, ou pelo menos não deveria caber, senso comum ou discurso apelativo ou imponderado. Optar por não ter filhos não faz de ninguém menos humano. Desde a minha infância, tenho recordações de pessoas incríveis que marcaram a minha vida e optaram por não ter filhos.

“Teu individualismo revela tua natureza tão decadente e insuportável que somente um animal, devido a inocência, é capaz de tolerar-te, de ‘suprir’ a tua dificuldade de conviver e amar, de retirar-te da solidão, um dos tantos males da contemporaneidade.” Quando o sujeito faz tal afirmação, e extremamente agressiva se analisarmos a escolha das palavras, tenho a impressão de que ele está se referindo a pessoas que vivem em estoica misantropia.

Conheço mães e pais que são solitários, assim como pessoas que não têm filhos e não têm nenhum dos problemas citados acima. O ponto crítico desse tipo de afirmação é a óbvia generalização. Ter filhos ou não tê-los é direito de cada um. No texto, o autor afirma que o ato de ter filhos nos “humaniza”. Realmente ter filhos pode contribuir muito para o desenvolvimento humano, tenho exemplos disso na família. Mas isso não diz respeito a todos os seres humanos.

Não tê-los não significa caminhar em direção oposta. Muitos assassinos, criminosos e corruptos são pais de alguém. Acompanhe as notícias da realidade da violência intrafamiliar no Brasil e no mundo. Segundo a Fundação das Nações Unidas para a Infância, só no Brasil são registrados cinco casos por hora de violência intrafamiliar.

Sendo assim, está claro que ter filhos não “humaniza” todo mundo. Na realidade, acredito que essa percepção do ser humano que se transforma com a maternidade ou a paternidade é romântica. Sim, ela existe, mas não tanto quanto as pessoas gostam de fazer parecer, o que naturalmente é uma herança histórica cultural. E claro, quando a alçamos a níveis irreais, ela é mais idealizada do que vivida.

Muitas vezes, pessoas que vivem reclusas em seus pequenos círculos sociais, em suas zonas de conforto, acabam por ter dificuldade em perceber a heterogeneidade que isso abarca. Ter filhos, sem dúvida, pode ser um ato de amor, mas não tê-los não é um ato de desamor. Ademais, sabemos que há muitas pessoas que somente colocam filhos no mundo, mas não os educam nem dão amor.

Desrespeito, ausência de limites, comportamento violento, desvio de caráter, imoralidade, abandono…; não raramente isso faz parte do kit Omissão e Falta de Estrutura Familiar. Além disso, em um país cada vez mais populoso, não acho justo condenar pessoas que não querem ter filhos. Que cada um tenha o direito de fazer suas próprias escolhas. Se quiser ter filhos, seja feliz. Se não quiser, que seja também.





Written by David Arioch

November 14th, 2017 at 2:13 pm

Me parece que virou moda demonizar as redes sociais hoje em dia

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Me parece que virou moda demonizar as redes sociais hoje em dia. Acredito que o problema não está em usar as redes sociais, mas sim em saber aproveitar o que elas têm de bom a oferecer. Ultimamente, tenho encontrado muitas pessoas falando de mídias sociais como se fossem o próprio demônio. Acho isso exagerado, até porque é uma importante ferramenta de divulgação do meu trabalho, e não tenho como não considerar isso positivo. Sejamos ponderados que tudo transcorre bem.





Written by David Arioch

October 19th, 2017 at 12:17 am

Sobre pessoas que cometem assassinatos em massa

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Arte: Massahiro Ito

Não raramente, quando casos envolvendo mass murderers ou rampage killers ganham visibilidade, as pessoas dizem: “Ele sempre foi uma boa pessoa” ou “sequer levou uma multa de trânsito ao longo da vida”. Sou bem avesso ao maniqueísmo, sempre fui, e devo dizer que o ser humano “de bem”, dependendo de como vive, pode se transformar em uma bomba-relógio em qualquer momento de sua vida.

Quando isso acontece, certo e errado já não significam nada, assim como bondade ou maldade, porque foram diluídos durante um processo de alomorfia, quando o ser humano torna-se incapaz de ver sentido em uma coisa ou em outra. Não há equivalência, nem descoincidência.

Por isso, considero importante boa educação, boa comunicação, estrutura familiar e capacidade de desenvolver desde cedo uma relação de pertencimento à vida e ao mundo, mesmo que tudo que vivemos seja provisório. Claro, não estou me referindo a pessoas que desenvolvem psicopatia desde cedo sem motivação contextual.

Falo de pessoas aparentemente comuns que, imersas em um viperino e volátil elã emocional e psicológico, tornam-se assassinas em algum momento de suas vidas. São seres que não veem nada de bom na humanidade ou na vida e, pesando a própria degradação como reflexo da falência existencial, anseiam em feri-la, mesmo que literalmente e alegoricamente matando alguns dos seus.

Em síntese, assassinos dessa categoria às vezes são seres derribados que sentam-se diante da falésia, mas saltam somente no instante em que suas correntes estejam bem dispostas para arrastar outros, porque creem que somente através da morte daqueles que não eram “insignificantes”, sua história ou memória será perpetuada. Talvez o descomplicado suicídio seja solitário demais, liliputiano demais. Afinal, não ganha manchetes nos jornais, nem conversas entre mais do que meia dúzia de conhecidos. É um dos pináculos ou fossos da degradação sequer humana.

E quando alguém chega a ponto de matar alguém para provar alguma coisa, isso reverbera também uma nova porção de tentáculos da falência social. Por isso, eu jamais colocaria outro ser humano neste mundo se não fosse para assumir o compromisso de torná-lo um ser humano digno. Muitos dos males que testemunhamos hoje em dia vem do envilecimento e da indefensibilidade estrutural, terreno fértil não simplesmente para a calejada imoralidade, mas também para a, muitas vezes ignorada, amoralidade.

 





Written by David Arioch

October 5th, 2017 at 8:56 pm

Passei a minha vida toda em cidades do interior

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Arquivo: Shelton Palace Hotel

Passei a minha vida toda em cidades do interior. Por uma questão de preferência, nunca morei em metrópoles, justamente porque tempo é algo importante para mim, além da perpetuação de certos hábitos que considero inerentes ao ser humano. Não cresci comprando coisas demais, frequentando redes de fast food. A verdade é que não cresci dentro de uma cultura muito consumista. Na minha infância, porcarias eram consumidas apenas ocasionalmente. E tal hábito foi mantido e aperfeiçoado.

Não tenho o costume de comer fora, sempre tive uma relação quase litúrgica com a comida, tanto que gosto de cozinhar. Prefiro comprar coisas diretamente de quem produz. Claro, não me considero melhor do que ninguém por causa disso. Produtos industrializados nunca foram uma grande preocupação pra mim, porque essa não é a cultura em que estou inserido, e provavelmente essa minha história de vida me permite não cair em tantas armadilhas que ajudam a perpetuar ou reforçar as mais diferentes formas de exploração.

Me recordo que quando Gilles Lipovetsky criou o termo caos organizador ele disse que o ser humano se dividiria entre o progresso e o regresso na hipermodernidade. E é isso que testemunhamos todos os dias. Quando penso nisso, às vezes rememoro os escritos ficcionais de Knut Hamsun sobre anticivilização, uma anticivilidade telúrica que o levou ao Nobel.

 

 





Written by David Arioch

October 5th, 2017 at 8:36 pm

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Tudo que as pessoas que não gostam de veganos querem é que veganos sintam-se inseguros

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Foto: Peaceful Prairie

Tudo que as pessoas que não gostam de veganos querem é que veganos sintam-se inseguros em relação à suas escolhas e decisões. Alguns tentarão fazer você acreditar que é hipócrita, que na realidade não está contribuindo efetivamente com os animais. Há pessoas capazes de observar os seus hábitos para encontrar alguma falha, esquecendo-se de uma premissa básica – veganismo não significa perfeição, mas sim um aperfeiçoamento constante em franca oposição à exploração animal. Também não faz objeção às questões humanas, já que o veganismo é muito benéfico à humanidade, e inclusive uma questão de justiça social.

Quando me fazem questionamentos sobre o assunto, normalmente de antemão consigo identificar a intenção. A escolha das palavras, o tom e a forma como elas são usadas dizem muito sobre o propósito do interlocutor; se ele realmente está disposto a dialogar. Assim consigo avaliar também se devo responder, sorrir ou ignorar. Não me recordo de nenhum momento em que me senti em risco por qualquer indagação desse tipo.

Porque me sentir em risco significaria amargar dubiedade sobre as minhas próprias decisões; e hesitação e vacilação também são ferramentas de altercação. Bom, não apenas tenho segurança em relação ao que defendo, como também sei que a fragilidade do desconhecimento de quem ataca vem sempre carregada pelos arroubos da ignorância, da ablepsia e da equívoca passionalidade; e isso também costuma suprimir o que deveria florescer.

Mas, claro, aponte-me meus erros respeitosamente, e eu o considerarei, mas se faz isso de forma impolida e debochada, concluirei que estou diante de alguém que tripudia sobre a realidade; que resiste em aquiescer a óbvia razão dos que não aceitam a objetificação animal. E não apenas não aceitam como estão sempre dispostos a mostrar como somos evidentemente arbitrários na nossa relação com os outros animais, tenha tal ação uma acolhida positiva ou negativa.

 

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Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 1:17 am

Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças

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Nunca tive um relacionamento abusivo. Nunca odiei nenhuma guria com quem me relacionei. E creio que isso seja recíproco. Mulheres, amigas, amigos entram na minha vida e saem, se assim desejarem, o que acho bem natural.

Se você conhece alguém e esse alguém espera de você algo que você não pode oferecer, simplesmente não seja sem noção. O que quero dizer? Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças. A carência pode levar as pessoas a cometerem equívocos que trazem sérias consequências. Uma delas pode ser magoar profundamente alguém que espera de você mais do que você pode oferecer. Creio que muitos relacionamentos começam errado por causa disso.

Um relacionamento para dar certo deve partir do princípio de que duas pessoas querem a mesma coisa, têm objetivos em comum na relação e não estão pensando em obstáculos que já podem minar a relação. Quem entra em um relacionamento sério para trair, ou pelo menos pensando nessa possibilidade, pode muito bem deixar claro para a outra pessoa essa sua inclinação. O que significa que isso não cabe em um relacionamento monogâmico.

Assim como não cabe ser egoísta e individualista a maior parte do tempo. Claro, é impossível nunca ser egoísta e individualista, mas é possível não ser a maior parte do tempo, bastando apenas refletir a respeito e fazer um pouco de esforço em prol de algo que não diz respeito apenas a si mesmo.

Relacionamentos muitas vezes não dão certo por falta de comunicação e honestidade. E claro, empatia, já que não se colocar no lugar do outro permite que as pessoas tenham atitudes totalmente incompatíveis com uma relação saudável. Não é monogâmico? Então encontre pessoas que também não são. Não tem segredo. É só acreditar no respeito e colocar isso em prática.

Se tratando de relacionamentos, não acho que as pessoas devam ser iguais ou muito parecidas. Na minha opinião, o que elas devem, em primeiro lugar, é ter uma forte razão para estarem juntas. O que acontece a partir daí, vai depender do esforço, da vontade e da inclinação de cada um.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 11:02 pm

Não é correto relacionar veganismo com religião

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“Me diga quais religiões que lutaram de fato pela libertação animal?”

Não acho correto relacionar veganismo com religião. O veganismo surgiu no Ocidente e a sua única defesa é pelos direitos animais. Afinal, não existia nada nos moldes atuais antes do veganismo, e a literatura relacionada aos direitos animais está aí para provar isso.

E se alguém me pergunta, mas e as religiões que condenam o consumo de animais? Eu respondo com outra pergunta: Me diga quais religiões que até lutaram de fato pela libertação animal? Elas normalmente dialogam com os seus, não com os outros. E mesmo quando seus adeptos não consomem animais, eles não realizam de fato um trabalho abrangente contra a objetificação animal, como o defendido pelos ativistas dos direitos animais.

É um caminho perigoso esse de relacionar vegetarianismo místico ou religioso com veganismo, e simplesmente porque não são a mesma coisa. Uma pessoa pode ser religiosa e vegana, isso é normal, mas não concordo quando dizem que sua religião é vegana, porque veganismo não tem nada a ver com religião; porque o veganismo é o reconhecimento do direito animal à vida e a luta pelo abolicionismo animal. E a verdadeira transformação tem acontecido a partir daí.

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A dor de uma pessoa é somente dela

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Rimbaud, exemplo de artista que transformou a dor em arte (Arte: Cezanne)

Quando me sinto mal, normalmente penso que há pessoas em situação pior que a minha. Faz sentido? Sim. Resolve? Depende. Mas faço questão de fazer uma observação que considero importante. Muitas vezes há uma tendência a se comparar o sofrimento de uma pessoa com o das outras. Isso é justo? Nem sempre, e não deve ser um padrão.

Por isso, sou da opinião de que a dor de uma pessoa é somente dela, e só ela sabe o que isso representa em sua vida. Quando me coloco no lugar do outro, tenho como parâmetro tal reflexão: “A minha dor não é maior nem menor do que a de ninguém, ela é simplesmente a minha dor.” Isso basicamente diz muito sobre o que penso em relação à individualidade do sofrer.

Acredito que evitar comparações em relação à dor de alguém é importante, porque em vez de ajudar, na tentativa de mostrar a alguém que o seu sofrimento “é inferior ao de outro”, e por isso deve ser assimilado como tal, pode atrapalhar e muito. Nisso subsiste o risco de nivelar a dor do outro por baixo, como se fosse algo insignificante. E como podemos avaliar a dor de alguém quando não partilhamos do mesmo sentimento e experiência em dado momento?

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Written by David Arioch

June 21st, 2017 at 11:33 pm

Machado de Assis X Balzac

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Balzac influenciou Machado de Assis

Acho injusto quando vejo sites de notícias e de literatura dizendo que um escritor foi ou é melhor do que o outro. Há alguns meses, li um artigo em que alguns especialistas falaram que Machado de Assis foi muito maior do que Balzac, tratando-se de qualidade literária e retrato crítico da realidade.

Considero isso equivocado, até porque o estilo de Machado de Assis, por exemplo, foi influenciado por Balzac, e ele mesmo admitia isso; e nunca buscou tal comparação. Augusto dos Anjos, por vezes considerado por brasileiros como maior que Rimbaud, também admitiu influência daquele que foi um dos nomes mais enigmáticos e controversos do simbolismo. Sou contra esse ufanismo literário.

Não vejo razão em dizer quem é melhor que quem. São rivalidades desnecessárias, até porque os critérios são imprecisos, e nesse sentido pouco se leva em conta as particularidades de cada um, o ritmo de produção e o zeitgeist, que é o espírito de uma época. E não acredito que bons escritores escrevem para serem considerados melhores do que os outros. Creio que a intenção da maioria é sempre tocar o leitor, ser entendido pelo leitor, simplesmente isso.

A rivalidade na literatura surgiu com os críticos, e a crítica infelizmente não contribui em nada nesse tipo de debate, já que pouco interessa ao leitor quem foi maior que quem. O mais importante era e é o que cada escritor tem a oferecer.

 

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Written by David Arioch

June 21st, 2017 at 11:31 pm

Considerações sobre a violência

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A violência é uma forma de descontrole

Agressividade, violência, são formas de descontrole. Se você não tiver controle sobre isso, isso terá controle sobre você. E quando você achar que está dominando alguma coisa ao fazer uso da agressividade ou da violência, estará apenas sendo subjugado pelo que te priva da sua própria humanidade, sem que você perceba. As consequências disso podem ser o seu próprio definhamento.

Uma briga é sempre uma derrota, tanto para quem vence quanto para quem perde. Para quem perde, porque a violência física dificilmente é esquecida ou deixa de ser materializada em trauma ou grande frustração. Para quem vence, porque, assim como o outro, também provou que não teve controle sobre as próprias emoções, assim cultivando uma inimizade que pode perdurar por toda a vida.

Orgulho de bater em alguém. Por que eu teria orgulho de bater em alguém? O que muda o ser humano para melhor é tocar a sua consciência, não o seu corpo. Se bato em alguém, significa que não tenho mais nada a oferecer além dos meus punhos. Ademais, é estranho reconhecer que há quem revele desprezo e raiva por quem defende a não violência.

Sobre violência, faço questão de compartilhar uma história real que vivi aos 19 anos (Faz parte de uma crônica intitulada “Briga de Rua”). Acredito que não existe melhor forma de desarmar alguém do que subverter expectativas.

“Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável. Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas.”

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 8:40 pm