David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Críticas’ Category

A dor de uma pessoa é somente dela

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Rimbaud, exemplo de artista que transformou a dor em arte (Arte: Cezanne)

Quando me sinto mal, normalmente penso que há pessoas em situação pior que a minha. Faz sentido? Sim. Resolve? Depende. Mas faço questão de fazer uma observação que considero importante. Muitas vezes há uma tendência a se comparar o sofrimento de uma pessoa com o das outras. Isso é justo? Nem sempre, e não deve ser um padrão.

Por isso, sou da opinião de que a dor de uma pessoa é somente dela, e só ela sabe o que isso representa em sua vida. Quando me coloco no lugar do outro, tenho como parâmetro tal reflexão: “A minha dor não é maior nem menor do que a de ninguém, ela é simplesmente a minha dor.” Isso basicamente diz muito sobre o que penso em relação à individualidade do sofrer.

Acredito que evitar comparações em relação à dor de alguém é importante, porque em vez de ajudar, na tentativa de mostrar a alguém que o seu sofrimento “é inferior ao de outro”, e por isso deve ser assimilado como tal, pode atrapalhar e muito. Nisso subsiste o risco de nivelar a dor do outro por baixo, como se fosse algo insignificante. E como podemos avaliar a dor de alguém quando não partilhamos do mesmo sentimento e experiência em dado momento?

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June 21, 2017 at 11:33 pm

Machado de Assis X Balzac

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Balzac influenciou Machado de Assis

Acho injusto quando vejo sites de notícias e de literatura dizendo que um escritor foi ou é melhor do que o outro. Há alguns meses, li um artigo em que alguns especialistas falaram que Machado de Assis foi muito maior do que Balzac, tratando-se de qualidade literária e retrato crítico da realidade.

Considero isso equivocado, até porque o estilo de Machado de Assis, por exemplo, foi influenciado por Balzac, e ele mesmo admitia isso; e nunca buscou tal comparação. Augusto dos Anjos, por vezes considerado por brasileiros como maior que Rimbaud, também admitiu influência daquele que foi um dos nomes mais enigmáticos e controversos do simbolismo. Sou contra esse ufanismo literário.

Não vejo razão em dizer quem é melhor que quem. São rivalidades desnecessárias, até porque os critérios são imprecisos, e nesse sentido pouco se leva em conta as particularidades de cada um, o ritmo de produção e o zeitgeist, que é o espírito de uma época. E não acredito que bons escritores escrevem para serem considerados melhores do que os outros. Creio que a intenção da maioria é sempre tocar o leitor, ser entendido pelo leitor, simplesmente isso.

A rivalidade na literatura surgiu com os críticos, e a crítica infelizmente não contribui em nada nesse tipo de debate, já que pouco interessa ao leitor quem foi maior que quem. O mais importante era e é o que cada escritor tem a oferecer.

 

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Written by David Arioch

June 21, 2017 at 11:31 pm

Considerações sobre a violência

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A violência é uma forma de descontrole

Agressividade, violência, são formas de descontrole. Se você não tiver controle sobre isso, isso terá controle sobre você. E quando você achar que está dominando alguma coisa ao fazer uso da agressividade ou da violência, estará apenas sendo subjugado pelo que te priva da sua própria humanidade, sem que você perceba. As consequências disso podem ser o seu próprio definhamento.

Uma briga é sempre uma derrota, tanto para quem vence quanto para quem perde. Para quem perde, porque a violência física dificilmente é esquecida ou deixa de ser materializada em trauma ou grande frustração. Para quem vence, porque, assim como o outro, também provou que não teve controle sobre as próprias emoções, assim cultivando uma inimizade que pode perdurar por toda a vida.

Orgulho de bater em alguém. Por que eu teria orgulho de bater em alguém? O que muda o ser humano para melhor é tocar a sua consciência, não o seu corpo. Se bato em alguém, significa que não tenho mais nada a oferecer além dos meus punhos. Ademais, é estranho reconhecer que há quem revele desprezo e raiva por quem defende a não violência.

Sobre violência, faço questão de compartilhar uma história real que vivi aos 19 anos (Faz parte de uma crônica intitulada “Briga de Rua”). Acredito que não existe melhor forma de desarmar alguém do que subverter expectativas.

“Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável. Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas.”

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June 18, 2017 at 8:40 pm

Breves reflexões sobre a vida hipermoderna

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Arte: Steve Cutts

Gilles Lipovetsky disse que a vida hipermoderna nos moldes atuais poderá nos destruir; e em algum nível isso vem acontecendo há muito tempo. Infelizmente, parece-me que a vida moderna não foi planejada como deveria, e as consequências disso estão por todos os lados.

Acordei pensando em suas teorias hoje e me recordei de Knut Hamsun, vencedor do Nobel que era anti-civilização, que acreditava que quanto mais distante da sua própria natureza, mais o ser humano se tornaria alheio às próprias necessidades, se apegando à superficialidade daquilo que ele considera viver sem ser viver. Viver para comprar em vez de comprar para viver é um exemplo clássico disso.

O mundo pode ser um lugar estranho se pensarmos que vivemos para atender necessidades que nunca foram primárias, ou nem mesmo necessidades. As pessoas estão cada vez mais doentes porque já não reconhecem o seu papel no mundo, que parece implacável e sempre disposto a engolir quem não se adapta à velocidade e ferocidade da vida moderna.

Muitas pessoas respiram muito mal, pouco observam à sua volta, não sabem dizer qual era a cor do céu numa tarde ensolarada. Em muitos casos, não enxergam a si mesmas, ou têm uma visão distorcida de quem são, porque tudo isso parece insignificante quando se tem um objetivo que é sacrificar a própria vida para se destacar mais do que os outros, para ter muito mais dinheiro do que os outros. Existe sempre uma competição, porque competir significa vencer alguém; e muitos realmente veem isso como o sentido da vida, um respiro de glória, até mesmo de superioridade.

Não raramente falamos em igualdade e redução das desigualdades sociais, mas jogamos na loteria. E poucos, ainda sendo otimista, mesmo que ganhassem um grande prêmio, realmente teriam a coragem de destinar pelo menos uma parte desse dinheiro para ajudar a reduzir as mazelas que tanto criticam. Parece que estamos imersos na demagogia, na contradição…na hipocrisia, embora ainda haja esperança. E nem sempre por má fé, mas sim porque é uma cultura já entranhada no cerne da nossa vida em sociedade.

Sempre vejo pessoas vendendo a fórmula do sucesso, e a maioria delas prometem muitas riquezas materiais e dão dicas de como vencer os outros, ser melhor do que os outros. A fórmula quase sempre envolve superar os outros mais do que a si mesmo; como se os outros fossem nossos inimigos. É como se sempre tivéssemos inimigos – no trânsito, na internet, nas filas, na escola, na faculdade, no trabalho.

Cremos que somos livres quando na realidade somos servos de uma cultura já consolidada que vende a ideia de que somos senhores de nós mesmos, quando às vezes não somos senhores nem de nossas menores decisões. As armadilhas há muito foram instaladas, mas nossos olhos talvez ainda não sejam tão treinados para enxergá-las.

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June 14, 2017 at 1:10 am

Sobre “justiça com as próprias mãos”

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Tatuagem feita como forma de “punição” (Foto: Reprodução)

Sobre o garoto de 17 anos que, após uma tentativa de furto de uma bicicleta, teve a testa tatuada com as palavras “Eu sou ladrão e vacilão”. Sim, sou contra o que fizeram com ele. Acredito que o mundo está se tornando um semeadouro de impaciência, e todos os dias as pessoas perdem um pouco mais de sensibilidade e plasticidade. A cada ano que passa a vida vale um pouco menos. Muitos se consideram aptos a decidir quem merece viver e quem merece morrer.

Mas o problema maior subsiste no fato de que com o crescimento dessa linha de pensamento é inevitável pensar na possibilidade de que o mundo pode se tornar um lugar muito pior. Vejo isso como um retorno ao primitivismo. Já não é mais velado o desejo do retorno da Lei de Talião, do Código de Hamurabi.

A violência insufla as pessoas de um tipo peculiar de medo que faz com que elas matem ou desejem a morte de outrem não porque acham que é a única forma de sobreviver, mas sim porque são alimentadas diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis.

Há muitas pessoas que não apenas consideram a violência como algo intrínseco à realidade, como acham justo tomar parte nela. É aquela consciência de que se as leis não funcionam corretamente, posso criar as minhas próprias. Ou seja, serei o senhor de meus atos e ninguém terá o direito de me deter, já que rejeito e condeno os mecanismos de justiça da atualidade.

Outro agravante é o fato de que se todos alimentarem um senso de justiça individualista, não há de tardar para as pessoas menosprezarem um pouco mais a vida. Sendo assim, um indivíduo pode achar justo matar alguém porque invadiu sua casa.

Outro pode considerar plausível assassinar uma pessoa porque lhe deve dinheiro ou porque arranhou a pintura do seu carro em um acidente. O justo seria um criminoso aos olhos do injusto e vice-versa. Sendo assim, se seguíssemos nessa direção, não seria tão obtuso acreditar no futuro como o prólogo do fim da humanidade.

Até hoje me recordo do caso de um pai que, por engano, matou o próprio filho a tiros em Joanesburgo, na África do Sul. Em uma madrugada, o garoto foi confundido com um ladrão quando estava atravessando o quintal para entrar dentro de casa.

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June 11, 2017 at 11:13 pm

Sobre ser contra algumas formas de exploração e desconsiderar o veganismo

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Arte: End Trophy Hunting Now

É estranho ser contra diversas formas de exploração e ainda assim considerar o veganismo como algo impraticável ou impossível. Quero dizer, se me alimento de animais, e tenho acesso à informação sobre as variantes da exploração de seres sencientes, devo reconhecer que se compro um pedaço de carne isso significa que algum ser vivo passou por privação ou sofrimento, ou os dois; senão aquele pedaço não chegaria às minhas mãos.

Claro, posso defender algumas bandeiras contrárias a alguns tipos específicos de exploração, mas analisando como um todo, as minhas contrariedades seriam pontuais, e em alguns casos até paradoxais e convenientes, já que é mais fácil defender aquilo que nos atinge primariamente.

Eu não acharia justo eu fazer um discurso sobre exploração, igualdade e equidade, por exemplo, em um churrasco convencional. Quero dizer, enquanto me alimento de animais. Mas por que? Simplesmente porque eu me sentiria invalidando o meu próprio discurso. Claro, esse é o meu entendimento, e a minha perspectiva. Não vendo verdades; apenas estimulo reflexões.

Alguém que é contrário a algumas formas de exploração poderia alegar que não vive sem carne. Não, não vivemos sem a nossa própria carne, ou seja, do nosso corpo, assim como qualquer animal não humano. E é por isso que não existe carne sem morte, embora muita gente ainda resista a fazer tal associação. Não há como negar que um pedaço de carne que se consome é mais do que o simbólico fim de uma vida. Representa a negação à plena existência, e até mesmo à existência verdadeiramente pacífica.

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June 10, 2017 at 9:04 pm

Guerras podem buscar a paz, mas…

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As guerras surgiram também com um viés tolo, vil e mesquinho (Foto: Reprodução)

Guerras podem buscar a paz, mas se fosse simplesmente pela paz muitas jamais aconteceriam, já que dificilmente o Estado ou algum grupo dominante gastaria em algo que não traga outro retorno. A guerra, na minha opinião, tem se tornado cada vez mais um negócio, e não excepcionalmente é mais uma questão de territorialidade e imposição ideológica do que de paz.

As guerras surgiram não apenas por questão de sobrevivência, mas também com um viés tolo, vil e mesquinho. Alguns dos primeiros conflitos que inspirariam as chamadas guerras eram travados por pessoas que naturalmente viviam no campo e criavam animais. Quando a área de suas propriedades lhes parecia insuficiente, eles invadiam as propriedades vizinhas.

Caso a família que teve a área invadida reagisse, o conflito se armava, e pessoas matavam ou morriam simplesmente pelo anseio de ter mais espaço para criar animais para consumo e comércio. Não raramente, tais ações tomavam proporções inimagináveis, e inspiravam ações muito maiores, desencadeando guerras. Essa preocupação é algo que já era manifestado e registrado na Grécia Antiga por filósofos como Sócrates e Platão.

Se voltando para o nosso tempo, um exemplo contemporâneo do microcosmo da guerra é o livro “Prilli i Thyer”, ou “Abril Despedaçado”, do escritor albanês Ismail Kadaré. Na minha opinião, o romantismo da guerra sempre vai ser muito mais de caráter ficcional do que real, e obviamente que atendendo a objetivos que podem ser claros ou não; e que também podem atender a uma ou várias propagandas ideológicas. Creio que guerra somente pela paz é das coisas mais raras do mundo contemporâneo. “Para a maioria dos homens, a guerra é o fim da solidão. Para mim, é a solidão infinita”, dizia o escritor francês Albert Camus.

 

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June 2, 2017 at 2:39 pm

Posted in Críticas, Reflexões

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Drauzio Varella e as falhas na afirmação de que a crítica ao consumo de carne é ideológica

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Não é verdade que não há trabalhos científicos comprovando os malefícios da carne

A minha intenção não é desmerecer o trabalho do médico oncologista Drauzio Varella (Foto: Extra)

Em abril deste ano, o médico oncologista Drauzio Varella, que há muito tempo se tornou referência para a população brasileira, afirmou na entrevista intitulada “Crítica à carne é ideológica”, publicada pela Revista Globo Rural, que não existe trabalho científico comprovando que a carne vermelha faz mal à saúde. Drauzio declarou que se criou “uma porção de mitos” a partir de estudos realizados nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos.

Drauzio Varella tem todo o direito de se opor a pesquisadores, acadêmicos e médicos que apontam os malefícios do consumo de carne, até porque ele nunca velou que é um defensor do consumo de alimentos de origem animal. Porém, a afirmação de que não há trabalhos científicos comprovando isso não é realmente verdadeira, e pode naturalmente induzir o leitor a crer que realmente ninguém nunca apresentou nenhuma evidência das implicações do consumo de carne.

O livro “The China Study”, publicado em 2005 pelo bioquímico estadunidense T. Colin Campbell, que tem doutorado na área de efeitos da nutrição na saúde em longo prazo, e que foi criado em uma fazenda de gado leiteiro nos anos 1940 e 1950, mostra que isso não é realmente verdade. O seu livro examina a relação entre o consumo de produtos de origem animal e o surgimento de doenças cardíacas, diabetes e câncer. E chega à conclusão que uma dieta vegetariana é mais saudável.

O trabalho, que começou no início dos anos 1970 e se estendeu por 20 anos, foi realizado pela Academia Chinesa de Medicina Preventiva, da Universidade Cornell, em parceria com a Universidade de Oxford. Eles analisaram as taxas de mortalidade por câncer e outras doenças crônicas em 2400 condados chineses, reunindo ao final do estudo dados de 880 milhões de chineses (96% da população à época).

O trabalho foi realizado por iniciativa do premier chinês Zhou Enlai. Diagnosticado com câncer, pediu que fizessem um mapeamento da doença na China, para entender de que forma isso estava relacionado com os hábitos alimentares dos chineses. O estudo registrou que nos condados onde o consumo de alimentos de origem animal se tornou muito elevado, as taxas de mortalidade eram mais altas, o que eles classificaram como consequências de “doenças ocidentais”, já que esses hábitos foram influenciados pela cultura do Ocidente. Por outro lado, nas localidades onde pouco ou nada se consumia de origem animal, as pessoas eram mais saudáveis. O trabalho mais tarde foi considerado o maior estudo de nutrição da história.

Claro que há variáveis a se ponderar, como por exemplo, a prioridade a alimentos saudáveis e prática de atividades físicas, entre outras coisas. No entanto, o “The China Study” justifica que somos mais suscetíveis a contrair determinadas doenças quando consumimos carne, laticínios e ovos, o que não significa que vegetarianos ou veganos estejam livres de doenças. Mas apenas que estão indo por um caminho onde isso pode ser evitado com mais facilidade com os devidos cuidados.

Na entrevista, Dráuzio Varella diz também que nos Estados Unidos “como a carne vermelha tem colesterol, foi concluído que o consumo dela devia ser reduzido. O que aconteceu então? Os americanos diminuíram significativamente o consumo de carne e, no lugar, colocaram carboidratos. A partir dessa resolução, até hoje, a epidemia de obesidade nos EUA aumentou descontroladamente. E, dada a influência dos EUA na área da saúde, essa ideologia cresceu sem parar. Resultado: estamos todos enfrentando uma epidemia de obesidade.”

T. Colin Campbell, autor do livro “The China Study”, que estudou as implicações do consumo de alimentos de origem animal por 20 anos (Foto: Second Opinion)

Não sei em quais estudos ele se baseou para fazer tal declaração, mas isso também não é de todo verdade. Sim, os estadunidenses, assim como pessoas de outros países do Ocidente, consomem quantidades excessivas de carboidratos, e isso sem dúvida favorece o surgimento de muitas doenças, mas há equívocos substanciais no discurso de Varella. Normalmente quem opta por uma dieta vegetariana visando saúde ou qualidade de vida, dificilmente vai consumir quantidades estratosféricas de glicídios, alimentos industrializados – principalmente processados. Não se troca seis por meia dúzia quando se visa conscientemente a saúde.

Ademais, em 19 de agosto de 2016, a Fusion TV publicou uma matéria sobre um assunto também repercutido por muitos outros veículos de comunicação – “Last year americans ate meat like it was going out of style (it’s not)”, que mostra que houve um aumento no consumo de carne nos Estados Unidos em 2015, baseando-se em estudos do Rabobank. Ou seja, por si só, isso já é um indicativo de que as pessoas não estão trocando proteínas de origem animal por carboidratos ruins na velocidade apontada por Varella, mas sim consumindo os dois – que combinados são responsáveis pelo comprometimento da saúde humana.

Outra prova que refuta a posição de Drauzio é que nos Estados Unidos 5% da população se declara como vegetariana, e 2,5% vegana, segundo dados da organização One Green Planet. Sendo assim, onde está toda a população que ele afirma abdicar do consumo de proteínas de origem animal em favor dos maus carboidratos? O vegetarianismo e o veganismo tem crescido, mas, por enquanto, não na proporção desejada por vegetarianos e veganos. Ao mesmo tempo que diz que os críticos do consumo de carne se baseiam em generalizações, Varella parece ignorar que também faz o mesmo, principalmente quando diz que a crítica ao consumo de carne é meramente ideológica.

Então se não for por honestidade e visando o bem da população, por que o pesquisador T. Colin Campbell, filho de produtores de leite, se tornou um defensor da dieta vegetariana que ministra palestras contra o consumo de leite? Por que Howard Lyman, ex-pecuarista que tinha mais de sete mil cabeças de gado, abdicaria disso tudo para se manifestar contra o consumo de carne? Inclusive registrando em seu livro “Mad Cowboy” que ele mesmo tinha o hábito de mandar seus funcionários pulverizarem inseticidas na alimentação e na água do gado para afastar insetos e “pragas”.

Acredito que esses dois homens têm conhecimento mais profundo da realidade do sistema de produção de alimentos de origem animal e das suas consequências na alimentação humana do que o oncologista Dráuzio Varella que, embora seja um profissional respeitado no que diz respeito a vários assuntos, nunca realizou nenhum estudo relevante sobre o tema e incorre em análises equivocadas quando discorre sobre consumo de carne e vegetarianismo, que são áreas que fogem da sua competência.

Em 2006, o The New York Times qualificou o “The China Study” como o “Grande Prêmio da Epidemiologia”, e o “mais abrangente grande estudo já realizado sobre a relação entre a dieta e o risco de desenvolver doenças.” Drauzio pode discordar do conteúdo do livro, mas ele poderia apresentar algum outro estudo equivalente sobre o qual alguém tenha dedicado 20 anos de pesquisa?

Frank Hu: “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura” (Foto: Arquivo Pessoal)

E uma prova de que talvez ele não conheça a obra “The China Study” pode ser encontrada na entrevista para a Revista Globo Rural. Drauzio Varella, parafraseando o epidemiologista Walter Willet, da Universidade Harvard, assinala que somente um estudo com duração de 20 anos poderia trazer resultados realmente consistentes. Como mencionado anteriormente, o livro de T. Colin Campbell foi baseado em um projeto de pesquisa com duração de 20 anos.

E se o “The China Study” não for o suficiente para levar o leitor a refletir sobre a questão, é válido citar o artigo “Cutting red meat – For a longer life”, publicado em junho de 2012 pela Universidade Harvard, a mesma citada por Varella quando diz que não se pode associar o consumo de carne com o surgimento de doenças. “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura”, disse Frank Hu, um dos principais cientistas envolvidos no estudo e professor de nutrição da Harvard School of Public Health.

Na pesquisa, publicada no Archives of Internal Medicine em 9 de abril de 2012, uma equipe de pesquisadores de Harvard procurou estabelecer ligações entre o consumo de carne e a as causas de mortalidade. Eles examinaram os casos de 84 mil mulheres e 38 mil homens em mais de duas décadas. Aqueles que consumiam principalmente carne vermelha, claramente se enquadravam nos grupos de risco de morte prematura.

Depois de 28 anos, aproximadamente 24 mil pessoas que participaram dos estudos da Harvard Medical School sobre a associação entre consumo de carne e mortalidade, faleceram em decorrência de doenças cardíacas e câncer. Analisando os questionários feitos pelos pesquisadores, constatou-se que essas pessoas tinham entre seus hábitos alimentares o consumo de bife, carne de porco, cordeiro e hambúrgueres.

Eles também comiam embutidos como bacon, cachorro-quente, salsicha e salame, entre outros. O estudo determinou que cada porção diária adicional de carne vermelha aumentou o risco de morte em 13%. O impacto subiu para 20% tratando-se de carne processada.

Na entrevista à Revista Globo Rural, Dráuzio Varella pontua que qualquer um tem o direito de ser vegetariano, mas que nem por isso evitará um ataque cardíaco, caso seja sedentário, tenha genética desfavorável, colesterol elevado e hábito de exagerar na comida. Bom, os vegetarianos e veganos que conheço não se veem como imune a todas as doenças do mundo, mas fazem o que está ao seu alcance para tentar evitá-las.

O vegetarianismo enquanto opção alimentar não é perfeito, e sabemos que há inúmeras variáveis, mas usar desse discurso para desconsiderar a dieta vegetariana é reverberar senso comum, já que ninguém está negando o fato de que sedentarismo e obesidade também podem ser prejudiciais para vegetarianos e veganos. No entanto, o que os estudos que mostram os malefícios do consumo de produtos de origem animal provam é que é mais fácil ser saudável não consumindo carne do que comendo. Ou seja, uma pessoa obesa que opta por uma dieta vegetariana tem mais chances de recuperar a própria saúde.

Outro artigo da Universidade Harvard, intitulado “Becoming a Vegetarian”, e publicado em outubro de 2009 e atualizado em 18 de março de 2016, explica que comparado com os consumidores de carne, vegetarianos tendem a consumir menos gorduras saturadas e colesterol, e mais vitaminas C e E. Também têm uma dieta mais rica em fibras, ácido fólico, potássio, magnésio, carotenoides e flavonoides.

Como resultado, eles têm níveis mais baixos de mau colesterol, pressão sanguínea mais baixa, e tudo isso pode ser associado à longevidade e redução do risco de muitas doenças crônicas. Em 2003, a Associação Dietética Americana (ADA) publicou um relatório afirmando que os vegetarianos têm 50% menos riscos de contrair diabetes, doenças cardíacas e amargar oscilações nos níveis de colesterol.

Outra citação de Drauzio Varella que merece atenção é a de que a carne é uma fonte maravilhosa de B12. Realmente, carne é uma fonte de B12, mas frisar que é uma fonte maravilhosa é algo contestável, porque dá a entender que o consumo de carne por si só sempre vai ser o suficiente para impedir a deficiência de vitamina B12, o que não é verdade.

O mito de que consumir carne sempre garante bons estoques de B12 foi derrubado em 2000, quando o Framingham Offspring Study, publicado pelo The American Journal of Clinical Nutrition, constatou que 39% dos participantes de uma pesquisa realizada com três mil homens e mulheres sofriam de deficiência de vitamina B12. A informação mais reveladora é que não foi percebida diferença entre quem consumia carne vermelha, aves, peixes ou nenhum desses alimentos.

A conclusão do estudo foi de que todos, vegetarianos ou não, devem fazer exames e, se necessário, consumir suplementos de vitamina B12. E quanto à carne ser uma grande fonte de ferro, é importante deixar claro que ela não é a única. Drauzio poderia ter citado também as leguminosas, castanhas, sementes, cereais integrais, couve, frutas secas e melado.

A minha intenção não é desmerecer o trabalho do médico oncologista Drauzio Varella, que é uma referência para tantos brasileiros, e com sua experiência e conhecimento trouxe luz a importantes debates ao longo de décadas. Porém, no que diz respeito ao vegetarianismo e à defesa do consumo de alimentos de origem animal, ele tem feito declarações, e não de hoje, ignorando todos os estudos que fazem oposição a uma dieta rica em proteínas de origem animal.

Fontes que comprovam que uma dieta vegetariana é mais saudável não faltam. Outro exemplo é a pesquisa “Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2”, da Universidade Loma Linda, referência em cardiologia, realizada com 70 mil pessoas nos Estados Unidos. Depois de seis anos, os pesquisadores concluíram que o número de morte entre vegetarianos foi 12% menor do que entre aqueles que consumiam carne.

Saiba Mais

O estudo “Comparison of Nutritional Quality of the Vegan, Vegetarian, Semi-Vegetarian, Pesco-Vegetarian and Omnivorous Diet”, concluído em 14 de março de 2014 por pesquisadores belgas concluiu que veganos têm os hábitos alimentares mais saudáveis.

O livro “The China Study” inspirou a criação do documentário “Forks Over Knives“, que conta a história do jornalista Lee Fulkerson, que teve a vida transformada depois de adotar uma dieta vegetariana.

Referências

http://revistagloborural.globo.com/Colunas/sebastiao-nascimento/noticia/2017/04/critica-carne-e-ideologica-diz-drauzio-varella.html

http://www.socakajak-klub.si/mma/The+China+Study.pdf/20111116065942/

http://www.health.harvard.edu/staying-healthy/becoming-a-vegetarian

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10648266

http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23836264

https://www.andeal.org/vault/2440/web/JADA_VEG.pdf

http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318

 

Americans are eating meat like it’s going out of style (it’s not)

 

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O veganismo não reconhece nada de origem animal como alimento de consumo humano

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Reconhecer algo de origem animal como alimento é uma defesa do utilitarismo, bem-estarismo, não veganismo (Arte: Reprodução)

O veganismo não reconhece nada de origem animal como alimento de consumo humano, por entender que estaríamos consumindo algo que não foi feito para nós. Reconhecer algo de origem animal como alimento é uma defesa do utilitarismo, bem-estarismo, não veganismo.

O veganismo por defender o abolicionismo animal, naturalmente rejeita a ideia de que qualquer coisa produzida pelos animais seja legitimada como fonte de nutrição humana. Até porque, se esse discurso fosse endossado pelo veganismo, a luta não seria pela libertação animal, mas somente pela criação de animais em grandes espaços, disseminando uma ingênua ideia de liberdade.

Afinal, ainda assim os animais estariam confinados a uma realidade servil, que é a de fornecer alimento aos seres humanos. Sendo assim, não seria nada mais do que um tipo de exploração que pareça simpática aos olhos, e que impacte menos na nossa consciência.

Particularmente, não tenho nada contra quem é bem-estarista, mas se um dia a libertação animal for conquistada, não tenho dúvida alguma de que isso terá sido possível graças ao ideal vegano. Não há como alcançar um grande objetivo se todos forem condescendentes ou concordarem com uma “flexibilização” de ideais. Um posicionamento menos vacilante é imprescindível. Os abolicionistas do passado são a prova disso.

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Dos males, o menor?

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Arte: Pawel Kuczynski

Dos males, o menor? Não quando se trata de política. Acredito que tal reflexão quando se fala em política e políticos é algo que acaba por soar como um tipo de anuência em relação às atrocidades que são cometidas em nome da politicagem e da ânsia por poder.

Muitas das desgraças que testemunhamos hoje no mundo têm relação com o raciocínio de conivência baseado na conveniência. “O cara comete excessos, mas é linha dura. Ninguém faria melhor” ou “Ele é ladrão, mas tem lá suas qualidades.” Esse tipo de conformismo tem lesado não somente a humanidade, mas obviamente outras espécies.





Written by David Arioch

April 22, 2017 at 7:51 pm