David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category

“Vixi, mano! Vegano?”

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Pintura: Tom Nuggent

Voltando para casa, encostei o carro rente ao meio-fio e atendi uma ligação. De repente, um cara em outro carro, e do outro lado da rua, esticou o pescoço para fora. Ele parecia levemente (ou não) embriagado.

— Ô, mano, que barba da hora. Empresta aí.
— O quê?
— A barba. Empresta aí.
— E como seria emprestar a barba?
— Corta um pedaço aí e joga pra cá.
O rapaz abriu o porta-luvas e mostrou um tubo de cola.
— Olhe aqui, problema resolvido.
Esfregou um pouco de cola nas maçãs e sorriu.
— Não posso fazer isso. Não faz o menor sentido — respondi.
— Eu pago, irmão. Não é de graça não. Olhe aqui, po. Já estou com o rosto branco.
— Por que você fez isso, cara? Isso é perigoso. É tóxico, e pra piorar essa cola nem deve ser vegana.
— Quê?
Silêncio. Começou a gemer e a tremer como se estivesse tendo uma convulsão.
Desci do carro para socorrê-lo.
— Rá! Te peguei! — gritou e começou a gargalhar.
Minha barba se encolheu como um pequeno arbusto massageando o meu pescoço.
— Não vai topar mesmo?
— Já disse. Não tenho interesse, mas obrigado.
— Caramba, mano! Você é mau!
— É que sou vegano. Toda vida importa pra mim, inclusive a da minha barba.
— Vixi, mano. Vegano? Mexo com essas coisas não. Valeu!
Deu partida no carro e foi embora com o rosto cheio de cola.




 

Written by David Arioch

February 16th, 2018 at 11:48 pm

Faltou carne no açougue (versão reduzida)

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Diante do balcão, Luiz acenou para o açougueiro Nino e pediu um quilo de coxão mole.
— Não tem, o senhor me desculpe.
— Como assim? Nunca faltou coxão mole aqui.
— Então me vê alcatra.
— Também não tem.
— Pode ser patinho.
— Também não.
— O que você tem de carne aí, afinal?
— Nada.
— Nada?
— Isso mesmo.
— Então por que diabos o açougue está aberto?
— Aqui vai ser açougue ainda, mas sem carne. A gente iria fechar até receber a mercadoria, mas o patrão mandou deixar aberto, pra freguesia ir se acostumando.
— Se acostumando com quê?
— Com a falta de carne.
— Você é louco? Açougue sem carne não é açougue.
— Vossa opinião.
— Como?
— Isso mesmo.
— Isso não existe, amigo. Nunca me acostumaria com isso. Onde já se viu açougue sem carne?
— Se o senhor diz, mas tem gente que não está reclamando da mudança.
— Eu não sou os outros.
— Ok…
— Logo mais chega bastante variedade de frutas, legumes, verduras. O senhor gosta de batata beauregard? Chega hoje mesmo.
— E daí, amigo? Por acaso, eu lá quero saber disso?
— Mais opções para o seu paladar, para a sua saúde e para a saúde dos bichos.
— Você acha que tenho cara de quem vai parar de comer carne?
— Aí não sei. Cara não costuma dizer muita coisa, a não ser quando alguém abre a boca, né?
— Você tá de sacanagem comigo, rapaz! Você acha que sou coelho pra comer folha?
— Não, mas dizem que é boa fonte de minerais, fibras e vitaminas.
— Não interessa! Não vim aqui pra isso. Meu negócio é carne, proteína de verdade! Olhe, rapaz, diga ao seu patrão que nunca mais piso os pés aqui. Vocês perderam um cliente de longa data.
Nino ficou em silêncio e assistiu a partida do freguês enquanto uma de suas mãos percorria o balcão com uma flanela. Luiz hesitou por instante. Parou sobre a soleira, bateu com zanga a sola da botina, apontou o dedo cominador em direção ao balcão sem carne, mordeu os lábios inferiores e logo desapareceu.
— Esse aí é capaz de matar um por causa de um pedaço de carne – monologou Nino na sua típica fleuma.
De volta aos afazeres, abriu uma caixa recém-chegada e começou a mimosear uma porção de maçãs. Ele sorria para elas, e elas sorriam para ele – maçãs felizes – com carinhas e tudo o mais.
Vocês vão fazer alguém muito feliz – comentou Nino admirando o rubor das maçãs.





 

O preço da nossa carne

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Foto: Reuters/Albert Gea

Imagine se acordássemos um dia e descobríssemos que a nossa carne literalmente tem um preço. As partes com menos teor de gordura sendo as mais valorizadas, ou não. Na rua, anúncios trazendo seres como nós, fragmentados em outdoors, anúncios na TV e folhetos de supermercado. Olho um encarte com atenção. Ao lado de frutas em promoção, vejo partes de um corpo como o meu à venda. Me falta uma perna. Está lá: Pernil, ornamentado com belas ervas.

Na rua, eu e outro sujeito nos entreolhamos estranhamente. Ele não tem braços. “Fui pego de surpresa. Espetinho”, lamenta. Somos bens de consumo, com um preço modesto, baixo, torpe, pode variar. É a crise. Sinto cheiro rançoso. Reconheço. É bacon na chapa. “É de quando, meu amigo?”, pergunta o freguês. “É fresquinho. De um rapaz que abateram ontem, tinha 18 anos”, responde o dono do carrinho de cachorro-quente. “Tá certo. Manda ver!”

Sequestro de pessoas? Não. Comércio legal de carne humana. O mundo mudou. Hoje você come, amanhã você pode ser comido, dizem. Sabor? Carne de porco, com algumas variações. O direito à vida desapareceu, para não humanos e humanos. Atropelamentos, assassinatos. Cadáveres largados nas esquinas deixados para apodrecer. Ninguém se importa. Não há mais velórios. Os cemitérios desapareceram.

“Morreu? Quantos minutos? Se a carne estiver em bom estado, mande um caminhão para aproveitar o que sobrou.” Carne moída de primeira, segunda, terceira e quarta. Comida. A sua liberdade termina onde a fome do outro começa. “Tem dinheiro?” “Sim!”, “É só apontar o dedo que a gente recolhe”. Um arrastão leva 40 de uma vez. No matadouro, todo mundo tenta fugir. Impossível. Laço de bezerro. Espasmos, olhos vacilantes, pistola pneumática. Abate humanitário.





Written by David Arioch

December 5th, 2017 at 11:49 pm

Onde você vai?

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Saindo do Teatro Municipal, passei em uma loja de conveniência. Na saída, observei uma coruja que me assistia. “A noite é sua”, disse a ela.

— Onde você vai? — perguntou uma moça dentro de um carro estacionado.
— Quê? — respondi.
— Onde você vai.
— Vou pra casa.
— Por quê?
— Porque sim.
— Quer carona?
— Não, obrigado. O meu carro está logo ali — expliquei.
— Venha aqui.
— Não entendi.
— Rapidinho, querido.
— Você me conhece?
— Claro.
— Como?
— Já ficamos juntos há algum tempo.
— Acho que não.
— Ficamos sim.
— Não creio, tenho boa memória.
Fiquei em silêncio.
A moça abriu a bolsa, tirou o celular e mostrou algumas fotos.
— Não entendi.
— Nós lá em casa.
— Quê?
— A nossa festinha.
— Tudo bem, mas não sou eu na foto.
— Isso não vem ao caso.
— Como não? Você disse que sou eu.
— Mas é você. Tenho mais uma coisa pra te mostrar.
— Hã?
— Que isso?
— É seu — afirmou segurando um pequeno tufo de barba que mais parecia um pedaço de Assolan envernizado.
— Isso não é minha barba.
— Claro que é, querido. Você está me chamando de mentirosa?
— Não, mas por que está guardando isso?
— Lembrança.
— Hum…
— Tá. Então, vamos tomar alguma coisa?
— Não posso. Tenho que acordar cedo.
— Nossa, você é chato, hein? Por acaso, você é antissocial?
— Sinceramente? Acho que não tenho como negar.
Silêncio.
— Você pareceu bem comunicativo e desinibido aquele dia em casa. Quando você dormiu, cortei um pedacinho da sua barba. Nem percebeu, né?
— Tenho certeza de que não sei onde você mora.
— Eu, você, Cláudia e Roberta. Tem certeza que não se lembra?
— Quê?
— Vai ficar de palhaçada? — insistiu a mulher.
— Não, mas preciso ir. Me desculpe, mas não sou quem você imagina.
— Tudo bem, querido. Mas vou continuar de olho em você.
— Você é muito gentil. Tenha uma boa noite.

Sem olhar para trás, entrei no carro e minutos depois me dei conta de que eu estava sendo seguido. Mantendo os vidros fechados, estacionei e observei a aproximação de um carro pelo retrovisor. Alguém cutucou o vidro com as pontas dos dedos.

— Boa noite, desculpe o incômodo. Você pode me dizer qual é o melhor caminho para o Jardim Oásis?





Written by David Arioch

November 19th, 2017 at 8:43 pm

“Vixi, mano! Vegano?”

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Pintura: Tom Nuggent

Voltando para casa, encostei o carro rente ao meio-fio e atendi uma ligação. De repente, um cara em outro carro, e do outro lado da rua, esticou o pescoço para fora. Ele parecia levemente (ou não) embriagado.

— Ô, mano, que barba da hora. Empresta aí.
— O quê?
— A barba. Empresta aí.
— E como seria emprestar a barba?
— Corta um pedaço aí e joga pra cá.
O rapaz abriu o porta-luvas e mostrou um tubo de cola.
— Olhe aqui, problema resolvido.
Esfregou um pouco de cola nas maçãs e sorriu.
— Não posso fazer isso. Não faz o menor sentido — respondi.
— Eu pago, irmão. Não é de graça não. Olhe aqui, po. Já estou com o rosto branco.
— Por que você fez isso, cara? Isso é perigoso. É tóxico, e pra piorar essa cola nem deve ser vegana.
— Quê?
Silêncio. Começou a gemer e a tremer como se estivesse tendo uma convulsão.
Desci do carro para socorrê-lo.
— Rá! Te peguei! — gritou e começou a gargalhar.
Minha barba se encolheu como um pequeno arbusto massageando o meu pescoço.
— Não vai topar mesmo?
— Já disse. Não tenho interesse, mas obrigado.
— Caramba, mano! Você é mau!
— É que sou vegano. Toda vida importa pra mim, inclusive a da minha barba.
— Vixi, mano. Vegano? Mexo com essas coisas não. Valeu!
Deu partida no carro e foi embora com o rosto cheio de cola.


Written by David Arioch

November 15th, 2017 at 10:44 am

Treinando no escuro

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Subi a escadaria da academia, montei a barra para fazer rosca direta e comecei a treinar no escuro. Sim, não havia energia elétrica por causa do forte temporal. De repente, notei um cara me observando. Um olhar fixo e incivil. Sempre que eu me distraía, ele desaparecia.

Logo retornava. Continuava me assistindo. Movia os braços e fazia esgares ocasionais. Desconfortável, não nego. Estava bem escuro, e o sujeito continuava na mesma posição, movimentando os braços e contraindo os músculos. Um olhar grave, indômito. Movia a cabeça e sorria, não um sorriso comum. Um sorriso do tipo macarrônico.

“O que esse cara quer?” pensei. Deixa pra lá. Juntei 12 halteres ao redor do banco onde eu estava e continuei treinando. O sujeito também sentou e começou a me imitar. “Que isso?”, “O que está acontecendo aqui?” ‘O que tem de errado com esse cara?”, me questionei.

Ele só não me seguia quando eu ia até o bebedouro encher a minha garrafa de água. Mas continuava no mesmo lugar, me observando sem parar. Ele não se importava que eu soubesse. Sim, não fazia a menor diferença. Folgado.

No escuro, ocasionalmente a janela permitia que a pequena incidência de luz lançasse um brilho insólito sobre o espelho; um lume fortuito, intermitente. Era como se sua presença se desvanecesse com a luz. Dizem que o escuro é o refúgio dos casmurros. Deve ser.

Vez ou outra, eu caminhava até a janela, sentia o frescor, observava os galhos das árvores balouçando, desviava os olhos e retornava. Ok. Deitei no banco e comecei a fazer tríceps testa. Muito bom, assim não vejo ninguém, a não ser a barra e o movimento dos meus braços. Terminei, me levantei e ele continuava lá. “Po, ainda por aqui?”, pensei. Que seja!

Fiz rosca francesa com barra e caminhei até o outro lado da academia. “Aqui não tem ninguém. Claro que hoje não tem quase ninguém na academia, mas especialmente aqui estou só”, ponderei satisfeito. É isso aí! Olhei para o lado e o sujeito já tinha se antecipado. Ele sorriu; outro sorriso satírico, dicaz. Deve ter pensado: “Idiota, achou que fugiria de mim?”

“Que isso? Será que não posso treinar em paz?”, monologuei no escuro, desinteressado em abrir a boca. Fiz minhas séries de tríceps corda, fechando com drop-set. Antes de deixar a polia, a energia elétrica retornou por um instante. Observei o sujeito. Era o meu próprio reflexo no espelho.





Written by David Arioch

November 4th, 2017 at 12:06 am

Bravo

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Arte: Dana Ellyn

— A gente se divertia todos os dias.
— Quem?
— Eu e o Bravo. Quando queria brincar, ele sempre esfregava o focinho macio no meu joelho.
— É, não o conheci, mas imagino como você deve estar se sentindo.
— Ele era muito inteligente. Reconhecia sons, identificava todo mundo que chegava. Adorava música. Eu colocava Mogwai pra ele ouvir antes de dormir todos os dias. Se acostumou e já não dormia sem ouvir “Take Me Somewhere Nice” pelo menos uma vez a cada noite.
— Ele chegou a machucar alguém?
— Não, nunca.
— É, então foi um animalzinho muito bom.
— Crescemos juntos praticamente, mas ele ficou grande bem rápido.
— Entendo.
— Ele adorava quebra-cabeças. Tinha um de 15 peças, segurava cada peça pela alcinha branca e encaixava certinho nas lacunas. Tinham formas de frutas, sua comida preferida.
— Sério isso?
— Sim…
— Nunca vi bicho nenhum fazer algo assim.
— Aprendemos muito com ele.
— Um dia minha mãe colocou muita água na panela de pressão, uma vizinha a chamou e elas começaram a conversar. Esqueceu completamente da panela. O Bravo foi até ela e avisou do jeito dele que tinha algo de errado. Fez um bom barulho. Minha mãe o acompanhou e quando chegou até a cozinha a água estava transbordando sobre o fogão. Havia água quente pra todo lado.
— Outra vez ele sentiu um cheiro estranho. O gás estava vazando. É, se não fosse por ele nem sei se estaríamos aqui hoje.
— Ele morreu com que idade?
— 17 anos. Passei parte da minha infância e toda a minha adolescência com ele.
— Que amizade legal.
— Às vezes eu encostava a cabeça na barriga dele e cochilávamos assim. Ninguém se incomodava. Nem eu nem ele.
— Acordava antes de mim. Por volta das 6h, vinha me chamar para ir para a escola. Era melhor do que eu em identificar as horas. Muito melhor — disse rindo.
— Você teve um amigão.
— O melhor.
— Seus olhos eram bem expressivos, como olhos humanos. Eu achava que ele era o único, mas a verdade é que ele era como um representante de todos. Sei que ele veio para nos ensinar que devemos ver ele em todos os outros. Não se trata de ser especial, se trata de entender que se vemos algo de especial em um, somos capazes de ver nos outros também.
— Realmente, cachorros são incríveis.
— São sim. Mas Bravo não era cachorro. Era um porco que livramos da morte em um matadouro.





Sorrindo na rua

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Arte: Silvina Lanusse

Esses dias, andando pelo centro, decidi sorrir, sorrir sem parar. Comecei a pensar em algumas coisas que me ajudaram a manter o sorriso o tempo todo. Eu sorria e olhava diretamente para os transeuntes. Algumas pessoas gostaram, tanto mulheres quanto homens das mais diferentes faixas etárias. Outras pessoas simplesmente me observavam com expressão de estranhamento, talvez achando que eu tivesse algum problema. Ninguém me ofendeu. Isso é bom.

 





Written by David Arioch

October 17th, 2017 at 11:36 am

Posted in Crônicas/Chronicles

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O jovem animal e a planta

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Foto: Shutterstock

Me aproximei de um jovem animal morto sob uma sete-copas. Ele ficou lá caído, deixado para apodrecer. Seria reduzido a alimento, e partes de seu corpo se transformariam em insumos de produtos nas seções de higiene e limpeza dos mercados. Que contradição. A morte higienizando, limpando e purificando. É assim.

Me ajoelhei e analisei cada parte de seu corpo. Ninguém o moveria. Havia algumas manchas com formas humanas. Eu estava diante de um animal dantes doente. Seus olhos eram amarelecidos como de um ébrio com cirrose hepática.

Mas aquele animal não tinha vícios. Por que amargar tal desgraça e punição? Seus olhos refletiam o seu último olhar. Não me vi em seus olhos. Notei uma imagem congelada de alguém erguendo um facão para golpear fatalmente sua garganta. Sem emoção, sem consideração, só o vácuo da degradação.

O sangue que já não descia se entranhou no solo e fez brotar uma plantinha felpuda. Eram como pelos de um animalzinho recém-nascido. Encostei o dedo na plantinha, ela gemeu, gemeu com a voz que não mais pertencia ao animal desfalecido. Só ela, somente ela sobrevivia naquele cenário.

O solo onde o falecido não seria sepultado encaiporou. Esgotado. Tudo morria diante de mim, menos a plantinha. Sentei, levantei a cabeça do finado e massageei seus pelos. Macio e mortiço.

Ele não reagia, mas a plantinha vibrava, como se sentisse minhas mãos lhe afagando. Suas folhas cresciam e fremiam cada vez mais. Continuei massageando o topo de sua cabeça. Cresceu muito. Já não era plantinha, virou árvore. Um de seus galhos me arrastou e me lançou sobre o ponto mais alto.

Me equilibrei recuando o corpo, a cabeça e procurando o animal no chão estéril. Ele tinha desaparecido. Ao nosso redor, em um raio de centenas de quilômetros as pastagens foram engolidas pela terra. Mais plantinhas felpudas nasciam e gemiam; vozes de animais que sucumbiam.

 





Written by David Arioch

October 14th, 2017 at 3:19 am

Um corpo no asfalto

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Ilustração: Stipan Tadić

Havia um corpo no asfalto. Ontem era uma vida. Partiu pela manhã. Uma carcaça sem ser carcaça, derribada, exígua. Um caminhão, um ônibus, um carro, uma caminhonete… Os despojos continuam no mesmo lugar. Quem se importa? Foi atropelado 78 vezes, 75 depois de morto. Conta da tarde. “É só o corpo de um animal, um mero animal.” Por que desviar? Não vale o mínimo esforço. “É apenas um cadáver, cadáver de bicho. Já morreu!” Incorpóreo. Posposto. As partes foram esmagadas, amolgadas. Tantas vezes, restou apenas uma tatuagem no asfalto. Outros continuarão, os pneus não cessarão, até que a chuva arraste a marca que um dia foi uma vida, invisível dantes, invisível agora.





Written by David Arioch

October 10th, 2017 at 12:09 pm