David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category

O médico que não prescrevia remédios

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Ele me ajudou com a minha rinite alérgica sugerindo mudança nos hábitos alimentares

Na minha infância, me consultei com um otorrinolaringologista que não acreditava muito na indústria farmacêutica. Todo o trabalho dele era voltado para a nutrição. As pessoas o achavam esquisito porque em vez da sua clínica ser um ambiente branco, como a maioria das clínicas, era colorida. E havia plantas por todos os lados.

Na porta do seu consultório tinha uma frase de Hipócrates: “Que o seu alimento seja o seu remédio, e que o seu remédio seja o seu alimento.” Me recordo que muita gente falava mal dele. Eu era criança, então não entendia o motivo disso, mas o achava incrível.

Soube que ele teve bastante contato com a medicina oriental e estudava mais sobre a medicina antiga do que a contemporânea. Ele nem mesmo usava roupa branca. O chamavam de louco, charlatão, mas foi ele que me ensinou a lidar com a minha rinite alérgica quando eu era criança, depois de passar por cinco médicos da área.

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Written by David Arioch

July 23, 2017 at 9:11 pm

O homem e o cão faminto

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Arte: Maxim Kantor

No caminho para o veterinário, encontrei um cãozinho roçando o focinho já sujo em uma sacola rasgada de lixo rente ao meio-fio da Rua John Kennedy. Ao lado, restos de alimentos de outras duas sacolas estavam esparramados pela galeria. Perto do animalzinho acastanhado e sujo, um homem gritava e ameaçava golpeá-lo com o cabo de uma vassoura.

— Suma daí, seu lazarento!
— Era só o que faltava. Arrastou todo o lixo. É um filho da…

Vendo a cena, encostei o carro, desci e caminhei até o homem.

— Boa tarde. Tudo bem com o senhor?
— Não tem nada bem aqui. Esse cachorro arrastou todo o lixo. Olhe essa porcaria toda. Vou ter que limpar essa bagunça. Desg….
— O senhor não precisa se preocupar porque eu limpo tudo.

O homem ficou em silêncio me observando.

— Como é?
— Eu limpo a bagunça do cachorro.
— E por que você faria isso?
— Sim. Farei isso para o cachorro não apanhar do senhor.

Silêncio novamente.

— Eu não iria bater nele — explicou visivelmente constrangido, com um sorriso amarelecido.
— Isso é muito bom, senhor. Porque eu realmente não gostaria de apanhar se estivesse faminto e de repente fosse obrigado a mexer no lixo de alguém. É triste, não? Tantos animais abandonados e desejando apenas um pouco de comida para não morrer de fome. Animais como esse não escolheram nascer, mas nem por isso desejam ou merecem sofrer. O senhor concorda?
— Hum…
— É…acho que talvez você tenha razão – respondeu coçando a cabeça.
— O senhor já viu esse cachorrinho por aqui?
— Não.
— Sabe se ele tem casa?
— Não tenho a mínima ideia.
— Essa vida de cão não é fácil, né?

Silêncio.

— Ah, tenho um pouco de comida pronta lá dentro. Acho que não tem problema dar um pouco pra ele.
— Muito gentil de sua parte.
— Que nada. Faço o que posso — comentou sorrindo.
— Não tenho dúvida de que já é mais do que muitos fariam.
— Você acha?
— Sim…
— Pensando bem, acho que posso cuidar dele hoje.
— Sabe, filho, meu irmão tem uma chácara na saída da cidade e acho que pode ser um bom lugar pra um cachorrinho agitado como esse.
— Sério?
— Ah, é sim. É um lugar muito bonito e espaçoso.
— Isso seria muito legal. O senhor vai fazer uma baita diferença na vida dele. Pode ter certeza.
— É…não custa ajudar de vez em quando.
— Se precisar de mim, moro algumas quadras acima, quase em frente ao Corpo de Bombeiros.
— Sei onde é. Já o vi.
— Bom saber. Muito obrigado.
— Disponha.

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Written by David Arioch

July 17, 2017 at 10:29 pm

A vaca e o bezerro

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Arte de Kimberly VanDenBerg

Na estrada, vi um bezerro brincando com uma vaca perto da mangueira. Desci do carro e observei os dois por alguns minutos. A forma como aquele animal observava com satisfação o seu filhote, em nada difere da ternura com que uma mãe humana observa o seu filho. E o bezerro, feliz em contato com a mãe, tentava dar pulinhos intervalados.





Written by David Arioch

July 14, 2017 at 7:05 pm

O policial e a criança

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Arte: Norman Rockwell

No mercado, vi uma cena que me chamou a atenção enquanto eu estava na fila do caixa rápido. Um policial militar escolhia alguns pães quando um garotinho, acompanhado do pai e da mãe começou a sorrir efusivamente. Consegui ver seus olhos cintilando mesmo eu não estando tão perto.

A mãe e o pai cumprimentaram o policial e falaram que a criança sempre teve grande admiração por policiais. Dava para ver no rosto do garotinho que a figura do policial para ele é a de um herói. Acanhado, mas lisonjeado, o rapaz fardado balançou a cabeça e disse poucas palavras. Nem precisaria dizer nada. A expressão compenetrada e sisuda de antes desapareceu com a chegada do menino.

O sorriso da criança o desarmou. E ele também começou a sorrir sem parar, olhando para a criança e vez ou outra mirando os pais com seus olhos encalistrados. O menininho pediu para dar um abraço no policial e ele concordou. Agachou e envolveu a criança nos braços por alguns segundos.

Mesmo depois que o casal e o filho partiram, o policial continuou sorridente, passou por mim sem conseguir velar o sorriso. Continuava tímido, translúcido, feliz e provavelmente agradecido por um presente inesperado que o impediu de retomar a expressão circunspecta.

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Written by David Arioch

July 8, 2017 at 1:11 am

Tive um sonho na noite passada

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Triste realidade da exploração animal

Tive um sonho na noite passada.

Um boi falou que não é pra eu desejar sua carne senão ele vai ter que morrer. E ele quer viver.

Uma vaca disse pra eu parar de tomar seu leite senão ela nunca mais vai ver o seu bezerro.

O bezerro se queixou que é cedo demais para morrer, porque nem o sol teve tempo de ver.

A galinha poedeira revelou que não quer passar os seus últimos dias em uma granja, onde seu destino final é ser sacrificada após a queda na produção de ovos.

O frango reclamou que se como sua carne sou culpado por ele ter de viajar entre grades de plástico, agonizando entre seus semelhantes.

O porco berrou que se bacon fosse vida ele sairia andando depois de fatiado.

O peixe gritou que se fosse pra ele servir de alimento para as pessoas, ele deixaria a água e deitaria sobre pratos.

A abelha me mandou ficar longe de seu mel, porque ela não trabalha o dia todo para sustentar seres humanos.

 

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Written by David Arioch

July 7, 2017 at 2:08 pm

O cãozinho Peraltinha

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Arte: Tracy White

Quando eu tinha cinco anos, todos os dias o mesmo cãozinho que morava na casa vizinha perseguia o caminhão de lixo. Ele era mestiço, pequeno e seu nome era Peraltinha. Todo mundo o adorava. Os carros paravam, e muitos motoristas o cumprimentavam. “Pode passar, Peraltinha…”, dizia Seu Paulo, assistindo o cãozinho atravessar vagarosamente a rua, balouçando o rabinho. Era realmente famoso.

O abandonaram ainda filhotinho em um terreno baldio na esquina de casa. Faminto, chorava sem parar. Foi salvo por Dona Estela, que o tratava como um filho. Eu não tinha ideia do que o caminhão de lixo representava no ideário de Peraltinha. Mas sei que Chico, um dos lixeiros, e um dos meus melhores amigos de infância, sempre o observava.

Agachava apoiado na caçamba e estendia uma das mãos com as pontas dos dedos mirando o asfalto. Peraltinha a cheirava, cheirava e parava de correr, assistindo o caminhão desaparecer em direção a Sanepar. Todos os dias a cena se repetia. Ninguém entendia. “Por que esse cachorrinho sempre para de correr atrás do caminhão depois que cheira a mão do lixeiro?”

Chico só tirava as luvas para Peraltinha; para mais ninguém. Era a exceção. Foi assim durante meses, até que sem mais nem menos parou de perseguir o caminhão. Então eu soube que Chico tutelava uma cadela que teve filhotinhos, e o cheiro em sua mão sempre vinha dela. Era o perfume de mãe que atraía Peraltinha.

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Mazinho e o menino

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There’s No Place Like Home, de Edwin Henry Landseer

Na Vila Alta, encontrei uma criança dando um tapa na cabeça de um cachorro na rua. Não foi um tapa muito violento, mas pela reação do cãozinho pareceu tão comum que suspeitei que não era o primeiro. Encostei o carro, desci e caminhei até ele.

— Oi! Tudo bem?
— Oi! Tô bem.
— Legal! Isso é bom!
— Esse cachorro bonito mora com você?
— Mora sim…
— Faz tempo?
— Desde que nasci…
— Qual é o nome dele?
— Mazinho.
— Você gosta do Mazinho?
— Gosto sim, muito.
— Isso é muito bom!
— Você lembra de mim?
— Sim, você é o David, que visita o Tio Lu.
— Isso mesmo.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Pode…
— Você acha que dói apanhar?
— Dói…dói sim…
— Você já bateu em alguém de quem você gosta?
— Não…
— Entendo. Nem no Mazinho?
— Aaaah….bati…
— Você acha que ele sente dor?
— Não sei…acho que sim…
— Ele fica feliz perto de você?
— Fica…
— Então se ele fica feliz, ele também fica triste, e se fica triste tem emoções e sentimentos. E quem tem emoções e sentimentos também sente dor, concorda?
— É…verdade.
— Quando você bate no Mazinho, ele fica alegre?
— Não…
— O que ele faz?
— Ele foge de mim…
— Você gosta quando ele foge de você?
— Não…
— Por quê?
— Acho que porque ele fica com medo de mim.
— E por que ele fica com medo de você?
— Porque quando faço isso ele me acha mau…
— E você é mau?
— Não…
— Então que tal mostrar pra ele o tempo todo que você não precisa ser mau com ele?
— Acho que seria bom…
— Seria sim, e vai ser bom.
— Que tal experimentar?
— Vou fazer isso.
— Promete?
— Prometo.
— O que acha de pedir desculpas e dar um abraço no Mazinho?
— Tá bom…

O menino caminhou até o cãozinho que se escondia atrás de uma cerca em um terreno baldio vizinho. Hesitou com o focinho virado para uma mureta, mas aceitou o abraço do amigo. Antes que o menino o soltasse, Mazinho lambeu-lhe a orelha. “Desculpa, Mazinho…” – disse baixinho. O menino sorriu e a lágrima escorreu.

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Ele amou a morte da minha mãe!

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Cliquei sem querer na reação “amei” do Facebook

A mãe de um amigo faleceu. Cliquei sem querer na reação “amei” do Facebook e houve um blecaute. Não tive tempo de corrigir. Sozinho em casa, peguei o celular. Bateria descarregada, desespero, olhos fumegantes. 15 minutos depois gritaram na calçada.

— Chega aí, mano. Quero falar com você.
— E aí, irmão. Tudo bem?
— Como assim tudo bem, cara? Você amou a morte da minha mãe. Nem acreditei quando vi. O que tem de errado contigo? Te fiz alguma coisa?

Berros, palavras inintelígiveis na calçada e dedo apontado em minha direção. Vizinhos observando.

— Você é mau, cara. Você é muito mau!
— Não sou não!
— É sim! Nunca vou esquecer que você amou a morte da minha mãe.
— Nunca faria isso. Foi um equívoco. Perdão.
— Não perdoo!
— Perdoa sim!
— Perdoo não!

Sentou no meio-fio e chorou. Olhos avermelhados, boca entreaberta e cabelos desgrenhados. Alguém chamou a polícia.

— O que tá acontecendo aqui? — Perguntou o policial.
— Ele amou a morte da minha mãe!
— Não amei não.
— Como assim ele amou a morte da sua mãe?
— Ele amou! Amou! Amou! É um amante de mortes!

Olhos coçando, barba pinicando e cachorros uivando.

— Isso não é verdade. Eu soube da morte da mãe dele e sem querer cliquei em “amei” no Facebook. Quando tentei corrigir houve um blecaute.
— Isso é muito triste. Entendo a sua dor, meu amigo. Tome cuidado com isso aí, cara. Olhe como você deixou seu amigo.
— Po, como assim? Apenas fui traído pelo mouse.
— Traído pelo mouse? Vai culpar mesmo o mouse?
— É, você tem razão. Isso seria especismo.
— Quê?
— Nada não…

Caminhão de lixo passando, gatos miando e duas testemunhas de Jeová me olhando torto e panfletando.

— Quer dar queixa?
— Como assim dar queixa? Não fiz nada. E não existe queixa para esse tipo de situação. O que seria isso, uma queixa de emoticons?
— Está me gozando? É isso?
— Eu não…
— Sei…
— Quer dar queixa, amigo?
— Hum…não sei.
— Pense bem.
— Ah, deixa pra lá.
— Você que sabe.
— E, você, amigo, cuidado com esses dedos aí.

 

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Written by David Arioch

July 1, 2017 at 8:24 pm

Na banca de caqui

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Enquanto eu selecionava caqui em uma banca de canto

Saí da academia e passei no mercado. Enquanto eu selecionava caqui em uma banca de canto, uma mulher se aproximou e fez o mesmo. De repente, o marido ou namorado dela se achegou.

— Vá lá ver se tem salsinha, cebolinha, essas coisas. Deixe que escolho as frutas.

— Mas você nunca escolhe as frutas.

— Vá lá, deixe que me viro aqui.

— Tá bom!

— Camarada, essa fruta que você pegou está passada – comentei.

— Ah, cara! Não preciso da sua ajuda.

— Ah sim. Tudo bem.

Me afastei e caminhei em direção ao caixa.





Written by David Arioch

June 29, 2017 at 12:30 am

Um banco e duas barbas

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É…são muito parecidas… (Pintura: Anthony van Dyck)

Durante o atendimento, o bancário começou a rir. Eu também.
— Eu sou você amanhã.
— É…acho que sim.
— Não…sua barba é mais fechada.
— Será?
— É sim.
— Obrigado.
— Olhe a barba dele – comentou com outro bancário que também começou a rir e chamou a atenção de outro bancário.
— É…são muito parecidas…uma é cinza e a outra é preta…estágios de transformação.
— Já guardou coisas na barba?
— Sim…
— É mágico, não? – comentou atravessando duas canetas pela barba, formando um X peludo.
— X de Xará.
— hahahahaha demais…
Em pouco tempo, quatro bancários riam e eu também, já anestesiado por passar mais de três horas aguardando atendimento, em abstinência de escrever, sentindo as mãos formigando e as ideias pululando. Vi pessoas sorrindo, rindo, reclamando, xingando, praguejando, bocejando, dormindo.
— Sua barba deve ter mais de ano.
— Tem sim…
— Também estou quase lá.
— É isso aí.
— Não vá cortar a barba, hein? — disse o bancário barbudo.
— Não, senhor.
— Ah, outra coisa.
— O quê?
— Não vá cortar a barba, hein?
— Pode deixar.
Quando me levantei e caminhei em direção à saída, senti minha barba esquentando. Alguém estava me odiando. Sem problema. Lá fora, uma criança de quatro ou cinco anos apontou o dedo em minha direção:
— Tio, sua barba parece um algodão-doce preto.

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Written by David Arioch

June 28, 2017 at 8:32 pm