David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Direitos Animais/Animal Rights’ Category

Que tipo de coisas boas o veganismo pode levar para a vida de alguém?

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Arte: Dana Ellyn

Bom, acredito que a vida em geral passa a ter mais valor. E não falo da vida na individualidade, me refiro à coletividade mesmo. O eu se torna menor, e ajuda inclusive na reflexão do nosso papel no mundo. Por exemplo, se vivo somente para mim, me pautando nas minhas próprias necessidades, que tipo de contribuição estou dando? Vejo pessoas reclamando o dia todo, e muitas vezes não são pessoas que fazem algo por quem não lhes pode proporcionar algum tipo de vantagem.

E o veganismo na sua essência vai na contramão disso. Você não é somente você. A individualidade é menor, porque você sabe que está ligado a muitas outras formas de vida, e que não há porque não buscar um equilíbrio, não fugir daquilo que representa o fim da vida, a perpetuação da exploração.

“O mundo é como ele deveria ser.” Esta é uma das falácias mais comuns espalhadas por conformistas ou por quem defende o status quo. Não, o mundo é como ele não deveria ser. Desde sempre, há muita coisa maliciosamente planejada, assim como muita coisa acidental e inconsequente, e até mesmo gerida pela ignorância. Porém, o mundo é como foi levado a ser por fatores tão diversos que não caberiam em uma resposta meramente maniqueísta.

Costumo dizer que os animais são explorados em níveis industriais porque são matérias-primas baratas, exploradas exaustivamente, e que rendem muita grana, já que as vítimas não ganham nada com isso. Claro, ninguém é perfeito, mas se você respeita ou pelo menos se esforça para respeitar todas as formas sencientes de vida, você já está desempenhando um papel positivo. Não há como não ver solidariedade e altruísmo nisso.

Acreditar que não apenas os seres humanos têm direito à vida é o reconhecimento da empatia independente de espécie. Se você respeita um pequeno e vulnerável ser, entendendo que ele não merece morrer, você demonstra uma das formas mais puras de sensibilidade, que no meu entendimento é reflexo de uma moral genuína que independe de questões legais.

Não há como fugir da exploração no mundo em que vivemos. Então como é possível ser vegano nesse contexto?

Às vezes, algumas pessoas falam em ser ou não ser vegano 100%, e essa confusão e descrença é algo que agrada a indústria da exploração animal, porque ninguém mais do que ela deseja que as pessoas vejam o veganismo como inviável em suas vidas, ou que questionem o seu papel como veganos. Não raramente, alguém diz: “Não me sinto como se fosse realmente vegano. ” Minha pergunta é: “Você faz o que está ao seu alcance?” Se sim, está tudo bem.

O veganismo foi gestado em âmbito urbano, dentro de uma realidade pós-revolução industrial. Não tem porque as pessoas o complicarem. Nada do que as pessoas dizem a respeito do que é ser ou não ser vegano, apresentando prováveis impossibilidades e contradições, me causa qualquer desconforto ou dúvida. Há inclusive literatura anti-vegana, e já li obras consideráveis sobre isso, mas nenhuma delas me tocou porque faltou um importante ponto de percepção – entender o veganismo sob a ótica vegana. Sou bem consciente de minhas limitações, e nenhuma delas me leva a desacreditar no veganismo, e simplesmente porque não há motivo.

Mesmo quando o veganismo surgiu na Inglaterra em 1944, ninguém disse que veganos seriam pessoas perfeitas, que nunca tomarão parte na exploração animal em suas vidas. Não se trata disso. Se alguém aponta o dedo pra mim e diz: “Ah, cara, você não tem como evitar exploração o tempo todo. Como pode ser vegano?” Sim, eu não tenho como evitar tomar parte na exploração o tempo todo, porque naturalmente existe um sistema que é maior do que todos nós, mas é justamente por isso que sou vegano, porque é uma luta constante.

Se eu não precisasse questionar nada, isso significaria que o mundo já é vegano, e ninguém que é contra a exploração animal teria do que se queixar. Mas se reclamamos e até encontramos dificuldades nessa jornada, é porque ainda temos muito o que fazer. Acima de tudo, é a insatisfação e a exigência de novas alternativas que levem às mudanças, não à aceitação, rótulos ou apego ideológico. Veganismo é sobre redução de impactos.

Você deve fazer tudo que está ao seu alcance para não tomar parte na exploração animal, simplesmente. Ou seja, é sobre dedicação, força de vontade, empatia. Evita-se comer tudo de origem animal, assim como usar qualquer produto de origem animal. Porém, há situações que às vezes fogem do nosso conhecimento por vivermos em uma realidade baseada em um sistema que usa os animais até para as finalidades mais desnecessárias.

A maioria da população não tem a mínima ideia de como os animais não estão apenas em seus pratos, mas praticamente em tudo que elas usam, tudo mesmo. Quando um animal explorado pela indústria morre, muitas vezes não há o que enterrar, porque tudo que um dia fez parte de uma vida é transformado em algum produto. Isso não é estranho? Tem gente que qualifica isso como consequência e aproveitamento. Mas ignora-se que quanto mais um animal é qualificado como produto, mais ele se distancia de ser visto como vida para ser definido como objeto. E isso é extremamente absurdo.

A revolução industrial ocorreu entre 1760 e 1840, e com ela surgiu toda uma cultura que intensificou o uso de animais como produtos, e a níveis inimagináveis. E isso não teve impacto somente para os animais não humanos, como podemos perceber em obras como “The Jungle”, de Upton Sinclair, que relaciona as duas formas de exploração, humana e não humana, por entender que são vilmente análogas em muitos aspectos.

Claro, o uso de animais como produtos também é um infeliz fator cultural, já que se trata de prática socialmente legitimada, mas é exatamente esse fator da depreciação da vida que nos leva à banalização de tantas coisas. Se um vegano é, por uma eventualidade, obrigado a usar algo que seja proveniente da exploração animal, por não haver alternativas, isso não significa que ele não é vegano, mas sim que há muito a ser feito e cobrado. Sendo assim, ser vegano neste mundo não é apenas possível como necessário.

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Written by David Arioch

June 25, 2017 at 7:14 pm

Considerações sobre musculação, fisiculturismo e veganismo

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Não é tão difícil alcançar as necessidades individuais com proteína vegetal, com uma alimentação vegetariana

Não é raro encontrar pessoas que dizem que veganos não conseguem chegar ao nível de fisiculturistas que não são veganos. O que acho? Talvez. Bom, acredito que há fatores a se considerar. Um deles é o fato de que claro que é mais fácil uma pessoa se empanturrar de proteína animal e alcançar o necessário para o ganho de massa muscular, até porque é mais cômodo. É exatamente por isso que a maioria dos que competem comem muita proteína animal. Por outro lado, não é tão difícil alcançar as necessidades individuais com proteína vegetal, com uma alimentação vegetariana. É preciso um pouco de interesse, boa vontade, paciência e empatia.

Mas claro que somente comida pode não ser o suficiente. Digo isso porque quando se fala em competição, as pessoas sempre pensam no nível dos grandes fisiculturistas internacionais, em atletas que competem no Mr. Olympia, Arnold Classic, e que obviamente não consomem poucos esteroides anabolizantes, nem mesmo fazem meros ciclos de EAs. São pessoas que, claro, se dedicam muito ao que fazem, dão a vida por isso. Mas não dá pra negar que jamais chegariam onde chegaram sem muitos recursos farmacológicos, e obviamente comem o que for necessário para acelerar o ganho de massa muscular.

Não serei hipócrita de dizer que uma pessoa pode ter um físico monstruoso simplesmente comendo comida, e isso independe se estamos falando de alimentação onívora ou vegetariana. Ninguém fica gigante só com comida, e aqui falo de alguém com quantidade imensa de massa muscular e baixo percentual de gordura. O ser humano tem um limite natural.

Claro, é possível ter um físico de qualidade sem usar EAs, ser visto como forte, grande e musculoso. Mas não no nível de atletas de elite, desses que são patrocinados ostensivamente por grandes marcas de suplementos alimentares importados. Como, por exemplo, um cara com 1,80m subindo no palco com mais de 100 quilos e 4% de gordura corporal. Esse é outro nível, outra realidade. Além disso, fisiculturismo não é sobre saúde, mas sobre desenvolvimento muscular.

Há alguns anos, fui convidado para competir e um amigo se ofereceu para ser o meu preparador. Se eu quisesse me destacar, claro, teria que usar esteroides e seguir assim. Ou se optasse por competir sem usar EAs, teria que ir por outro caminho que até hoje infelizmente não é tão respeitado quanto deveria. Vivemos em um mundo onde tudo que é mais próximo do natural não tem grande espaço, não é admirado com o mesmo brilho do que não é. Não tenho nada contra quem usa esteroides anabolizantes, mas não é o mundo que quero pra mim. Nunca foi.

Desde sempre treino por prazer. Sim, amo musculação, não é uma obrigação, e ela é parte importante da minha vida há mais de dez anos. Acho que se eu transformasse em obrigação, perderia a magia terapêutica que a musculação tem na minha vida. Ademais, ser vegano não me atrapalha em nada, até porque o que quero pra mim em relação a isso é o que o veganismo pode oferecer.

Se for pouco para os outros, tudo bem. Não sendo pra mim é o que me basta. Se alguém chegasse e dissesse: “Cara, tem uma substância de origem animal revolucionária que descobriram agora. Ela vai te levar a outro nível.” Eu simplesmente diria: “Não, obrigado.” Já cheguei onde gostaria de chegar. Se eu puder melhorar em algum sentido, tudo bem. Senão, bom também.

Não tomar parte na exploração animal é tão importante pra mim que mesmo que eu tivesse limitações para melhorar a minha condição estética, ainda assim eu seguiria em frente, porque o meu físico não é mais importante do que a vida dos animais. E isso nunca vai mudar.

E acredito que qualquer pessoa que considera o veganismo de forma sincera tem isso em mente. Também é preciso ponderar o fato de que a maioria das pessoas que praticam musculação, sejam vegetarianas, veganas ou não, não estão treinando para tornarem-se fisiculturistas. Querem apenas ganhar um pouco de massa muscular, diminuir o percentual de gordura ou garantir mais qualidade de vida. Sendo assim, são objetivos totalmente alcançáveis por veganos.

 

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“Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos”

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“A Inglaterra deve ser a terra dos gatos”

“O que me surpreendeu tanto quanto qualquer coisa eram os gatos gordos que dormiam pacificamente na entrada das lojas em Londres, enquanto as pessoas passavam por eles com cuidado. A Inglaterra deve ser a terra dos gatos, eles permanecem pacificamente por toda parte nas imediações de St John’s Wood.

Em Tânger [Marrocos] ou na Cidade do México, você quase não vê gatos tarde da noite, porque muitas vezes os pobres os pegam e os comem. Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos. Se Paris é uma mulher que foi violada pela invasão nazista, Londres é um homem que apenas fuma o seu cachimbo, bebe a sua stout e abençoa o gato tocando sua cabeça ronronante.”

Excerto de “Desolation Angels”, de Jack Kerouac, publicado em 1965.





Written by David Arioch

June 24, 2017 at 5:49 pm

Já tive sonhos em que incorporei os mais diferentes animais

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Arte: Corine Perrier

Já tive sonhos em que incorporei os mais diferentes animais (inclusive um deles virou conto), ou seja, em que eu não era simplesmente um ser humano. São como presentes que recebo da vida para entender o que é enxergar para além da minha condição humana, das minhas necessidades.

Se meus olhos se voltassem para mim o tempo todo, talvez eu não fosse capaz de ver mais do que a mim mesmo por onde eu andasse. Não gostaria de andar sempre mirando os meus próprios pés. Me esforço para evitar isso.





Written by David Arioch

June 24, 2017 at 5:46 pm

“O gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira”

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“Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída”

“Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.”

Excerto de “A Disciplina do Amor”, de Lygia Fagundes Telles, publicado em 1980.





Written by David Arioch

June 24, 2017 at 5:36 pm

Um gato no telhado

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Arte: Desiree Bernhard

Existe um gato que mora no telhado. Ele nunca deixa ninguém tocá-lo. Observa a cidade dia e noite, passeando sempre pelo alto, jamais pelo baixo. Seus olhos são incomuns, como esferas de caramelo. Quando o observo tarde da noite, nem preciso ligar a luz porque o que o brilho dos seus olhos reluz perfaz um caminho que ilumina e satisfaz o que a curiosidade conduz.

Às vezes, ele muda de cor. Já o vi caramelo, preto, branco, castanho, verde, azul, púrpura, mas sempre o reconheço pelos seus olhos. Tentaram capturá-lo em vão, sempre em vão, porque ele não quer ninguém, não depende de ninguém. Dizem que tem um traço genético raro que remete aos seus ancestrais selvagens que viviam nas florestas que cercam o Rio Paraná.

Ele não aparece para todo mundo, mas todo mundo quer vê-lo. Os mais supersticiosos falam que quem toca o “gato de caramelo” é abençoado com muita alegria e fortuna. Já a fortuna do “gato de caramelo” é não ser tocado por ninguém. Jamais o viram comendo. Falam que ele se alimenta da luz do luar. Não duvido, porque algumas vezes o vi alheio a tudo, simplesmente mirando a lua que lançava sobre ele uma luz anilada que o fazia ronronar por minutos.

É um zíngaro dos telhados. Sim, eu o chamo de Zíngaro, porque acho que combina mais do que “gato de caramelo”. Ele nunca responde aos meus chamados, mas me observa com um olhar de quem não nega e não rejeita o fato de que aquele é apenas mais um dos nomes que recebeu ao longo de sua vida.

Sua idade? Não tenho a mínima ideia, mas sua postura revela a maturidade de um ancião. Talvez seja o gato mais velho do mundo, vivendo em um corpo jovem, ou talvez não, seja apenas um animal que rejeitou a vida doméstica. Será que ele é feliz? A verdade é que isso não importa, porque a felicidade é um parâmetro humano, não felino. Gatos vivem pelos seus próprios termos, e talvez nem vejam sentido na felicidade.

Quem sabe, Zíngaro desapareça nos próximos dias, e retorne no ano que vem. Ele sempre faz isso quando os humanos insistem na indesejada aproximação. O gato não teme ser notado, observado, mas nem por isso deseja ser mais uma vez domesticado. Como será que ele vê os outros animais cativos? Acho que ele não se importa com isso. Talvez entenda que aquela é a vida dos outros, não a dele.

Parece tão tranquilo na cumeeira, com as patas cruzadas, observando o silêncio na baixada. “Boa noite, Zíngaro!”, repito três vezes. Ele não responde, mas lança um último e longo olhar antes de saltar em direção ao telhado vizinho. Zíngaro corre, e vejo a ponta do seu rabo desaparecer. E com ele, toda a liberdade que a noite ajuda a enternecer.

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Written by David Arioch

June 24, 2017 at 1:17 am

Quando se reconhece que não só os humanos têm direito à vida

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Os olhos deixam de ser os mesmos quando vidas já não podem ser assimiladas e aceitas como produtos

A partir do momento que se reconhece que não somente os seres humanos têm direito à vida, desperta-se naturalmente para um novo tipo de sensibilidade e de reconhecimento do valor da existência. Os olhos deixam de ser os mesmos quando vidas já não podem ser assimiladas e aceitas como produtos.

Written by David Arioch

June 19, 2017 at 1:32 am

Uma lição de vida

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Sempre me emociono quando vejo o vídeo abaixo. Baita lição de vida. E pensar que esses animais são tratados como se fossem isentos de qualquer razão e sensibilidade. Basta pensarmos no uso hediondo deles em laboratórios, em vivissecção. Triste realidade.

 

Written by David Arioch

June 18, 2017 at 9:12 pm

O atleta e a vaquejada

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“Isso significa que o seu esporte é puxar violentamente o rabo de um animal?”

— O que você faz?
— Sou atleta.
— Sério mesmo?
— Sim…
— Qual esporte você pratica?
— Vaquejada.
— Isso significa que o seu esporte é puxar violentamente o rabo de um animal?
— Sim…
— Mas o animal consentiu? Ele disse a você que gostaria de sentir dor?
— Não…
— Então como isso se enquadra em esporte?
— Não tenho a mínima ideia.

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O boi e o menino

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Arte: Juan Bosco

Dirigindo pelas estradas de Alto Paraná, perto da Água do Cedro, encontrei um menino andando lado a lado com um boi. Encostei o carro, desci, pedi uma informação e perguntei se ele morava longe. Então o garotinho de nove ou dez anos apontou uma porteira aberta e uma casa de madeira no horizonte à sua direita. A postura e os olhos daquele boi me fizeram suspeitar que havia algo realmente incomum sobre ele.

— E esse boi? Ele mora com vocês?
— Sim, senhor.
— Vocês estão passeando?
— Isso mesmo. Como o senhor sabe?
— É que lá de trás vocês já pareciam companheiros. E agora, de perto, vi que esse boi não tem nenhuma marca no corpo.
— Pra que marcar o bicho, né? Eu que não quero ter o couro marcado. Acho que ninguém quer, né?
— Pois é. Realmente…
— Vocês passeiam sempre?
— Ah, não. Só quando ele quer.
— E como você sabe quando ele quer?
— Ele encosta na porteira, e esfrega a orelha. Meu pai diz que ele faz isso desde criança.
— Desde criança?
— Isso.
— Quantos anos ele tem?
— Ah, ele tem 21.
— Nossa! Incrível!
— É o que todo mundo diz – comentou sorrindo.
— Forte desse jeito? E como ele viveu tanto?
— Não sei dizer não, senhor. Deve ser porque a gente nunca judiou dele, deixa ele bem solto no pasto.
— Isso é bom.
— É sim.
— Vocês nunca pensaram em abater ele?
— Não, senhor. Que isso! O Mestre é da família, é bicho que nem a gente.
— Vocês não comem carne?
— Não. A gente só mexe com horta e pomar. Meu vô, meu pai e minha mãe falam que comer o que não nasce de novo não presta. Tá certo não.
— Ninguém da sua família come carne?
— Não, ninguém.
— Sempre foi assim?
— Não. Foi por causa de uma coisa que aconteceu com o bisa antes do meu pai nascer.
— O que aconteceu?
— Meu bisavô tinha um cemitério no fundo do sítio dele. Um dia, uma vaca entrou lá e empurrou um pedaço de bife dentro de um buraco. Depois ela arrastou a terra com a pata pra cobrir o bife. O bezerro dela tinha sido levado fazia acho que duas semanas. Então o bisa chorou quando viu e prometeu nunca mais comer carne, nem mexer com isso. Essa história a gente escuta desde bem pequeno.

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