David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Direitos Animais/Animal Rights’ Category

Mary Midgley: “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”

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Segundo a filósofa britânica, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais

Mary declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos (Foto: The Guardian)

Mary Midgley é uma filósofa moral britânica que durante muito tempo lecionou na Universidade de Newscastle, na Inglaterra. Ela é mais conhecida por seu trabalho no campo da ética e dos direitos animais. Em 1978, aos 59 anos, ela lançou o livro “Beast and Man”, em que defende que os seres humanos são mais parecidos com os animais do que muitos filósofos e cientistas sociais sempre julgaram; isto porque sempre se preocuparam mais com as nossas diferenças em relação às outras espécies do que as nossas semelhanças.

Na obra, ela declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos. A obra foi o primeiro manifesto de Midgley contra o reducionismo, o determinismo, o behaviorismo e o relativismo que ela considera limitantes.

Em “Animals and Why They Matter”, outro de seus mais famosos livros, publicado em 1983, Mary analisa como a divisão e a oposição entre razão e emoção influenciou nossas ideias morais e políticas; e como isso fez com que no decorrer do tempo ignorássemos a importância dos animais não humanos.

Ao longo de sua carreira, ela publicou mais de 15 livros. Uma das suas obras mais recentes é “Are you an illusion?”, lançada em 2014. O livro é uma reação à obra “The Astonishing Hypothesis”, do biólogo Francis Crick, que reduz os conceitos de livre arbítrio e identidade pessoal a uma reação das células nervosas. Migdley rebateu essa tese considerando que pensamentos e memórias são parte da realidade de animais humanos e não humanos, e que precisam ser estudados como tais, assim exigindo diferentes métodos analíticos que não cabem dentro de uma perspectiva reducionista e determinista.

A identificação de Mary Midgley com os direitos animais começou no final dos anos 1950, quando ela conheceu o trabalho do zoólogo e ornitólogo Konrad Lorenz e da bióloga Jane Goodall. Em 1985, o seu ensaio “Persons and Non-Persons” foi publicado no livro “In Defense of Animals”, páginas 52-62, do filósofo australiano Peter Singer. No ensaio, ela apresenta argumentos que devemos considerar em contrariedade à objetificação animal.

Em 1999 e em 2003, o escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, citou Mary Midgley e Tom Regan como referência em direitos animais nos livros “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello”. O trabalho de Mary é bastante enfático no que diz respeito ao que os filósofos podem aprender especialmente com os animais não humanos, ignorados por importantes pensadores que ajudaram a fundamentar e a moldar o antropocentrismo e o especismo.

Em 27 de fevereiro de 2013, aos 93 anos, Mary Midgley concedeu uma entrevista a Simon Jenkins, do The Guardian. Ela o recebeu em sua casa em Newcastle, e na ocasião disse que quando se trata de falar sobre as diferenças entre pessoas e animais, na verdade, essa diferença não é tão grande quanto consideramos. “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”, enfatizou.

Ela explicou a Jenkins que muitos dos problemas que enfrentamos hoje em relação à negação dos direitos dos animais à vida no contexto da ciência, por exemplo, está relacionado com o fato de que muitos cientistas não têm um senso de filosofia ou história.

“O culto à ciência agora é amplamente praticado. Quando comecei a olhar a maneira como as pessoas falam sobre a ciência, percebi que existe essa noção grotescamente exagerada do que é e o que faz. Foi quando me interessei pelo comportamento animal, no final da guerra. Até então, não acho que pensei sobre ciência como uma espécie de campo rival do pensamento, mas uma vez que você começa…”, revelou.

Segundo Mary, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais. Ela crê que se começarmos a reduzir tudo ao comportamento das células, estaremos reduzindo tudo ao determinismo, o que é um grande equívoco sob a perspectiva da filosofia moral.

Saiba Mais

Mary Midgley, que hoje tem 98 anos, nasceu em Londres em 13 de setembro de 1919.

Referência

Mary Midgley





Breve reflexão sobre o consumo de alimentos de origem animal

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Breve reflexão sobre pessoas que debocham do veganismo

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O sofrimento animal como tema de uma discussão é algo que demanda respeito em qualquer circunstância (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Tenho dificuldade em entender por que pessoas com pouca ou grande visibilidade se expõem tanto para falar sobre veganismo de forma pejorativa, debochada e desrespeitosa. É até difícil enumerar o tanto de pessoas, inclusive com prestígio em suas áreas, que agem dessa forma, sem medo de revelar arrogância ou presunção. O veganismo está vinculado aos direitos animais, e, para além de fatores óbvios, como o sofrimento animal, tem toda uma literatura de longa data que o fundamenta.

Há uma infinidade de obras que servem de referência sobre o assunto, e que começaram a ser publicadas ostensivamente a partir do século 19. Então sempre fico surpreso quando as críticas ou comentários mais inestéticos sobre o assunto normalmente não trazem nenhuma sólida referência ou argumento, mas somente um discurso fragilizado que encontra plateia entre aqueles que também não sabem de fato o que é a defesa dos direitos animais, o veganismo, e o que representam.

Eu jamais seria capaz de me expor para desmerecer algo sobre o qual tenho irrisório ou nenhum conhecimento. Quero dizer, qual é o sentido de falar mal de algo sem ter base para argumentar com a devida coerência? Como posso confrontar qualquer ideia com a qual não concordo se não dediquei tempo estudando sobre o assunto? O desrespeito subsiste exatamente nisso, na negação do conhecimento que podemos adquirir para fortalecer nossas contrariedades ou reavaliá-las.





Written by David Arioch

December 10th, 2017 at 8:59 pm

A realidade de um animal tirado de seu habitat para ser explorado comercialmente

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Nenhum animal sente prazer em ser explorado pela humanidade. Pense nisso (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Foto do projeto We Animals, da fotógrafa e ativista canadense Jo-Anne McArthur mostra claramente a a realidade de um animal tirado de seu habitat, assim como muitos outros, para ser explorado comercialmente, o que significa que o seu destino já foi traçado. Ou seja, objetificação seguida de morte. Nenhum animal sente prazer em ser explorado pela humanidade. Pense nisso.

Written by David Arioch

December 10th, 2017 at 12:13 pm

Segundo Will Potter, ativistas ambientais e dos direitos animais são vistos como ameaça terrorista pelo FBI

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Potter: “Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais” (Fotos: Shutterstock/Peta)

De acordo com o jornalista Will Potter, autor do livro “Green is the New Red”, ativistas ambientais e dos direitos animais são considerados pelo FBI a pior ameaça terrorista. “Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais”, explica.

 





O que separa muitas pessoas do veganismo é a falta de boa vontade

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Se vivesse hoje, ele seria considerado vegano, porque realmente não comia nem usava nada de origem animal (Arte: Acervo da Arab Humanists/Foto: HSUS)

Al Ma’arri foi um poeta sírio e cego que viveu no século XI. Se vivesse hoje, ele seria considerado vegano, porque realmente não comia nem usava nada de origem animal. Sua alimentação era bem simples, e sua principal fonte de proteína eram os feijões. Não, ele não tinha grana, mas viveu como quis e fazendo o que gostava até os seus últimos dias. Sendo assim, vamos refletir sobre o caso de Al Ma’arri antes de dizer que veganismo é impraticável no final de 2017. A verdade é que o que separa muitas pessoas do veganismo é a falta de boa vontade em contribuir com seres não humanos. Ou seja, muita gente prefere colaborar com um sistema que explora e mata bilhões de animais por ano.

 





Written by David Arioch

December 10th, 2017 at 12:04 pm

Ronnie Lee conta a história da A.L.F, o mais famoso grupo de ação direta em defesa dos animais

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“Já éramos vegetarianos ou veganos e estávamos envolvidos em várias organizações de proteção animal”

Após o ataque, Lee declarou que o objetivo era impedir a “tortura e o assassinato de nossos irmãos e irmãs animais” (Foto: Animal Liberation Front)

Em 1973, Ronnie Lee e mais cinco vegetarianos e veganos fundaram a Band of Mercy em Londres, na Inglaterra. Em reação aos abusos praticados contra os animais, o grupo surgiu com a proposta de realizar ações diretas. A escolha do nome é uma referência a um grupo juvenil homônimo da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), fundada em Strand, Londres, em 1824. No século 19, esses jovens destruíam armas que pertenciam a caçadores.

“Todos nós já éramos vegetarianos ou veganos e estávamos envolvidos em várias organizações de proteção animal. Compartilhávamos o sentimento comum de que essas organizações não conseguiriam fazer a diferença porque suas táticas não eram rígidas o suficiente”, relatou Ronnie Lee no artigo “The Formation of the Band of Mercy and A.L.F”, publicado na editoria “Direct Action History Lessons”, da revista “No Compromise”, número 28.

Lee relatou que sentiu que era vital embarcar em uma campanha de ação direta para tentar mudar alguma coisa, mesmo sem a certeza de que daria certo ou não. “Sentimos que não havia outra escolha e precisávamos tentar. Decidimos que nossa campanha deveria ser contra a propriedade e que nenhuma violência deveria ser usada contra pessoas, exceto em legítima defesa. Para alguns de nós, nossas ações tinham razões morais, e para outros era algo puramente tático. Eu, pessoalmente, me arrependo disso agora, porque sinto que poderíamos ter feito um uso limitado de violência contra os abusadores de animais”, declarou.

Os primeiros alvos da Band of Mercy foram os canis que davam suporte à caça às raposas, onde eles causaram danos aos veículos usados para transportar cães de caça. Mas foi em 1973 que o grupo chamou bastante atenção na Inglaterra, quando realizaram dois atentados com bomba em um laboratório de vivissecção que estava sendo construído. A ação foi seguida pela destruição de um barco usado no abate de focas bebês e por uma onda de ataques contra veículos usados no transporte de animais para laboratórios.

No verão de 1974, Ronnie Lee e Cliff Goodman, da Band of Mercy, foram identificados e presos por um atentado a um centro de pesquisa de vivissecção. Após o ataque, Lee declarou que o objetivo era impedir a “tortura e o assassinato de nossos irmãos e irmãs animais”. A justificativa não sensibilizou a opinião pública, a imprensa nem a justiça, e os dois foram sentenciados a três anos de prisão. Também passaram a ser vistos como “ecoterroristas”.

““Embora o número de ações tenha diminuído, sinto que a A.L.F se tornou mais eficaz do que nunca” (Foto: Animal Liberation Front)

À época, Lee achou que aquele poderia ser o fim do seu trabalho como ativista em defesa dos direitos animais. Imaginou que a repercussão da sua prisão marcaria o fim da Band of Mercy. Um ano depois, quando saiu da prisão, se surpreendeu ao encontrar muitos ativistas da proteção animal querendo se juntar ao grupo. Em 1976, a Band of Mercy passou a se chamar oficialmente Animal Liberation Front (A.L.F), nome que reflete com mais clareza o ideal do grupo.

Como a A.L.F contava com muito mais ativistas do que nos tempos da Band of Mercy, o trabalho de resgate de animais em laboratórios de vivissecção se tornou mais bem-sucedido. “O número de ações aumentou rapidamente, e grupos da A.L.F se estabeleceram em todo o país e no exterior”, declarou Ronnie Lee no artigo “The Formation of the Band of Mercy and A.L.F”.

E claro, com o tempo, mais ativistas foram presos; na realidade, chegando a centenas de prisões, segundo o fundador da Animal Liberation Front. O período em que a A.L.F realizou mais ações diretas foi na metade dos anos 1980. Os ataques do grupo atingiram diretamente o comércio de peles no Reino Unido. Sua fama e suas ações garantiram que as lojas de departamentos da Inglaterra se recusassem a estocar casacos de pele.

“Embora o número de ações tenha diminuído, sinto que a A.L.F se tornou mais eficaz do que nunca. Com apenas algumas notáveis exceções. Os ataques da A.L.F no passado eram de natureza bastante difusa, com pouca concentração em qualquer alvo específico. Isso significava que os estabelecimentos que lucravam com o abuso de animais podiam se recuperar e continuar os seus negócios com bastante facilidade”, confidenciou.

Ronnie Lee explicou que com o tempo a A.L.F começou a escolher melhor seus alvos, atacando principalmente empresas que já estavam sob pressão de outras campanhas e ações. Como resultado, os índices de ações bem-sucedidas cresceram substancialmente.

Saiba Mais

A Animal Liberation Front já atuou em mais de 40 países.

“No Compromise” é uma revista sobre direitos animais fundada em San Francisco, na Califórnia, em 1989, que chegou ao fim em 2005. O periódico sempre visou cobrir os aspectos globais dos direitos animais e a promoção do veganismo como estilo de vida.

Referência

Lee, Ronnie. The Formation of the Band of Mercy and A.L.F. Direct Action History Lessons. No Compromise. Número 28 (2005).





“Boi que não quer ser tocado vai de caminhonete”

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Encontrei uma foto (ao lado) com a seguinte legenda: “Boi que não quer ser tocado vai de caminhonete.” Além de explorar o animal, ainda debocha dele e o expõe. Sério mesmo que há quem acredite que animais criados para consumo são vistos para além de produtos?

Written by David Arioch

December 8th, 2017 at 10:22 pm

Voltando para casa…

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Pintura: Jo Frederiks

Voltando para casa, encontrei uma caminhonete adaptada para o transporte de gado. Estava vazia, a sujeira grossa escorria e o mau cheiro persistia. O motorista acenou para um homem na rua e disse: “Acabei de entregar uns lá na baixada.” Fiquei imaginando como ele conseguiu colocar “uns” dentro de um espaço tão reduzido. Talvez o odor e a imundície no chão expliquem a degradação da situação. O que será que aquele espaço representa para um boi?





Written by David Arioch

December 8th, 2017 at 10:20 pm

Tom Regan: “Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado”

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“Embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas acreditam”

“Acredito que ambas as ideias [de Peter Singer] não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais” (Acervo: The Animals Voice)

Embora o filósofo australiano Peter Singer tenha feito uma grande diferença no movimento moderno em defesa dos direitos animais, em parte, pela publicação do livro “Animal Liberation” em 1975, que se tornou um clássico para o movimento dos direitos animais, com o tempo o seu discurso passou a ser criticado por outros importantes nomes da luta pelos direitos animais. Antes de falecer em 17 de fevereiro de 2017, o filósofo estadunidense Tom Regan, um dos teóricos mais proeminentes na defesa pelo abolicionismo animal, e que fazia oposição ao utilitarismo de Singer, concedeu uma entrevista a Claudette Vaughan, do Vegan Voice, explicando quais os seus principais pontos de discordância em relação à filosofia de Peter Singer.

Tom Regan, autor do clássico “Empty Cages”, de 2004, relatou que com o tempo Peter Singer passou a defender unicamente duas ideias principais: “[De acordo com Singer], Primeiro, devemos considerar os interesses de todos e ter igual igualdade de interesses. Segundo, depois de ter feito isso, devemos fazer o que traz o melhor equilíbrio geral dos interesses dos afetados. A primeira ideia diz respeito ao procedimento: o que temos que fazer antes de decidir o que é o certo a se fazer?  A segunda ideia diz respeito ao julgamento moral: o que é o certo a se fazer? Acredito que ambas as ideias não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais.”

Regan discordava de Singer quanto ao procedimento de consideração de interesses porque, de acordo com ele, isso significa colocar em uma balança, e em nível de igualdade, não apenas os interesses dos explorados, mas também dos exploradores em continuar fazendo o que fazem. Para Regan, a perspectiva ética de Singer em relação ao procedimento, ou seja, o que temos de fazer antes de decidir o que é certo, é perigosa, porque, com base nisso, alguém pode dizer também que é importante considerar os interesses de estupradores, proprietários de escravizados e pedófilos antes de julgar que o que eles fizeram e fazem é absolutamente reprovável e inaceitável.

“Similarmente, acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado. Minha posição não poderia ser mais oposta a essa ideia. Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado, isto porque estão violando os direitos de alguém”, justificou Tom Regan a Claudette Vaughan.

Tom Regan afirmou em entrevista ao Vegan Voice que muitas pessoas acreditam que o seu trabalho e o de Singer são muito similares. “‘Singer não diz o mesmo?’, ‘Singer não acredita nos direitos animais?’ Para essas perguntas, a resposta honesta é: ‘Não, ele não diz a mesma coisa. Não, ele não acredita nos direitos animais.’ E se alguém pergunta: ‘No que ele acredita então?’ A resposta é: ‘Ele acredita nas duas ideias que descrevi.’”

“Acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado” (Foto: American Anti-Vivisection Society)

Regan citou que Peter Singer não acredita que a vivissecção seja sempre errada, apontando que o filósofo australiano crê que há situações em que a vivissecção é justificável. “Se os resultados estão em melhor equilíbrio do que se fossem obtidos de outra maneira, então sua visão é a de que não há nada de errado em usar animais em pesquisa. Este é um motivo pelo qual penso que as ideias de Singer são prejudiciais aos animais. Minha posição não poderia ser mais oposta à sua”, explicou o filósofo a Claudette Vaughan.

Tom Regan enfatizou que as pessoas não deveriam ficar chocadas ao saberem disso, levando em conta que Peter Singer diz que não é moralmente errado ter relações sexuais com animais. “Desde que o sexo ocorra em local privado, e assumindo que os participantes estão gostando, ele não vê nada de errado nisso. Isso é perfeitamente condizente com as duas principais ideias de Singer. Na verdade, isso é exigido pelas suas duas principais ideias. Novamente, a minha posição não poderia ser mais oposta a dele. Na minha visão, bestialidade é sempre moralmente errada pelas mesmas razões que sexo com crianças é moralmente errado: os direitos daqueles que não podem dar o consentimento são violados”, criticou.

O filósofo estadunidense argumentou que a última coisa que os animais precisam é que os exploradores de animais insinuem que os ativistas da militância pelos direitos animais estão reivindicando direitos para que possamos ter sexo mutuamente satisfatório com seres não humanos: “Quero dizer, meu Deus! Se isso acontecesse, os ativistas seriam vistos como desonestos, na melhor das hipóteses, e depravados, na pior das hipóteses. Em ambos os casos, o que os ativistas dizem em nome dos animais seria totalmente desconsiderado. Seria muito difícil calcular o dano maciço que seria causado aos animais. Então, embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, além de eu gostar muito dele como pessoa, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas da militância pelos direitos animais acreditam. Espero que isso se torne mais claro à medida que avançamos. E precisa ser assim.”

Saiba Mais

Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, Tom Regan conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil. Outras de suas obras de referência são “All That Dwell Therein: Essays on Animal Rights and Environmental Ethics”, de 1982; e “The Case for Animal Rights”, de 1983.

Referência

Vaughan, Claudette. An American Philosopher: The Tom Regan Interview. Vegan Voice. Republicado pela Animal Liberation Front (ALF).