David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Direitos Animais/Animal Rights’ Category

O preço do pernil

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Ilustração: Vanni Cuoghi

Tem três pés e muita dificuldade para andar. Não desiste. Entre passos e pequenos saltos, se aproxima de um homem comendo tranquilamente um sanduíche. À sombra da sibipiruna, o rapaz de bermuda leva um susto quando sente um focinho gelado tocando-lhe a panturrilha descoberta.

Solta um gemido doloroso e aponta o focinho para o próprio ferimento. Falta-lhe uma perna. O estranho continua sem entender o que aquilo significa. Entre mastigadas e desinteresse, se irrita quando o porquinho toca-lhe a mão com a cabeça.

— Pelo amor de Deus, né? Você quase derrubou meu lanche. Vá pra lá, tá me irritando.

Mais uma vez. Persistência. Entre duas fatias de pão, o último pedaço de pernil cai sobre um punhado de folhas. O rapaz se levanta. Sisudo, furibundo, esfaimado. Suor quente. A ameaça do chute não intimida. O pequeno o observa sem se mover. Ameaça. Sim, ameaça humana.

— Te mato, caramba! Mato mesmo!

O porquinho empurra o pequeno pedaço de carne. Faz um desenho com o focinho.

— O que você tá fazendo?

Continua arrastando o focinho pelo solo.

— Hã?

Um pernil, disforme, mas um pernil riscado na terra. No núcleo, um pedaço da carne suja.

O porquinho deita no chão. Ganha uma perna incapaz de mover. Pouca carne. Carne sem vida. Riscos. É o que resta.

— Você quer dizer que comi sua perna?

O porquinho se levanta, o observa e vai embora. Dor, passos curtos e incertos, pulinhos, pulinhos alternados.

A carne já não é carne. O rapaz cava um pequeno buraco com as mãos, enterra o pedaço de pernil e cobre com terra. Escreve no chão: “Que a minha busca pelo perdão triunfe sobre o prazer da gustação.”

 





Retrato da triste realidade

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Acervo: Animal Freedom Fighter

Realmente, é triste, mas ao mesmo tempo a foto ilustra a realidade de bilhões de animais ao redor do mundo, reduzidos a alimentos e outros produtos. Falo de criaturas que muitos chamam de “animais comuns”, que recebem do especismo o “aval” para morrerem quando não somos capazes de vê-los como realmente são, ou seja, seres com ânsia pela vida.





Written by David Arioch

October 17th, 2017 at 11:42 am

Por que o pai matou a galinha?

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Foto: Cristian Bernardo Velasco Valdez

Com cinco anos, Hugo testemunhou seu pai matando uma galinha no quintal. Nunca tinha visto aquele animal com vida. Achava que galinhas já nasciam mortas. Chorou quando viu a pequena ceder com o pescoço destroncado. O pai olhou para o menino. Não disse nada. Entrou em casa e pediu para que a esposa limpasse a galinha e preparasse o jantar.

Hugo correu até o quintal, juntou as penas da galinha que voaram pelo chão de terra e as guardou dentro do bolso. Enquanto a mãe temperava a galinha, o menino tomou coragem e se aproximou.

— Por que o pai matou a galinha?
— Pra gente comer, filho.
— Mas ela queria morrer?
Silêncio.
— A vida é assim, Hugo.
— Por quê?
Silêncio.
— Depois a gente conversa. Agora preciso fazer a janta.

Hugo entrou no quarto. Ficou lá mais de hora e retornou. Desenhou uma galinha, tirou as penas do bolso e as colou na ave tristonha. Depois foi até a cozinha e entregou o desenho para a mãe.

— Olhe, mãe, eu disse que ela não queria morrer.

A mulher observou a expressão lacrimosa do animal. As lágrimas da mãe desceram junto com as lágrimas da galinha, pinguinhos escuros de lápis.





Written by David Arioch

October 17th, 2017 at 11:04 am

Quando publico fotos de animais…

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Foto: Tally Walker Warne

Quando publico fotos de animais, a parte mais triste é saber que muitos desses animais existem apenas como retrato uno e paradoxalmente sequente de um momento de grande sensibilidade, um momento que se foi. Muitos deles transmitem inocência, incredulidade, medo, desespero, terror ou ânsia pela vida. Há súplica em seus olhos.

O que vemos nas fotos são criaturas já falecidas, que sequer foram enterradas. Algumas de suas partes foram ingeridas e digeridas; outras se tornaram insumos de produtos que as pessoas usam no cotidiano, sem refletirem ou se preocuparem com o fato de que “aquilo” um dia pertenceu a um ser que assim como nós também se deslocava, se comunicava, sentia fome, sede.

Há também aquelas partes que foram descartadas como lixo, assim como fazemos com restos de alimentos, com coisas pequenas e insignificantes. Eles morreram, não tiveram uma segunda chance. Vidas curtas interrompidas pela elação. Cumpriram um objetivo que não era o deles, subjugados pela desconsideração e intransigência humana.





Written by David Arioch

October 16th, 2017 at 5:55 pm

A perspectiva de Sócrates sobre a coisificação dos animais não humanos

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A coisificação dos animais não humanos é apontada por Sócrates e Glauco como algo capaz de impedir a humanidade de alcançar a felicidade. “E, se seguirmos esse modo de vida, não teremos de visitar o médico com mais frequència?”, questiona o filósofo, que recebe a confirmação de Glauco: “Teríamos tal necessidade.” Sócrates prevê ainda que o hábito de comer animais e criá-los com a finalidade de vendê-los transformaria o ser humano em alguém não somente ambicioso, mas ganancioso a ponto de espoliar propriedades vizinhas para ampliar suas pastagens:

“Se nosso vizinho seguir um caminho semelhante, não teremos que ir à guerra contra o nosso próximo para garantir maiores pastagens? Porque as nossas não serão mais suficientes para o nosso sustento, e nosso vizinho terá a mesma necessidade e entrará em guerra conosco?” Glauco corrobora o receio do ateniense ao confirmar que sim, deixando subentendido que a humanidade se tornaria mais suscetível à decadência e às tentações de uma sociedade imersa em desigualdades. Para Sócrates, a redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa – e um distanciamento cada vez mais crescente da forma mais genuína de felicidade.

Essas reflexões de Sócrates envolvendo a exploração animal e o consumo de carne vão ao encontro do estudo da virtude. Ele dizia que é mais importante a busca do desenvolvimento humano do que a busca pela riqueza material – um dos principais motivos da exploração de animais enquanto produtos. Sócrates acreditava tanto nisso que nem mesmo quando foi sentenciado à morte por questões políticas, segundo as obras “Apologia” e “Críton”, de Platão; e pessoais, de acordo com Xenofonte, optou por curvar-se ao júri ou fugir em vez de enfrentar a injusta condenação. Nascido em 470 a.C., Sócrates, que preferiu à morte ao exílio, faleceu em 399 a.C, depois de ser obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso.





Rousseau: “”Os animais que você come não são aqueles que devoram outros”

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“Os animais que você come não são aqueles que devoram outros. Você não come as feras carnívoras, você as toma como exemplo. Você só sente fome pelas criaturas doces e gentis que não ferem ninguém, que o seguem, o servem, e que são devoradas por você como recompensa por seus serviços.”

Jean-Jacques Rousseau em “Emílio, ou Da Educação”, escrito em 1762.





Written by David Arioch

October 14th, 2017 at 3:30 am

Mark Twain: “Meus experimentos provaram que o homem é o animal irracional”

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“O homem é um animal racional. Assim como ele se intitula. Eu acho que essa afirmação é discutível. De fato, meus experimentos provaram que o homem é o animal irracional. Na verdade, o homem é incrivelmente tonto. Coisas simples que outros animais aprendem facilmente, ele é incapaz de aprender. Os meus experimentos provam isso. Em uma hora, ensinei um gato e um cachorro a serem amigos. Em outra hora, os ensinei a serem amigos de um coelho. Ao longo de dois dias, incluí uma raposa, um ganso, um esquilo e algumas pombas nesse círculo social. Finalmente, um macaco. Eles viveram juntos em paz, inclusive carinhosamente.

Em outro local, confinamos um católico irlandês de Tipperary e um presbiteriano escocês de Aberdeen. Em seguida, um turco de Constantinopla, um grego cristão de Creta, um armênio, um metodista das regiões selvagens do Arkansas, um budista da China, um brâmane de Varanasi; Finalmente, um coronel do Exército da Salvação de Wapping. Então fiquei longe por dois dias. Quando retornei para observar os resultados, estava tudo bem na gaiola dos animais superiores, mas na outra havia um caos sangrento, com ossos e carne. Nenhum espécime foi deixado vivo. Esses animais racionais discordaram de detalhes teológicos e levaram a questão a um Tribunal Superior.”

Mark Twain em “Letters from the Earth: Uncensored Writings”, publicado em 1962.





Written by David Arioch

October 14th, 2017 at 3:24 am

Muitos temem reconhecer que os animais são sensíveis, conscientes e inteligentes

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Foto: Tally Walker Warne

Muitos temem reconhecer que os animais não humanos são sensíveis, conscientes e inteligentes, isto porque ao aceitar a constatação desse fato o ser humano tem de lidar com a própria consciência, e ninguém quer ver a si mesmo (e talvez menos ainda que os outros o vejam) como alguém que não se importa apenas com a sua vida e a dos seus, surgindo assim um embate que pode gerar ou não mudanças dependendo da maneira como alguém lida com a realidade, seja aceitando-a ou refugiando-se na dissimulação.

Quando o véu da inocência, do desconhecimento ou da ignorância deita ao chão, ao ser humano resta duas opções – a mudança, que pode levá-lo a uma nova perspectiva do valor da vida, incluindo talvez até um exame do seu papel enquanto ser humano; ou a uma desconsideração, empáfia ou egotismo, representando assim uma posição de reafirmação de que somente nós somos importantes, e todo o resto existe apenas para nos servir, independente se há privação, sofrimento ou morte. Afinal, toda exploração animal traz consequências negativas em menor ou maior proporção.





Romance de Han Kang discute a repercussão social que surge quando uma dona de casa se torna vegetariana

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Em 2007, a escritora sul-coreana Han Kang publicou um livro intitulado “Chaesikjuuija”, “A Vegetariana”, que conta a história de uma dona de casa que um dia, depois de um sonho, decide não consumir nem cozinhar mais nada de origem animal.

A partir dessa sua decisão, ela passa a enfrentar uma série de desafios, ou seja, toda a repercussão social que envolve a recusa em se alimentar de animais em um contexto onde todas as refeições do dia são baseadas na exploração de animais.

O romance é dividido em três partes, na realidade, três novelas. A primeira é narrada pelo marido, a segunda pelo cunhado e a terceira pela irmã. Os três têm perspectivas bem distintas da recusa da mulher em tornar-se vegetariana estrita.

“O que tinha agora na mesa à minha frente era uma desculpa para saltar uma refeição. Com a cadeira afastada da mesa e ligeiramente de lado, a minha mulher foi comendo a sopa de algas, que obviamente devia saber a água e nada mais. Espalhou arroz e massa de soja sobre uma folha de alface, depois a enrolou, trincou o wrap e o mastigou vagarosamente.

Não conseguia compreendê-la. Só depois é que me apercebi de que não conhecia aquela mulher. — Não comes? — perguntou distraidamente, lançando a pergunta para o ar como se fosse uma senhora de meia-idade a falar para o filho já crescido. Mantive-me sentado, em silêncio, assumidamente desinteressado daquela miséria de refeição, mordiscando kimchi durante o que pareceu uma eternidade.

Chegou a primavera, e a minha mulher ainda não tinha vacilado. Cumpria escrupulosamente a sua palavra – nunca vi um único pedaço de carne lhe passar pelos lábios – mas havia muito tempo que eu desistira de me queixar. Quando numa pessoa se opera uma transformação tão drástica, não há nada a fazer senão deixar andar.”

Excertos das páginas 17 e 18 de “Chaesikjuuija”. Em 2009, o romance ganhou uma versão cinematográfica dirigida por Woo-Seong Lim. O livro foi publicado no Ocidente em 2016 e venceu o Man Booker International Prize em 2016. A versão em inglês também foi eleita pela Publishers Week como um dos melhores romances de 2016.





Tive um pesadelo em que eu era um boi a caminho do matadouro.

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Há muito tempo, tive um pesadelo em que eu era um boi a caminho do matadouro. A diferença é que eu era um bovino com consciência humana – prestes a morrer e incapaz de verbalizar o meu desespero. Tudo isso intensificou ainda mais o meu medo. Se todas as pessoas tivessem esse pesadelo, acho que teríamos grandes mudanças. É, só vou deixar de ter esperanças quando eu morrer, porque sem esperança acredito que não há pelo que viver.

 





Written by David Arioch

October 12th, 2017 at 11:53 pm