David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Direitos Animais/Animal Rights’ Category

Um vegano no churrasco

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Foto: Reprodução

— Boa tarde
— Boa tarde…
— Então você é o tal do cara que não consome carne, ovos, leite e tal?
— Bom, não sei se podemos dizer que sou o tal cara, já que há mais pessoas como eu, que não se alimentam de animais. Acho mais justo dizer que sou apenas “um dos caras”.
— Sei.
— Mas nem uma linguicinha de vez em quando para socializar com os amigos? Ninguém vai ficar sabendo, só entre nós.
— Acho que é bem possível socializar com os amigos sem a “linguicinha”. Bom, se bem que posso preparar Bucanera também, caso alguém queira.
— Bucanera? Que diabos é isso?
— É a minha linguiça vegetal e consideravelmente saudável.
— Sei. Mas se é vegetal não é linguiça, né? E saudável? Isso tá muito errado, cara!
— Por que não?
— Por que não vem de bicho, ora!
— E a páprica, o alho, a cebola e a pimenta que dão o sabor à linguiça são provenientes de quais animais?
— O que isso tem a ver? Não vamos distorcer as coisas. Linguiça é linguiça e ponto.
— Você tem razão. Sou um linguiceiro veganamente contraventor.
— O quê?
— Continuarei chamando de linguiça.
— Não! Não! Não! Ninguém morreu, ora! Ninguém morreu! Ninguém foi despedaçado! Você não juntou nem pagou para que alguém embalasse vísceras, cartilagens, miúdos, sangue, pedaços suculentos de gordura – deliciosos sebinhos em uma apetitosa tripa de porco. Sua linguiça nem mesmo deve ter uma quantidade de sódio que ultrapassa a ingestão diária de um adulto.
— Entendo. Que sabor magnificente tem a carne em seu estado natural, não é mesmo? Apague o fogo da churrasqueira. Por que perder tempo temperando tudo com ingredientes vegetais? Pra que fogo? Que tal simplesmente comer direto da fonte? Não pouparíamos tempo e trabalho? Imagine o deleite de socializar dilacerando uma vida com os próprios dentes. Poderíamos rasgar e comer partes ainda quentes de um animal com seu coração pulsando ruidosamente. Imagine toda a adrenalina, serotonina e endorfina desencadeadas pelo prazer dessa deliciosa violência. Afinal, não é pra isso que temos os nossos caninos? Nossas garras? Nossa agilidade felina?
— Que nojo, cara! Você é bem sinistro. Olhe, nada contra você, mas você é um tipo bem radical.





 

Frieda, a vaca que ganhou o direito de envelhecer

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Frieda gosta de passar bastante tempo sozinha (Foto: Hof Butenland)

Nascida em 19 de novembro de 1999, a vaca Frieda escapou de ser enviada para um matadouro em dezembro de 2005, quando ainda vivia em um cubículo em uma fazenda leiteira no Norte da Alemanha. O seu primeiro bezerro nasceu em fevereiro de 2002, meses depois de ser inseminada artificialmente.

Em abril de 2003, Frieda teve outro bezerro. À época, a sua produção de leite não passava dos cinco mil litros por ano, sendo considerada baixíssima para os padrões industriais e significando que ela não era mais lucrativa como vaca leiteira. A verdade é que Frieda não era uma exceção, mas apenas parte de um processo normalizado, se considerarmos que vacas leiteiras “de alto desempenho” costumam ser abatidas após a segunda ou terceira gestação, segundo o ex-produtor de leite alemão Jan Gerdes.

O motivo? Problemas que surgem precocemente envolvendo fertilidade, inflamações nos úberes e doenças ortopédicas. No entanto, Frieda não foi abatida de imediato porque era “útil” como uma “incubadora” para a transferência de embriões. O seu terceiro bezerro nasceu em maio de 2004. Porém, ela jamais teve a oportunidade de ver, lamber ou amamentar qualquer um de seus filhos. Por quê? “Normalmente os bezerros são separados das vacas logo após o nascimento”, lamenta Gerdes.

Depois de dar à luz ao terceiro bezerro, Frieda desenvolveu problemas nos ligamentos pélvicos e passou muito tempo imóvel em um estábulo. Isso indicava que provavelmente logo ela seria enviada para um matadouro, destino comum das vacas leiteiras que se tornam onerosas ou “inúteis” aos olhos dos produtores de leite.

Frieda escapou do matadouro graças à intervenção do casal Jan Gerdes e Karin Mück, ex-produtores de leite, e fundadores do santuário Hof Butenland, ao Norte da Alemanha. Quando chegou ao novo lar, livre da exploração, Frieda levou bastante tempo para voltar a confiar em alguém e recuperar parte da sua condição física. Precocemente envelhecida e emocionalmente exausta, ela sempre preferiu passar a maior parte do tempo distante do rebanho, aproveitando o silêncio.

De acordo com Gerdes, no geral, a sua saúde melhorou muito, mas Frieda ainda amarga consequências em decorrência de uma vida de exploração como vaca leiteira – o que inclui danos no fígado, problemas metabólicos e sanguíneos. Apesar de tudo, ela adora receber carícias e massagens por todo o seu corpo.

Referência

Hof Butenland Leaflet. Frieda’s Fate – From Dairy cow to resident of the cow retirement home (abril de 2015).





 

O fazendeiro sueco que abandonou a criação “humanitária” de animais e se tornou vegano

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Gustaf Söderfeldt e a esposa Caroline se dedicam à produção de vegetais orgânicos (Foto: Metro.se)

O fazendeiro sueco Gustaf Söderfeldt é uma prova viva do quanto a chamada “criação humanitária de animais” é uma contradição em essência. Em 2006, já fazendo parte de um movimento emergente na Suécia chamado “Grow Your Own”, ele criava porcos, ovelhas, cabras e galinhas. Tudo que ele produzia, incluindo o que ele chamava de “carne ética”, era comercializado em sua loja em Åmmeberg, na municipalidade de Askersund.

“Enquanto eu gerenciava a minha loja, minhas ideias e opções de uma ‘carne ética’ começaram a desmoronar. Logo percebi que produzir carne é tão desnecessário quanto violento. A ‘carne ética” é uma impossibilidade enquanto cultivar alimentos abundantes à base de plantas é sempre possível”, diz.

Söderfeldt notou que os rótulos que ele colocava em seus produtos, destacando-os como alimentos baseados no “bem-estar animal” serviam para convencer os consumidores de que eles estavam comprando produtos “éticos”, e isso os incentivava a jamais deixarem de consumi-los.

A consequência disso, na própria perspectiva do fazendeiro, era que ele contribuía para que os animais fossem vistos não apenas como seres inferiores, mas existencialmente inúteis. Afinal, segundo Söderfeldt, o seu trabalho ajudava a perpetuar a crença de que se os “criamos bem” podemos explorá-los e mata-los por razões completamente desnecessárias.

“Isso pode soar engraçado, mas descobri o veganismo no YouTube, e foi lá que aprendi que era uma opção saudável e viável. Meu mundo como um produtor de ‘carne ética’ em pequena escala foi totalmente virado de cabeça para baixo. Fechei a minha loja, parei de criar animais e me tornei ativo na comunidade vegana. Agora, com minha esposa Caroline, comando uma fazenda totalmente orgânica, sem manejo animal, sem sangue, sem ossos ou quaisquer outros insumos de origem animal. Acho importante considerar que [antes] matei muitos, muitos animais, além de enviá-los para numerosos matadouros”, revela Gustaf Söderfeldt.

A loja do fazendeiro sueco também tinha contrato com outros matadouros. Ele contava não apenas com um constante fornecimento de “carne ética”, mas também de queijos, ovos, laticínios e outros produtos de origem animal que recebiam o selo de “produto ético”: “Então, realmente matei muitos animais e, bem, sinto muito em dizer que na época isso não me afetou muito. Ou pelo menos não no nível do qual eu tenho consciência hoje.”

Mas como isso foi possível? O exemplo de Söderfeldt é muito comum nesse meio. Ele explica que a normalização da morte dos animais criados para consumo por parte de quem lucra nesse meio tem uma justificativa bem simples e usual. Os seres humanos têm formas muito efetivas de bloquear emoções negativas e se concentrar em aspectos positivos, mesmo que para isso seja necessário ignorar ou evitar a conscientização a respeito do impacto de nossas ações sobre os outros. Afinal, considera-se essencialmente o benefício para si mesmo.

“Eu estava recebendo tanto feedback positivo dos outros criadores quanto dos meus clientes que compravam a minha ‘carne feliz’. As pessoas realmente querem acreditar que matar animais é uma coisa boa. Então se você disser isso a elas, bem, então você tende a formar um clube (ou culto) em torno dessa mensagem em que você concede a si mesmo uma validação moral contínua. E assim surgem argumentos típicos como: ‘os animais são necessários para a agricultura sustentável’ ou ‘o pasto é bom para a biodiversidade’, etc”, enfatiza.

De acordo com Gustaf, só aos 34 anos ele abriu os olhos para a realidade dos animais, despertando para a empatia e o respeito independente de espécie. O que também o levou para o veganismo foi o fato de que ele já tinha uma predisposição em tentar minimizar o sofrimento animal. Porém, buscou refúgio na ilusão do chamado “abate humanitário”, que considera que se você cria animais proporcionando-lhes algum tipo de “qualidade de vida”, qualidade esta que é dúbia, porque é reconhecida assim por você, não pelo animal, isso te leva a crer que você tem o “direito” de matá-los:

“Em primeiro lugar, eu era alguém da cidade, e toda a razão pela qual comecei a criar animais de forma ‘humanitária’ era que eu odiava a ideia das fazendas industriais e queria desenvolver uma alternativa viável. Eu genuinamente me importava com os animais e queria fazer o certo para eles. Queria que eles tivessem melhores vidas do que no sistema convencional. Essa era a minha motivação como fazendeiro. Veganismo não era um conceito com o qual eu estava familiarizado.”

Quando começou a aprender mais sobre o veganismo, Söderfeldt percebeu que os veganos se importam verdadeiramente com os animais e, mais do que ele na época em que criava animais para consumo sob o sistema “humanitário”: “Veganos eram mais logicamente e moralmente rigorosos e responsáveis do que eu. Eles chegaram a uma conclusão lógica a partir dessa ideia, que é: se você se preocupa com os animais, você não deve explorá-los.”

Outro testemunho de grande importância do fazendeiro sueco é o de que se você cria animais para consumo ou como fonte de matéria-prima a violência e a crueldade integram a sua rotina, não importando se você trabalha em um sistema considerado “mais humano” ou “menos humano”. Isto porque, segundo ele, o sangue, a coragem, o medo, o sofrimento, a separação das famílias, a degradação da mercantilização dos corpos e da vida em geral são parte da sua realidade:

“Com mais pesquisas, aprendi que o veganismo é uma opção mais saudável e realista. […] Se o veganismo fosse viável, isso significaria que eu poderia realmente fazer o tipo de mudança significativa e positiva na minha vida e na minha relação com os outros, que até então eu pensava estar fazendo quando me tornei um fazendeiro “ético”. Então dei uma chance ao veganismo.”

Gustaf Söderfeldt não nega que no início foi difícil transformar o seu negócio totalmente baseado na exploração de animais em uma fazenda orgânica e vegana. O problema maior não era ele ou a sua força de vontade, mas a típica realidade do mundo ocidental, onde as pessoas são muito habituadas a se alimentarem basicamente com poucos vegetais, muita carne, muita gordura e muito açúcar.

Porém, hoje o fazendeiro afirma com orgulho que ele e a esposa Caroline conseguem sobreviver com a renda de uma fazenda orgânica e vegana: “Cultivamos tomates, batatas, feijões, ervilhas, cenouras, alface, cebolas, repolho, brócolis, flores e muito mais. Vendemos tudo em vários mercados para produtores por meio de subscrições.”

Söderfeldt, que se tornou vegano em 2013, garante que o veganismo foi uma das melhores escolhas de sua vida. Além de reconhecer que os animais não merecem ser explorados, ele defende, valendo-se da sua experiência como agricultor, que o futuro da agricultura sem a exploração de animais é muito promissor tratando-se de eficiência de recursos, uso da terra, sustentabilidade e bem-estar emocional do próprio agricultor. “Tudo isso além de poupar trilhões de animais por ano. Minha fazenda, minha consciência e minha saúde melhoraram imensamente desde que me tornei vegano, e fico grato por compartilhar essa história”, destaca.

Referência

Söderfeldt, Gustaf. I Became a ‘Humane Farmer’ to Help Animals; I Should Have Gone Vegan . Free From Harm (Agosto de 2017).  





 

“E se você estiver em uma ilha deserta, só você e um porco?”

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Foto: Papa Ubu

— Me falaram que você é vegano.

— Sim…

— E isso significa que você não come nada de origem animal?

— Isso mesmo.

— E posso fazer a piada do peixe?

— Não seria muito original, creio eu…

— Ah! Ok…

— Mas e se você estiver em uma ilha deserta, só você e um porco?

— Por que um porco?

— Sei lá, porco, galinha, vaca, avestruz…

— Acho que seria lindo…

— Lindo?

— Sim…

— Mas e a comida? Você teria que comê-lo!

— Por quê?

— Por que só vocês dois estariam lá.

— E quem determinou isso?

— Hã? É uma hipótese.

— Isso significa que tudo desapareceria, as árvores, os frutos, a natureza, todos os tipos de vida, restando enigmaticamente eu e um porco?

— Claro que não.

— Certo. Então em que tipo de ilha isso seria possível? Simplesmente eu e um porco.

— Ah, cara, não complica, né?

— Diga aí, você come o porco ou não.

— Não, hein?

— Mas como você sobreviveria?

— Tem certeza que isso é uma ilha? Não está faltando mais nada para ser uma ilha? Vegetais, por exemplo? Que poderiam servir de alimento tanto para mim quanto para o porco. Se a minha alimentação fora de uma ilha é mais rica em carboidratos do que em proteínas, por que eu iria me preocupar prioritariamente em matar um animal para me alimentar? Você já percebeu o quão clichê é essa ideia de um suposto retorno a um estado pretensamente primitivo em estado de privação? Não estamos na Era do Gelo. Por que o ser humano perdido na natureza deve em primeiro lugar matar animais para se alimentar? Se eu me perdesse em território inuíte inabitado ou em algum lugar perdido ao norte de Oymyakon, talvez eu fosse obrigado a repensar a minha situação, mas qual é a probabilidade disso acontecer? Eu morreria de frio antes.

— Como você é chato, cara! Deus me livre! Esqueça! Esqueça!

— Não, sou apenas vegano mesmo.





 

Written by David Arioch

February 20th, 2018 at 12:29 am

As armadilhas e a perspectiva capciosa do “bem-estar animal”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Você já percebeu como quando se fala em exploração animal sempre aparece alguém dizendo que há situações em que os animais não sofrem, que eles não são privados de nada, que não há nada de errado nisso? Esse fato tem relação direta com algo que eu chamo de “malícia da produção”. E o que é a malícia da produção?

É quando, por gozarmos de uma inteligência superior a dos animais, manipulamos a inocência não humana visando a lucratividade. Não quero discorrer sobre casos óbvios de crueldade explícita contra animais na produção industrial. Quero versar sobre algo relacionado à “cegueira do justo”, que surge quando somos incapazes de visualizar algo que por uma questão cultural, conveniente e unilateral não nos pareça evidente nem concreto.

Não é incomum alguém que considera o veganismo radical citar o exemplo de uma bela fazenda modelo, onde os animais são supostamente bem tratados. Sei que esses chamados locais existem. Mas essa concepção de bem tratado é definida por quem? Por quem explora ou por quem é explorado?

Se exploro um animal e sou eu que digo se ele é bem tratado ou não, quem define o que é aceitável ou bom para ele sou eu, obviamente, e levando em conta em primeiro lugar o que esse animal tem a me oferecer. Humanos que exploram animais têm sempre uma perspectiva um tanto quanto capciosa do que é o chamado “bem-estar animal”, porque eles entendem que qualquer oposição ao que fazem representa em algum nível um risco aos seus lucros.

Sendo assim, não acho que a única baliza para considerar o que é certo ou errado em relação à nossa intervenção na vida dos animais seja o sofrimento óbvio, a tortura, a crueldade baseada na violência física. Na realidade, existe um ponto que não costuma ser muito considerado, embora seja de suma importância nessa conscientização. Que ponto é esse? É a malícia da produção fundamentada no condicionamento animal.

Caso você seja contra a exploração de animais, em algum momento da sua vida alguém vai querer te apresentar uma “vaca feliz”, um animal supostamente bem-tratado e que dizem nunca ter passado por nenhum tipo de privação. Sim, pode ser que ela não tenha sofrido nenhum tipo de violação que nos pareça óbvia. No entanto, isso não significa que esse animal não tenha sido privado de ser mais do que uma fonte de alimento ou produto. Mas como assim?

Imagine uma situação. Você é criado para ser objetificado, para ser explorado desde o momento em que nasce. Essa é a sua realidade e isso é tudo que você conhece. Então é claro que a menos que você passe por uma situação mais explícita de privação e violência pode ser que você não manifeste contrariedade em relação à forma como vive, mas isso porque te condicionaram a aceitar uma vida para a qual você não deveria ter nascido, porque não diz respeito, de fato, a quem você é, e às suas reais necessidades. Porém, se você está imerso nessa realidade, e isso é tudo que você conhece, como esperar que você veja isso com estranhamento?

Em vários momentos da minha vida, conheci diversos animais criados para consumo que aos meus olhos pareciam ter uma bela qualidade de vida em uma fazenda. Mas por que tive essa impressão? Porque normalmente partimos da constatação mais evidente. Quero dizer, se um animal não está fisicamente ferido, se ele não está visivelmente estressado, se não aparenta precisar de nada, isso significa que está tudo bem. Esse é um exemplo clássico que serve para endossar o discurso comum dos produtores de leite quando alegam que se “suas vacas” não estivessem satisfeitas elas “esconderiam o leite”.

Para ser honesto, isso na minha opinião não diz nada. Mas por que? Porque se uma vaca foi criada para ser ordenhada, ela foi condicionada a isso, e você vai usar tudo que sabe sobre ela a seu favor para manter o controle da situação. Você leva vantagem sobre esses animais, e vai usar isso como parâmetro para potencializar a produção de tudo que, aos seus olhos, eles têm a oferecer enquanto fontes de produtos; mesmo que jamais tenham dado tal autorização, já que animais claramente não existem para nos servir, nós que os condicionamos a isso, seja por meio da violência inequívoca ou não.

Ou seja, a intervenção humana iniciada no princípio da vida de uma vaca, por exemplo, leva à normalização de algo que não deveríamos entender como aceitável, e claro que porque estamos falando de um alimento que não existe naturalmente para seres humanos, mas sim para bezerros. Ademais, vamos considerar que vacas sejam, de fato, bem tratadas nesse sistema.

Ela vai ter a chance de envelhecer ao lado do bezerro? Não, porque prioritariamente o leite é destinado aos seres humanos. Ela vai ter a oportunidade de pelo menos envelhecer? Não, e por um fator mercadológico ululante – a drástica queda na produção de leite culmina no envio da vaca para o matadouro, e não raramente o seu destino são as pequenas porções de hambúrgueres dispostas na seção de frios dos mercados.

Não esqueça também que muitas das doenças modernas que acometem esses animais têm relação com o sistema de produção. A verdade é que qualquer doença severa e onerosa já resulta no sacrifício do animal, porque nenhum produtor vai deixar de ponderar a relação entre preservação da vida x lucro. Existe alguma legislação que assegure que um animal não morra nessa circunstância? Não. Então como podemos falar em bem-estar animal quando isso mascara fatos irrefutáveis de que a vida do outro não é uma prioridade?

Creio que o condicionamento animal é uma das maiores barreiras dos direitos animais e do veganismo, porque o condicionamento, tanto humano quanto não humano, endossa a aceitação à exploração animal. Animais criados para consumo estão entre os mais inocentes, ingênuos e previsíveis. Claro, não foi por acaso que seus ancestrais foram domesticados. Com base nesse potencial, a humanidade criou ao longo dos séculos “versões” ainda mais dóceis e facilmente condicionáveis. Afinal, isso explica por que no passado escolhemos criar bois e porcos para consumo e não leões e tigres, não é mesmo?

Se você analisar mesmo que superficialmente a história dos muitos povos escravizados pela humanidade, você verá que entre eles sempre existiram muitos que, em decorrência de terem sido escravizados desde a tenra idade, e tendo pouco ou nenhum contato com outra realidade, não viam isso como uma arbitrariedade, mas apenas um triste destino, uma infelicidade, um desamor proveniente de Deus ou até mesmo uma danação baseada na sua própria condição física ou étnica.

Então, te pergunto: “Se tivemos muitos seres humanos que mesmo sendo ostensivamente e visceralmente privados de qualquer direito ainda se conformavam com isso, por que animais não humanos, que sequer partilham do mesmo código comunicativo que nós, não se conformariam? Ou pelo menos não teriam sua conformação condicionada?” Animais humanos e não humanos têm níveis de resistência equiparáveis em alguns níveis e aspectos, porém toda resistência tem limites.

Animais que já não reagem diante da morte, como o boi que aceita o dardo da pistola pneumática em seu cérebro sem tentar escapar da caixa, o porco que passa horas com o olhar disperso sem mudar de posição em uma fazenda, o frango que deixa de bater as asas durante a viagem ao matadouro dentro de uma gaiola de plástico – nenhum desses são exemplos de que está tudo bem em matar e consumir animais, mas sim de que aproveitamos de suas vulnerabilidades para fazermos o que quisermos com eles. E como somos mais inteligentes, usamos isso a nosso favor, mesmo que em ações notoriamente imorais se partimos da perspectiva de que, mais cedo ou mais tarde, obliteramos a vida de quem não quer morrer, assim que o seu “propósito” de proporcionar lucro for cumprido.

Sim, somos ardilosos quando matamos pintinhos machos porque eles não têm valor comercial; quando fazemos debicagem de aves; quando extraímos ou desbastamos dentes de suínos, tradicionalmente sem anestesia; quando eletrocutamos o gado a caminho do matadouro ou de um navio para exportação de “carga viva”; quando marcamos animais com ferro quente; quando usamos iluminação artificial para enganar o relógio biológico das galinhas poedeiras visando ganho em produtividade; quando alimentamos “muito bem” animais que serão mortos em poucos meses.

Afinal, não os alimentamos “muito bem” para satisfazê-los, mas simplesmente para obter melhor produtividade. Mas não somente isso. E o que dizer das abelhas? Pequenos animais que têm sua rotina manipulada pela intervenção humana para que possamos garantir uma quantidade de mel considerada aceitável para os nossos padrões. Toda a apicultura é baseada na artificialização da rotina das abelhas. Ou seja, o ser humano aproveitando-se da ingenuidade animal. E nesse processo, quando elas são acometidas por parasitas, matamos até as saudáveis, porque seria muito trabalhoso identificar as enfermas.

Pergunte-se: “Por que abelhas dariam naturalmente mel aos seres humanos se esse alimento é produzido por elas para atender suas necessidades nutricionais quando são incapazes de saírem para buscar mais néctar e pólen?” Seja em situação de adversidade climática, queda de temperatura ou carência de floradas. E mais importante, não se engane, mesmo que um animal criado para consumo pareça extremamente saudável e satisfeito, isso não significa que ele seja ou esteja, e muito menos que isso seja certo. Afinal, o que você está testemunhando é apenas resultado de mais um condicionamento visando aquilo que é sempre prioritário – o lucro.





 

Ser vegano é mais fácil do que você imagina

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“Free Me”, clássico vegano de John Feldmann, completa 16 anos

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Feldmann protestando contra a KFC em Melbourne, na Austrália (Foto: Animal Liberation Victoria)

O clássico vegano “Free Me”, “Me Liberte”, música escrita e gravada por John Feldmann, conhecido internacionalmente como o fundador da banda de punk rock/ska Goldfinger, está completando 16 anos. A composição faz parte do álbum “Open Your Eyes”, lançado pela banda em 2002. Na composição, Feldmann assume a voz dos animais explorados pela humanidade das mais diferentes formas. O clipe da música apresenta imagens registradas em fazendas, matadouros, laboratórios, indústrias e espaços de entretenimento.

Desde que se tornou vegetariano em 1996, Feldmann fez dos direitos animais a sua principal bandeira. Ele é da opinião que, se alguém estiver disposto a ouvi-lo, ele é capaz de passar o dia todo falando sobre a importância dos direitos animais, justificando que a causa se tornou a coisa mais importante da sua vida.

Algumas pessoas podem dizer que a realidade retratada no clipe “Free Me”, que ganhou várias versões, não retrata a realidade de todos os matadouros, e que são casos isolados. Porém, para quem pensa assim, Feldmann tem uma mensagem: “A verdade é que isso acontece em todos os lugares e a todo momento. No final dos meus shows, pelo menos 20 jovens me dizem que vão se tornar vegetarianos ou veganos por causa desse vídeo [Free Me], ou da música, ou da nossa banda. Isso é a coisa mais poderosa de todas que conquistei em minha carreira”, declarou.

Questionado sobre o que o motivou a tornar-se vegetariano e mais tarde vegano, ele contou que a sua transformação começou quando, por meio de informações do Instituto Earth Island, de São Francisco, ele soube dos abusos sofridos pelos golfinhos. “Eu disse: ‘Isso é errado, o que posso fazer?’ Então parei de comer atum de empresas que usavam redes [responsáveis pela morte de golfinhos]. A partir daí, comecei a prestar atenção nos circos, de onde vem o couro, coisas assim”, informou em entrevista à revista Satya em maio de 2003.

A mudança maior veio com “Babe”, de Chris Noonan, lançado em 1995. O filme levou John Feldmann a fazer a conexão entre os animais e a origem da comida. “Parei de comer porcos assim que vi o filme. Então todas as outras coisas, como pedaços crocantes de frango que eu mordia, fiquei como: ‘Por que estou comendo isso? O que estou fazendo?’ É tão errado! Naquele tempo, eu não tinha ideia das atrocidades nos matadouros”, justificou.

O impacto foi ainda maior quando descobriu que porcos são espertos como os cães. Depois, ele continuou pesquisando e encontrou muitas filmagens de matadouros. “Aquilo foi horrível. Quanto mais eu buscava, mais eu encontrava. Para mim, os laticínios são os piores. Cheguei a preferir que as pessoas comessem um bife do que bebessem um copo de leite, porque pelo menos a vaca logo estaria livre de sua vida miserável. Com o leite, a situação é outra [o sofrimento é prolongado, já que elas são abatidas somente quando param de produzir leite]”, lamentou à Satya.

Embora tenha sido lançado em 2002, o vídeo da música “Free Me”, ou “Me Liberte”, em que Feldmann reage contra a indústria da exploração animal ao dar voz aos animais, é considerado um dos hinos dos direitos animais, inclusive sendo usado até hoje por organizações e ativistas de todo o mundo.

Saiba Mais

Em 15 de outubro de 2003, enquanto estava em turnê com o Goldfinger pela Austrália, John Feldmann endossou um dos protestos organizados pela Animal Liberation Victoria contra a rede de fast food KFC por envolvimento em crueldade contra animais.

Me Liberte

Eu não pedi pra você me tirar daqui
Eu não pedi para ser quebrado
Eu não pedi para acariciar o meu pelo
Você me trata como uma lembrança sem valor

Mas minha pele é densa
E minha mente é forte
Fui criado como meu pai
Não fiz nada de errado

Então me liberte
Eu só quero sentir o que a vida deveria ser
Eu só quero espaço suficiente para me virar
E enfrentar a realidade
Então me liberte

Quando você vai se dar conta de que
Você está errado
Você não consegue nem pensar por si mesmo
Você não consegue se decidir
Por isso, minha mente é uma jaula
Eu odeio toda a maldita raça humana
Que diabos você quer de mim?
Mate-me se você não sabe
Ou me liberte

Eu só quero sentir o que a vida deveria ser
Eu só quero espaço suficiente para me virar
Porque vocês estão todos ferrados
Algum dia talvez você me trate como a si mesmo.

 

 

 

 

 





 

Não comemoro mortes, mas infelizmente…

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Não comemoro mortes, mas infelizmente esse senhor que faleceu na quarta-feira, e que foi um dos fundadores da Minerva Foods, era um dos responsáveis por pagamentos de propina visando “relaxamento” da fiscalização nas superintendências federais de agricultura entre os anos de 2010 e 2016. Aí eu te pergunto, de que adianta ganhar tanto dinheiro, lucrar tanto, morrer e não levar nada? Lesou animais humanos e não humanos a custo de que?

Deixou um estranho legado de muitos bens e muito dinheiro, mas que não existiria sem a desconsideração por vidas humanas e não humanas. Vale a pena? Tudo que lucrou, esse império magnânimo, não garantiu que ele passasse dos 68 anos. As pessoas parecem não entender que nem tudo está ao alcance do dinheiro, e que o tempo se encarrega de enterrar a imagem que criamos de nós mesmos e o que tivemos para preservar ou não o que verdadeiramente deixamos.





 

Written by David Arioch

February 17th, 2018 at 12:48 am

Mais um dos motivos que provam por que a legislação brasileira é tão chula

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Legislação brasileira é tão chula que multam empresa do ramo de exportação de “carga viva” que movimenta bilhões de reais em meses em R$ 1,5 milhão por maus-tratos. Multas deveriam ser devidamente proporcionais ao valor da “carga”, daí veríamos se a situação não mudaria um pouquinho. R$ 1,5 milhão não faz os Queiroz se esforçarem nem pra levantar a sobrancelha.





 

Written by David Arioch

February 17th, 2018 at 12:46 am

“Vixi, mano! Vegano?”

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Pintura: Tom Nuggent

Voltando para casa, encostei o carro rente ao meio-fio e atendi uma ligação. De repente, um cara em outro carro, e do outro lado da rua, esticou o pescoço para fora. Ele parecia levemente (ou não) embriagado.

— Ô, mano, que barba da hora. Empresta aí.
— O quê?
— A barba. Empresta aí.
— E como seria emprestar a barba?
— Corta um pedaço aí e joga pra cá.
O rapaz abriu o porta-luvas e mostrou um tubo de cola.
— Olhe aqui, problema resolvido.
Esfregou um pouco de cola nas maçãs e sorriu.
— Não posso fazer isso. Não faz o menor sentido — respondi.
— Eu pago, irmão. Não é de graça não. Olhe aqui, po. Já estou com o rosto branco.
— Por que você fez isso, cara? Isso é perigoso. É tóxico, e pra piorar essa cola nem deve ser vegana.
— Quê?
Silêncio. Começou a gemer e a tremer como se estivesse tendo uma convulsão.
Desci do carro para socorrê-lo.
— Rá! Te peguei! — gritou e começou a gargalhar.
Minha barba se encolheu como um pequeno arbusto massageando o meu pescoço.
— Não vai topar mesmo?
— Já disse. Não tenho interesse, mas obrigado.
— Caramba, mano! Você é mau!
— É que sou vegano. Toda vida importa pra mim, inclusive a da minha barba.
— Vixi, mano. Vegano? Mexo com essas coisas não. Valeu!
Deu partida no carro e foi embora com o rosto cheio de cola.




 

Written by David Arioch

February 16th, 2018 at 11:48 pm